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Lorde por Lorde. Como ela se fez mulher

Como Ella Yelich-O’Connor, a artista que se revelou em 2013 com 'Royals', resistiu à pressão da fatídica 'segunda tentativa' e se superou a si mesma. Um retrato franco e pessoal, na primeira pessoa, de um ano da vida de uma estrela cada vez maior que regressará a Portugal em junho

Lorde

Agosto está a chegar ao fim, quando tenho o esgotamento nervoso e voo para as Fiji. O ar é denso e húmido. O álbum é um desastre já não está, de todo, nas minhas mãos. Eu e uma amiga guiamos à vez um carrinho de golfe pela ilha, a velocidades desenfreadas. Caminhamos na praia e apanhamos fragmentos de coral e pedaços sarapintados da cor dos tucanos de casca de caranguejo. O céu queima, enquanto eu o fito de um barco de pescadores, e tremo de medo.

O sophomore slump, ou a Síndrome do Segundo Álbum Difícil, é uma noção bem documentada de acordo com a qual a segunda tentativa levada a cabo por alguém, depois de uma primeira bemsucedida, geralmente não resulta tão satisfatoriamente. Sou o género de pessoa que consulta com frequência o WebMD para obter o diagnóstico de uma doença, de modo que permaneço acordada, graças a um fornecedor de internet fijiano, a tentar encontrar uma justificação no WebMD para não ter feito um bom álbum. Leio acerca de um fenómeno estatístico conhecido como regressão à média. «Em estatística», dizme a Wikipédia, «a regressão à média é o fenómeno que se apresenta quando uma variável extrema aparece na sua primeira medição, esta tenderá a ser mais próxima da média na sua segunda medição».

Basicamente, portanto, é sempre a descer a partir deste ponto. Fecho o meu portátil e perfuro o paraíso com um grito.

Prazeres de férias, antes do regresso

Prazeres de férias, antes do regresso

Para manter aqui o jargão estatístico, a variável (o meu primeiro álbum, Pure Heroine) foi, na sua primeira medição, extrema. Pure Heroine, um álbum que fiz quando tinha 16 anos, abriu-me as portas do mundo antes de eu poder legalmente comprar uma cerveja. Da noite para o dia, comecei a voar para toda a parte. Ouvia-me a cantar em superfícies comerciais e em casas-de-banho públicas, se estas tinham som ambiente. Os meus ídolos queriam falar comigo, ou mais, arrancar-me a pele do pescoço e beber-me viva. Não conseguia livrar-me da sensação de que tinha sido atingida por um raio formidável de origem divina, de que não o merecia, não seria nunca capaz de conter em mim gratidão suficiente para equilibrar a coisa. Tornara-se o tipo de testemunho que define uma vida. E tinha de ter seguimento.

20 anos, bons amigos bons cocktails

20 anos, bons amigos bons cocktails

«Pensa nisso um bocado», disse o Jack, emborcando um smoothie com a tampa pousada ao lado, «e verás que não faz qualquer sentido». «Bom», disse eu, «acho que tem mais a ver com dar às pessoas uma ilusão de segurança do que com segurança propriamente dita». «Exatamente», disse ele.

«Eu recuso-me a usar cinto de segurança, e quando tentam obrigar-me a tirar os auscultadores, ignoro-os, até a coisa acabar em discussão. Nada disto te pode ajudar, se o avião está a cair».

Ele abre a sessão, faz aquela coisa com o lábio que o põe a vibrar, e para. «Além disso, faço uma limpeza meticulosa do assento, da janela e de toda a área à minha volta. Sim, sou um companheiro de voo maravilhoso.

Mas achas que, quando limpam o avião e deitam fora o lixo todo dos passageiros, fazem algo que se assemelhe minimamente a uma desinfeção bacteriana? Não me parece».

É novembro, ou é junho. Estamos em Brooklyn Heights, no estúdio em casa do Jack, ou na Electric Lady na Village [Nova Iorque]. Anos de dias e noites com a mesma pessoa tornaram-se indistintos um aglomerado morno e macio, e passar quase todo o meu tempo com o Jack é a medida da normalidade. Eu e ele escrevemos e produzimos o disco basicamente sozinhos.

Leva-nos perto de dois anos. Sentamo-nos ao piano e discutimos acordes e linhas melódicas, adicionando letras à medida que a temperatura começa a arrefecer.

O Jack conhece cada um dos meus segredos. O nosso processo é intenso, químico uma quantidade grande de movimentos largos da minha parte, braços a gesticular, uma mão no ombro do Jack, a beliscá-lo quando começamos a chegar a algum lado. De nós, ele é o músico mais abrangente, mais veloz. Eu sou mais lenta, mais linear, militante dos detalhes, explicando com firmeza por que razão uma certa palavra que pode soar melhor num espaço deixa um verso inteiro numa bagunça. Estamos metidos a fundo neste álbum estúpido, ligados ao seu desabrochar lento e lindo. Nunca digo isto, mas adoro-o tal como é.

Jack Antonoff, produtor executivo do álbum

Jack Antonoff, produtor executivo do álbum

Vivi em Nova Iorque, em vários hotéis, durante quase um ano. Estes meses, o seu esplendor! As estações, e como elas se seguiram umas às outras! Sinto-me um bocadinho estúpida a falar de Nova Iorque. Significa tanto para tantas pessoas ninguém precisa da minha opinião insubstancial. Mas em Street Haunting, Virginia Woolf falava de como «... já não somos bem nós mesmos... ao sairmos de casa num belo fim de tarde entre as quatro e as seis, abandonamos a identidade pela qual os nossos amigos nos conhecem e tornamonos parte desse vasto exército republicano de vagabundos armados, cuja companhia é tão agradável depois da solidão do nosso próprio quarto». Para mim, esse era o poder da cidade. Ao deixar o casulo do estúdio e encontrar amigos para jantar, chocava-me sempre a vida daquilo, corpos de verão a emergir do metro, telemóveis e vendedores de rua, o vapor dos cigarros eletrónicos. No inverno, enrolava o cachecol à volta da cara e juntava-me aos grupos que se amontoavam na plataforma, a ouvir o Graceland na linha F em direção à zona norte da cidade, gelada até aos ossos e a perguntar-me se poderia haver algum sítio melhor do que este.

