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Uma das revelações de 2017, Julie Byrne estreia-se ao vivo em Portugal em junho - bilhetes à venda

A cantora e compositora norte-americana, autora do álbum Not Even Happiness, dará três concertos. Em Lisboa, o concerto é no Teatro da Trindade. Os bilhetes já estão à venda (notícia atualizada)

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A cantora e compositora Julie Byrne, que em 2017 lançou o aplaudido Not Even Happiness, estreia-se ao vivo em Portugal no próximo mês de junho.

Estes serão os primeiros concertos da norte-americana no nosso país.

Julie Byrne atua no Teatro das Figuras, em Faro, a 13 de junho; em Lisboa, num concerto promovido pela galeria Zé dos Bois, mas que se realiza no Teatro da Trindade, no dia 15 e no gnration de Braga a 16 de junho.

A Portugal, Julie Byrne trará Dan Bridgwood-Hill no violino e Taryn Blake Miller nas teclas. Os bilhetes para Lisboa já estão à venda e custam 15 euros (aplicam-se descontos). Em Faro, custam 10 euros e em Braga 9 euros (com descontos).

Recorde aqui a entrevista que Julie Byrne deu à BLITZ, no final do ano passado.

Julie Byrne lançou em 2017 o seu segundo álbum, “Not Even Happiness”

Julie Byrne lançou em 2017 o seu segundo álbum, “Not Even Happiness”

Há vozes que não enganam – e a de Julie Byrne, nascida no estado de Nova Iorque há 27 anos, é uma delas. Quando nos atende a chamada (feita, a seu pedido, via Whatsapp), de imediato reconhecemos o tom quente e doce que ajuda a fazer de Not Even Happiness, lançado no começo de 2017, um dos álbuns mais mágicos do ano. Na véspera do feriado de Ação de Graças, a cantora e compositora sentou-se a falar com a BLITZ sobre o seu percurso na música, o amor pela natureza e a gratificação que encontra na partilha. Isto tudo numa casa “cheia de vida – vamos receber familiares que vêm do Ohio, outros que vêm do nordeste”, contou-nos, “e é a primeira vez em muito tempo que somos os anfitriões, por isso é emocionante!”. Demos graças por Julie Byrne.

Neste final de ano, que balanço faz de 2017? Andou muito na estrada, lida bem com essas rotinas?
Foi um ano muito bom para mim. No que toca à vida na estrada, é uma resposta um pouco complicada de dar. Porque ter a oportunidade de viver da minha música e poder viajar e visitar todos os países onde nunca estive é um privilégio. Mas estar num sítio diferente dia sim, dia não, ficar em quartos de hotel que não conhecemos, estar em salas cheias de estranhos… alguns desses estranhos tornam-se amigos, o que também é belo, mas como há tão poucos confortos, dentro daquilo que nos é familiar, e muito pouca privacidade, e os horários são muito rigorosos, [é difícil]. Tudo isso desperta muitos sentimentos desconfortáveis, mas é por uma boa causa. Desperta coisas que precisamos de enfrentar. É um estilo de vida complicado. (risos)

Um estilo de vida que alguma vez imaginou vir a ter?
Nunca pensei muito no futuro. A música sempre me pareceu ser o meu chamamento, por isso segui-o com devoção. Levando as coisas um ano de cada vez, uma digressão de cada vez.

Sei que começou a tocar guitarra quando o seu pai, que também tocava, deixou de poder fazê-lo, devido a uma doença. E quando começou a cantar?
Sempre adorei cantar. Canto desde criança, mas nunca fiz parte de um coro, nem nunca tive aulas de canto ou guitarra. Quando era adolescente, peguei numa guitarra pela primeira vez, aprendi a tocar uns acordes – e nunca mais a larguei.

