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Paulo Bragança

Rita Carmo

“Estive numa gaiola e de bico fechado. Um pássaro ainda canta, eu tinha o nó apertado”. A entrevista completa com Paulo Bragança

O fadista passou mais de uma década afastado de Portugal e dos palcos. Agora, em entrevista à BLITZ, Paulo Bragança fala do medo que tinha de regressar a estúdio, dos riscos que correu com esta longa pausa, do EP que acaba de editar e do álbum que aí vem

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Depois de se infiltrar num universo do fado ainda pouco habituado a grandes arrojos, na década de 90, Paulo Bragança entrou no novo milénio com a edição de “Lua Semi-Nua” (2001), o seu quarto e mais recente longa-duração. Mas, desiludido com algumas situações da indústria que o empurraram para uma espiral de autodestruição e depressão, o fadista decidiu abandonar o país em meados da década passada. Fixou-se em Dublin, na Irlanda, onde trabalhou como funcionário público e tirou um mestrado em filosofia, sem dizer a ninguém que tinha largado uma carreira de sucesso em Portugal e mantendo-se em anonimato absoluto durante seis anos. Nem a família tinha notícias dele.

Após um regresso pontual a Portugal, em 2012, a convite de José Cid – “é uma pessoa que não esqueço. Sempre que podia arranjar-me trabalho arranjava” –, Bragança está de volta e, deste vez, para ficar. Acaba de editar o EP “Cativo”, que inclui temas inéditos, ao vivo e até um “fado irlandês”, mas os fãs podem ficar descansados porque é apenas um “prelúdio”: há também um novo álbum a caminho. Não se compromete com datas mas é “provável que saia depois do verão”. “Em 2012, já estava a preparar isto”, diz, “tanto que o disco que há de chegar durante este ano, que se chama ‘Exílio’, já tinha sido gravado com o Carlos Maria [Trindade]. Está quase pronto… Só faltam ali umas coisas, uns caprichos”.

Numa longa conversa com a BLITZ, o fadista fala da colaboração com os Moonspell, daquilo que deixou para trás na Irlanda, dos riscos deste regresso e da versão de ‘Remar, Remar’, dos Xutos & Pontapés, que incluiu em “Cativo”.

“Paguei bem caro. Não seguia os tais cânones, escritos não sei por quem”

Este regresso a Portugal e à música… Houve um momento de viragem, em que tenha pensado “está na hora”?
O momento decisivo dá-se quando o Fernando Ribeiro, dos Moonspell, me manda uma mensagem a convidar-me para cantar ‘In Tremor Dei’ no [álbum] “1755”. Tinha-os conhecido nuns Prémios BLITZ, onde ganhei um prémio de melhor voz. Estivemos no mesmo palco, [no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 1997], e cumprimentámo-nos, mas circunstancialmente. Não éramos inimigos mas também não éramos amigos… Soube que iam a Dublin, em 2016, e demonstrei um interesse enorme em ver o concerto. Enviei-lhes uma mensagem a dizer “sou o Paulo Bragança, lembram-se de mim? Se tiverem tempo, gostava de estar convosco e mostrar-vos umas coisas de Dublin que não são muito visíveis”. Dublin tem segredos incríveis. Não obtive resposta e acabei por não ir ao concerto porque tive compromissos… Não fiquei aborrecido. Eles são uma banda over the top e é normal que aquilo nas redes virtuais se perca nas areias, não é? Qual é o meu espanto quando a 1 de março de 2017 vi que tinha uma mensagem do Fernando. Primeiro a pedir desculpa e depois a convidar-me. Aí pensei: “OK, eu vou”. Tinha tido um convite para ficar na Irlanda num bom trabalho, para ter uma carreira académica. Gosto da filosofia, da palavra, de andar ali a desgraçar a palavra toda, a rompê-la, a ver o que se passa, de onde veio, porquê, por que não… E sei que se começasse aquele trabalho era bem possível que ficasse, encantado. Mas perguntei-me assim: e se chego aos 60 anos, se lá chegar, e digo “podia ter feito e não fiz”? Isto depois fica atravessado… Não há hipótese… Não vais retomar uma carreira aos 60 anos. Isto aqui [as cordas vocais] é orgânico. Esse foi o momento em que disse: “OK, tens de tomar a decisão aqui”.

