Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Linda Martini

Rita Carmo

Os Linda Martini chegaram aos 15 anos mas ainda são “uma banda de acasos”. A entrevista BLITZ na íntegra, com vídeos

“Quando começámos esta banda, estavam a nascer as crianças que agora têm 15 anos”. A BLITZ falou com o quarteto de Lisboa sobre as novas canções mas também sobre um percurso firme e elogiado na música em Portugal. O quinto álbum dos Linda Martini, homónimo, está quase aí

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

“Quando começámos esta banda, estavam a nascer as crianças que agora têm 15 anos”. Uma entrevista aos Linda Martini pode partir sempre do momento presente, mas não há como não viajar até ao passado (não fossem os quatro músicos amigos de longa data) e torna-se também impossível escapar ao futuro. “Temos pessoas nos concertos com 14 anos”, continua o baterista, Hélio Morais, “há pessoas que ainda não eram nascidas quando começámos. É muito engraçado perceber isso”. A reflexão chega no seguimento de uma discussão sobre a renovação do público que observam objetivamente nos concertos, mas que a banda diz sentir também nos contactos que recebe via redes sociais.

Num momento em que Morais, André Henriques, Cláudia Guerreiro e Pedro Geraldes apostam forte num álbum homónimo – o quinto longa-duração da discografia – a BLITZ falou com o quarteto de Lisboa sobre coisas tão díspares quanto a decisão de ir gravar as novas canções para a Catalunha, a “verdadeira Linda Martini” que surge finalmente na capa, o “single dos concertos” ‘Cem Metros Sereia’ (o tema do álbum “Casa Ocupada”, de 2010, continua a ser o maior momento de comunhão com os fãs nos espetáculos), a competição saudável com outras bandas (nomeadamente o amigo Legendary Tigerman, com quem andaram recentemente em digressão, e os extintos Vicious Five) ou a visão que têm para o futuro.

Quisemos mostrar a verdadeira Linda Martini na capa do álbum porque já estávamos fartos de responder à mesma pergunta”, Pedro Geraldes

Duas perguntas numa: por que razão decidiram mostrar agora, finalmente, a verdadeira Linda Martini e que argumentos tinha este disco para vos convencer a fazer dele o vosso registo homónimo?
Hélio Morais
– A culpa inicial será do Pedro, a única pessoa que ainda fala com a Linda Martini. Foi através dele que tivemos contacto com o nome Linda Martini e soubemos da existência de uma pessoa com esse nome. Num casamento em 2014, tirou-lhe uma foto e pôs no Instagram com uma referência do género “a verdadeira Linda Martini”. Depois, o João Guedes, que acabou por fazer o artwork deste disco, sem saber, disse “isto dava capa de disco”.
Pedro Geraldes – Essa vontade de mostrar a Linda Martini surgiu, se calhar, porque já existimos há algum tempo e continua a ser uma questão recorrente… Já estávamos um bocado fartos de dizer a mesma coisa. Aliás, já inventávamos respostas para nos divertirmos um bocado.
Cláudia Guerreiro – Mas na verdade arranjámos uma boa maneira de voltar a esse tema, não é?
PG – Também procuramos encerrá-lo, de alguma forma. Há uma cara e é, realmente, a pessoa que nos emprestou o nome. Eu tinha-a conhecido há pouco tempo, quando começámos… E, ao procurar um nome, achámos “podia ser isto”. Perguntámos se podíamos usar e ela cedeu-nos o nome. Agora cedeu uma fotografia tirada em 2014, embora não pareça muito desta época.

