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Tozé Brito em 2017

Rita Carmo

Tozé Brito, o homem que tudo fez na música em Portugal. Uma reveladora entrevista de vida

Da revolução de costumes do rock ao Festival da Canção. Dos palcos às cúpulas da indústria. Da consagração como autor na voz de muitos intérpretes ao topo da direção da toda-poderosa Sociedade Portuguesa de Autores. De Pop Five Music Incorporated e Quarteto 1111 à assinatura de contratos com Xutos & Pontapés e Delfins. As polémicas, os triunfos e as canções de 50 anos de percurso

Músico, autor, compositor, descobridor de talentos, editor, estratega, patrão. Pouco há que Tozé Brito não tenha feito já no complexo tabuleiro de xadrez da indústria musical. Agora, no momento em que celebra 50 anos de música com o álbum “A Memória do Amor” (com participações de Ana Moura e António Zambujo, entre outros), o autor de verdadeiros standards da canção nacional como ‘20 Anos’ ou ‘Olá, Então Como Vais’ revisita o seu percurso na música, desde os tempos de liceu no Porto às viagens pelo mundo que o levaram até Los Angeles, da fuga para Londres para evitar a Guerra Colonial até às expectativas geradas pelo sample de Quarteto 1111 usado por Jay-Z em 2017.

Tinha a idade perfeita quando os Beatles apareceram: 12 anos. É uma idade em que somos facilmente impressionáveis, em que sonhamos com o futuro. Lembra-se dessa descoberta?
Claro que me lembro. Nesse tempo a música francesa estava na moda, chegava cá mais depressa do que a inglesa ou a americana, e ainda não havia nem Beatles, nem Stones. Havia Elvis Presley, mas não era para mim. Nunca fui fã. De repente descobri os Beatles e percebi que estava a ouvir aquilo que nunca tinha ouvido. Foi uma revelação em todos os aspetos, não só estéticos mas também musicais, rítmicos. Tudo era novo. Logo a seguir vêm os Stones e eu não consigo dissociar as duas bandas. Os Rolling Stones eram muito mais energia, rock'n'roll puro e duro. Os Beatles não, tinham uma parte muito mais refinada, mais espiritual, enfim era diferente. Os Beatles influenciaram-me como compositor e autor, mas como músico e baixista devo muito mais aos Rolling Stones.

E havia muita música lá em casa?
Havia tudo. Havia gira-discos, havia discos, havia instrumentos musicais, daí eu ter começado, quase sem ser empurrado para isso, a tocar piano antes de passar para a viola. Foi um processo natural.

Nesse tempo, que escola frequentava no Porto?
O D. Manuel II. Foi onde estive todos os anos em que estudei no Porto.

A sua língua estrangeira era o Francês ou já estudava Inglês nessa altura?
Era o Francês porque éramos obrigados a aprender Francês primeiro. Eu faço anos em agosto, por isso passei para o liceu ainda com 9 anos – só fiz 10 em agosto e em outubro estavam a começar as aulas. E com 10 anos – estamos a falar de 1961, portanto – ainda não havia Beatles, era a época em que eu ouvia os franceses. E o ter Francês nas aulas acabava por me puxar para esse lado, para o lado francófono. Só mais tarde, com 12 anos, comecei a aprender Inglês e a interessar-me mais pela música anglófona.

As primeiras bandas surgem também nesse tempo?
Sim. Curiosamente, quando estava no 3º ano de liceu, tinha amigos que já tocavam um pouco. Éramos todos muito amadores, muito básicos. Estávamos todos a aprender uns com os outros. O Porto tinha grandes vantagens como cidade porque não tínhamos grandes distrações. Não havia grandes coisas para fazer. Ou íamos ao cinema ou ficávamos em casa. E isso levou muita gente a interessar-se pela música e a juntar-se em garagens ou em casa de alguém para se organizar um grupo. Coisas muito insípidas porque todos nós tocávamos mal. Mas sem essa escola, sem essa ‘creche’, não teríamos depois passado pela ‘escola primária’, ‘liceu’ e a ‘universidade’ – esta foi muito mais tarde com a vinda para Lisboa com o Quarteto 1111.

Em termos de círculo social, falamos de classe média. O acesso à cultura já era fácil situando-se nesse estrato social?
Era. Repare: em minha casa sempre se leu muito. Eu tive influências muito distintas. Do lado do meu pai, e de toda a família do meu pai, vem a música. O avô do meu pai foi maestro. A minha mãe escreve muitíssimo bem. Nunca publicou nada, mas escreve incrivelmente bem. Sempre leu muito e sempre nos incutiu muito o gosto pela leitura, a mim e aos meus irmãos. Portanto eu cresci por um lado empurrado pelos bons livros e por outro lado pela boa música.

Numa récita no Jardim Escola João de Deus, no Porto

Numa récita no Jardim Escola João de Deus, no Porto

Arquivo pessoal

POP FIVE: NO TEMPO DA POP

Com os Pop Five Music Incorporated, grupo em que militava também Paulo Godinho (irmão de Sérgio Godinho), Tozé Brito iniciou-se na aventura da pop, antes ainda da década de 60 chegar ao fim. Numa era em que o futuro tudo prometia e todas as referências chegavam pela rádio vindas de fora, Tozé Brito decidiu que a música seria a sua vida.

A condição social facilitou-lhe o acesso aos primeiros instrumentos?
O meu primeiro baixo foi um problema complicado (risos). Em minha casa havia um piano de parede, mas que servia perfeitamente para aquilo que nós queríamos, que era aprender um pouco de piano, aprender uns acordes... e eu tive inclusivamente lições durante 2 anos. Não serviram para muito, mas deram-me as bases musicais para eu poder olhar para a música de outra forma. Havia a guitarra portuguesa. O meu pai tocava fado de Coimbra. E havia um violão onde ele tocava com o meu tio, que também tocava e também cantava. Eu tinha sempre à minha disposição um piano, uma viola ou uma guitarra portuguesa, em que nunca toquei por desinteresse. Naquela altura o fado não me interessava muito...

