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Luís Severo

Rita Carmo

Luís Severo: 25 anos e canções para sempre. “Vivo entre a espontaneidade e a autocensura”

Em poucos anos, tornou-se um dos jovens autores mais aplaudidos da nova música portuguesa. Com apenas 25 anos, Luís Severo tem um mundo próprio que fomos conhecer, numa entrevista em que o autor de 'Boa Companhia' levantou o véu sobre o novo disco, a sair este ano

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Começou a fazer música na adolescência, aproveitando a "boleia" de plataformas como o Myspace para partilhar canções que, inicialmente, assinava como Cão da Morte. Depois de concluída a licenciatura em Sociologia, Luís Severo decidiu dedicar-se à música de forma "menos impulsiva". Desde então, lançou dois álbuns - "Cara d'Anjo", em 2015, e "Luís Severo", no ano passado - que lhe têm valido um culto crescente, e até convites para escrever "para fora" (assina uma canção no álbum "Menina", de Cristina Branco, que voltou a contar com os seus préstimos no disco que este mês chega às lojas). Acabado de voltar de uma residência artística nos Açores, de onde trouxe várias "ideias avançadas" para um novo disco que deverá sair ainda este ano, Luís Severo conversou com a BLITZ com o seu universo e galáxias vizinhas.

Parabéns pela vitória na eleição de melhor disco português de 2017 para os leitores da BLITZ! Ficou satisfeito com a distinção?
Teve piada, porque nessa semana vi todos os meus amigos músicos a fazer posts - e eu fi-los, também, a pedir para as pessoas irem lá [ao site da BLITZ] votar. E fiquei mesmo satisfeito.

Sente que as pessoas o acarinham? Costuma receber feedback?
Sinto que [em 2017] a coisa aumentou muito. Essa foi a grande diferença, no último ano: saber que ia tocar e que iria ter pessoas a ver. Claro que a vitória me surpreendeu, porque tinha muita concorrência, mas tendo em conta o ano que tive, até me fez algum sentido, porque foi o ano em que senti alguma proximidade das pessoas. Ter-me-ia surpreendido mais se acontecesse há dois anos, com o disco anterior, que não teve tanta aceitação.

O que lhe costumam dizer? Que se identificam com as letras?
Sim, há muito essa ideia de identificação. Há dois comentários possíveis: ou comentam a produção, a estética da coisa, ou - e se calhar isto é o mais habitual - dizem: "aquela letra sou tão eu!".

Também encontra essa identificação na música dos artistas que gosta de ouvir?
Há muitos autores em que sinto isso - o Cohen, o Dylan, o Bonnie Prince Billy, até mesmo o Sufjan Stevens... Mas já não ouço tanto a música dessa forma. Tento, mas já não consigo ouvir com esse sentimento de liberdade, sem estar a pensar num conjunto de coisas que me afetam enquanto músico.

O que tem ouvido ultimamente?
O Sufjan Stevens. Tenho uma coisa chata: quando acho piada a um álbum, ou a um músico, fico muito tempo [de volta dele]. Ouço um disco centenas de vezes, e acho que sempre fui assim, não é desde que faço música. Claro que, desde que faço música, [isso acontece] ainda mais, porque se ouvir um disco com que me identifique muito, também quero tentar perceber: como é que ele fez a produção, como é que pôs ali aquelas duas guitarras, como é que fez esta dobra nos efeitos. Ouço imensas vezes as mesmas coisas e tenho andado no Sufjan Stevens, "Carrie and Lowell". É um disco com dois anos, mas ainda ando nele.

Numa altura em que há quem diga que há "demasiada música", é saudável ainda haver tempo para manter uma relação dessas com um só disco ou artista?
É fixe, mas ao mesmo tempo não é, porque olho para os tops dos melhores do ano... Em 2017, ouvi o novo do Ariel Pink, o dos Magnetic Fields, de que gostei muito, o dos Fleet Foxes, de que também gostei... Mas, quando vejo a lista dos melhores álbuns do ano, há montes de discos que não faço ideia [o que são]. Esse é o lado mau.

