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Todos os álbuns dos Metallica – do melhor para o pior

No dia do regresso dos Metallica a Portugal, apresentamos o nosso ranking dos “reis do metal”, tal como foi publicado nas páginas BLITZ em 2016, aquando da saída de “Hardwired... to Self-Destruct”. Dos maiores feitos aos tiros no pé, numa seleção a cargo de especialistas na matéria

1 Ride The Lightning [1984]

"Ride the Lightning"

"Ride the Lightning"

Falidos e com uma dieta em que a vodca tinha sido trocada pela mais económica Carlsberg, na primavera de 84, James Hetfield, Kirk Hammett e Cliff Burton mudaram-se para Copenhaga, cidade natal de Lars Ulrich. Em busca de um estúdio barato, durante as gravações de Ride The Lightning, Lars e James dividiram um quarto enquanto Kirk e Cliff – o mais velho da banda, então com 22 anos – se aninhavam num sofá. E nem equipamento tinham. Além das guitarras, tudo o resto havia sido roubado depois de um concerto e, antes dos primeiros riffs serem passados a fita, ainda tiveram de recolher os amplificadores Marshall de outras bandas locais. Ainda assim, se com Kill ’Em All tinham surpreendido ao lançar um som com velocidade e agressividade de níveis nunca antes ouvidos, agora, ajudados pelas saudades de casa (Hammett dixit), o resultado seria bem diferente. Lançado a 27 de julho de 1984, com um título inspirado em The Stand, de Stephen King, ainda hoje são de Ride The Lightning alguns dos maiores sucessos da banda na hora de subir a palco.

Além da vertiginosa faixa que dá nome ao disco, cedo se destacou «For Whom The Bell Tolls», em que a estrela é o baixo de Cliff Burton, e até a balada que muitos encaram como um aquecimento para o som que haveriam de apresentar em Metallica. «Acho que foi o Cliff que lhes explicou como funcionavam as melodias. Era o maestro. Estava formado e a pensar bem além do thrash ou do metal. Andava de t-shirt dos R.E.M. e com um pin dos Lynyrd Skynyrd no casaco de ganga. Acho que isso dá uma ideia de onde andava a sua cabeça», contou à Loudwire Scott Ian, guitarrista dos Anthrax. E a polémica «Fade to Black» destacou-se de imediato: «esse tipo de canção esteve sempre na nossa cabeça, sabíamos que iria fazer parte do som dos Metallica, mas no Kill’Em All não tínhamos a técnica. Com o Cliff e o Kirk a bordo sentimos que podíamos seguir esse caminho», assumiu Lars Ulrich à Classic Rock. Culpa de Burton ou não, também foi com Ride The Lightning que os Metallica receberam as primeiras críticas negativas. Guitarras acústicas? Baladas? Uma heresia que ninguém imaginava. Mais não era que um aviso para uma das predileções dos Metallica – o gosto pelo risco. Se em 84 arriscaram baladas, em 91 lançaram-se ao mainstream, e depois ainda brincariam ao country e ao nu-metal. O gosto pelo risco, a queda para as melodias a pensar em estádios cheios e a falta de vergonha (ver último lugar deste ranking) levariam os Metallica mais longe. Ganharam (quase) sempre.

"Master of Puppets"

"Master of Puppets"

2 Master of Puppets [1986]

As primeiras horas de 1986 foram passadas pelos Metallica num palco em São Francisco. Na bagagem já traziam um segredo: além dos dois discos que os fãs conheciam, um terceiro acabado de gravar quatro dias antes. Hoje, Master of Puppets é, para muitos, o melhor disco de thrash metal alguma vez feito. Gravado entre setembro e dezembro de 1985, acabou editado no ano da obra-prima de um grande rival, Reign in Blood, dos Slayer. «Escrevemos o Master of Puppets nas oito semanas desse verão. Agora demoro oito semanas só para chegar ao estúdio. O que fizemos nesse verão de 85 para conseguir fazer aquele disco da primeira à última nota em oito semanas? O Death Magnetic demorou 18 meses até chegar ao estúdio», contou recentemente Ulrich à Rolling Stone.

Uma das respostas vem nas enciclopédias que os fãs lhes dedicam: o horário era rígido, entre as 19h00 e as quatro ou cinco da madrugada, e a vida feita entre estúdio e hotel. Com canções com temas entre a droga (em «Master of Puppets», o desafio é «Taste me, you will see / More is all you need / Dedicated to / How i’m killing you») e críticas a seitas religiosas (em Lepper Mesiah, Hetfield canta «Send me money, send me green / Heaven you will meet / Make a countribution and you’ll get a better seat»), ao segundo disco os Metallica tanto apresentavam um instrumental de oito minutos («Orion») como odes à agressividade. No momento mais inspirado do disco, «Battery», assumem como chegaram («Pounding out agression, turns into obsession») e avisam que é para ficar («Battery is here to stay»).