Como as coisas mudam...
(risos) Naquela idade não me interessava nada, sejamos completamente honestos. E instrumentos nunca me faltaram. O baixo foi um problema, mas o baixo só surgiu mais tarde. Nessas brincadeiras de liceu eu tocava viola, e não elétrica, como é evidente. Não tinha viola elétrica em casa. Aos 12 anos oferecerem-me uma viola elétrica estava fora de questão. Esteve fora de questão até aos 18 anos, quando eu resolvi dizer ao meu pai que ia ser músico, acontecesse o que acontecesse. Mas a viola servia-me para ir aprendendo e tocando. Depois um número de companheiros meus de liceu tinham acesso a outros instrumentos musicais, de outros grupos... Eu começo por tocar num grupo que se chamava Os Duques, que depois veio a chamar-se Grupo Quatro. Nós tínhamos um contrato divertido: ensaiávamos nos bombeiros e uma vez por mês tocávamos no baile dos bombeiros para pagar a sala de ensaios. E nessa sala de ensaios tocavam outras bandas, algumas de gente mais velha que tinha instrumentos que nós pedíamos emprestados. As primeiras guitarras em que toquei não eram minhas. Eram emprestadas. Estavam para ali. O primeiro baixo foi já com Pop Five Music Incorporated. Quando resolvemos formar o Pop Five, e já estamos a falar de 1966, eu já tinha 15 anos. O baixo foi comprado com o dinheiro dos espetáculos, graças ao nosso manager, que era uma coisa extraordinária para a altura... Havia o Quinteto Académico, que tinha o Mário Assis Ferreira, havia Quarteto 1111, que tinha o Rui Coelho Dias, e havia no Porto o Pop Five que tinha o Fernando Matos. Não creio que os outros grupos tivessem manager em Portugal. O Fernando Matos era nosso manager e negociou com uma casa de instrumentos...

Os famosos pagamentos a prestações que tornaram possível a existência de tantas bandas, certo?
Exatamente. À medida que íamos fazendo espetáculos íamos pagando os instrumentos. O meu primeiro baixo foi um Höfner igual ao do Paul McCartney, um ‘violino’ igual ao do Paul, que fui pagando sabe Deus durante quantos anos porque durante anos eu não ganhei dinheiro a tocar. Ia pagando instrumentos. E aparelhagem. Não eram só os instrumentos, eram os amplificadores também.

Escolheu aquele baixo por ter visto alguma foto do McCartney na Flama ou algo assim?
Eu fui empurrado para o baixo por exclusão de partes, mas sim, sabia perfeitamente que aquele era o modelo do Paul. Via-o nas fotografias das revistas. E achava que era um instrumento lindíssimo. Mas eu tocava guitarra, aquele não era o meu instrumento. Só que tínhamos três guitarristas, um baterista, um teclista e ninguém para tocar baixo no Pop Five.

Como é que Pop Five aconteceu? Como é que foi recrutado para a causa?
Fui recrutado no bairro: nós vivíamos todos em Marechal Gomes da Costa, que é uma zona perto da Boavista, um bocadinho abaixo. Todos menos um: o Álvaro Azevedo, que vivia em Matosinhos, era o baterista e ainda hoje toca com várias bandas do Porto. Portanto, éramos quase todos vizinhos, vivíamos ali num quilómetro quadrado. Um deles era o Paulo Godinho, irmão do Sérgio, que vivia a cem metros de minha casa. São meus primos, para além do mais. Aquilo havia ali uma mistura de amizade e família e proximidade geográfica. Resolvemos de um dia para o outro: “vamos formar um grupo!”. Éramos quatro amigos: eu, o Paulo, o Luís Filipe Vareta e o David Ferreira, que tocava teclas. Todos nós ali daquela zona. Faltava-nos um baterista e não havia ali nenhum pela zona, pelo menos o barulho não se ouvia. Fomos descobrir o Álvaro a Matosinhos porque o Fernando Matos, que veio a ser nosso manager, já na altura era nosso amigo, mais velho, já formado em Coimbra – tinha 23 ou 24 anos, mais dez anos do que nós. O Fernando disse, “epá, vamos à procura, tenho aí uns contactos”. E fizemos um teste. Fomos ouvir o Álvaro tocar e achámos que era mesmo aquilo que queríamos.

O Pop Five Music Incorporated tinha um dos nomes mais distintos das bandas portuguesas daquela era. De onde veio?
Veio muito por influência do Fernando porque ele era mais velho e tinha ideias que nós não teríamos à partida. Mas nós sabíamos que queríamos um nome que fizesse a diferença. O que o nome tinha de bom é que tinha a versão longa, Pop Five Music Incorporated, e depois tinha a versão curta, Pop Five. Portanto, quando as pessoas se referiam ao grupo era o Pop Five. O Pop Five era o nome de família. Depois tínhamos o nome que era o Senhor Pop Five Music Incorporated quando assinávamos documentos de coisas sérias.

E falando de coisas sérias, editaram um dos três únicos LPs do rock português dos anos 60, juntamente com os discos da Filarmónica Fraude e do Conjunto Académico João Paulo.
É verdade. Começámos a gravá-lo em 1967, saiu já em 1968. É nesse álbum que sai a primeira canção que eu escrevi e daí esta celebração dos 50 anos de música. O que justifica esse aniversário, mesmo tendo eu começado a tocar antes disso, é a saída deste álbum e a saída de uma primeira canção escrita por mim, tinha eu 17 anos.

O que é que recorda das sessões?
Viemos a Lisboa. Nós ouvíamos religiosamente o ‘Em Órbita’ e gravávamos todas as emissões. Eu tinha um Revox em casa, que já era uma coisa muito sofisticada. Mas o meu pai também gostava de música, gostava também de gravar música, de ouvir música gravada lá na Revox com as bobines. O ‘Em Órbita’ começava – programa das 19 às 21h00 –, eu ligava o gravador... O programa passava álbuns inteiros, passava tudo o que ainda não havia em Portugal, seis meses antes de as coisas chegarem cá. Nós estávamos muitas vezes a tocar covers de canções de Jimi Hendrix, John Lee Hooker, Muddy Waters, coisas que em Portugal ninguém sabia o que era e nós já estávamos a tocar covers desses artistas, o que acabou por ter uma influência muito grande depois no tipo de música que viemos a tocar. Em Lisboa gravámos em Campolide. O técnico foi o Moreno Pinto. Foi uma coisa... de segunda a sexta. Cinco dias para gravar um álbum em oito pistas. Nós gravávamos nos estúdios do Monte da Virgem da RTP, no Porto. Os primeiros EPs que editámos antes do álbum foram gravados no estúdio das televisões do Porto. Em duas pistas. Era um take, dois takes, três takes até que dizíamos “melhor disto já não conseguimos”. E não havia correções a fazer, era uma questão de criar equilíbrios. Quando chegámos a Lisboa e vimos oito pistas, achamos que... [risos] era o delírio completo. Dava para fazer tudo e mais alguma coisa. Mal nós sonhávamos que iríamos depois trabalhar em 48 e por aí fora.

