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Bob Dylan em 2015

Getty Images

“É o meu trabalho, a minha arte, o meu negócio”. O que vai trazer o Nobel Bob Dylan a Lisboa?

A grande voz americana das últimas cinco décadas regressa esta quinta-feira a Portugal dez anos depois da sua última aparição entre nós, como parte do cartaz do então Optimus Alive. Neste entretanto, pouco ou nada mudou em palco para o homem que recebeu um Nobel e foi condecorado por Barack Obama: Dylan continua pouco interessado em fazer vénias ao seu próprio passado

Bob Dylan é um homem reservado, pouco dado a expansivos gestos rock and roll, que foi sabendo ao longo dos anos resguardar-se com assinalável sucesso do escrutínio da imprensa, sobretudo se tivermos em conta que é também um artista que não consegue manter-se muito tempo afastado dos palcos. O concerto que assinará amanhã em Lisboa será o sétimo em solo português, número que – na divisão em que se encontra – só os U2 superarão quando elevarem para 8 as presenças no nosso país com as já esgotadas datas de setembro próximo na mesma Altice Arena que agora receberá, certamente com menos pompa visual, o homem da Never Ending Tour. Nem os Rolling Stones, Paul McCartney ou Bruce Springsteen alcançaram esta marca entre nós, sinal que o veterano laureado com o Nobel em 2016 não se cansa de subir as escadas que, noite após noite, o colocam sob os holofotes e em frente ao microfone.

Ao todo, são quase 3 mil os concertos dados desde que em 1988 embarcou nesta digressão interminável. Bob Dylan, como aconteceu com tantas outras ideias e rótulos a que tentaram associá-lo ao longo dos anos, nunca aceitou plenamente a designação Never Ending Tour que acabou por se colar à sua agenda de concertos, sobretudo depois da expressão ter surgido na capa que a revista britânica Q lhe dedicou em dezembro de 1989. Para esse artigo de capa, o jornalista Adrian Deevoy viajou até Rhode Island onde se pode sentar com Bob Dylan no seu quarto de hotel. A dada altura, Deevoy comentou que Dylan parecia atirar-se a digressão após digressão, ao que o cantor respondeu: “ah, a digressão é sempre a mesma”. “Uma digressão interminável?”, sugeriu o jornalista. “Sim, sim”, ripostou Dylan, sem no entanto concordar entusiasticamente com a ideia.

Anos mais tarde, em 1997, numa conferência de imprensa em Londres, Bob Dylan respondeu diretamente a uma pergunta sobre a Never Ending Tour e o seu intenso ritmo de cerca de 150 concertos por ano: “É o meu trabalho, a minha arte, o meu negócio. Estar em palco para mim é tão natural como respirar. Além disso acho que já sou o único que canta este tipo de canções. A música popular encontra-se no mesmo estado em que a encontrei quando comecei a cantar. Se alguém é um músico sério ninguém lhe presta atenção. Antigamente éramos suficientemente fortes para procurar gente que dissesse a verdade”.

O jornalista da revista alemã Der Spiegel insistiu na ideia da agenda intensa: “Disse recentemente: ‘às vezes sinto-me só um bocadinho acima de um chulo’”. “Quando se está lá em cima”, justificou Dylan, “olha-se para as pessoas e elas olham de volta e, quer se queira quer não, por vezes tem-se a sensação de se estar num espetáculo de burlesco. Tenho a certeza que é isso que o Pavarotti também sente”. Para o cantor, aliás, as constantes voltas pelo mundo já em 1997 não ofereciam surpresas: “Quando lá estou em cima só vejo rostos. E um rosto é um rosto, são todos iguais”. “E inveja a juventude dos miúdos de 17 anos que o vão ver?”, perguntou ainda o jornalista alemão. “Sou avô. Tenho netos que gostam de outros cantores. É assim a juventude de hoje. Eu toco para quem entende os meus sentimentos”.

