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Bob Dylan

Getty Images

Nem 'olá', nem 'adeus'. Em Lisboa, Bob Dylan foi Bob Dylan e está muito bem assim

Perante uma Altice Arena esgotada, o veterano norte-americano serviu um concerto de elevada competência e com especial incidência no seu repertório mais recente. Só se desiludiu quem quis (Nota: não foi autorizada a captação de imagens)

Manuel Rodrigues

Na sua vida e carreira artística, Bob Dylan sempre tomou decisões sem precisar de aconselhamento externo ou aprovação de terceiros. Da mensagem política presente nas suas músicas ao dia em que achou por bem ligar-se à eletricidade, passando pelo repertório de índole religiosa e acabando na homenagem ao cancioneiro norte-americano e aos seus protagonistas - citando apenas alguns exemplos -, Robert Allen Zimmerman traçou um caminho único, à margem de qualquer livro de conduta, longe de qualquer norma preestabelecida. Até na aceitação do prémio Nobel da Literatura conseguiu ser díspar, não comparecendo à cerimónia de entrega, em dezembro de 2016, e só reagindo ao anúncio duas semanas depois. É ponto assente que Dylan não deve nada a ninguém e que faz o que lhe der na real gana.

Não é por isso de estranhar que o concerto de ontem, numa esgotada Altice Arena, ponto de partida para uma digressão europeia que passará também por países como Espanha, Itália, Suíça e Alemanha, entre outros países, tenha tido como principal foco os episódios discográficos mais recentes do artista, colocando na penumbra os aclamados clássicos de outrora, no evocar de um presente que o próprio faz questão de acarinhar. É possível que, no final do concerto, tenha havido gente a regressar a casa desiludida com o alinhamento escolhido por Dylan, ainda para mais quando este, já no final da actuação, em pleno encore, serviu “Blowin´ in the Wind”, um dos seus mais importantes cartões de visita, numa versão blues, arrastada e praticamente irreconhecível, quer a nível de melodia quer a nível de cadência. Surpresa? Só mesmo para quem não conhece o artista em questão.

Secundado pela sua banda de serviço, que dá continuidade à famosa digressão contínua que celebra três décadas de estrada no presente ano, e inserido num cenário sóbrio de cortinas negras e meia dúzia de holofotes que trataram de pontuar alguns momentos chave da noite (a única dinâmica visual do concerto, dada a ausência dos ecrãs laterais que normalmente amplificam o sinal das câmaras apontadas para o palco), Dylan, que não esboçou uma única palavra para além daquelas presentes nas estrofes das suas músicas (nem um “olá”, nem um “adeus”), iniciou as hostilidades precisamente com uma visita a "Modern Times" (2006), através de 'Things Have Changed', seguido de 'It Ain´t Me Babe', uma das raras viagens aos primórdios da sua carreira, desta feita a "Another Side of Bob Dylan" (1964).

De "Tempest" (2012), um dos seus discos liricamente mais escuros, cujo tema homónimo de catorze minutos versa sobre a tragédia do paquete RMS Titanic, chegaram-nos 'Pay in Blood' (interpretada com o vigor exigido), 'Soon After Midnight' (mudança de cenário para um céu estrelado que casou na perfeição com a cadência implícita) e 'Early Roman Kings' (cuja sonoridade blues se aproximou surpreendentemente do original, isto depois das luzes simularem umas colunas romanas à retaguarda do coletivo), todas elas em catadupa, apenas intercaladas por 'Tangled Up in Blue', um magnífico storytelling de fazer inveja a alguns dos mais nobres praticantes desta nobre arte (quantos artistas do universo hip-hop não terão sido influenciados no seguimento dos dizeres do homem que um dia imaginou as personagens de 'Desolation Row', um dos temas a marcar presença no espectáculo de ontem?).

Do já anteriormente citado "Modern Times" (2006), houve ainda espaço para 'Spirit on the Water', com o contrabaixo de Tony Garnier a dar novamente um ar de sua graça (este fora anteriormente usado em 'Don´t Think Twice, It’s Alright'), e 'Thunder on the Mountain', com direito a um inspirado solo na bateria de George Receli. É precisamente nesta altura que se evidencia uma das principais características desta imponente banda (que conta ainda com Stu Kimball, Charlie Sexton e Donnie Herron): o entendimento entre os elementos constituintes. Dá a impressão que estes senhores, Dylan incluído, se poderiam dar ao luxo de tocar de costas uns para os outros e de olhos vendados, tal é a naturalidade com que vão servindo as músicas escolhidas, uma após outra, sem vacilar uma vez que seja.

À direita de cena, longe do centro das atenções e ainda mais longe do foco das câmaras fotográficas (para além de ter sido proibida a entrada de fotojornalistas na arena, foram também negadas quaisquer captações amadoras a partir dos telemóveis do público presente), Dylan passou o concerto todo sentado ao piano e só o abandonou na hora de interpretar 'Why Try to Change Me Now', cover de Cy Coleman, altura em que se apresentou no centro de palco, de tripé na mão e voz colocada, qual experiente e inspirado crooner.

A distância que separa "Bob Dylan" (1962) de "Triplicate" (2017) é tão grande quanto aquela que separa um jovem de calças de ganga, t-shirt e guitarra às costas de um septuagenário de smoking escuro e cabelo grisalho. Todavia, e se dúvidas existissem, Bob Dylan não deixa nada a desejar no exercício vocal. O timbre não é o mesmo de outrora (a idade parece ter brindado o artista com um conjunto de graves que oferecem uma característica de 'bagaço' a um aparelho que sempre viveu de uma textura 'cana rachada') mas a projeção está lá toda, com a energia e vitalidade que se pede a este poeta e contador de histórias que tanta gente influenciou e tanta gente continuará a influenciar. Três vivas.