Havia uma cena musical muito fértil no Porto nessa altura. Como é que a Invicta olhava para Lisboa nesse tempo?
Para ser sincero, não tínhamos qualquer interesse em saber o que se passava cá em baixo. Sabíamos vagamente que havia dois grupos porque começámos a ouvi-los na rádio: estou a falar do Quarteto 1111 por um lado e dos Sheiks por outro. O 1111 com a sua música em português, com o seu experimentalismo, sendo um grupo completamente alternativo para aquela altura porque não tinha nada de mainstream – era um grupo que estava muito à frente. Os Sheiks mais mainstream porque tinham uma vontade grande de tentar exportar a música deles e gravaram o ‘Missing You’, o «Tell Me Bird’, todas aquelas coisas que eles compuseram, eles próprios, e muito bem. Os discos eram muito bons e tinham qualidade. Eram grupos completamente distintos. E nós no Porto só os ouvíamos porque eles passavam na rádio já nessa altura. Vivíamos muito fechados à volta dos grupos do Porto. Porque para além dos Pop Five havia Os Nómadas, Os Nomos, Os Kapas. Havia uma série de grupos no Porto, muito bons, mesmo alguns que nunca chegaram a gravar.

Com Paulo Godinho, irmão de Sérgio Godinho, em Pop Five Music Incorporated, no final dos anos 60
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Com Paulo Godinho, irmão de Sérgio Godinho, em Pop Five Music Incorporated, no final dos anos 60

Arquivo pessoal

À esquerda, nos Pop Five Music Incorporated, com quem editou um LP em 1968
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À esquerda, nos Pop Five Music Incorporated, com quem editou um LP em 1968

Arquivo pessoal

QUARTETO 1111, JOSÉ CID E LISBOA: UMA NOVA VIDA

Para encarar a música com perspetiva de futuro e de carreira, explica-nos Tozé Brito, a vinda para a capital a convite de José Cid – que o desafiou a integrar o Quarteto 1111 – foi absolutamente decisiva. Mas o coautor de ‘Todo o Mundo e Ninguém’, tema do Quarteto 1111 que Jay-Z samplou o ano passado, não foi um fã de primeira hora do trabalho da banda liderada por José Cid.

Apesar do estatuto de que gozava no Porto, aceita ir para Lisboa para integrar o Quarteto 1111. Como é que se deu a ‘transferência’?
Por um acaso do destino, daquelas coisas que acontecem. Eu estava a tocar numa festa em Penafiel, uma festa muito conhecida na altura que era a Festa do Lago. Era um dos tais grandes arraiais da altura, em que eles esvaziavam um lago gigante que havia em Penafiel. O lago era gigante, pelo menos a recordação que eu tenho. Iam para lá uns milhares de pessoas dançar, portanto tinha que ser grande. Depois havia um palco dum lado e um palco do outro. Um grupo tocava uma hora, outro grupo tocava outra hora. E havia sempre dois grupos a tocar. O formato deste tipo de festa, e mesmo dalgumas festas de finalistas, era sempre o mesmo: às vezes no mesmo palco entrava uma banda e saía outra; isto começava em geral às 10 da noite e acabava às 6 da manhã. E cada grupo era capaz de tocar 4 horas durante uma noite, portanto saía-nos do pelo. Lembro-me de estar num lado do palco nessa festa do lago e, do outro lado, no outro palco, quando nós parávamos, tocava o Quarteto 1111. Quando estamos a tocar o segundo set, reparei que estava à minha frente o grupo todo, o Quarteto 1111 à nossa frente, a olhar para nós – o que não era nada habitual. Nada habitual não porque não nos déssemos todos bem, mas quando começava a música cada um puxava a brasa à sua sardinha e ninguém levava nada aos outros nem que fossem muito bons, um gajo fazia de conta que nem ouvia. E ainda por cima havia aquela rivalidade Lisboa-Porto. O Quarteto era uma banda com um estatuto especial, mas nós também tínhamos o nosso, e já tínhamos um LP gravado e não ficávamos atrás. De repente tenho ali o Quarteto a olhar para mim, à minha frente. Quando acabamos de tocar, o José Cid vem ter comigo e diz-me, “olha, nós gostávamos de falar contigo”, e eu “bora lá”. “Não, mais tarde”, disseram eles, porque tinham que tocar logo a seguir. Combinámos a hora e ele depois veio ter comigo e diz-me: “o Mário Rui [Terra], que é o nosso baixista, foi mobilizado para o Ultramar e nós precisamos de um baixista. Estivemos a ouvir-te tocar e gostamos do que tu fazes e gostamos do teu trabalho como músico, como baixista, e queríamos convidar-te para vires para Lisboa para tocar connosco”. Epá, eu tinha 18 anos na altura e foi aí que tive que tomar a grande decisão da minha vida que foi dizer aos meus pais que queria ser músico. O meu pai queria que eu fosse advogado ou outra coisa qualquer, queria que eu fosse para a faculdade e tirasse um curso porque ele gostava imenso de música, mas achava que a música era uma coisa para malucos. Viver da música era de loucos. E eu disse-lhe que não havia problema nenhum. Eu estava preparado para acabar aí numa discoteca, numa boîte, num casino, em qualquer lado a tocar se fosse necessário, para o resto dos meus dias. Se o meu projeto de vida falhasse, era aí que eu ia parar.

Essa determinação não era vulgar porque a sua geração vivia com a sombra da Guerra Colonial e são incontáveis as histórias de bandas dessas altura que acabaram por causa do serviço militar obrigatório. Havia a noção de que as bandas eram uma diversão para crianças e depois vinham as responsabilidades sérias da idade adulta: a tropa, família…
Havia, é verdade. A maior parte das bandas era assim que encarava o ofício. “Enquanto isto der, dá. Um dia vamos ser mobilizados”, “não ganhamos dinheiro que chegue para alimentar a família vamos ter que encontrar outras profissões, mas enquanto der vamo-nos divertindo”. No Quarteto já havia um espírito... O José Cid era o líder incontestado do grupo. Vamos assumi-lo, não há que escondê-lo. Sem José Cid não teria havido Quarteto 1111.

E tinha uma visão diferente?
Tinha uma visão diferente e tinha vontade absolutamente férrea e determinante, determinada, de ir até ao fim sendo músico, sendo compositor, autor, cantor, tudo aquilo que ele é e continua ser ainda hoje. Eu tomei essa opção também, mas eu sempre tive uma visão diferente do Zé. O Zé é um homem que gosta fundamentalmente de estar em cima de um palco. A coisa que mais prazer lhe dá – talvez mais do que estar a escrever canções, a gravar um álbum, em casa... – é estar em cima dum palco, é o contacto direto com as pessoas. Eu nunca tive esse fascínio pelo palco. Curiosamente, sempre que estive acompanhado por grupos achei ótimo. Diverti-me imenso com o Pop Five, com o Quarteto… Porque tinha amigos, tinha malta a meu lado, divertia-me, falávamos enquanto estávamos a tocar. Quando os grupos acabaram... depois passei pelos Gemini que já foi uma experiência completamente diferente, mercantilista, para ganhar dinheiro... As minhas filhas estavam a nascer e eu tinha que organizar a minha vida – foi a forma que encontrei de começar a fazê-lo antes de passar pela indústria, onde estive depois muitos anos. Mas cheguei à conclusão de que mais do que os palcos e estar em cima de um palco, aquilo que me dava prazer realmente era escrever canções, ser fundamentalmente um autor, um compositor, e produzir algumas coisas em estúdio, poder inclusivamente também tocar em estúdio. O palco não me fascinou nunca...