E o trabalho com os Moonspell correu bem…
Foi uma experiência fantástica. Lembro-me do primeiro dia em que aparece o Fernando, o Pedro Paixão e o Ricardo Amorim, os três… O Fernando diz “finalmente” e o Pedro pergunta “finalmente? Então porquê?”. Nós só nos estávamos a conhecer de facto naquele momento. Já tínhamos falado horas ao telefone, mas estarmos juntos não. Foi conhecê-los e ir para o estúdio imediatamente. O tema já estava feito e achei logo fabuloso… O que eu tinha medo era que eles, que são muito educados, me dissessem “olha, isto está muito bem”, mas só por ser eu… Ou vice-versa. Como havia aquele gelo de início, no estúdio dissemos logo: “isto só fica feito se realmente gostarmos do que estivermos a fazer, porque vai ficar para todo o sempre e não queremos ter isto atravessado enquanto cá estivermos”. Quebrou-se o gelo todo. Ao ponto de hoje os considerar companheiros de alma, companheiros de luta.

Já tinha outros projetos na manga?
Cheguei a Portugal só com aquela canção dos Moonspell no bolso. Não trazia mais nada. Estava longe de pensar que ia fazer o Museu do Fado, a Festa do Avante!, o Bons Sons, Entremuralhas, Mexefest… E a coisa concretizou-se. Ainda houve hipótese de gravar com algumas multinacionais, que não quis, porque acho que não é por aí. Estou melhor servido assim. A palavra “servido” aqui até está mal utilizada. Não é uma questão de ser servido ou servir, é uma questão de reciprocidade de trabalho e de respeito por cada um. Há uma equipa de gente que faz este trabalho. Vamos empenhar o trabalho de todos nós numa situação? Não. Então preferi ficar por ali. É uma estrutura muito mais pequena. As únicas pretensões são as de fazer um trabalho bem feito, como está a ser, e partilhar o palco da melhor maneira que puder fazer. Se o caminho for mais longe, mais longe iremos, conforme as portas se forem abrindo. Não quero é castrações, porque mesmo na Universal não tinha castrações. Com o Carlos Maria nunca fui castrado, com o David Byrne [com quem trabalhou em 1994] nunca fui castrado.

Esse regresso ao estúdio, com os Moonspell, fez reacender algo que já tinha esquecido?
Reacendeu o medo. Tenho sempre medo. E é um medo que não é o medo do medo. É o medo de ter medo enquanto estou a fazer a situação. Não sei se isto faz algum sentido. Quando cheguei e estive a primeira vez com o Carlos Maria, que estive sem ver uns bons 16 anos, foi como se não tivesse passado tempo nenhum. Fui para estúdio e não conseguia fazer nada. Esquivava-me com as desculpas mais palermas e incríveis, “agora vou ali” ou “agora está calor”, e ele não dizia nada. Muito cool… O facto de estar ali na cabine e ter de sair alguma coisa, fez-me pensar “só vim fazer perder tempo a este homem”. Houve medo, claro, mas depois foi vencido. Adoro o estúdio porque é um laboratório. Mete-se para lá todas as fórmulas e mais algumas até que há uma que faz um fumo tão grande que te intoxica o suficiente. O palco também é um bocado um laboratório, porque nunca sei o que se vai passar. E os músicos sabem disso. De repente, posso começar noutro lado qualquer… Há temas [ao vivo] no EP que não obedecem a estrutura nenhuma: foi assim que começou e acabou… e eles seguiram.