"Kill 'Em All"

"Kill 'Em All"

3 Kill ’Em All [1983]

O episódio entra para a história do rock. Um mês antes das gravações de Kill’Em All, os Metallica despediram o guitarrista – o melhor que a banda alguma vez teve, dizem muitos. Por excessos com drogas e álcool, feito complicado numa banda que começava a ganhar créditos para a primeira alcunha, «Alcoholica», Dave Mustaine ainda teve direito a créditos em várias músicas – «Jump in the Fire», «Phantom Lord», «Metal Militia» e «The Four Horsemen» – mas foi Kirk Hammett, com uma semana de banda, quem as tocou em estúdio. «Os Exodus [a anterior banda] tocaram algumas vezes com os Metallica e eu conhecia as músicas antes de me ter juntado à banda.

Além disso, tinha a maqueta “No Life ’Til Leather”, que era o que toda a gente do underground do metal ouvia em 82», recordou Hammett numa entrevista à Music Radar em que também recordou o momento do «batismo» do disco. «Foi o Cliff que lhe deu o nome. Originalmente seria Metal Up Your Ass. Mas recebemos uma chamada dos nossos agentes a dizer que era obsceno. E o Cliff disse: “que se lixem esses gajos da indústria, era matá-los todos”». Isto é, «kill ’em all». Sem Mustaine, nasceu «Whiplash» e uma das marcas mais fugazes da carreira da banda de São Francisco, os solos de baixo. Conhecidos por, desde então, os esconderem nos discos, em julho de 83 as regras eram diferentes e em «Anesthesia Pulling Teeth» é Cliff Burton quem brilha – privilégio de fundador a que Jason Newsted nunca teria direito.

"Metallica"

"Metallica"

4 Metallica [1991]

É o disco mais vendido dos últimos 25 anos e, segundo a norte-americana Rolling Stone, ainda hoje se vendem cerca de cinco mil exemplares por semana. O disco que o mundo conhece como «álbum preto», assinalou o fim da era thrash dos Metallica e, ao mesmo tempo que globalizava o metal, também assinalava o fim do seu apogeu – ditaram os desígnios do rock, que no mesmo ano também saísse Nevermind, o disco que tornou dispensáveis ao rock os solos de guitarra. A lenda diz que «Enter Sandman», a música da banda mais tocada no Spotify, foi a primeira a nascer e que em «Nothing Else Matters», o segundo maior sucesso na plataforma online, Hammett nem toca.

Nos livros lê-se que o produtor Bob Rock foi chamado para dar um novo som à banda, apesar das suas credenciais – Bon Jovi, Mötley Crüe ou Cult – não inspirarem grande confiança a Hetfield e companhia. E ainda que, pela primeira vez, os quatro gravaram a música em simultâneo no estúdio. «No passado, eu e o Lars fazíamos a parte rítmica sem o Kirk ou Jason; desta vez quisemos funcionar juntos em estúdio. Vermo-nos uns aos outros ajudou. Assim como também ajudou termos estado dois meses a tocar tudo sem gravar nada», assumia, na época, o vocalista à Guitar World. «Quando vieram ter comigo já estavam prontos para saltar para a divisão dos grandes. Muita gente pensa que eu mudei a banda, mas eles já tinham mudado quando os encontrei», afirmou Bob Rock à Music Radar. Em 1991, os Metallica deixavam de ser uma banda thrash para se dedicarem aos hinos. Começava uma nova era.

"... And Justice for All"

"... And Justice for All"

5 …And Justice for All [1988]

Um milhão de cópias vendidas de Master of Puppets e um disco novo depois, 1988 não foi um mau ano para os Metallica. Tal como em Master of Puppets, o arranque («Blackened») é feito com vigor, mas foi com o segundo single que …And Justice for All deixou a sua maior marca. Se até aqui os quatro de São Francisco já tinham inventado um estilo de música e assinado, seguramente, dois dos melhores discos da sua história, em 88 a missão era clara: brilhar. Sem vergonha de mostrar todo o poder do arsenal e apostado em testar os limites definidos em Master of Puppets, o disco que anos mais tarde Hetfield haveria de considerar «exibicionista» é hoje visto como um dos melhores da banda.