E a Cláudia também já devia estar um bocadinho farta de ser “a Linda Martini”…
CG – Não, porque isso normalmente dava-me bons quartos de hotel. Não tinha lado negativo, só positivo. Agora acabou, não é? É uma pena. Vou ter quartos como os deles.
HM – Não porque o pessoal dos hotéis não tem necessariamente de ler sobre música.
CG – Ah, então estou safa.
André Henriques – Quando ainda estávamos à procura do nome certo para o disco, uma coisa ficou assente entre todos: fazia sentido ser homónimo mas só se a mostrássemos na capa. Se não tivéssemos conseguido falar com a Linda e ela não nos tivesse cedido a foto, acho que não tínhamos chamado ao disco “Linda Martini”. Ou seja, não foi por falta de imaginação ou de ideias para outro nome, havia muitas, foi mesmo a ideia de pegar na pergunta que mais vezes nos fizeram ao longo do tempo, “quem é a Linda Martini?”, “porquê Linda Martini?”… Desta vez, metemo-la na capa.
PG – E é quase como se fosse um recomeço. Com “Sirumba” [2016], ficámos os quatro muito mais focados na banda, quase exclusivamente… Mas esse álbum é como se fosse essa brincadeira do jogo de rua. Neste, sinto que já estamos lá todos e é quase como se fosse um “vamos começar tudo de novo, outra vez”. E daí, também, o disco ser homónimo, coisa que habitualmente é mais de um primeiro disco.
HM – E é também um recomeço na medida em que iniciámos, neste ano que passou, outras etapas da nossa vida enquanto banda. Mudámos de editora e de management, aconteceram uma série de coisas… então acho que é tipo “OK, vamos marcar esse momento aqui, cristalizamos também nisto”. Todas estas análises acabamos por fazer muitas delas à posteriori.
PG – Nas entrevistas.

Em “Sirumba” voltaram ao período da vossa vida em que se cruzaram na escola. Este novo disco foi apresentado com ‘Gravidade’, canção que fala sobre o envelhecimento. É um disco de presente ou um disco de futuro?
AH
– Acho que escrevemos sempre para o agora, não é? É a forma como queremos estar e sabemos fazer música. Assim que acabamos um disco e começamos a apontar as armas para outra coisa, queremos, no fundo, cristalizar aquele momento. Nunca temos uma carta de intenções nem partimos para uma sala de ensaios a dizer “OK, o último disco foi assim, agora queremos fazer assim”. É sempre um recomeçar do zero, trazer ideias de casa e cozinhá-las, em conjunto, na sala de ensaios.
CG – Na verdade, não é recomeçar do zero, é um bocado continuar aquilo que fizemos… Desculpa interromper-te. É sempre assim que começamos a fazer um disco, não é? Continuamos o que estávamos a fazer e depois, a meio, parece que há algo que vira e aquilo começa a ir para outro lado. A continuação acaba por te fazer encontrar um novo caminho.
AH – Sim, claro que nunca começas do zero. Refiro-me a trazer novas ideias para cima da mesa. Claro que temos toda uma herança para trás que mesmo que quiséssemos por debaixo do tapete não conseguíamos.
PG – Eu acho que o disco é muito atual. Era disso que estávamos a falar. E é mais direto também.
HM – Essas questões todas vão de cada um e dependem dos dias, na verdade. Se me perguntares, se calhar não sinto este disco tão mais direto do que os outros… Mas posso dizer-te isto hoje e amanhã senti-lo de maneira diferente, porque vais ouvindo o disco e descobrindo coisas novas, porque não tocaste todos os instrumentos. Portanto, não consigo fazer uma afirmação tão forte sobre este disco nesse sentido. Acho que foi o disco que fizemos agora, os quatro, numa situação nova que foi compor em residência. Foi a primeira vez fomos para um sítio só pensar em música. Isso acho que se espelha bem no disco.
AH – Há bocado perdi o raciocínio mas já me lembrei do que ia dizer. Eu não nos considero saudosistas. Nenhum de nós tem aquela coisa do “antigamente é que era bom” e agora os novos tempos… mas estar numa banda, e mais uma vez um lugar-comum, é como partilhar uma família. São muitos anos de convivência direta, a trabalharmos juntos e a estarmos, também, juntos fora do trabalho. E como em todas as famílias, quais as histórias que vêm à baila? As que tens em comum. Por isso é que nos nossos discos aparecem quase sempre referências que partilhamos, que não são saudosismo. O “Casa Ocupada” era uma referência ao hardcore e às casas ocupadas onde tocámos. No “Olhos de Mongol” tínhamos sons no início que eram da estação de Queluz-Massamá. No “Sirumba” temos o jogo que jogámos. Aqui vamos buscar a Linda Martini… Não é olhar para o passado para nos reinventarmos, é olharmos para o que nos é comum e as coisas que partilhamos extra música e deixarmos que isso entre e se infiltre naquilo que estamos a fazer no momento.
CG – E que não morra e não fique só a pertencer ao passado… Que continuem sempre a pertencer ao presente.