Mas não havia propriamente exemplos disso a que se pudesse agarrar, ter essa determinação aos 18 anos de dizer “eu vou ser músico”. Foi complicado?
Foi complicado. Não conheço nenhum caso, pelo menos em Portugal, que tenha feito essa opção. E depois o trajeto que fiz… Porque eu tive que dar muitas curvas no meu trajeto de músico, de autor, de compositor e todas essas facetas que passaram a ser determinantes e muito mais importantes até na minha vida. Mas cheguei a uma altura em que disse: “eu tenho que aceitar os convites que a indústria me está a fazer” porque recebi convites para diretor de A&R [artistas e repertório] da Polygram, que era a segunda maior editora do país. Quando recebi esse convite para diretor de A&R, pensei: “bom, eu não posso dizer que não a este convite porque em termos de independência económica é fundamental para mim e para a minha vida. E posso continuar a fazer música”. Até teria possibilidade de contactar com outros músicos, outras realidades, outros segmentos de mercado e estéticas musicais. Achei que era a oportunidade da minha vida.

“Fui ganhar 7 mil e 500 escudos para o Quarteto 111. Uma fortuna se eu disser que o meu apartamento custava 1500. Sobravam-me 6 contos para viver. Quando tinha 19 anos...

Já iremos a essa parte... Quando surgiu o convite do Quarteto 1111 já tinha ouvido no ‘Em Órbita’ ‘A Lenda d’El Rei D. Sebastião’. O que é que achou?
Quer que eu seja honesto? Vou dizer o que pensei... (risos) O Zé sabe-o e todo o 1111 o sabe. Eu disse “grande malha”, como se costuma dizer, “estes tipos conseguiram o que ninguém conseguiu”. Que foi entrar no ‘Em Órbita’ e furar esse bloqueio à música portuguesa que o programa tinha, porque ser tão rígido...

Podemos usar a palavra ‘exigente’, não?
E também exigente, sem dúvida nenhuma. E com critério porque não era uma exigência parva ou preconceituosa, porque a coisa mais horrorosa que existe neste mundo, e a forma de censura mais baixa, é o preconceito. E eles não eram preconceituosos. Eles achavam pura e simplesmente que toda a música portuguesa não tinha qualidade para estar a ombrear com aquilo que eles tocavam todas as noites, e que vinha dos Estados Unidos e de Inglaterra. De repente eu ouço aquilo, como ouviu Portugal inteiro, e disse “pá, isto é fantástico, o que estes gajos conseguiram é absolutamente fantástico, mas esta música não me diz nada”. A canção em si, ‘A Lenda d’El Rei D. Sebastião’, que eu me cansei de tocar e ainda hoje toco e canto quando vou para cima do palco com o José Cid, não me dizia nada, era uma coisa que não tinha nada a ver comigo. Era uma música a que eu reconhecia qualidade mas…

O que é que eu não lhe tocou? A letra?
Não, não, não. A parte da letra nem me preocupava muito. Nós no Pop Five só cantávamos em inglês. Não tínhamos ainda sequer feito uma única tentativa de escrever em português, isso só aconteceu mais tarde, quando eu já não estava no grupo. Nós só cantávamos o inglês porque achávamos que o português...

Não era rock'n'roll...?
Não era rock'n'roll e, ao mesmo tempo, era foneticamente muito complicado de se aplicar palavras esdrúxulas e trissílabos em música pop rock. Não era fácil e, de repente, o Quarteto vem demonstrar o contrário. Essa é a grande pedrada no charco que o Quarteto consegue. Porque os Sheiks também andavam a cantar em inglês e o Quarteto fura esse preconceito, como grupo alternativo que era, na altura – cada disco que saía era proibido pela censura e ia parar à Pide. Mas musicalmente, eu estava noutra onda. A minha onda continuava a ser a música inglesa, a música americana, não tinha nada a ver com aquilo. Quando o Quarteto me faz o convite, eu confesso que fiquei tentado por uma razão simples: eu tinha decidido que queria ser músico e ali ia ser músico. Para o que desse e viesse. Para o melhor e para o pior. Podia correr bem, podia correr muito mal, podia acabar aí num buraco qualquer a tocar viola. Mas o convite do Quarteto tinha uma coisa que era quase irrecusável. É que o estatuto do Quarteto naquela altura estava altíssimo.

O convite vinha com ordenado agregado?
A coisa funcionou de uma maneira muito simples. Eu disse, “pois, temos aqui um problema: eu para ir para Lisboa preciso de alugar uma casa, preciso de me deslocar para os ensaios. Como é que isso vai ser?”. E eles disseram-me: “nós temos meses de ganhar muito bem, temos meses de ganhar pouco”. Eu disse: “não posso funcionar assim, porque eu conheço-me e sei que se ganhar muito vou estourar tudo o que ganho. Sabe-se lá como e a fazer que barbaridades. E depois vai haver meses em que eu não tenho dinheiro para pagar a renda da casa. Não posso ir por aí. Vamos fazer aqui um acordo: vocês pagam-me um x por mês, independentemente de haver trabalho ou não, é esse x por mês que me pagam. Nos meses em que não houver trabalho, eu fico a ganhar. Nos meses em que houver muito trabalho eu vou perder muito dinheiro, mas paciência. Prefiro esta solução”. Acertámos um valor...

Ainda o tem presente?
7 mil e 500 escudos. Que era uma fortuna se eu disser que o meu apartamento custava mil e quinhentos. Sobravam-me 6 contos para viver. Quando tinha 19 anos...

“Vestíamo-nos de forma diferente, consumíamos substâncias que a maior parte das pessoas nem sabia que existiam, estávamos numa galáxia ou num território completamente à parte de 99% da população deste país

Isso dava para quê? Para comprar umas roupinhas engraçadas...
Dava para ir a Londres comprar as roupas, veja lá. Repare: era uma questão de gestão do dinheiro. Se eu tivesse a certeza que era capaz de o pôr de lado, se calhar tinha ganho mais até porque o Quarteto tocava muito. Era um grupo com imenso trabalho. Só que eu tive medo, confesso que tive medo e disse, “epá, eu de repente estoiro isto tudo”.