«Envelheceu muito bem. Tem um som e uma vibração muito própria. Com o passar dos anos ganhou uma vida própria. Quando acabámos a digressão apercebemo-nos que já não tínhamos mais para mostrar desse lado dos Metallica. Lançou-nos num caminho completamente diferente», assumia, em 2008, Ulrich à MTV. O primeiro sinal de que se avizinhava uma mudança de rumo? Foi visível ao mundo. Com «One» abriram um precedente que lhes escancarou a porta do mainstream, um videoclip. Complexo e ambicioso, a …And Justice for All podem faltar os sucessos com que a banda haveria de lançar estádios inteiros em intermináveis sessões de headbanging, mas também não falta música. Uma falha, no entanto, todos notaram e ninguém a podia tentar colmatar: é o primeiro disco sem Cliff Burton, falecido dois anos antes.

"St. Anger"

"St. Anger"

6 St. Anger [2003]

Vinte anos de estrada tinham tornado os Metallica numa espécie de monstro. Sem baixista e perdidos ao ponto de deixarem uma equipa de televisão documentar a luta (Some Kind of Monster, 2004) em estúdio, Hetfield, Ulrich e Hammett arrancaram com o produtor Bob Rock no baixo. Plano houvesse – e no documentário não há prova de que alguma vez tivesse existido – e, depois dos fracassados Load e Reload, o disco teria de ser prova de vida, um sinal de que entre a vaga do nu-metal ainda mereciam ser ouvidos. Com Hammett no seu canto, Ulrich perdido no ego e Hetfield entre viagens para caçar ursos e a clínica de desintoxicação, St. Anger nasceu à vista de todos. Em época de Eminem e 50 Cent no topo das tabelas e de Korn e Foo Fighters na linha da frente do rock, o disco saiu sem solos e com um som de bateria que o passar dos anos transformou em assunto de troça.

Ainda assim, com uma descarga de energia capaz de por a rapaziada mais nova em sentido – «Dirty Window» tem um riff que Grohl não desdenharia ter assinado, assim como o riff de «Invisible Kid» poderia ser um dos pontos altos da carreira dos Slipknot –, St. Anger serviu, então, de prova de vida, de desculpa para um belo reforço (Robert Trujillo) e para um sinal de paz no quartel da banda (pela primeira vez Kirk Hammett foi creditado em todas as músicas como coautor). A música? Os fãs mais puristas voltaram a chorar, mas nas vendas – em 2003 ainda se vendiam CDs – voltaram a ser de respeito: na primeira semana foram 400 mil cópias nos Estados Unidos, os Metallica entraram para primeiro lugar nos tops de 30 países e, ao dia de hoje, já foram vendidos mais de 2 milhões de exemplares.

"Death Magnetic"

"Death Magnetic"

7 Death Magnetic [2008]

Se os dois Load contam como duas falhas e St. Anger como meia, em 2008 os Metallica já não tinham créditos para desperdiçar. Para o regresso às origens, a porta que serviu de saída ao produtor Bob Rock (com a banda desde 1991) também serviu de entrada ao regresso dos solos de Kirk Hammett. Para a cabeça do estúdio, chamaram Rick Rubin, produtor que no ano de Master of Puppets assinava Licensed to Ill dos Beastie Boys. E o resultado, pela primeira vez em bem mais de uma década, não deixou a maioria desiludida.

Agora com Trujillo de início ao fim na conceção do álbum, Death Magnetic tem os riffs que fizeram dos Metallica gigantes («The End of the Line»), as harmonias que os distinguiram («The Day that Never Comes») e até um presente para os mais fiéis, a terceira parte de «The Unforgiven», saga iniciada em 1991. Em Death Magnetic tudo soa a antigo, mas nem «Cyanide» chega perto de «Blackened», nem a doce «The Day that Never Comes» ameaça a clássica «Fade to Black». Nada de novo a acrescentar à velha fórmula? Depois de tantas experiências, até se pode dizer que ainda bem que assim foi.

"Reload"

"Reload"

8 Reload [1997]

Já os Metallica iam bastante bem lançados como trintões quando Reload chegou às lojas de discos de todo o mundo. Os primeiros casamentos tinham ficado para trás, o topo das tabelas tinha sido conquistado com números recorde e o thrash metal há muito que caíra fora de moda. Pior. Onde antes apareciam quatro garbosos metaleiros, devidamente trajados de nem sempre limpas calças e t-shirts negras, agora viam-se poupas e gel, olhos pintados e farpelas cuidadas. Uma traição. E a música? Entre Load e Reload, sempre vistos pela banda como dois lados do mesmo disco, estão 27 canções e nenhuma capaz de entrar no top 10 (20?) da banda. Seria o fim? Figuras maiores do metal, Ulrich aproveitou os anos 90 para, sem vergonha, manifestar o seu gosto por bandas mais novas como os Oasis, enquanto Hetfield passou a assumir-se como fã de country.