No dia em que chegarmos a um concerto e à frente só estiver gente da nossa idade quer dizer que a banda está a morrer”, Hélio Morais

Quero tudo ao mesmo tempo” em ‘Boca de Sal’ parece uma reflexão sobre o que se passa no mundo, em termos sociais, neste momento…
AH
– É sempre difícil falar sobre isso. A escrita é sempre um ponto de vista. Posso estar a falar de uma coisa que me aconteceu, ou ao Pedro ou à Cláudia, mas como é o meu ponto de vista, se calhar, aquilo até pode dizer mais sobre quem está a partilhar a visão do que sobre a pessoa visada. Isto para dizer que as letras partem sempre desse universo mais pessoal. Quando escrevo nunca estou a pensar na humanidade, onde é que isto nos leva ou nos problemas de cada um porque não os conheço. Posso ler nas notícias mas não os sinto na pele. Quanto à interpretação que fizeste, não tenho nada acrescentar. Meto só um ponto final e assenta-lhe que nem uma luva. Só no “Sirumba” larguei um trabalho que me consumia horas e horas. Não era feliz a fazê-lo e só há pouco tempo decidi ter uma vida mais ligada àquilo que gosto de fazer. Se calhar, essa música partiu daí, de estar num lado por razões financeiras e noutro por razões afetivas ou de compensação emocional. Às tantas, como tinha de estar a cumprir a 100% nos dois lados, comecei a sentir que não estava em nenhum. Essa ideia de querer tudo ao mesmo tempo teve muito a ver com isso.

Pegando ainda na questão do envelhecimento, há uma outra canção, ‘Domingo Desportivo’, na qual cantas “até faço um bonito cadáver”. A morte esteve, de alguma forma, presente neste disco?
HM
– Isso não sei, mas acho que essa tem mais a ver com a morte anunciada por outras pessoas. É normal que quando és surpresa, novidade, chegues às pessoas de uma determinada forma. E há sempre aquele gajo que diz “isto no EP é que era fixe”… Ou [no caso] nos livros “gostei mais do primeiro romance do gajo, ou do segundo”. Depois, já não te surpreende porque já conheces e, às vezes, esqueces-te de olhar para o valor intrínseco da coisa, de dar oportunidade. Acho que todos fazemos isso. É normal. E cada vez mais, como queremos tudo ao mesmo tempo, lá está, queremos estar a par das novidades todas, esquecemo-nos de dar oportunidade às coisas que já não são de hoje mas continuam válidas. Isso acontece com todos os artistas, acho. Manteres-te relevante é sempre complicado, como é óbvio. E acho que foi uma piada que fizeste com essa letra.
AH – Isso partiu de uma coisa… Um dos nossos técnicos de som, o João Tereso, que nos acompanhou desde sempre e esteve nas residências e na gravação, além de técnico de som e outros talentos que tem é enófilo. É ele quem escolhe sempre os vinhos ao jantar nos restaurantes. E, há uns tempos, em conversas de vinhos, falou-nos no conceito de “podridão nobre”. Normalmente são os vinhos do norte da Europa, de climas muito frios… Apanham a uva gelada, em estado de podridão, mas as bactérias que as atacam tornam o vinho mais doce. Isso foi um bocado a metáfora para ilustrar aquilo que estava a dizer, aquela ideia de que, às vezes, há uma coisa que até podes achar que é velha ou que sem utilidade mas que, se olhares duas vezes, pode ser que te surpreenda. Não é uma ideia de morte, é mais de morte anunciada.

