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Rita Carmo

Rhye: “Na primeira digressão perdi 50 mil dólares em duas semanas”. A entrevista completa no dia em que sai o álbum “Blood” [VÍDEOS]

Em declarações à BLITZ, Mike Milosh confessa vontade de passar uma temporada em Lisboa e desfaz todos os mal-entendidos sobre Rhye. E alonga-se sobre a autoanálise das novas canções

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Não era propriamente um novato quando, em 2013, o primeiro álbum de Rhye saiu para as lojas, mas foi com este seu projeto que o canadiano Mike Milosh se tornou um fenómeno de culto… Um fenómeno que, a qualquer momento, promete extravasar essas linhas limitadoras dos cultos. A voz andrógina, as canções sedutoras, vaporosas e orquestrais e uma certa aura de secretismo fizeram com que Woman chegasse aos ouvidos de muito boa gente. Quem assistiu ao primeiro concerto do projeto em solo nacional, no Passeio Marítimo de Algés há cinco anos, sabe bem o quão envolvente podem ser, mesmo quando apresentadas no palco de um festival, temas como “Open”, “The Fall” ou “One of Those Summer Days”.

Depois de vários anos na estrada, o músico voltou ao estúdio e o resultado dessas sessões chega hoje aos ouvidos dos fãs. Blood não constitui um grande desvio do caminho percorrido em Woman, mas como Milosh confessa em entrevista à BLITZ, traz mais luz e mais cor a um imaginário musical que pinta paisagens em corpos femininos. “É mais dinâmico”, assume o mentor, compositor e voz de Rhye, um projeto que, esclarece, nunca foi verdadeiramente um duo mas também não é um projeto a solo nem uma banda: “é simplesmente um projeto que se chama Rhye e que me tem como coração”. Leia agora, na íntegra, a entrevista com o canadiano, decorrida num hotel lisboeta numa manhã de sol, que, além do novo álbum, nos falou sobre a androginia da sua voz, a vontade de passar uma temporada em Portugal e os problemas de dinheiro que fizeram com que tomasse algumas decisões drásticas.

No ano passado, quando vieram atuar ao NOS Alive andou a passear por Lisboa à noite e partilhou até umas fotografias no Instagram. Divertiu-se?
Quando andas em digressão, estás tão ocupado que queres encontrar um tempo para desanuviar. Há algo que me faz gostar mesmo de Lisboa. Há cidades que são tão organizadas que me fazem sentir reprimido. Lisboa parece sempre uma aventura… é verdadeiramente especial. Gosto de viver em sítios diferentes e consigo imaginar-me a passar seis meses ou um ano aqui. Seria uma boa base enquanto ando em digressão. Normalmente, no verão, arranjo um sítio para ficar, aqui na Europa, para não ser preciso voar para Los Angeles a toda a hora. É muito cansativo. Talvez faça isso em Lisboa. A comida é boa, é uma cidade simpática, é fácil voar para qualquer lado a partir daqui… E não é demasiado cara. Esperemos que o Airbnb não estrague Lisboa. É ótimo para quando fazes turismo, mas depois quando pensas na forma como afeta toda a cidade… É muito perigoso.

"Pensei que ia morrer no Brasil porque terminei uma canção demasiado cedo e as pessoas começaram a gritar-me de forma zangada"

Sente Blood como uma evolução natural de Woman ou antes de começar a gravar o álbum decidiu que queria ir numa direção diferente?
A transição para uma sonoridade mais “ao vivo” pareceu-me calma e normal. Sinto que é uma evolução natural, não uma mudança radical. Não penso que os álbuns sejam muito diferentes, mas queria que os concertos fossem mais parecidos com aquilo que se ouve no álbum, portanto para mim a grande diferença veio do facto de querer tocar bateria ao vivo em todas as canções porque é isso que fazemos nos concertos. Queria simplesmente que este álbum tivesse isso.

O corpo feminino está sempre muito presente no trabalho visual de Rhye. É a sua grande musa?
É uma série de coisas. Neste álbum, Blood, as fotografias são todas minhas e é a minha namorada, Geneviève [Medow-Jenkins], que estou a filmar nos vídeos, portanto é literalmente a rapariga sobre quem escrevo muitas das canções. Tenho uma ligação com as formas femininas, é óbvio que as considero muito bonitas, mas não as objetifico. Utilizo-as para expressar as minhas ideias. Acho que sou um tipo mais feminino. Tenho esta ligação à feminilidade.

Diria que estas canções novas são mais luminosas e coloridas? Sinto que há texturas diferentes neste disco, que não existiam no primeiro…
É engraçado dizer isso porque tenho andado a defender em entrevistas que este álbum contém todas as cores. É exatamente dessa forma que descrevo o disco. Woman parecia ter algumas cores, este tem todas… É mais dinâmico.

Parece estar sempre a cantar para alguém nas suas canções… Também canta para si próprio? Há muito amor próprio na sua música?
Sim… Amor próprio, autoanálise, reflito sobre as coisas que se passam comigo. “Phoenix”, em particular, é uma canção muito pessoal, sobre a minha visão das coisas. Mesmo a ideia por trás de “Please”, que é essencialmente um pedido de desculpas em formato canção à Geneviève por se ter apaixonado por mim, sou eu a desculpar-me mas a experienciar esse pedido de desculpa também. Isso é importante porque te torna mais humilde. É importante.