"Decidi dedicar-me à música quando acabei a faculdade e não tinha mais opções na vida"

Começou a fazer música na adolescência, colocando canções no Myspace... Quando decidiu dedicar-se à música de forma mais séria?
Quando acabei a faculdade e não tinha mais opções na vida! Não me apetecia continuar o rumo académico e, nesse sentido, quis tentar. Tinha passado os últimos anos a fazer música de forma mais livre, mais descomprometida, mais impulsiva, mais experimental, quase. Era mais inconclusivo no que estava a fazer. Ao fim de seis ou sete anos a fazer música de forma impulsiva, tinha uns 22 ou 23 anos, decidi tentar agarrar um disco com uma intenção mais clara. Com uma intenção mais conclusiva, mais pop, fazendo algo que não fosse tanto uma experimentação, mas sim uma conclusão. E fiz esse disco ["Cara d' Anjo"]. Claro que, nesse álbum, ainda há muita coisa experimental, mas sinto que já cumpri melhor a intenção que tinha de ser menos impulsivo, de [apresentar] as coisas mais "mastigadas". Com esse disco, em 2015, começo o ciclo que me leva, em 2017, até ao último disco que fiz.

Alguns dos seus autores favoritos são grandes cantautores portugueses como José Mário Branco e Fausto. São grandes referências para si?
Gosto deles todos e ouvi-os todos. Tive esse contacto em casa, porque a minha mãe tinha os seus discos e ouvi-os, uns mais que outros. Em suma, acho que foi uma influência muito positiva [no que toca a] música cantada na nossa língua, e com uma identidade autoral, porque isso interessa-me: ouvir autores, pessoas que, com mais ou menos influências de outros, tentam ser o seu mundo próprio. Havia ali um assunto comum a todos, a política, e depois cada um cantou ao seu jeito. Nesse sentido, aquele de quem mais gosto e com quem mais me identifico é mesmo o Zeca [José Afonso].

No seu próprio universo autoral, no que toca às suas letras, diria que os temas mais abordados são a cidade, o amor?
Sim... mas espero que não sejam sempre os mesmos assuntos ou, se forem, que comece a falar deles de outro modo. Tenho de ver como isso evolui. Esses são os dois maiores assuntos deste último disco, sendo que a cidade, para mim, existe enquanto comparação aos sítios que não são bem a cidade, ou que não são a cidade como a conhecemos. A cidade, isoladamente, não existe na música como faço; o que existe é uma comparação entre a cidade e outros sítios onde vou, até porque toco em muitos sítios e, se há coisa boa que estes dois últimos anos me têm dado, é a possibilidade de ir a muitos sítios, ver pessoas diferentes, comer coisas diferentes... Interior, litoral, Minho, Algarve - em tão curta distância, sente-se uma diversidade vasta. Sítios que estão a quatro horas de distância, parecem que estão a milhas. Há uma dinâmica e uma identidade diferente em cada sítio, e eu vou sempre [para lá] com o espírito de tentar adaptar-me a esse ritmo. Só que antes tenho de entendê-lo. Mas acho que já começo a entendê-lo melhor.

Isso é sociólogo a falar?
Nunca tinha pensado muito nisso, é possível que seja. Mas [é uma questão que] me interessa, até porque muitas vezes toco a solo. Não tenho banda nem sequer uma grande equipa de management, por isso eu vou. Vou a Santa Apolónia, apanho um Intercidades e vou, o que é fixe, porque me força a contactar com as pessoas de cada sítio. Assim também venço alguma timidez. Mesmo que a timidez seja algo que tenho [sempre] dentro de mim, de tantas vezes que vou para um sítio falar com pessoas que nunca vi... essa vivência ajuda-me a combatê-la de forma muito positiva. Há muitas coisas muito positivas. A menos positiva é a sensação de ficar muito pouco tempo em cada sítio, é tudo muito rápido.

Quais foram os seus concertos mais marcantes?
Talvez o Gente Sentada e o Tivoli. Esses dois são os que [aparecem no] álbum ao vivo. Também houve um muito fixe em Ovar. Nunca tinha estado lá e não estava à espera, foram montes de pessoas... Isto no fundo é uma junção de coisas: chegas a um sítio e se as pessoas de lá são fixes, se a sala é boa, se há um técnico de som que está numa cena de "vamos fazer isto bem", não há muito por onde correr mal. Onde corre menos bem é quando há alguma coisa a funcionar mais à balda, mas isso acontece cada vez menos. Em 2017 não tive nenhum concerto especialmente mau. Depois há sítios que, pela positiva, surpreendem.