Essas primeiras viagens a Londres foram também uma revelação?
Foi um choque. Foi um tiro na cabeça.

Viu bandas em Londres? Ia ver concertos?
Cheguei a ir a alguns clubes de referência naquela altura. Não era fácil porque, primeiro, estavam cheios, a abarrotar e a deitar por fora, depois porque estava sozinho, às vezes – quanto muito estávamos dois. Furar aquela multidão, chegar lá dentro era complicado. Isso depois aconteceu-me muito mais quando fui viver para Londres. De 1972 a 1974, estive três anos em Londres. Aí sim, fartei-me de ver concertos, desde o Royal Albert Hall até aos sítios mais pequeninos, as caves mais esconsas de Londres. Mas nessa altura ia a Londres mais para levar um banho de civilização porque nós estávamos a viver num país absolutamente retrógrado, anacrónico. Portugal era um país que não existia no mapa. Em 1970, quando eu fui a Londres pela primeira vez, Portugal era um país sob ditadura, fascista, não se passava absolutamente nada, não havia nada para fazer. De repente chegava-se a Londres e aquilo era o delírio completo, estávamos noutro planeta.

Ser músico era uma forma de ser resistente, no sentido de ser opositor a um status quo?
Completamente. Em todos os aspetos. Primeiro porque politicamente nós fazíamos resistência ativa ao regime que vivíamos. Tínhamos os discos completamente proibidos. Fomos forçados a começar a cantar em inglês, a dizer as mesmas barbaridades que dizíamos em português e ninguém proibia coisa nenhuma. Ou eles não percebiam inglês de todo ou achavam que o povo não percebia absolutamente nada do que nós estávamos a dizer e, portanto, não se davam ao trabalho de censurar nada em inglês. Passava tudo. E nós começamos a dizer tudo o que queríamos em inglês, para uma elite de pessoas que percebia inglês e que compreendia o que nós estávamos a dizer. Para além dessa contestação óbvia, neste caso ao regime político em que vivíamos, toda a nossa postura era de contestação porque nos vestíamos de forma diferente, consumíamos substâncias que a maior parte da população nem sabia que existiam, enfim, estávamos numa galáxia ou num território completamente à parte de 99% da população deste país.

E alguma vez deu por si a tocar e a reparar que havia uma ou duas figuras estranhas no público, de gabardine?
Em Vilar de Mouros. Quando subimos ao palco para tocar, olhávamos e vimo-los logo... Eles reconheciam-se. Por mais que eles se disfarçassem, sabíamos quem eram os agentes da Pide porque nós tínhamos ido lá responder a umas perguntitas que eles nos faziam, nada de muito grave – lá tínhamos que dizer que não tínhamos nada a ver com partidos comunistas absolutamente nenhuns, e que não fazíamos parte de movimentos associativos comunistas e mais isto e aquilo. Lá nos deixavam em paz, muito porque o José Cid – com o seu passado monárquico e com as suas convicções monárquica – afastava um pouco isso, mesmo sendo contestatário, porque a maior parte das letras do álbum que é proibido [“Quarteto 1111”, de 1970) são dele. Depois, quando o confrontavam, eles percebiam que estavam a falar com uma pessoa de um escalão social e de uma área que não convinha hostilizar; ele era poupado e nós também, por tabela.

Quantas cópias do disco guardou antes de ele ser retirado das lojas?
(risos) duas.

Com o Quarteto 1111, em 1971
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Com o Quarteto 1111, em 1971

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O Quarteto 1111: José Cid à esquerda, Tozé Brito é o segundo a contar da direita
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O Quarteto 1111: José Cid à esquerda, Tozé Brito é o segundo a contar da direita

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Quarteto 1111 em 1970. Tozé Brito à direita
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Quarteto 1111 em 1970. Tozé Brito à direita

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O EXÍLIO EM LONDRES

Como muitos outros jovens, ameaçados com a perspetiva de uma guerra em que não acreditavam, Tozé Brito também se viu obrigado a interromper os seus planos de carreira para cumprir serviço militar. A perspetiva de trocar Tavira pela frente de batalha em África, no entanto, obrigou-o a tomar a decisão de rumar a Londres, passo – ou salto... – que não se deu sem algumas peripécias dignas de intriga de espionagem.

Nesse período final do Estado Novo viu-se forçado a ir para Inglaterra…
Eu vou porque sou incorporado no serviço militar e me é prometido que iria fazer parte de um serviço que se chamava Alerta Estar, onde estavam os músicos todos: o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo… Os meus amigos. No Alerta Estar organizavam-se espetáculos para as tropas que estavam em Angola, Moçambique, Guiné... Se fosse essa a minha guerra – a mim prometeram-me que eu ia lá parar... –, seria “bom, OK, desde que eu não tenha que pegar em armas e disparar contra gente que nunca me fez mal e que eu até defendo”. Se a minha guerra fosse pegar numa guitarra e cantar para as tropas, até podia ser que eu de vez em quando lhes pudesse passar por debaixo da mesa uma mensagem. Ou um charro (risos). Qualquer coisa que os animasse, sei lá. Infelizmente, ao fim de três meses de recruta recebi a notícia que a minha especialidade era armas pesadas... Eu que sou pesadíssimo (risos).

Acha que foi um castigo? Algo do género “este pertence lá àquele grupo subversivo e vai ter que ir malhar onde dói”?
Foi, completamente. Eu hoje sei que sim porque quem controlava o Alerta Estar era o Movimento Nacional Feminino, que tinha um peso político muito grande em Portugal nessa altura. O 1111 tinha discos proibidos, tão simples como isto. Enquanto os músicos que passaram pelos Sheiks cantaram em inglês, nunca levantaram problemas a ninguém e lá foram parar todos ao Alerta Estar, nenhum dos que esteve no Quarteto 1111 teve essa sorte. Antes de mim foi o Mário Rui, que foi parar a Moçambique e sabe Deus o que lá passou. E o António [Moniz Pereira] também teve problemas. O Zé Cid nunca chegou a ser mobilizado porque estava na Força Aérea e era instrutor da Força Aérea na Ota, portanto não correu esse perigo. Eu ia para Tavira e tinha 95% de hipóteses de ser mobilizado porque em armas pesadas éramos poucos e todos tinham que lá ir parar. À guerra.