Depois de um ano a cantar as mesmas canções, qual a sua relação com elas? Adquiriram novos significados?
Não sei se ganharam novos significados, mas enquanto escrevia as letras das canções do álbum, refleti tanto que, por vezes, cantá-las ao vivo recorda-me que elas contêm conselhos para mim mesma, aos quais já me tornei quase indiferente, por cantá-las tantas vezes. Houve alturas em que algumas das proezas que consegui materializar na música me ajudaram no que é agora o futuro. Mas quanto mais as canto ao vivo, mais difícil se torna sentir cada palavra. Dessa forma, passa a ser mais importante a experiência das pessoas que escolheram ir a esse concerto do que a minha própria relação com as canções. Canto para essas pessoas, mais do que para prolongar a vida das canções ou porque as mesmas me digam algo.

Li que a canção “Follow My Voice” foi escrita como uma mensagem de esperança. Costuma receber feedback? As pessoas dizem-lhe que as suas canções as ajudaram, por exemplo?
Significa tanto para mim quando as pessoas dizem que a minha música lhes ofereceu algum tipo de conforto, numa altura complicada! Essas palavras encorajam-me muito quando me sinto vazia. Nem consigo explicar o que significam para mim essas interações com quem encontra alguma segurança e compreensão na minha música, porque necessito dessa reciprocidade que ressalta de ouvirmos as experiências das pessoas.

Já viveu em várias regiões dos Estados Unidos e tem levado uma vida quase nómada. Sendo uma amante da natureza, qual o sítio mais bonito onde já esteve, ou que mais a marcou?
É difícil escolher, mas diria a Redwood Forest, na Califórnia do Norte, ou o Big Sur. Há um parque estatal chamado Limekiln, onde podemos fazer caminhadas junto àquelas lindas quedas de água. Estás ali ao pé do Oceano Pacífico… não há mais nenhum sítio onde tenha estado e que me tenha feito sentir assim.

Ainda trabalha como guarda-florestal no Central Park de Nova Iorque?
Desconfio que essa informação se espalhou de forma descontrolada, na imprensa. Foi só um trabalho temporário. Aprendi muito, mas não sou, de todo, guarda-florestal a tempo inteiro. (risos)

Um dos países onde atuou este ano foi o Brasil. Como correu essa viagem?
Fomos convidados para ir ao Brasil fazer uma residência artística e demos um concerto no Rio de Janeiro e outro em Porto Alegre. O Brasil é um sítio tão encantatório; só tenho as impressões de uma turista, mas gostaria de aprender mais. Estive lá muito pouco tempo, mas parece-me ter sido o começo de uma longa história de amor. É um dos sítios a que fui este ano a que mais desejo voltar.

Vi no seu Instagram que, a caminho da Europa, perdeu a sua bagagem, algures entre aeroportos portugueses e alemães…
Quando andamos na estrada, temos de enfrentar situações duras, quando tantos dos nossos confortos nos são retirados. Nesse caso, já estava exausta e preocupada com a dimensão da digressão, que era de seis semanas, apenas duas semanas depois de uma outra digressão de seis semanas que tinha feito no verão. Então, perder a bagagem e ficar apenas com o pijama que trazia vestido no voo internacional, ter de sair e comprar as coisas de casa de banho… continua a ser uma bênção poder dedicar-me a este tipo de trabalho e viver da verdade do meu coração, ao ter um trabalho criativo, mas há um sem número de situações que te põem à prova, o que em última análise é muito purificante para o espírito. Mas não quer dizer que seja agradável.

Há muita logística e muita gente envolvida numa digressão…
E tanto movimento, para irmos de um sítio ao outro. A nossa vida transforma-se em movimento e os concertos e o tempo que temos para dormir são as únicas horas em que estamos em terra.

“Natural Blue” é uma das canções que mais se destacam no disco, praticamente um clássico instantâneo. Ao escrever uma canção dessas, sabe logo que é especial?
Certas canções, aquelas que têm um impacto maior, parecem ter sido ditadas por uma fonte maior. Nem me parece bem reclamar responsabilidade por elas, porque me senti à mercê de uma qualquer força misteriosa. Foi muito catártico escrevê-la, mas não me parece que tenha saído de mim, mas sim de outro lado qualquer.