O resultado ouve-se nos discos e os fãs nunca perdoaram a década perdida da maior banda de metal da história. Em 2003, à revista Revolver, Ulrich explicou: «são discos mais bluesy, andávamos a ouvir Led Zeppelin, Deep Purple e AC/DC e aceito que muitos não tivessem percebido o que se passava com os cabelos e as roupas, mas musicalmente, ignorando tudo o resto, criativamente os discos estão lado a lado com todos os outros». Em Justice for All: The Truth about Metallica, Joel McIver explica: «a verdade é que são uma banda de metal que tentou fazer outro estilo de música (seguramente rock alternativo, talvez blues, talvez pop), mas que, ao tentarem perder a ligação ao que faziam melhor, o heavy metal, esticaram-se demasiado».

"Load"

"Load"

9 Load [1996]

Seria sempre pior, seria sempre difícil, seria sempre polémico. Depois do «álbum preto», os quatro cavaleiros do thrash metal voltaram ao estúdio, agora, pela primeira vez, como milionários, superestrelas de pleno direito e o resultado não podia ter sido mais… trágico. Se em 1991, a banda norte-americana se tinha deixado de correrias, agora a opção era mais roqueira, com toque de country e sem sinal da genica ou dos solos dos primeiros anos. Os fãs clamaram traição, choraram, declararam morte à banda que, ainda assim, passou mais de uma semana no topo das tabelas de vendas norte-americanas.

De Load, para a história não ficaram canções memoráveis – «Until it Sleeps» foi o primeiro single, mas não se inscreveu no cânone do grupo. Seria este o primeiro sinal do inevitável envelhecimento? Seria o desvario de que os fãs os acusaram? Nada disso. Os Metallica voltariam, anos mais tarde, a mostrar talento para dar a volta por cima, mas Load foi mesmo um aviso – avizinhava-se uma temporada de falta de inspiração. Kirk Hammett à Loudwire: «se as pessoas pensaram que tínhamos enlouquecido é sinal que tomámos a atitude certa. Estas canções acabaram num formato que nunca tínhamos experimentado e isso foi interessante. Penso sempre que é bom que as pessoas esperem o inesperado de nós, mas é uma faca com dois gumes. Pode ajudar muito ou fechar o teu caixão». É sabido hoje que Load não terá ajudado muita gente, mas também não foi suficiente para matar os Metallica de uma vez só. Só uns milhares de fãs… e de desgosto.

"Lulu"

"Lulu"

10 Lulu (com Lou Reed) [2011]

Salmonete grelhado tem estatuto de iguaria. Uma Coca Cola bem gelada, carregada de gelo e limão, faz as delícias de meio mundo. E misturados? Alguém pensa em salmonete grelhado quando pede uma cola? Em 2009, na cerimónia de introdução ao Rock and Roll Hall of Fame, Metallica e Lou Reed deveriam ter pensado que dois produtos gourmet, seja do metal ou do rock alternativo, não garantem necessariamente um disco igualmente gourmet, mas a ideia ficou. Dois anos depois, com letras de Reed, baseadas no trabalho de um dramaturgo alemão do final do século XIX, e a música dos Metallica, nasceu Lulu, um parto de que ninguém terá ficado orgulhoso. Choveram insultos dos dois lados da barricada, de um lado perguntou-se o que faziam os Metallica com Reed, do outro o que fazia o senhor Velvet Underground com um bando de metaleiros.

Falecido em 2013, Reed nunca mostrou sinais de arrependimento. «São os meus irmãos de sangue metaleiro. São corajosos e conseguem tocar, o que não é fácil de fazer comigo. Algumas partes do Lulu parecem fáceis, mas são complicadas de tocar e eles conseguem-no. Muitos dos músicos cool não o conseguiriam», disse ao USA Today. Recentemente, Ulrich voltou ao tema, garantiu que nada mudaria no disco, que apenas gostava que «Lou Reed ainda por cá andasse». «Se o Lou Reed te telefonasse para gravares música com ele não dirias que não. Se o dissesses eu teria de questionar a tua validade enquanto artista», afirmou.

Nota: dado que, à data de feitura deste artigo, Hardwired... to Self-Destruct - o último álbum dos Metallica - ainda não tinha sido editado e estava indisponível para audição prévia, não foi possível inclui-lo neste ranking

Seleção de António Freitas (Antena 3), José Carlos Santos (Loud!/Terrorizer), Filipe Garcia (BLITZ), José Miguel Rodrigues (BLITZ/Loud!), Paulo André Cecílio (BLITZ/Bodyspace) e Rodrigo Madeira (BLITZ)

Textos: Filipe Garcia

Publicado originalmente na BLITZ de dezembro de 2016