Diz que este EP é uma espécie de prelúdio para o álbum que aí vem.
Sou eu a dizer que tenho sede… Estive numa gaiola, na minha gaiola, e de bico fechado. Um pássaro ainda canta, agora este não cantava, estava com o nó apertado… É a sede de querer fazer alguma coisa, simplesmente. Um presentinho, uma pequena coisa que antecede outra. O ‘Peregrino’ já abre as portas para outras núpcias e depois há aqui temas que não podia deixar de fazer. No Caixa Alfama fui bafejado com uma comunhão tão grande que resultou nas [três canções ao vivo] que estão no EP. O que lá está foi o que se fez exatamente ali. Fomos a estúdio, abrimos as pistas e limpámos ruídos que não interessam, porque é normal que se limpem, e ficou feito. Não fizemos mais nada.

Quando olha para o tempo que passou fora, sente que voltar a Portugal é um regresso à realidade?
São realidades diferentes. Estou sempre cá e tenho noção que vivo cá, mas vou lá muitas vezes. É um escape, como ir de fim de semana à casa do campo. Como não tenho casas no campo nem montes no Alentejo, vou à Irlanda. Para mim, são realidades distintas, mas tenho noção que quero ficar em Portugal e pegar de novo nesta odisseia, para não chamar outro nome mais feio, e ver o que se vai passar. Só tenho sede de palco. Perguntavam-me muitas vezes: “então e um disco?”. Este EP não foi feito naquela de “vamos remendar aqui uns dois ou três temas e pomos um original que já está feito”, não, até tem uma lógica, mas é a vontade explícita, despudorada e escancarada de dizer “quero estar no palco, partilhar isto convosco”. Porque tenho medo que amanhã possa não o fazer. Parafraseando um poeta que conhecemos sobejamente: “não sei o que amanhã me trará”. O facto de não ter cantado estes anos todos doeu-me bastante. Magoava-me muito.

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Cantou em vários festivais no ano passado, do Bons Sons ao Vodafone Mexefest, passando pela Festa do Avante!, o Entremuralhas e o Caixa Alfama, como já disse. O Caixa Alfama… Se se tivesse tentado fazer este festival há 15 ou 20 anos seria muito diferente?
Ah sim…

O Paulo caiu no fado como uma pedrada no charco…
E paguei bem caro. [Não seguia] os tais cânones, escritos não sei por quem ou por quê, mas enfim. Também nunca fui maltratado... Tirando uma ou duas partidas menos agradáveis, mas isso até faz parte. O fado tem muito aquela coisa da praxe, à sua maneira. É o que, na gíria, chamamos “o engate”, “já te apanhámos”. O palco onde eu cantei, no Caixa Alfama, até era o mais alternativo. Era onde estava o Júlio Resende, que é um pianista. Fadista, mas pianista. Está toda a gente, mesmo os fadistas, a abrir o leque. Se é bom ou mau, se resulta ou não, não me cabe a mim julgar. Nem quero saber. O que interessa é que se está a trabalhar. Há neste momento uma geração de músicos, de guitarristas do fado, incrível. E não sei de onde vieram. Tive este hiato, mas é que há tantos… Já cheguei a ver 5 ou 6 a tocar ao mesmo tempo na Associação do Fado Casto. É uma casa incrível, acabamos todos a dançar, às vezes, em cima das mesas. Coisa que era impossível. As coisas estão no bom caminho. Quanto aos cantores, não digo nada… Não os conheço a todos. Conheço dois ou três nomes e não bem o suficiente para poder opinar. E também não tenho de dar a minha opinião, porque cada qual faz o seu caminho. Se são bons ou maus? Por alguma razão lá estão. É porque sentem alguma coisa ou porque querem. Eu, de facto, não quis ser nada. As coisas aconteceram de forma muito espontânea.

Este regresso não deixa de ser um risco… Depois de todos estes anos de afastamento, as pessoas podiam ter-se esquecido de si.
Ora bem… Foi um risco completamente assumido. Tinha essa noção. Não sabia o que ia encontrar. Podia ser assim “isto já foi chão que deu uvas”, para falarmos numa linguagem que toda a gente compreende. Mas houve uma situação engraçada… Quando aterrei, estava a apanhar táxi e imediatamente me pediram um autógrafo. Percebi logo que alguma coisa se passava.