Em “3 Days”, do álbum anterior, cantava algo como “é a minha natureza, eu destruo o amor”, mas agora, em “Stay Safe”, diz muito diretamente “vamos construir um lar”… Deixou de destruir o amor algures pelo caminho?
Espero que sim! Não quero ser aquele tipo que está sempre a destruir o amor. Isso não é bom! Em “Stay Safe” sou eu a dizer “vamos resolver isto, vamos construir algo juntos”. Isso é um desejo gigante, quando te apaixonas por alguém: queres construir um lar e é importante fazer isso.

"Quando fiz a primeira digressão com Rhye, perdi à volta de 50 mil dólares nas primeiras duas semanas. Fiquei a negativo"

A primeira vez que o ouvi não sabia ao certo se era homem ou mulher por causa da sua voz andrógina. Ainda lhe acontece hoje, as pessoas pensarem que é uma mulher até o verem ao vivo?
Sim, ainda acontece. Há muita gente que ainda pensa que sou uma mulher… Não na vida real, não quando estão a falar comigo. Na verdade não consigo perceber isso bem porque não penso que a minha voz soe à voz de uma mulher, mas há quem pense assim, portanto…

Fica um pouco ali no meio, não é demasiado masculina nem demasiado feminina, portanto é um pouco dúbio.
Penso que estamos a chegar a um tempo e a uma cultura em que a diferenças entre homens e mulheres já não são assim tão vastas. E penso que isso está bem representado na forma como nos expressamos artisticamente. A arte parece ser sempre uma voz dentro da cultura, representar essa consciência coletiva dentro da cultura. E se pensarmos nisso, vemos que muito do trabalho artístico que sai para o mundo hoje é um espaço meio difuso entre homem e mulher. Isso não interessa muito… Não precisas de ser um tipo grande.

Inicialmente, Rhye foi apresentado pelos media como um duo que também incluía Robin Hannibal, mas pelo que sei este álbum foi escrito e produzido só por si. O que se passou com ele?
A questão do duo… É impossível controlar os media, portanto quando as pessoas começaram a escrever que eu era uma mulher e que era um projeto misterioso também escreveram que Rhye era um duo. Isso é interessante, porque se fores a um concerto estão seis ou sete pessoas em palco… Isso não é um duo. Eu sou o projeto Rhye, o seu coração, mas no álbum Woman trabalhei com o Robin. Ele saiu muito no início, não toca connosco nem é um músico que toque instrumentos ou coisas do género, e assinou um contrato exclusivo com o projeto dele, Quadron, portanto nem lhe era permitido fazer parte de Rhye. Quando a informação começou a circular e se dizia que éramos um duo… Não consegui controlar isso. Não tenho o número de telefone de todos os jornalistas para lhes ligar a dizer “vamos lá esclarecer isto”. Passando para este álbum… eu continuo a ser o coração, mas na verdade trabalhei com muitas pessoas diferentes.

"A questão do duo… É impossível controlar os media. Se fores a um concerto estão seis ou sete pessoas em palco… Isso não é um duo. Não tenho o número de telefone de todos os jornalistas para lhes ligar a dizer 'vamos lá esclarecer isto'"

Disse numa entrevista recente que teve problemas de dinheiro e que não é fácil andar em digressão. É um desafio maior agora do que era quando começou a sua carreira?
Com o projeto Milosh era muito fácil… Era eu e um dos meus melhores amigos, o Paul Pfisterer, a guiar um carro minúsculo de um lado para o outro para dar concertos pequenos. Fazia sentido com o dinheiro que tínhamos. Mas as economias de escala são uma loucura. Tendes a pensar que pelo facto de dares concertos em salas maiores fazes mais dinheiro, mas na verdade estás a gastar mais dinheiro. E ter sete pessoas contigo significa que tens de comprar voos para sete pessoas, pagar hotel para sete pessoas, managers, advogados… Tenho de dividir a tarte em fatias. No início, quando fiz a primeira digressão com Rhye, perdi à volta de 50 mil dólares nas primeiras duas semanas. Fiquei a negativo. Era suposto a minha editora discográfica dar-me esse dinheiro, fazia parte do contrato, mas usaram isso como desculpa para serem agressivos comigo. Aprendi rapidamente que este negócio é uma loucura e isso levou-me a repensar a forma como iria fazer as minhas digressões. Decidi que começaria eu a guiar o autocarro, deixei de andar com tour managers, não levei técnicos de som a uma série de concertos, e funcionou melhor porque não andava a gastar dois mil dólares por dia com todas essas pessoas. Isso fez com que percebesse “espera… para que preciso de um tour manager?”. É mais divertido se for eu a guiar o autocarro, é mais divertido se for um grupo mais pequeno. Continuei a fazer isso e agora já dei 476 concertos. Levei algum tempo até perceber, mas quase sinto que posso ensinar “como equilibrar as suas contas” num curso universitário. Outra coisa que aconteceu foi que tive de resgatar o meu contrato discográfico para fazer este álbum. Tive de comprar a oportunidade que tinha de fazer um segundo disco de Rhye nessa pequena editora e isso custou muito dinheiro. Tive de pagar a advogados para fazer isso e continuei a dar concertos para conseguir dinheiro para gravar este segundo álbum. E fi-lo sem uma editora, o que me custou ainda mais dinheiro. Isto para mim é um negócio estranho, no qual dou concertos para poder fazer música e comprar um microfone, tempo em estúdio ou um sintetizador. É uma coisa que se alimenta a ela própria.