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“Os comentários negativos afetaram-nos muito. O que fazemos não é para toda a gente”. Editors: entrevista completa com o vocalista Tom Smith

Banda britânica está de volta aos álbuns com “Violence”. O cantor falou à BLITZ sobre a saída do guitarrista, que quase provocou o fim dos Editors, o trabalho com o produtor de música eletrónica Blanck Mass e a relação com o público português

Há 13 anos, os ingleses Editors juntaram o seu nome à lista de bandas emergentes que faziam do revivalismo pós-punk o seu modo de vida. “The Back Room”, a estreia nos longa-duração, colocou-os em palco ao lado de nomes como Interpol, Black Rebel Motorcycle Club ou Strokes e o sucesso de canções como ‘Munich’, ‘Blood’ ou ‘Bullets’ transformou-os num fenómeno um pouco por todo o mundo (Portugal incluído).

Mais de uma década volvida, o grupo liderado por Tom Smith continua a tentar encontrar um novo chão depois de várias experiências com sonoridades eletrónicas terem deixado alguns fãs pelo caminho. A saída do guitarrista Chris Urbanowicz devido a “divergências criativas”, em 2012, quase fez com que a banda se dissolvesse, mas, seis anos depois, e com um novo álbum, “Violence”, em mãos, Smith explica à BLITZ que os Editors estão para durar. “Continuamos aqui, entusiasmados com aquilo que fazemos”.

Numa animada conversa telefónica, o simpático cantor da banda de Birmingham verbaliza a admiração que sente por bandas como os Echo & The Bunnymen, Radiohead ou The Cure – os Editors são um dos grupos convidados para as celebrações do 40º aniversário do coletivo liderado por Robert Smith a 7 de julho no Hyde Park, em Londres (também os Interpol, Goldfrapp e Slowdive vão atuar) –, mas fala também sobre a colaboração com o produtor de música eletrónica Blanck Mass em “Violence”, o período difícil que atravessaram depois da saída do guitarrista e o facto de continuarem a ser “góticos sem uniforme”. E acrescenta ainda que espera conseguir trazer o novo álbum a solo nacional.

De que tipo de violência falam as canções do novo álbum dos Editors?
São uma reação à forma como estamos a ser bombardeados, 24 horas por dia, por todas estas imagens e histórias que chegam aos nossos telefones e às nossas televisões... Isso só por si já é violento. É um problema muito moderno, mas sinto que é algo que nos distrai daquilo que é mais importante: os nossos amigos seres humanos, as pessoas que temos à nossa volta. As experiências que temos com elas e essas relações é que ficam connosco para sempre. Com este álbum quis transmitir que precisamos de desligar e concentrar-nos naquilo que está perto de nós. Não há grandes declarações… Sento-me para escrever e as coisas saem-me. Só quando falo com outras pessoas é que tenho de pensar sobre elas e tento perceber por que razão fiz ou disse as coisas daquela forma. Tento escrever letras que provoquem imagens e toquem o ouvinte a nível emocional. Tenho consciência de que muita gente pensa que aquilo que escrevo é uma merda, tudo bem, mas sei que é por essa razão, pelo peso emocional destas canções, que as pessoas gostam da nossa banda.

As mudanças políticas que o mundo tem vivido nos últimos anos, do Brexit à nova política externa norte-americana, que parecem dividir as pessoas mais do que uni-las, tiveram alguma influência no disco?
Somos fustigados com mensagens que nos dividem entre “nós” e “eles”. Seja qual for a história, há sempre essa ideia ali. É assustador… Não é, de todo, a forma como vejo o mundo. Sinto-me envergonhado com o Brexit. Há parte disso na violência das canções, sim. É disso que estas personagens tentam escapar. Em ‘No Sound But the Wind’, por exemplo, é disso que o pai está a tentar proteger o filho: quer preservar a inocência da juventude dele.

Em termos musicais, a violência parece vir muito do trabalho que fizeram com Blanck Mass… Como surgiu essa parceria?
Convidámo-lo quando estávamos a gravar em Oxford. Passámos muito tempo sozinhos com as canções antes de o envolvermos. Já tínhamos gravado a maior parte delas e eram todas bastante decentes, algumas fantásticas mesmo, mas como em “In Dream” [2015], o álbum anterior, fizemos tudo sozinhos – foi um processo muito importante para nós na altura – queríamos, neste, explorar influências externas. Quando estávamos em Oxford, ouvimos o álbum do Blanck Mass, “World Eater”, e achámo-lo muito excitante em termos sonoros: era brutal, violento, mas também melódico… Em “In This Light and on This Evening” [2009] ou “In Dream”, as nossas eletrónicas vêm mais de um lugar nostálgico. Ele soa mais moderno mas de uma forma que nós gostamos. Não é eletrónica pop: faz coisas com um poder incrível. O Justin [Lockey], nosso guitarrista, tem um caderninho com números de telefone de artistas underground e ligou-lhe. Felizmente, ele estava numa de experimentar algumas coisas connosco. Começámos a enviar-lhe as canções que tínhamos e devolvia-nos versões, que não eram remisturas… Basicamente, reinterpretou tudo aquilo que tínhamos feito. Foi muito sensível às estruturas e às vozes, mas de resto transformou tudo. Acabámos por ficar com dois álbuns: aquele que tínhamos feito em Oxford e uma versão alternativa do Blanck Mass, que era, obviamente, completamente eletrónica. Algumas coisas eram simplesmente incríveis e outras não quisemos usar, mas tivemos de encontrar um equilíbrio entre aqueles dois elementos. Foi o nosso produtor, o Leo Abrahams, que nos ajudou a fazê-lo, transformando o álbum numa combinação das duas versões. Foi um processo interessante e muito diferente de tudo o que já tínhamos feito.

