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The Beatles: Portugal, 1968

Enquanto os Sheiks tocavam no Casino Estoril, Paul McCartney passeava-se sem sobressalto pelo Algarve. Luís Pinheiro de Almeida, o maior especialista da banda em Portugal, traça o retrato do contexto musical português e descobre o impacto dos Beatles entre nós, a seis anos da revolução de abril. Foi há 50 anos

Luís Pinheiro de Almeida

Luís Pinheiro de Almeida

Jornalista veterano

Os Sheiks cumpriam uma residência no Casino Estoril; o Quinteto Académico fazia as Recepções aos Caloiros; Simone de Oliveira cantava no seu restaurante lisboeta, Candelabro; Madalena Iglésias regressava insatisfeita do III Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro; Raul Solnado editava o EP O Cabeleireiro de Senhoras.

Maysa, brasileira, cantava com o Thilo's Combo na Galeria 48, em Lisboa; Gigliola Cinquetti chegava para um programa na RTP; Baden Powell e Vinicius de Moraes estiveram juntos e ao vivo no Teatro Villaret; Mary Hopkin esteve para vir, mas não veio.

No Coliseu apresentava-se Holiday On Ice («um extraordinário espectáculo cheio de beleza, ritmo, cor, alegria, luxo e emoção») e no Tivoli o Ballet Soviético dos Cossacos da Ukrania («110 figuras em cena»), sob a direcção de Pavel Virsky. Na boîte da moda, Caruncho, estreava-se o Quartet Be-Bop.

Por esta altura, a anteceder o Natal, as editoras lançavam grandes campanhas publicitárias para LPs a 125$00 (€ 0,62) e também para EPs, mas sem indicação de preço. Nada de Beatles, num ou noutro caso. Nos extended play 45 rotações, podem observar-se, no território da chamada música pop/rock, nomes como Mamas and Papas («Dream Little Dream Of Me»), Kinks («Days»), Hollies («Listen to Me»), Turtles («Eleonore»), Traffic («No Name, No Face, No Number») e nada mais. Do pop/rock português, apenas os Zoo («Baby Come Back»).

Na rádio, ouvidos postos no programa Em Órbita (Rádio Clube Português) e Página Um e 23ª Hora, na Rádio Renascença. Na RTP... nada! o Zip-Zip só nasceria em Maio do ano seguinte.

Famosos gadelhudos britânicos

Era este, basicamente, o (triste) espectáculo do nosso espectáculo musical. Fechado sobre si próprio, o mercado discográfico nacional não abraçava a mais simples inovação estrangeira, quanto mais um álbum duplo, The Beatles, um verdadeiro luxo asiático para as bolsas portuguesas.

No final de 1968, já Portugal vivia as primeiras espiras da chamada «primavera marcelista». No seu primeiro grande discurso político, Marcelo Caetano prometia chamar a colaborar com o Governo «todos os bons cidadãos deste país» e «criar um clima político sem ódios, sem retaliações que permita um convívio normal entre os que professam opiniões diferentes». Pura ilusão: manteve-se a censura à Imprensa e a proibição de constituição de partidos políticos, a liberdade de reunião e de manifestação estava igualmente cerceada. A Democracia (ainda) não estava a passar por aqui.

A juventude portuguesa continua a ser mobilizada para a Guerra Colonial e a que permanece nas Universidades sofre a repressão policial «as autoridades reprimirão, com a firmeza que for necessária, qualquer tentativa de alteração pública ou da regularidade da vida universitária» (cancelamento das Universíadas, encerramento do Técnico).

É neste quadro que surge The Beatles, o chamado «álbum branco» dos Beatles, que passa mediaticamente despercebido em Portugal. Rigorosamente ninguém fala nele, há apenas referências a «vendas fantásticas» nos textos de suporte aos topes. Primeiro álbum-duplo dos quatro de Liverpool (e não da história da música como os fãs dos Beatles gostariam que fosse), foi oficialmente editado na Grã-Bretanha no dia 22 de Novembro de 1968, mas só conheceu versão portuguesa em 1976, oito anos mais tarde. A exiguidade do mercado nacional aliado ao elevado preço do disco levou à prudência editorial.