Portanto, houve Nova Iorque e houve aqui. E, por mais grata que estivesse, no ano passado, pelo tempo que passei fora, nada se comparou com o regresso a casa. Nunca tendo estado aqui por mais do que um mês de cada vez, a lua-de-mel nunca chegando propriamente ao fim, eu era uma pateta apaixonada. Sorvia as ruas, a luz, o meu bairro com as suas casinhas brancas ridículas, e os hibiscos. Ganhei uma amiga por correspondência, a filha de uma família que vive na minha rua há cinquenta anos. As suas pequenas mensagens iluminam o meu frigorífico.

Fui sozinha ao New World, na Franklin Road, e demorei-me eternidades. Vagueei por lá, apalpando suavemente uvas e tomates, comprando ramos enormes e exorbitantemente caros de gipsofilas para juntar à quantidade enorme de outros iguais a secar pela casa inteira. Depois de meses de serviço de quartos, o ritual do supermercado era de tirar o fôlego.

Vestida para o outono de Nova Iorque em 2016

Vestida para o outono de Nova Iorque em 2016

O álbum estava quase terminado quando regressei a casa, já tardiamente, pelo Natal. A minha melhor amiga de infância teve um bebé, o meu afilhado. Apertei a mão dela durante seis horas e assisti à sua entrada no mundo. Ao andar para trás e para a frente no corredor, no meio das decorações brilhantes, com ele adormecido nos meus braços, senti enrolar-se à volta do meu coração aquilo que sentiria por ele para sempre. Durante algum tempo, tinha comparado, a brincar, o álbum a um bebé, usando uma série de metáforas que não compreendia; ocorreu-me quão tolo tinha sido pensar que um monte de ficheiros poderia ter alguma coisa a ver com esta pessoa pequenina embrulhada numa manta macia e azul, as longas unhas dos dedos das mãos, pálpebras como pétalas. Acontecesse o que acontecesse, apercebi-me, estava tudo bem. Era apenas um álbum. Eu haveria de fazer muitos mais e, com o tempo, estes viriam a assemelhar-se cada vez mais às imagens na minha cabeça. Era necessário arranjar uma metáfora nova.

Com o afilhado nos braços

Com o afilhado nos braços

As férias de verão passam rapidamente. Aqueles dez dias no final do ano estão entre os meus preferidos o frenesim todo, a doçura da despedida. A minha família vai lá ter uma das noites e ajudame a pendurar pequenas luzes e estrelas douradas na árvore.

Deitada de costas na marina silenciosa, oiço as partes do álbum que tenho no meu telefone e, depois deste tempo todo, desespero novamente um bocadinho com a sua qualidade. Leio o Bluets de Maggie Nelson: «Goethe descreve o azul como uma cor vivaz, mas destituída de alegria. "Pode dizer-se que perturba, em vez de animar".

Estar apaixonado pelo azul será, então, estar apaixonado por uma perturbação? Ou será o próprio amor a perturbação? E que espécie de loucura será, afinal, estar apaixonado por algo constitucionalmente incapaz de retribuir o amor?».

Reagindo aos resultados imediatos de "Melodrama" nos topes

Reagindo aos resultados imediatos de "Melodrama" nos topes

Na véspera de Natal, vamos os três ver um filme sobre extraterrestres. Quando acaba, saímos aos tropeções para a tarde lá fora, sonolentamente, os olhos turvos e ausentes. As nossas caras estão amassadas e os nossos pés movem-se sozinhos de regresso ao carro. Vejo-te a olhar para trás, para mim, do lugar do passageiro, e, por um só momento, registar-me como uma espécie de milagre. Fecho os olhos e deixo-vos falar, a interação das vossas vozes suaves o tipo de pequena dádiva que guardo durante muito tempo.

O álbum que acabei por fazer surpreendeu-me, parece-me. É intenso e exuberante, é technicolour. Tem alegria, e também dor. Espanta-me o ser tão sensorial.

É, de algum modo, uma celebração dos sentidos, algo devocional consegues sentir isto tudo e aguentar-te de pé! Há versos no disco que realmente adoro.

Deixo alguns deles aqui:

«Well, summer slipped us underneath her tongue / Our days and nights are perfumed with obsession»

«I am my mother's child, I'll love you 'til my breathing stops / I'll love you 'til you call the cops on me / But in our darkest hours, I stumbled on a secret power / I'll find a way to be without you, babe»

«So I fall / Into continents and cars / All the stages and the stars, I turn all of it / to just a supercut»

«I hate the headlines and the weather, I'm nineteen and I'm on fire / But when we're dancing I'm alright»

Sinto orgulho no Melodrama. Orgulho de como puxou por mim, e satisfação por não ter permitido que aquela pesquisa noturna na Wikipédia, quando estava nas Fiji, levasse a melhor. As pessoas ou vão gostar, ou não, mas ao menos nunca mais terei de fazer o «difícil segundo disco» outra vez. Todos os dias dou graças por ter a oportunidade de fazer o que faço; por, de entre todas as vidas, teres escolhido mudar a minha. Até ler isto é um ato de generosidade. Agora, é altura de fechar os olhos e começar a fazer força.

Estou a brincar.

Publicado originalmente na BLITZ de agosto de 2017