Neste EP regrava ‘Remar, Remar’ dos Xutos & Pontapés. Já disse que não é uma homenagem ao Zé Pedro. Conheceu-os no Johnny Guitar… Que memórias guarda desses tempos?
O ‘Remar, Remar’ está gravado desde 1996 [no álbum “Mistério do Fado”]. Eu não lhes ligava nenhuma nem eles a mim. Eles eram os Xutos e eu mais um que andava para ali. Tinham consciência de que eu era fadista e achavam assim um bocado… “O que é que este gajo anda aqui a fazer?”. Mas, como morava em Cascais e muita gente ia lá, eu ia também. Foi a casa de tantos de nós. Mas não falava propriamente todos os dias com o Tim nem com o Zé Pedro ou o Cabeleira… Ninguém passava cartão a ninguém. E eu acho, para ser sincero, que eles nem sabem do ‘Remar, Remar’, pelo menos nunca me chegou nenhum feedback. E não há problema. Que fique bem esclarecido que isto não é oportunismo. Eu nem sequer sabia. A gravação que está neste EP foi feita a 16 de setembro de 2017. Está tudo dito. Tudo esclarecido. Eu nem sabia se o Zé Pedro estava bem ou mal. Não me lembro da última vez que falei com eles.

Imagina-se a cantar outra coisa que não fado?
Sim. Aliás, se isto correr bem, tenho previsto fazer uma coisa completamente fora daquilo que já fiz. Noutro registo de voz e tudo. Uma pessoa habitua-se a seguir determinado caminho, mas tenho vindo a descobrir outros registos de voz que se podem utilizar. Isso dá outro som, outra sonoridade. [A voz] é, de facto, um instrumento fantástico. Há pouco tempo, dei um mini-concerto em condições adversas, porque tinha morrido um querido amigo meu e fiquei afónico, praticamente. Os nervos atacam-me logo a garganta, mas cantei na mesma. Depois pedi desculpa aos guitarristas, porque não tinha corrido nada bem… E eles disseram “tu és é louco”. Percebi que há outro lado que se pode utilizar e um dia poderei pô-lo em prática. Se bem que o fado para mim nunca foi só a fórmula musical que a gente conhece. Para mim, não é mais do que a minha própria vida. Como tu tens o teu, que ele tem o dele, que aquele tem o dele. Todos nós temos o nosso. É a vida de cada um. Antigamente, dizia-se “cantar ao fado”. O que é cantar ao fado? É cantar à vida, à vida de cada um. E mesmo que os temas não fossem escritos pela pessoa, dizia-se “é a minha criação”. Ouvia a Beatriz da Conceição dizer muitas vezes “isto é criação minha”. E tem lógica. O ‘Meu Corpo’ não é ela, é de Ary dos Santos e Fernando Tordo, mas a criação é dela. O tema é o que é porque aquela pessoa, aquele veículo, lhe deu vida, deu vida àquelas palavras. O fado aí está. Simples.

E os seus objetivos são hoje diferentes dos que tinha quando começou a sua carreira?
Eu sou a pessoa mais distraída, mais parva e imbecil do mundo, às vezes, porque nem penso nessas coisas. Sou mais introspetivo. Quando estive em Nova Iorque com o David Byrne, uma vez tinha o Lou Reed ao meu lado e nem sabia que era ele. Só passado uma hora dei conta que era ele. Era mais um que batia lá à porta. Hoje sou mais consciente apenas por uma coisa: sei que o tempo vai e as coisas têm de ficar feitas. Isso já aprendi. Dantes não me preocupava. Quando se tem 20 anos parece que se vai ter 20 anos a vida inteira… Mas não. Quando chegas quase aos 50, começas a ver que mais de metade já foi, porque ninguém chega aos 100. Para responder à pergunta, a diferença será essa. A naturalidade continua, a inconsciência continua, há é uma grande chamada de atenção, um alerta: “esta é a última oportunidade, meu rapaz”.

A BLITZ agradece ao Teatro Municipal São Luiz pela cedência do espaço para a realização desta entrevista.