E a ideia de irem gravar para a Catalunha, como surgiu?
HM
– Por coincidência. Nas duas residências que fizemos [em Amares e na Arrábida], gravámos sempre os esqueletos finais do trabalho que acontecia diariamente. Depois, fomos ouvir e sentimos que faltava um bocadinho de rock. Pensámos noutros produtores, mas foi o Santi [Garcia] quem acabou por coproduzir o álbum connosco… Ele já tinha misturado discos de Linda Martini mas, pelo decorrer natural da vida, não fez mais nada connosco. Veio do punk e do hardcore, mas já gravou muita coisa do indie rock espanhol, especialmente da BCore Disc de Barcelona. Precisávamos de alguém que percebesse o que estávamos a fazer agora mas também de onde viemos, e como conjugar estas duas coisas. Nem tinha partilhado com eles uma mensagem que ele me tinha mandado dois meses antes, mas quando conversámos sobre produtores acabei por lançar o nome dele. Fez sentido para todos e fomos logo ouvir os discos que ele andava a gravar.
PG – Mas também há vontade, desde os primeiros discos, de termos um álbum a soar mais àquilo que somos ao vivo, uma coisa mais visceral e menos polida. O “Sirumba” fugiu bastante dessa experiência e, se calhar, um bocadinho em reação, achámos que o Santi poderia imprimir esse cunho.

É engraçado ver, com o passar dos anos, o vosso público a renovar-se nos concertos. Sentem que têm vindo a marcar uma geração com a vossa música?
AH
– Vamos tendo essa ideia de que o público se renova. Nos concertos, notas que quem vai para a fila da frente são, tendencialmente, as pessoas mais novas, que chegam mais cedo e são acérrimas defensoras da banda. Quando lançámos o “Turbo Lento”, ali no Pavilhão Atlântico, vimos que o ‘Ratos’, o single na altura, ecoou mais forte do que o ‘Amor Combate’. Foi aquele baque de realidade “há aqui muita gente que conhece melhor isto do que aquilo que fizemos há não assim tantos anos”. Isso tem tendência a acontecer. Mas sentimos também que há muita gente da nossa idade, que cresceu connosco e continua a acompanhar-nos.
HMGosto de fazer um exercício quando estou no palco: ir olhando para o público antes de entrar… Consegues ver que a idade vai crescendo da frente do palco até à régie. Acho isso muito bom porque no dia em que chegarmos a um concerto e à frente só estiver gente da nossa idade quer dizer que a banda está a morrer. Porque não estás a renovar o público. Até podes ser uma banda de culto da tua geração e envelhecer com ela, mas não estás a chegar a pessoas novas. Uma coisa que me deixa muito contente é perceber que à frente estão os miúdos que gostam mesmo de gritar aquelas coisas e que se determinada publicação não fizer uma review do concerto vão lá chatear. E depois, mais para trás, tens o pessoal que já não tem tanta paciência para levar encontrões e, ao mesmo tempo, já percebeu que o som mais fixe da sala está ao lado do técnico de som. As pessoas procuram coisas diferentes no concerto. É fixe porque é democrático também.