"Não tenho nenhum culto da ponderação nem da espontaneidade"

E festivais, gosta de se apresentar nesse tipo de eventos?
Tem vantagens, como estares numa montra em que te dás a conhecer a pessoas que, de outra forma, não te iriam ver ao vivo. Mas sabe-me melhor tocar em sítios como Ovar ou Esposende, onde tens uma sala fixe e há pessoas que se sentam a ver e ouvir o concerto. Prefiro sempre quando toco para pessoas cuja atenção sinto que tenho. Sendo que isso também me deixa nervoso, o que é horrível! Quando sinto que está tudo em silêncio, tudo atento, começo a pensar: "porra, se me engano agora, está tudo lixado!".

Imediatamente antes desta entrevista, falámos com Sérgio Godinho, que diz ter dificuldade em escrever "de rajada". E o seu processo, como é?
Acho que vivo entre a espontaneidade e a autocensura. Mas tenho mais facilidade em falar de coisas em que já pensei um bocadinho. Mesmo que esteja a ser espontâneo na altura em que escrevo, [é-me mais fácil] quando são assuntos em que já pensei. Nesse sentido, [o meu método] acaba por não ser muito espontâneo. Mas é uma amálgama de frases que me saem de improviso, e de outras em que pensei imenso tempo. Não tenho nenhum culto nem da ponderação, nem da espontaneidade. A única coisa que me importa é que fique como eu gosto. Não tenho uma regra. Há um pouco de tudo e tento sempre experimentar novos métodos, até para não ser sempre igual. Durante muitos anos, insisti muito num método que era fazer primeiro a letra e depois, com base naquilo, tentar criar a canção. Depois senti que, com esse método, já tinha muitos vícios. Então, neste último disco, rompi com ele, porque senti que se estava a saturar nele mesmo. E já me chateava. Já não me estimulava.

Então passou a escrever primeiro a música?
Fiz tudo mais à balda e sem rigidez. Quando faço um disco novo, tento nunca ter uma continuação do que fazia antes. Claro que quem ouve acha que é uma continuação, porque sou sempre eu e, no fundo, soo sempre à mesma coisa. Mas tento ir contra o que fiz antes, através da forma como faço canções e de novos métodos em estúdio.

"Toco muitas vezes a solo e não tenho uma grande equipa. Vou a Santa Apolónia, apanho um Intercidades e vou"

Fez recentemente uma residência artística nos Açores. Trouxe muitas canções novas?
Trouxe muitas ideias avançadas. Ainda lhes falta aquele clique em que digo: pronto, está feito! Porque eu imagino sempre mil e uma hipóteses. E, nesse sentido, tenho muitas dúvidas. Nestas novas que ando a fazer, tenho tido mais dúvidas do que nunca, não sei bem porquê. Ou seja, faço a canção, acho que está fixe, mas depois penso: "se calhar aindo mudo mais alguma coisa". Acho que estou mais exigente, o que até certo nível é bom.

Também já escreveu uma canção para Cristina Branco, "Alvorada". É muito diferente escrever para si e escrever "para fora"?
Tento que seja, tento não fazer como se fosse para mim. Tento pôr-me na pele das pessoas. Claro que [o resultado] é sempre a minha noção de "o que é estar na pele de...", e nunca o "estar na pele de". Mas tento. Tanto que, para fazer essa música, investiguei-a um bocado. Vi as entrevistas dela, para ver do que fala e quais os assuntos que a movem. Fiquei a sentir-me um stalker! Tentei apontar um conjunto de assuntos que achei serem os dela e depois, ao meu jeito, dei-lhes uma vida. (risos)

Mas, quando se convida alguém para escrever, também se deseja que a canção tenha o traço do autor convidado...
Sim, e acho que tem um traço meu. Uma coisa positiva que me disseram foi: "oh pá, porra, ouvi aquele álbum dela e identifiquei logo qual tinhas sido tu [a escrever]!". Não sei se é bom, ou se é [sinal de que é] muito óbvio…

Deve ter corrido bem, pois no novo disco de Cristina Branco, que sai no final de fevereiro, volta a escrever uma canção...
Esta última foi uma canção em que me pus mesmo na pele dela. Na outra "encomenda" recebi um briefing, um enunciado do assunto - nesta não tinha mesmo nada. Então fui investigá-la. A música ainda não saiu, mas também gostei muito, apesar de [o resultado] já ter ido mais ao encontro do que eu achava que ia ser, talvez porque já a conheço melhor. A "Alvorada", quando a ouvi [gravada por ela], tinha tomado um rumo completamente diferente do que eu tinha feito, o que foi bom. Metes aquilo nas mãos de outra pessoa e não sabes o que vai dar! Quando fui ao CCB vê-la, ela cantou a minha música e quase não senti que fosse a minha música, foi uma sensação estranha de [pensar]: "aquilo é dela, já não é meu. Já não sou eu que dou vida àquilo, a vida que tem é ela que lha dá". Eu estava ali sentado com a sensação estranha de quase já não conhecer a canção.