“Sempre quisemos ser uma daquelas bandas que significa algo para as pessoas, que não é apenas a banda sonora de sexta-feira à note. ”, Tom Smith

Editaram o vosso primeiro álbum há 13 anos. Olhando para trás agora, quão perto estão daquilo que na época imaginavam ser o vosso futuro enquanto banda?
Oh Deus… Na altura perguntavam-nos muito onde nos víamos dentro de 10 ou 15 anos. Dizíamos sempre que admirávamos bandas com grande longevidade, como os Cure, os R.E.M., Bunnymen ou mesmo uma banda como os Radiohead, obviamente um pouco mais nova: mantiveram-se vivas, foram gravando álbuns, cometeram erros, mas acima de tudo agitaram as águas… Seguiram numa viagem muito própria mas sem repetir a mesma coisa vezes sem conta. Quando começas uma banda, falar de longevidade não é muito fixe. Vivemos fascinados com aquilo que é novo, que queima com muita força mas depois se apaga. Se nessa altura me tivessem dito que ainda estaríamos a fazer música passados todos estes anos, ficaria muito satisfeito. Se me dissessem que íamos sofrer muitas mudanças e que passaríamos por um momento muito conturbado e stressante, durante o qual tudo quase se desmoronou, ficaria muito perturbado (risos). Mas, acima de tudo, ficaria excitado com a longevidade que tinha à minha frente.

A saída de Urbanowicz foi certamente o maior desafio que os Editors já enfrentaram. Como ultrapassaram essa situação?
De certa forma, só agora estamos a sair desse período de recuperação, três álbuns depois de ele abandonar a banda. Naquele momento, a única coisa que podíamos fazer era colocar um pé à frente do outro, continuar a andar em frente. Temos de confiar uns nos outros e nas canções. Quando editámos “The Weight of Your Love” [2013] entendemos, claro, por que razão muita gente se questionava “onde está o guitarrista?”. “Onde está o Chris? Isso é muito estranho…”. Era um álbum com uma sonoridade diferente. Mas tivemos de seguir em frente e continuar a acreditar em nós próprios. Foi por isso que gravámos o “In Dream” apenas os cinco, na Escócia. “The Weight of Your Love” foi um estranho disco de transição que nos levou até “In Dream”, com o qual descobrimos tudo uns sobre os outros em termos musicais. A experiência de fazermos aquilo sozinhos foi libertadora e fez-nos acreditar na banda. Agora, estamos a dar o passo seguinte e a perceber que está tudo bem com esta segunda versão dos Editors. Conseguimos fazer isto e ainda há pessoas com vontade de ouvir a nossa música. Temos tido muita sorte, de certa forma, com as decisões que temos tomado, mas as coisas agora são diferentes. Sabe bem. É positivo.

Ainda mantêm contacto com ele?
Pouco. Ele vive em Nova Iorque, não é propriamente alguém com quem nos cruzemos na rua.

Quando falámos há nove anos disse-nos que os Editors eram “góticos sem uniforme”. Ainda sente que se encaixam nessa descrição ou já partiram para outras paragens?
Talvez agora tenhamos uma abordagem mais leve à vida, mesmo quando passamos períodos muito difíceis. Continuarmos aqui, entusiasmados com aquilo que fazemos… Todos esses percalços que tivemos e aqueles comentários negativos que surgiram há alguns anos afetaram-nos muito. Tivemos de aprender a não ligar a essas coisas e a continuar a fazer a nossa cena… Mas, sim, penso que continua a haver um elemento gótico em nós. Aquele romance, aquele teatro, aquela estética negra… Fomos criando este mundo, com esse espírito gótico, ao longo dos anos. Já tocámos em alguns festivais góticos muito específicos ao lado de bandas de que nunca tinha ouvido falar. E tínhamos à nossa frente uma audiência completamente vestida de negro, quase como se estivéssemos num filme do Tim Burton. Gostamos dessa teatralidade.

Portugal abraçou os Editors desde o início. Que tipo de relação criaram com os fãs portugueses?
Não temos ido aí muitas vezes, recentemente. Tem sido difícil ir tão longe. Mas sim, sempre gostámos de ir aí… São pessoas muito apaixonadas, aquele tipo de público frente ao qual gostamos sempre de tocar. Espero que consigamos regressar com este novo álbum.

O que querem os Editors da música hoje?
Sempre quisemos ser uma daquelas bandas que significa algo para as pessoas, que não é apenas a banda sonora de sexta-feira à note. Tenho consciência de que aquilo que fazemos não é para toda a gente, mas orgulho-me do facto de as pessoas que continuam a acompanhar-nos serem muito apaixonadas por nós. Têm reações bastante emocionais e é isso que quero que a nossa música continue a fazer. No verão, vamos dar um concerto na festa de aniversário dos Cure. Sentimos que temos o mesmo espírito que eles, de certa forma, e é bonito ver a forma como continuam a ser importantes para as pessoas… Ironicamente, não é apenas a sexta-feira à noite que interessa aos fãs dos Cure: é a vida, todos os dias da semana.

“Quando começas uma banda, falar de longevidade não é muito fixe. Vivemos fascinados com aquilo que é novo”

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