Foi um agente da Pide que me passou para Espanha no automóvel, num domingo à tarde, a ouvir o relato do Benfica. Abriu o vidro e disse para os colegas: 'vou ali fazer umas compras e venho já'. Eu ia ao lado, de cabelo rapado, com a mala atrás”

Como é que organizou a partida para Londres? Foi à filme?
Foi à filme, mas foi um filme que ninguém está à espera. Durante os três meses que estive nas Caldas da Rainha a fazer recruta criei laços de amizade muito grandes com os meus superiores hierárquicos, desde os furriéis e os alferes que me davam instrução aos capitães e aos majores. Havia ali dois tipos de pessoas que eram vistas como especiais: os jogadores de futebol à cabeça – e havia lá vários, jogadores do Benfica, Porto, grandes vedetas –, depois os músicos, atores, gente das artes, digamos assim. Eu era músico e eles achavam-me graça, tratavam-me bem, e uma das coisas que eu disse foi “eu vou despedir-me de toda a gente”. E fui despedir-me de toda a gente. Ninguém me deu ordem de prisão porque ninguém acreditou que eu me ia embora (risos). Eu fui dizer-lhes: “epá, com esta especialidade de armas pesadas eu vou-me embora, não estou cá fazer nada, vocês estão loucos, isto não é para mim”. “Pá, não faças isso, não te vás embora, tu ainda tens hipótese de cá ficar”, “pá, vocês estão a gozar comigo, as hipóteses de eu cá ficar são mínimas e com armas pesadas eu vou para Guiné ou Moçambique”. E despedi-me deles todos. Foi um filme diferente... A malta toda disse “pá, não faças isso, que estupidez, não te vás embora”. O que eu estava a dizer dava direito a ir para o Tarrafal, se desertasse. Porque eu era desertor, não era sequer refratário. Tranquilamente, na sexta-feira fiz a mala, meti as coisas no saco, vim para casa, preparei tudo com o meu pai. Nós passávamos férias em Moledo, no Minho, e o meu pai conhecia gente que estava ligada ao posto da fronteira de Tui, já do lado de Espanha, e portanto falou com eles. Foi um agente da Pide que me passou no automóvel, num domingo à tarde, a ouvir o relato do Benfica (risos). Abriu o vidro e disse para os colegas: “vou ali fazer umas compras e venho já”. Eu ia ao lado, de cabelo rapado, com a mala atrás...

E ninguém achou estranho...
Não porque ele estava comprado. Isto não foi de borla. Foi o meu pai que me ajudou a pagar porque estas coisas não eram baratas – e lá fui. Ele deixou-me do lado de lá, deixou-me em Tui, o meu pai estava à minha espera, levou-me a Madrid e eu em Madrid apanhei o avião. Eu tinha uma sorte: a maior parte dos rapazes da minha idade não tinha passaporte. Ninguém tirava passaportes em Portugal. Quando queriam tirar um passaporte, as autoridades perguntavam sempre “mas porque é que você quer um passaporte?”. Como eu era músico do Quarteto 1111, tinha dado a volta ao mundo, tinha estado em Tóquio, Banguecoque, sei lá, fui por um lado e vim pelo outro. Em Moscovo, andei por toda a parte. Sítios com os quais não tínhamos relações diplomáticas e onde só fui por ser músico, porque ia representar Portugal em festivais internacionais. Passei por isso tudo e tinha o passaporte cheio de carimbos. O meu medo era chegar a Madrid e ser recambiado porque havia um tratado de extradição com os espanhóis e todos os portugueses que eles apanhavam que tinham passado a salto a fronteira para chegar depois a França e a países que eram seguros eram recambiados. Eu cheguei ao aeroporto, comprei o bilhete de Madrid para Londres e disse “vamos ver se não há perguntas e se eu não tenho aqui problemas graves”. Mas felizmente tinha esse passaporte e, no momento em que eles olharam para mim e abriram o meu passaporte, viram que eu tinha carimbos de tudo o que era lado do mundo. Então acharam perfeitamente natural eu estar ali a apanhar o avião, puseram-me o carimbo e lá fui.

Como é que sobreviveu em Londres?
Boa pergunta (risos). Sobrevivi os primeiros tempos porque os meus sogros me ajudaram, eles foram fundamentais para a minha ambientação. Pus-me à procura de trabalho e o único trabalho que encontrei foi como tradutor numa companhia de seguros que, curiosamente, tinha dossiês brutais de acidentes do ramo marítimo. Ou seja, quando um cargueiro encalhava na América do Sul, os relatórios tinham que ser traduzidos de espanhol para inglês, raramente eram em português. Cargueiros portugueses para aqueles lados não havia muitos. Havia o Brasil, e uma ou outra vez tocou-me traduzir de português para inglês. Perguntaram-me: “você consegue fazer isto?”. Respondi: “consigo, não tenho grande dificuldade com um dicionário ao lado. O espanhol é muito parecido com o português”. Eles não percebiam absolutamente nada nem de espanhol nem de português, como é óbvio. Pagavam uma fortuna a tradutores oficiais... Para traduzirem 300 páginas levavam o couro e o cabelo à companhia de seguros. Eu disse: “faço isto tranquilamente”. Comecei por ganhar 100 libras por mês, 25 libras por semana. “Vocês pagam-me isto e eu venho aqui das 9 às 5 porque eu a seguir vou para a faculdade”. Entretanto matriculei-me na faculdade para estudar Psicologia… E foi assim que eu me aguentei.

E depois veio a Revolução de Abril...
Epá, foi das maiores alegrias da minha vida. Eu estava em estado de depressão completa e total. Só lá estava há dois anos e pouco, mas não tinha a menor ideia de poder ou não voltar a Portugal. Nenhum de nós... poderíamos estar ali por mais um ano ou dois, ou por mais dez, vinte ou trinta – não tínhamos qualquer ideia do que seria o nosso futuro. Confesso que já estava a ficar um pouco deprimido com tudo aquilo, apesar de ter sido sempre extremamente bem tratado. Tinha trabalho. Estava casado, a minha mulher estava comigo e fazia-me imensa companhia, era uma pessoa fantástica, entendendo muito bem os problemas pelos quais eu estava a passar. Estudava, preparava-me para ser psicólogo, para acabar o curso que nunca acabei – nunca precisei dele, felizmente. Estava preparado para ir até ao fim. E há uma manhã em que às 6 da manhã toca o telefone e me dizem: “podes voltar se quiseres”. Eu: “o que é que me estás a dizer?”. “Epá, caiu” – isto na manhã do 25 de Abril. “Calma, caiu como?”, “pá, os militares estão na rua, tomaram conta de tudo”. Bem, claro que estive dois a três dias “deixa cá ver o que isto vai dar”, a seguir as notícias pela televisão, pela rádio, ouvir a rádio portuguesa que eu apanhava em Londres. A ler os jornais ingleses, que só falavam nisto – porque isto foi falado em todo o mundo, nas primeiras páginas. Quando comecei a perceber “ok, posso realmente voltar”, a Tessa [mulher de Tozé Brito] estava grávida. A minha mulher estava grávida da minha filha mais velha, a Ana. E eu pensei: “bom, não faz qualquer sentido regressar agora”. Até porque ela me pediu: “não vamos agora, por favor. Deixa a criança nascer aqui em Inglaterra que eu não tenho confiança nenhuma nos hospitais portugueses. Nem sei o que vou encontrar em Portugal”. [O que ela dizia] fazia sentido e decidimos esperar. A minha filha nasceu a 1 de outubro e eu voltei para Portugal em finais de novembro. Mal passei a fronteira, por um lado fui recebido como um herói, porque os desertores eram recebidos quase em ombros, mas meteram-me logo uma guia de marcha na mão a dizer: “apresente-se em Tavira no dia 8 de janeiro para começar a fazer a especialidade de armas pesadas”. E depois fiz a tropa toda: o meu ano de 75 é todo feito em Tavira, em Mafra...