Na verdade, ao longo destes 30 anos de agenda carregada, Dylan tocou sobretudo para si mesmo, sem fazer concessões à nostalgia. No Guardian, David Bennum escrevia há exatamente um ano que “quem quer que vá a um concerto de Dylan e espere uma excursão ao passado terá uma desilusão. As suas canções contém apenas algumas ténues semelhanças com as gravações celebradas quando tocadas ao vivo”.

Bob Dylan no início do século XXI

Bob Dylan no início do século XXI

Parte da razão para isso reside no facto de Bob Dylan ter cristalizado ao seu redor uma banda de mestres que inclui Stu Kimball na guitarra ritmo, Donnie Herron na pedal e lap steel, banjo, bandolim ou violino, Charlie Sexton na guitarra principal, Tony Garnier no baixo e George Receli na bateria. Todos eles músicos já com uma dúzia de anos de experiência a acompanhar o senhor Zimmerman, mais ainda no caso de Garnier, que ingressou nesta Never Ending Tour logo em finais dos anos 80. “Esta é a melhor banda em que eu já estive, homem por homem. Quando se toca com tipos 100 vezes por ano, sabe-se o que se pode ou não pode fazer, aquilo em que eles são bons, e se os queremos ao nosso lado. Leva muito tempo a encontrar uma banda feita de músicos individuais. A maior parte das bandas são gangues. Quer se trate de heavy metal ou de pop rock, o que seja, entra-se naquele espírito de gangue. Mas para os de nós que já andam aqui há muito tempo, gangues eram a máfia. Ninguém queria estar num gangue. Neste álbum” – o cantor referia-se então a Modern Times, trabalho de 2006 – “não precisei de ensinar ninguém. Tenho tipos na minha banda agora que conseguem fazer qualquer coisa, até a mim me surpreendem”, explicava então à Rolling Stone.

E essa “qualquer coisa” a que Dylan se refere é a singular amálgama em que parece traduzir-se o seu som do último par de décadas. Quando tocou pela última vez em Portugal, há quase dez anos, na edição 2008 do que era então o festival Optimus Alive!, escrevemos na reportagem BLITZ do concerto: “Dylan acusa o peso dos tempos, curvado sobre o teclado, chapéu de pregador mórmon e calças de mariachi, entre baladas, blues e outras preciosidades tingidas de tonalidades country ou rock and roll, ou tudo ao mesmo tempo como por vezes só Bob parece ser capaz de fazer. Pelas caras que os ecrãs vão mostrando, nota-se um certo prazer em tocar em conjunto, facto comprovado pelos finais das canções, dilatados e por vezes com um certo ar de jam”.

A mesma ideia defendida nas páginas do Guardian aquando da sua passagem pelo London Palladium há um ano: “Como de costume, ele não é respeitador do seu catálogo. Ou melhor, não respeita a nostalgia que o rodeia. O som que ele faz com a sua banda de cinco elementos atravessa eras e geografias: Nashville, Nova Orleães, Texas, dos anos 40 aos anos 80. Mas vai sempre, com a exceção de um muito francês “Autumn Leaves”, ao encontro ou a música de raiz americana ou da pop pré-rock and roll. Pouco polida, mas no âmago carregada de arte e suficientemente sofisticada para servir a audiência neste teatro”.

"Tempest", álbum de 2012, é ainda o mais recente trabalho de originais de Bob Dylan, registo a que sucedeu a trilogia de "Shadows in The Night" (2015), "Fallen Angels" (2016) e "Triplicate" (2017), largamente devotada a abordar o cancioneiro clássico americano, boa parte dele associado a Frank Sinatra, mas não só. Facto que justifica que, ao vivo nos tempos mais recentes (a última paragem da Never Ending Tour foi em Nova Iorque, no Beacon Theater, em novembro do ano passado, com a presente data de Lisboa a marcar o arranque para mais um ano de muita estrada), Dylan dedique atenção a temas como 'Why Try to Change Me Now', 'Melancholy Mood', 'Full Moon and Empty Hearts', 'Once Upon a Time' ou o já citado 'Autumn Leaves', canções a que intérpretes clássicos como Frank Sinatra, Tony Bennett ou até Yves Montand emprestaram os seus irrepetíveis toques de classe.