Como um amigo outrora próximo, que já não vemos há muito?
Exatamente! "Mudou muito!". (risos)

Luís Severo, janeiro de 2018
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Luís Severo, janeiro de 2018

Rita Carmo

Luís Severo, janeiro de 2018
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Luís Severo, janeiro de 2018

Rita Carmo

Luís Severo, janeiro de 2018
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Luís Severo, janeiro de 2018

Rita Carmo

Qual diria que é a sua canção mais popular?
A 'Escola' correu muito bem, especialmente entre pessoas que ainda andam na escola. Fiz essa canção aos 23 ou 24 anos, ou seja, teria saído da escola há seis ou sete anos - [a recordação] ainda estava viva. Mas acho que tenho outras de que as pessoas gostam. Sei que há muita gente que só conhece a 'Escola', ou mais duas ou três que dão na rádio, mas quem ouve o disco e o acha fixe [acaba por ter] várias favoritas, o que é positivo. Quando toco ao vivo, se não tocasse 'A Escola', nem ia ser assim tão chato.

Recorda-se de ter escrito essa canção?
Acho que a música nasceu a partir daquela punchline que as pessoas cantam aos berros: "a escola é a melhor parte da vida, mas só porque a vida é mesmo uma merda". Imaginei essa frase e depois fiz toda a canção para poder chegar a ela, como uma punchline. Foi uma canção em que comecei do fim e fui andando para trás até ter um fio que acabava nessa punchline. (risos)

Preocupa-se em fazer um disco com noção de álbum, com começo e fim?
Sim, eu tento. Já houve músicas que não pus em disco porque, mesmo gostando delas, pareceu-me que, naquele seguimento, não faziam sentido. A seguir ao último disco, em 2015, fiz um pequeno EP, que também está na net, que tem duas músicas mais estranhas - são músicas de que eu gostava mas que não se enquadravam naquele álbum. Então fiz um single que dei às pessoas.

É muito generoso, dá muita música aos seus fãs...
Este último disco ao vivo foi porque muitas pessoas achavam... até mesmo o meu pai! Ele dizia: "acho piada ao teu disco, gosto de te ver em banda, mas como gosto mesmo de te ver é quando tocas piano". Estive muito tempo a trabalhar neste set de piano e voz, evoluí muito a tocar e, como não sei quanto mais tempo vou estar a fazer este espetáculo, achei que era fixe editar e ficar com aquilo para os netos. (risos) Ficou giro e sei que as pessoas gostam. E também tem piada porque já não há muita gente a fazer discos ao vivo, e até é um culto a que eu acho piada.

"O meu som não é propriamente meu. É a soma do que eu faço com o que tenho"

O piano é o seu instrumento favorito?
Neste momento é aquele em que estou mais evoluído, em que tenho mais capacidade. Nunca fui um instrumentista muito bom e sinto que no piano, nos últimos tempos, evoluí bem. Mas não sou propriamente um grande músico. (risos)

O seu som é bastante reconhecível. Que tipo de "truque" aplica à guitarra, por exemplo?

Eu faço uma coisa que não é, de todo, minha. Milhões de pessoas fazem: uso muito as dobras. Nunca faço só um take de cada coisa: cada piano faço cinco vezes, cada guitarra faço seis, e isso depois faz aquela "massa". Sendo que vou tentando abandonar essa ideia, para não estar sempre a [cair nos] mesmos vícios, mas acho que o som pode vir daí e dos efeitos que uso: reverb, alguma compressão... Uso coisas analógicas, porque são máquinas que tenho há anos. Claro que há ótimas [soluções] em computador, mas como as tenho há muitos anos, sei como se usam e sei que as uso bem. Quando penso nisso, acho que o meu som não é propriamente meu. Claro que é meu, mas [resulta da] forma como eu uso aquelas máquinas. É a soma do que eu faço com o que tenho.

Luís Severo dá um concerto especial no Musicbox, em Lisboa, a 14 de fevereiro, com os convidados Cristina Branco, Júlia Reis, Vaiapraia e Diogo Rodrigues & Bernardo Álvares. Os bilhetes para Boa Companhia: Luís Severo e Convidados custam 10 euros.