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Bauhaus em Portugal, 2006

Arquivo BLITZ

Como os Bauhaus chegaram ao fim em Portugal. “Chovia a cântaros, parecia a cena final de um filme. E nós em silêncio total”

Os Bauhaus separaram-se no festival de Paredes de Coura. “Não vejo o Peter Murphy desde então”, revela David J à mais recente edição da revista 'Mojo'

Os Bauhaus, banda seminal do pós-punk e rock gótico, separaram-se em 1983 depois de sete anos de atividade, durante os quais lançaram álbuns como "In the Flat Field" e "Mask". O grupo que popularizou canções como 'Kick in the Eye', 'Bela Lugosi's Dead', 'She's in Parties' e uma celebrada versão de 'Ziggy Stardust' (de David Bowie) voltaria aos palcos em 1998, altura em que se apresentou em Portugal para concertos no então denominado Pavilhão Multiusos (depois Atlântico, hoje Altice Arena) e no Coliseu do Porto. Contudo, a reunião seria breve, ficando a banda de Peter Murphy, Daniel Ash, Kevin Haskins e David J fora do radar até 2005.

Em 2006, na sua 'terceira vida', os Bauhaus voltaram ao Coliseu do Porto em fevereiro, mas as vindas a Portugal não ficariam por aí, sendo que a última das quais - a 17 de agosto desse ano - tornar-se-ia marcante para a história do grupo. Foi, até hoje, a derradeira vez que alguém viu a banda inglesa em cima de um palco.

A história do final abrupto dos Bauhaus é contada na edição deste mês da revista inglesa Mojo pelo baixista da banda, David J. "O Pete [Murphy] estava muito sensível nessa altura e era cada vez mais difícil lidar com ele. O ambiente caiu a pique depois de vários problemas técnicos, mas estávamos a fazer o soundcheck em Utrecht [na Holanda] e as coisas soavam bem", recorda David.

"De repente, o Pete começa a disparar verbalmente contra nós os três. Atirou o suporte de microfone contra o do Daniel. Depois sentou-se num monitor e murmurou as primeiras quatro canções. Eu perguntei: 'que merda é esta?'. Ele respondeu: 'alguém precisa de aprender a lição'. Estava a referir-se ao Daniel. Quando saímos de palco, a coisa rebentou com o Pete a vociferar 'eu dei-lhe a oportunidade de fazer o meu papel, mas ele não dá para isso'. O Daniel arrumou a sua guitarra e saiu. Eu sabia que ele estava a deixar a banda", prossegue.

"Tínhamos de continuar com a digressão, caso contrário seríamos processados. Imagine-se o espírito... O último concerto era em Portugal, no festival de Paredes de Coura. Foi muito emotivo. Perto do fim, tocámos a 'All We Ever Wanted Was Everything', que é completamente sobre Northampton [cidade natal da banda]. A multidão cantou o refrão como um cântico de futebol, nós parámos de tocar e deixámos a coisa rolar. Chovia a cântaros, como se tudo aquilo fizesse parte de uma tumultuosa cena final de um filme. Depois do concerto, metemo-nos dentro de uma carrinha Nissan à espera da nossa boleia. Nenhum de nós queria ali estar, por isso fomos lá para fora fumar e beber à chuva, tentando evitar-nos uns aos outros. Viajámos em silêncio total até ao hotel. Não vejo o Pete desde então. E também já não vejo o Daniel há 12 anos", conclui.

Este pode não ser, contudo, o capítulo final da história dos Bauhaus. "Recentemente, tenho estado em contacto com o Daniel, e o Pete convidou-me a tocar com ele em São Francisco [nos EUA]. As relações entre os membros da banda estão mais saudáveis. Este ano é o nosso 40º aniversário e estão a fazer-nos ofertas para concertos, portanto... talvez não seja o adeus definitivo", remata David J.