De "Tempest", temas como 'Soon After Midnight', 'Early Roman Kings' ou 'Pay in Blood' também têm sido recuperados nos alinhamentos mais recentes, com Dylan a revelar por isso mesmo que, no mínimo, pretende equilibrar os raros desvios pelo passado com iguais doses de presente quando agora pisa os palcos. E, como homem pouco dado a truques e a ilusões de cariz tecnológico, tanto ao vivo como em estúdio, o som que Dylan conjurou nas suas gravações mais recentes – efetuadas em boa parte com os músicos que o acompanham na digressão – é um molde para o que se vai continuar a escutar na estrada.

“Se alguma coisa, aliás, diferencia 'Tempest'”, escrevemos nas páginas da BLITZ há meia dúzia de anos, “é, precisamente, o passar dos anos, uma experiência singular que permite que Dylan reduza ao essencial o seu conjunto de receitas – os blues, a americana que ajudou a desenvolver, o boogie-woogie 'rock and rollesco' que se toca de olhos fechados, a folk tingida pela vida nas cidades – e que leve para cima da mesa apenas o passar dos anos que pesam na sua voz, mas sobretudo nas palavras com que vai pintando os seus retratos mais ou menos alegóricos daquilo que observa no mundo à sua volta”.

E depois, a atenção focada na voz, naquela voz que nos PAs das salas em que se vai apresentando ressoa de forma particular: “É na voz de Dylan que tudo se concentra, afinal. Uma voz que arranha e se arrasta, mas que resolve cada estrofe com uma humanidade desarmante. 'I’ll play this hand, wether you like it or not', 'you won’t get out of here unscarred', 'I’ll pay in blood, but not my own'. As one liners são às dezenas, prova final de que o velho Bob ainda não perdeu o veneno que consegue injetar nos seus poemas. E também não perdeu o fôlego, como o épico tema-título deixa perceber nos seus gloriosos 14 minutos de iluminado – ou sombrio… – storytelling”.

'Highway 61 Revisited', tema do álbum homónimo de 1965, ou 'Blowin’ in The Wind', o hino de 1963 do clássico "The Freewheelin’ Bob Dylan", e 'Ballad of a Thin Man' (mais um tema de "Highway 61 Revisited") apresentados, respetivamente, na parte inicial e no encore dos concertos mais recentes, são as raras concessões à memória que funcionam como moldura para o retrato mais presente que o alinhamento comporta mas que, ainda assim, são, tal como a mítica autoestrada do título clássico, “revisitadas” não do ângulo mais fiel e reverente aos originais, mas a partir da vontade atual de tudo transfigurar.

No clássico de 1965 com que costuma fechar os concertos, Dylan questiona tudo, na sua mordaz e sardónica forma que lhe garantiu a eternidade e o Nobel: You hand in your ticket and you go watch the geek / Who immediately walks up to you when he hears you speak / And says, 'How does it feel to be such a freak?' / And you say, 'Impossible!' as he hands you a bone / And something is happening here but you don't know what it is / Do you, Mr. Jones?” Se isto não é prova de uma ironia profunda, então não sabemos realmente nada de Dylan. O que é o mais provável, na verdade.

Alinhamento do último concerto de Bob Dylan, a 25 de novembro de 2017, em Nova Iorque:

Things Have Changed
It Ain't Me, Babe
Highway 61 Revisited
Why Try to Change Me Now
Summer Days
Melancholy Mood (Frank Sinatra cover)
Honest With Me
Tryin' to Get to Heaven
Once Upon a Time (Tony Bennett cover)
Pay in Blood
Tangled Up in Blue
Soon After Midnight
Early Roman Kings
Full Moon and Empty Arms (Frank Sinatra cover)
Desolation Row
Thunder on the Mountain
Autumn Leaves (Yves Montand cover)
Love Sick
Blowin' in the Wind
Ballad of a Thin Man