Como era recorrente à época, a estratégia das editoras era a de importar um número reduzido de LPs para satisfação das classes altas e depois desdobrá-los em EPs. Curiosamente, a EMI, relativamente ao «álbum branco», só fez, na altura, um único EP e mesmo assim só o editou a 8 de Março de 1969. Em 1968 não editou qualquer disco dos Beatles. O EP inclui «Ob-La-Di Ob-La-Da» (talvez a canção mais comercial do disco), «Julia», «While My Guitar Gently Weeps» e «Back In The USSR».

Quem primeiro deu pela saída do álbum foi o Diário de Lisboa que a 29 de Novembro portanto, logo uma semana depois da edição publicou um telegrama da Reuters, datado de Londres: «O novo álbum duplo dos Beatles, do qual já foram feitas internacionalmente encomendas no valor de um milhão de libras (70 mil contos) passou para o terceiro lugar na tabela britânica de classificação de álbuns de discos de "Long Playing", apenas três semanas depois de ter sido lançado no mercado.

Contudo, o álbum dos Beatles tem ainda um longo caminho a percorrer para ultrapassar os três milhões de discos vendidos, conseguidos pelos famosos guedelhudos britânicos nos Estados Unidos (com o seu acetato simples que inclui a canção "Hey Jude") somente em dois meses».

Paul McCartney no Algarve

O mais curioso, do ponto de vista da perspectiva portuguesa, é que Paul McCartney, mal terminou as suas tarefas de promoção do álbum, veio de férias para o Algarve, onde chegou a 10 de Dezembro em avião fretado. «Apenas dormir, comer, apanhar banhos deste belo Sol, que considero incomparável no Mundo, e nadar, já que sou um entusiasta da natação, e, sempre que possível, não dispensarei o peixe», foi assim que Paul McCartney confessou as suas intenções ao Diário Popular.

O Beatle não falou do «álbum branco», nem ninguém lhe perguntou, mas revelou que a banda estava a preparar para 1969 «várias digressões pela Europa e pela América, para as quais já assinaram contratos». Tal nunca veio a acontecer, no que seria o regresso dos Beatles aos concertos ao vivo depois de Candlestick Park (San Francisco), a 29 de Agosto de 1966. E foi durante essa semana de férias na Praia da Luz, que o Beatle, numa «noite de copos» escreveu «Penina» para os Jotta Herre (disponível na versão destes na compilação All You Need Is Lisboa). Mas isso são contas de outro rosário...

Hoje em dia não é fácil compreender como a presença em 1968, no Algarve, de Paul McCartney, então a maior estrela da música, só tenha verdadeiramente atraído a atenção do Diário Popular, da revista Rádio & Televisão e do programa Impacto, da Onda Média do Rádio Clube Português. Inacreditável! A detenção de John Lennon por posse de droga, «Yellow Submarine», e o êxito de Mary Hopkin («Those Were The Days») mereceram maior destaque.

Por curiosidade, sublinhe-se que exactamente no mesmo dia em que The Beatles Double LP (como era então citado pela imprensa portuguesa) foi editado na Grã-Bretanha, o Programa A da Emissora Nacional transmitia das 19H50 às 20H00 um pequeno apontamento pomposamente intitulado «Êxitos dos Beatles». Coincidências. «Hey Jude», sim. Editado a 26 de Agosto de 1968, ocupou alarvemente as ondas da rádio portuguesa, os bailes de garagem, as festas estudantis, o repertório das bandas pop nacionais, à custa, também, de ter sido banda sonora de um anúncio da Torralta. Quanto a The Beatles, o álbum, ainda hoje não é devidamente conhecido.

Publicado originalmente na BLITZ de outubro de 2008