‘Cem Metros Sereia’ é o single dos concertos”, Cláudia Guerreiro

Há sempre um momento de comunhão arrepiante nos vossos concertos; quando o público vos devolve a letra de ‘Cem Metros Sereia’. É algo a que já ficam indiferentes ou ainda vos comove?
CG
– É por isso que é difícil largar essa música.
PG – Acaba por ser sempre diferente, porque depende muito da adesão, não é? Chega ali uma altura em que a música acaba, alguém continua, e logo aí há essa comoção e de repente é quase como se eles fossem a banda e nós estivéssemos a acompanhar. Isso acontece muitas vezes.
CG – E é o que muda um concerto num auditório. Às vezes, é pena não tocar essa música antes porque toda a gente se põe de pé e se esquece que está num auditório.
HM – Acho bué piada a isso porque é tipo um devolver… Isto também é vosso, vocês também são este concerto.
PG – Mas eu acho mesmo isso. É quase como se eles fossem a banda e, de repente, somos nós a bater palmas e a tentar acompanhar o que estão a ditar. Porque continuam a cantar…
HM – A Cláudia à luta sempre com o tempo, porque tem de o mudar de acordo com o público.
PG – Deixamos a coisa ir abaixo, naturalmente, porque acabou, não é? Claro que há sempre aquela dúvida “isto pode continuar… ainda vai ter aqui um momento”. E depois há isso: vamos devolver-vos o que nos estão a dar.
AH – E há uma coisa gira nessa música e noutras, que não acontece só connosco obviamente, esta ideia de que o que conduz é mesmo a emoção. Porque uma música que não tem formato de single, nem nunca o foi, nunca saiu de dentro do disco, ou seja, não teve influência mediática para chegar às pessoas, é quase sempre a mais aplaudida.
CG – No concerto, é quase o single. É o single do concerto.
AH – É o single do concerto, apesar de nunca a teres comunicado [como tal]… Perde-se tanto tempo a desenhar estratégias nas editoras a ver qual é o single ou qual poderá ter um formato mais audível dentro de um conjunto de canções. É giro pensar nisso porque se fores ao osso das coisas, a música, como outras formas de expressão, é passar uma emoção. É isso que estamos a fazer.

E não é propriamente uma canção clássica.
AH
– Não é uma coisa clássica, de verso refrão… Quer dizer, acaba por ter um refrão porque há um pregão que se repete.
CG – Mas é um refrão no fim.
HM – É punk instrumental até à parte do fim.
AH – E é brita e tinha tudo para não ser uma canção, mas acaba por ser uma das nossas canções mais fortes por isso. É muito engraçado pensar nisso: como é que, conduzido pela ideia de passar uma emoção, consegues chegar às pessoas desta maneira sem ninguém pelo meio, sem intermédios. Só as pessoas ouvirem aquilo e passarem de boca em boca.

O facto de a música portuguesa estar a fervilhar com novas vozes e uma oferta variadíssima é um pontapé no rabo para bandas que, como vocês, já vão no quinto álbum?
PG
– Mais do que essa cena de competição com os outros, que nos dá algum combustível mas não é o que nos leva a fazer música, aquilo que contribui para não haver estagnação é termos conseguimos, neste disco, incorporar outras influências, que sempre estiveram presentes em nós como ouvintes mas só agora conseguimos transportar para a nossa música. Em relação à influência que a quantidade de boa música existente em Portugal tem na nossa música, acho que sim.
HM – A mim, pica-me.
AH – A mim também.
HM – Houve uma altura em que havia uma picardia saudável com os Vicious Five… Até estávamos na mesma agência. Nós tínhamos mais público mas eles tinham mais mediatismo. A concorrência faz-nos ser melhores. “Aquele gajo fez um grande disco, quero fazer um grande disco a seguir, também”.
AH – Na tour que fizemos agora com o Tigerman, quando ele tocava primeiro ficávamos “porra, este tipo deu um concerto do caraças”. Dá-te aquela pica... Não é “vou arrasar com o gajo e ninguém se vai lembrar dele a seguir”, é aquela cena de “também quero dar um grande concerto”. No ano em que saiu o “Sirumba” ouvi, consumi e rodaram lá por casa muitos discos portugueses e isso picou-me saudavelmente.