Green Windows, grupo paralelo ao Quarteto 1111, ao vivo no Porto em 1975
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Green Windows, grupo paralelo ao Quarteto 1111, ao vivo no Porto em 1975

Gemini no final dos anos 70. O grupo levou "Dai Li Dou" à vitória no Festival da Canção em 1978
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Gemini no final dos anos 70. O grupo levou "Dai Li Dou" à vitória no Festival da Canção em 1978

Com as Doce, que venceram em 1982 o Festival RTP da Canção com "Bem Bom", canção que Tozé Brito compôs em coautoria
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Com as Doce, que venceram em 1982 o Festival RTP da Canção com "Bem Bom", canção que Tozé Brito compôs em coautoria

GANHAR A VIDA

Tozé Brito não tem pruridos em assumir que encarou a música como forma de sustento tanto como arte e veículo de expressão. Depois de regressar de Londres, projetos como os Green Windows e Gemini e as passagens pelo Festival da Canção estabeleceram-no como nome central da chamada música ligeira.

Antes da ida para Londres, nos Duques, Pop Five e depois no Quarteto 1111, teve a sua fase rock and roll. Após o 25 de Abril, com os Green Windows e Gemini, há contudo uma inflexão para a música ligeira. Essa divisão pode-se fazer?
Pode, claro, mas eu não a vi assim. Eu toquei sempre o que quis, quando quis e por razões muito objetivas.

Não lhe passou pela cabeça algo como “já estou demasiado velho para o rock'n'roll, portanto vou fazer outra coisa”?
Não, não. De forma nenhuma. Repare: em 1976 eu estive com o Quarteto 1111 ainda a fazer o “Godspell” no Teatro Villaret um ano inteiro – a peça esteve praticamente um ano em cena, entre Lisboa e Porto. Portanto eu passei esse ano a tocar no “Godspell” – e a cantar e a intervir na peça...

Passar dos Beatles e Stones para os ABBA foi uma cedência?
Foi, claro que sim. O que eu continuava a ouvir em casa era Beatles, era Stones, era Dylan, nessa altura já era Pink Floyd, já era Led Zeppelin, já era tudo o que quiser acrescentar. Estamos a entrar pelos anos 70 adentro. Crosby, Stills & Nash, James Taylor… Depois comecei a ouvir outro tipo de coisas, muita música brasileira, a aproximar-me do jazz, de coisas que ainda hoje ouço e que gosto muito de ouvir. Voltando à pergunta: aquilo que eu ouvia, o prazer que retirava da música de que gostava, não tinha nada a ver com aquilo que eu fazia. Não vou dizer que é boa ou má porque a qualidade na música, como em qualquer arte, quanto a mim, é completamente subjetiva.

Mas enquanto presidente de editoras teve que pensar na música que era boa para editar e na que era má porque perdia dinheiro...
Existe música que funciona e música que não funciona. Existe música que é feita com um objetivo. Fui A&R e fui diretor de companhias discográficas durante 30 anos, praticamente. O que é que é bom? O que é bom é aquilo que surtir efeito num determinado público e que funciona. Se me disserem “apontei isto para este público e falhei” é porque alguma coisa correu mal. Se me disserem “eu não apontei para este público e acertei”, alguma coisa correu mal também. Agora se me disserem “fiz isto a pensar neste público e este público comprou e resulta” é porque está bem feito. O que eu ouvia não tinha a ver com o que eu fazia. O que eu fazia tinha a ver com o que eu precisava de fazer para continuar a viver da música. Quando eu entro na indústria e começo a ter cargos e a ganhar dinheiro que me permitia fazer as minhas escolhas, deixo estes grupos, larguei-os completamente, deixou de haver Gemini na minha vida...

“Aquilo que eu ouvia e o prazer que retirava da música de que gostava não tinha nada a ver com aquilo que eu fazia. Não vou dizer que é boa ou que é má. Existe música que funciona e música que não funciona”

OS DIAS DA INDÚSTRIA

Quando Tozé Brito ingressou na indústria discográfica, primeiro na PolyGram, atual Universal, e mais tarde na extinta BMG (absorvida pela Sony), o mercado começou a crescer a olhos vistos: primeiro com o boom do rock português nos alvores dos anos 80, depois com a explosão do mercado com a chegada do CD, já nos anos 90, era de excessos que o então executivo também experimentou.

Passou pela indústria na era das vacas gordas. Nunca se venderam tantos discos em Portugal como na década de 90, anos de grande explosão em termos de faturação. Fez loucuras nesse tempo?
Fiz as minhas maiores loucuras todas nas décadas de 80 e 90. Décadas completamente diferentes. Na de 80 estamos ainda a falar de vinil, puro e duro, os CDs aparecem mais tarde. Na altura, eu estava na Polygram e foram anos interessantíssimos. Por exemplo, em 1987, no mesmo dia, assinei contrato com os Xutos & Pontapés, os Mler Ife Dada, os Afonsinhos do Condado e os Radar Kadafi. Quatro bandas num dia. Fui falando com elas, juntei-as todas e os contratos foram assinados no mesmo dia. E não estávamos ainda no tempo das vacas gordas… estávamos no tempo do vinil. Nos anos 90, quando eu estive na BMG – companhia em que peguei quando tinha um ano de vida, com 2% de quota de mercado –, em três anos passámos de 2 para 15% de quota de mercado e éramos a terceira companhia, logo a seguir à Polygram e à Valentim de Carvalho. Passámos a Warner, passámos a Sony, fomos por aí acima até aos 18%.