Acredita em Deus?
Nos últimos dois anos, concentrei-me mais em descobrir a minha relação com o divino. Por isso, diria que acredito em Deus, mas sinto que essa palavra já foi tão corrompida que a minha crença não se compadece com a imagem convencional a que associamos a palavra. Mas é algo que ainda estou a descobrir. Ter algum tipo de relação com o universo é uma necessidade do espírito humano, e durante muito tempo isso foi algo em que não depositei energia ou fé. Mas sem isso é difícil não nos sentirmos desgostosos com a vida. E perceber que me estava a sentir assim fez-me decidir que tinha de desvendar a minha relação com algo que vai além do que eu sei ou compreendo.

Acontece-lhe encontrar Deus na Natureza?
Sem dúvida. Há tanta sabedoria na natureza que se torna difícil comentar. Mas todos sabemos e todos sentimos esse bem-estar quando estamos na presença do mundo natural. Sobretudo em sítios que não tenham tido intervenção humana. E já não há assim tantos, o que os torna ainda mais especiais. E eu tenho vindo a perceber que isso tem um grande impacto na minha saúde mental. Quando mais tempo passo na natureza, melhor e mais descontraída me sinto.

A sua música é amiúde descrita como serena, calmante… é um retrato fiel?
Se há coisa que espero dar ao mundo, [é isso]. Espero, através da minha música, servir os outros, seja lá como for. Isso faz-me sentir tão bem, ouvir que posso oferecer [essas sensações] às pessoas! Mas, a partir do momento em que a música é lançada, ganha uma vida e uma experiência própria. Como tal, fico feliz por ela ser recebida assim.

Sei que não ouve muita música, mas há algum artista que admire particularmente?
Há uma guitarrista fingerstyle de Portland, no Oregon, que se chama Marisa Anderson e é o meu ídolo. Adorava estudar com ela. Nem sei se dá aulas, mas desde que a vi tocar que se tornou a única pessoa com quem gostaria de aprender. Devia entrar em contacto com ela, mas tenho alguma vergonha. (risos)

A sua voz é comparada à de Leonard Cohen e Joni Mitchell. São comparações que fazem sentido para si?
Sempre adorei o Leonard Cohen. Há muitos anos que adoro a sua poesia e a sua música. O trabalho da Joni Mitchell não conheço tão bem, mas ouvi uma coleção de entrevistas que deu e que foi lançada como livro, chamado In Her Own Words. E ela é uma força. Adoro como tocava com afinação aberta, como eu faço – ela chama-lhes acordes de busca (“chords of inquiry”). Tinha uma relação muito exploratória com o seu instrumento e eu identifico-me com isso. Por isso, sinto-me muito honrada com essas comparações.

Toca mais algum instrumento além da guitarra?
Estou a tentar aprender a tocar piano, mas aparte isso não sei mesmo fazer mais nada. (risos)

Sempre cantou num tom tão grave?
Penso que tem vindo a evoluir. Provavelmente sempre foi grave, mas creio que ganhei mais controlo, muito mais controlo, do que tinha quando comecei.

Tem planos de vir a Portugal tocar?
Tenho a certeza que irei a Portugal em breve, mas não sei quando, ao certo!

E já está a trabalhar em novas canções?
Sim, mas por enquanto são apenas esboços. Trabalhar em material novo exige que me desligue por completo, e não ande tanto em digressão. Temos andado na estrada desde o começo do ano, o que me ofereceu muito material, mas que ainda não processei bem. Ainda não tive tempo para me sentar e transformar essas observações em canções.

Vamos terminar como o disco termina: com “I Live Now as a Singer”. Esse título é uma espécie de manifesto?
É uma referência ao chamamento que senti. Tive tantos trabalhos – podia ficar aqui meia hora ou 45 minutos só a descrever todos os empregos que já tive! E em nenhum deles senti verdadeira convicção, exceto na música. Sinto que posso explorar o meu ser, que não tenho de esconder a minha dor, e que até posso transformá-la num espaço de compreensão para os outros. Ou pelo menos é esse o meu objetivo. O título dessa canção refere-se a essa ideia – não há mais nada que eu saiba fazer que seja mais sincero, mais verdadeiro do que isto.