Somos sobretudo uma banda de acasos. Há muita coisa que de fora parece planeada e não é”, André Henriques

A vida dos Linda Martini é guiada a pulso num contexto geral em que ninguém sabe muito bem o que resulta e não resulta. Têm um plano, uma visão para o futuro ou as coisas vão-se atravessando no vosso caminho e adaptam-se a elas?
HM
– O que temos é muita certeza daquilo que não queremos. Depois, acho que é isso: as oportunidades vão surgindo e vamos aceitando aquelas que fazem sentido. Nunca fomos uma banda com planos a médio prazo sequer, porque nunca sabemos o que vamos fazer em disco. Não existe aquele tipo de planos de fazer um single para rodar nesta rádio ou um vídeo com o ator x para poder bater naquele público. Criamos o disco e depois olhamos para ele para ver qual a melhor forma de o trabalhar.
PG – Acho que os nossos planos são sempre de passos muito curtos. Acaba por ser: fazer músicas, ter material para poder construir um disco… Depois, temos um disco para mostrar ao mundo e para tocar, que é o que acontece neste preciso momento, e passa a ser essa a vontade… tocar o máximo possível, que o máximo de pessoas consigam ouvir. Como somos quatro também é sempre muito difícil conseguir fazer um plano a médio prazo.
CG – E também o que é que pode ser um plano de uma banda?
AH – Há bandas que projetam o seu futuro a médio, longo prazo…
CG – Sim, mas a ideia é sempre fazeres a coisa de modo a poderes continuar a fazê-la, de maneira a que a coisa não se esgote e não acabe.
AH – Há de haver alguém no mundo que diz “agora quero fazer um disco para ganhar um globo de ouro, para depois entrar na novela”… É um exemplo.
CG – Certo…

E há bandas que assinam contratos de vários discos…
HM
– Eu acho que somos mais pragmáticos.
AH – Sim. E acho que somos, sobretudo, uma banda de acasos… O Pedro ter reencontrado a Linda Martini há três anos, ter-lhe tirado uma fotografia e passado esses anos termo-nos lembrado disso é um acaso. O facto de termos reencontrado o Santi é um acaso. O facto de fazermos agora esta tournée com o Tigerman foi um acaso de feliz coincidência, porque estamos a partilhar a mesma equipa, a mesma editora e o mesmo management, e houve vontade de ambas. Sinto que muitas vezes somos empurrados, não no sentido pejorativo… mas as coisas acontecem. Agora, claro que não acontecem se não nos juntarmos para fazer música e perdermos tempo a dar cabeçadas uns aos outros. E nas paredes. A partir daí, somos muito fruto do acaso. Há uns dois ou três anos fizemos aquela residência no MusicBox, que foi muito falada porque rodámos a nossa discografia toda… Para nós, foi muito importante, foi quase aprender as lições para perceber o que queríamos fazer a seguir. Também foi um acaso: convidaram-nos e a ideia foi “olha, fixe, vamos tocar cada um dos três discos porque são três datas”. Há muita coisa que, de fora, até parece que é planeada e não é.
HM – Há sempre muitas ideias e depois quando surgem oportunidades como essa do MusicBox, lembramo-nos “OK, então porque não fazemos isto ali?”.
PG – E há outras que ficam pelo caminho, mas acaba por ser sempre uma coisa muito de reação, é verdade.
AH – Há uma série de coisas que se vão cruzando, por acaso, no nosso caminho. Nada é premeditado, mas percebo que, às vezes, até pareça que é. Agora, para elas acontecerem temos de trabalhar, de fazer música.
HM – Mesmo a questão da mudança de editora… Um exemplo muito pragmático: quando pensas que um determinado álbum ficava mesmo bem gravado com o produtor x em Los Angeles vais ver se alguém banca. Se há uma editora super motivada para fazer isso, a escolha é lógica. Ou seja, reagimos muito por pragmatismo, também. Depois de termos as coisas em mãos e uma intenção definida vamos à procura das ferramentas para a concretizar.

Os Linda Martini dão dois concertos - já esgotados - no Lux, em Lisboa, esta quinta e sexta-feira, partindo depois para Arcos de Valdevez, onde tocam no sábado. Dia 23 sobem ao palco do Hard Club, no Porto e dia 24 tocam no Auditório de Lousada. Já em março, atuam dia 3 no Teatro de Ílhavo, dia 9 no Cine Teatro Louletano, em Loulé, e dia 10 no Cine Teatro Municipal de Castro Verde.