Isto significava ir a Nova Iorque, hotel de 5 estrelas, viagem de primeira classe, como manda a lei?
Tudo. Como manda a lei. Tudo do mais luxuoso que se possa imaginar porque havia dinheiro para tudo isso. Significava por exemplo em 1994 eu ter recebido um convite do meu presidente, o Rudi Gassner, que estava em Nova Iorque. “Tozé, tu gostas de futebol, não é?”. Eu: “epá, adoro futebol, porquê?”. Ele: “porque estamos aqui a juntar um grupo para ver a fase final do Campeonato do Mundo em Los Angeles. Queres vir?”. Respondi: “claro que quero, mas estamos a falar de quanto tempo?”. “Duas semanas, pá. Mete aí férias duas semanas e vem até cá duas semanas”, devolveu ele. Quando lá cheguei, estávamos uns vinte do mundo todo. 20 presidentes de 20 BMGs, todos à custa da BMG, no Hilton de Los Angeles, a comer, a beber, a conviver e a ver jogos de futebol. Nessas duas semanas, posso garantir que bebi do melhor vinho francês que havia em L.A., do melhor champanhe francês que havia em L.A., jantei nos melhores restaurantes…

E criaram-se inimigos?
Eu sei que há gente que não gosta de mim. Seria estranho se toda a gente gostasse. Unanimidades dessas não existem. Agora, inimigos é uma palavra muito forte. Não tenho inimigos.

Há a ideia em Portugal de que toda a gente passa pela música incólume, e de que é tudo uma grande família…
Não, de maneira nenhuma. Tive pegas muito grandes com artistas que tinham sido contratados por mim e com quem eu tinha tido até passados recentes muito bons, muito afáveis, muito serenos, e de repente as coisas descambavam e havia pontapés nas portas, cenas um bocado duras. Houve uma artista com quem me chateei porque ela queria gravar um disco absolutamente absurdo e eu disse-lhe: “não, esse disco comigo não gravas, eu não to pago, isso não tem qualquer hipótese de funcionar”. Ela disse-me: “então vou-me embora, quero a rescisão de contrato agora aqui mesmo”. Eu respondi: “não é preciso rescisão absolutamente nenhuma, rasga-se o contrato” – e rasguei-lhe o contrato à frente dela. Mas disse-lhe assim: “espera aí que está aqui um selo que não assinaste e este aproveita-se”. Tirei o selo e guardei o selo na gaveta para usar noutro e devolvi-lhe o contrato. Atirei-lhe o contrato e disse: “desaparece”. E assim foi. Só posso acrescentar – e não vou dizer mais nada – que é da área do fado.

Qual foi a canção que lhe deu mais dinheiro nestes 50 anos?
Nestes 50 anos, há duas canções que me deram mais dinheiro: ‘Bem Bom’, das Doce, e a ‘20 anos’, dos Green Windows. Logo a seguir vem o ‘Pensando em Ti’, o ‘Olá, Então Como Vais?’, que escrevi para gravar com o Paulo de Carvalho, e o ‘Papel Principal’, da Adelaide Ferreira. Depois talvez o ‘Recordar é Viver’ do Victor Espadinha. São talvez as seis canções que me deram mais dinheiro durante estes anos.

Dava para comprar uma casa com cada uma delas?
Não, dava para comprar uma divisão da casa. As seis todas juntas davam para comprar uma casa. Uma boa casa. Quando falo de uma boa casa, imagino uma casa independente, com jardim, enfim daria para uma casa dessas se juntasse o que eu ganhei com essas 6 canções.

“Tive pegas muito grandes com artistas. De repente, as coisas descambavam e havia pontapés nas portas”

Com Carlos Paião no início dos anos 80
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Com Carlos Paião no início dos anos 80

Arquivo pessoal

Com Suzanne Vega em 1988
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Com Suzanne Vega em 1988

Arquivo pessoal

Com Juan Luis Guerra em 1991
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Com Juan Luis Guerra em 1991

Arquivo pessoal

Com Bryan Adams nos anos 00
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Com Bryan Adams nos anos 00

Arquivo pessoal

Com Sting nos anos 00
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Com Sting nos anos 00

Arquivo pessoal

DESCOBERTO POR JAY-Z

Em vésperas de cumprir meio século na música, Tozé Brito foi informado – pela BLITZ, nem de propósito... – que Jay-Z tinha usado um excerto de uma música do Quarteto 1111, ‘Todo o Mundo e Ninguém’, num tema do seu mais recente álbum, “4:44.” As expectativas da compensação por tal gesto por parte do artista norte-americano são, no entanto, muito realistas por parte de alguém que entende perfeitamente como funcionam as dinâmicas dos direitos de autor.

Já chegou algum cheque de Nova Iorque?
Ainda não. Virá este ano, porque como ela é do ano passado fecharam-se contas a 31 de dezembro e agora, em junho, começarei a receber alguma coisa.

O que é que é expectável receber, tendo em conta a dimensão do artista em causa?
Não faço a mínima ideia. O que nós temos da canção é uma percentagem habitual nestes casos, que não é nada do outro mundo, mas é muito bom. Estamos a falar de 25%, perfeitamente aceitável para aquilo que nós fizemos: servir de base em cima da qual o Jay-Z criou uma canção, uma outra canção em cima de um loop de quatro compassos nossos. Com as nossas vozes, comigo a tocar piano e com o Zé Cid a tocar bateria, que é coisa que ninguém sabe, é que aquilo que se ouve no ‘Todo Mundo e Ninguém’, que é a canção que o Jay-Z pegou... Quem está neste mundo sabe as percentagens que em termos de publishing se utiliza para este tipo de casos. De valores não faço a mínima ideia; estamos a falar de uma realidade que me ultrapassa completamente porque eu nunca me vi metido em cavalarias desta dimensão.

Ainda não sabe se é uma mariscada ou umas férias valentes lá fora...
Não faço a mínima ideia. Espero que sejam umas férias valentes lá fora, não porque eu esteja aqui desesperadamente à procura de dinheiro. O que me deu mais gozo foi ser o Jay-Z e não o G-Eazy, por exemplo, que agora está na moda. Já agora que seja o Jay-Z, não é?

Como é que foi quando chegou a casa e disse aos netos “estou no disco do Jay-Z”?
Ninguém queria acreditar. Para além de netos que estão cá, a minha mulher é inglesa e tem toda a família dela a viver Inglaterra. Tenho uma série de sobrinhos-netos porque a minha mulher é uma de dez irmãs e irmãos. Quando em Inglaterra se soube, foi a histeria completa nas redes sociais com os meus sobrinhos a dizer “o Jay-Z pegou na canção, não pode ser”. Estava tudo histérico e eu: “pode ser, acontece”. É preciso sorte, como é evidente. Isto é uma agulha num palheiro. Encontraram a nossa canção, minha e do Zé Cid, como podia ser uma italiana, uma francesa ou uma espanhola. Mas pronto, foi a nossa, tivemos essa sorte.