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Os Metallica estão aí e isto é o que podemos esperar do concerto em Portugal

Cumprem-se 25 anos sobre o primeiro concerto dos reis do metal em Portugal, efeméride assinalada (não oficialmente) com um concerto esta quinta-feira em Lisboa. Explicamos o que têm feito nos últimos tempos James, Lars, Kirk e Robert, e desvendamos o que aí vem

Esta noite, a apresentação dos Metallica na Altice Arena, em Lisboa, marcará o arranque da nova fase da digressão WorldWired, interrompida no passado dia 9 de novembro com um concerto no AT&T Park de São Francisco, nos Estados Unidos, o mesmo espaço onde a digressão arrancou, a 6 de fevereiro de 2016. Os Metallica aterraram no Aeroporto Humberto Delgado bem frescos após um merecido descanso conseguido ao fim de 73 datas espalhadas por quatro continentes. Nesse período, e de acordo com os números para já disponíveis (nem todas as datas foram contabilizadas...), o grupo de James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Robert Trujillo terá arrecadado quase 110 milhões de euros em receitas e tocado para cerca de 1 milhão e 400 mil pessoas. Números só ao alcance dos grandes. E os Metallica, já se sabe, são enormes.

A revista norte-americana Spin descreveu o concerto dos Metallica em Nova Jérsia, em maio passado, como «muito próximo de uma ópera de Wagner». O jornalista Andy Cush referia-se à grandiosidade patente logo desde a abertura, em que a banda recorreu – como de resto acontece desde 1983 – ao clássico «The Ecstasy of Gold», um épico que Ennio Morricone escreveu para O Bom, o Mau e O Vilão e que, neste contexto, surte o mesmo efeito que as músicas que os treinadores escolhem para as suas equipas ouvirem antes da entrada em campo: uma injeção de energia sob a forma aural. Depois chegou «Fuel» e o tema título de Master of Puppets: «James Hetfield teve apenas que cantar cerca de metade da canção – a multidão assumiu o resto». «Tornou-se logo óbvio que este não era um concerto normal, com preocupações mundanas como dançar ao som de refrães orelhudos», garante o escriba. Já o NME enumerou oito razões que tornam os concertos desta digressão imperdíveis, incluindo a produção perfeita ou a força do novo material. Tendo em conta que no início de 2017 a banda declarou a sua firme intenção de abrandar a sua vida na estrada, «limitando-se» a tocar cerca de 50 concertos por ano e dando assim sinais de uma eventual chegada à pré-reforma, essa é mais uma razão para garantir presença numa das datas desta digressão WorldWired, o que para a maioria dos fãs portugueses significará assegurar um bilhete para o concerto desta noite. Afinal de contas, como garantia o britânico The Independent após testemunhar a passagem dos Metallica por Amesterdão em data dupla no arranque do passado mês de setembro, trata-se de «um dos mais excitantes espetáculos de metal do mundo». O pesado quarteto vem mesmo com a força toda.

Metallica em 1986

Metallica em 1986

Regresso a 1986

A fase mais recente do percurso dos Metallica começou em outubro de 2015 quando o grupo inaugurou a sua nova «casa digital» – metallica.com. Foram os próprios homens de Kill ‘Em All que anunciaram o seu novo pouso agora que, para todos os efeitos, são um coletivo independente que controla o seu próprio destino e que percebe, não sem alguma ironia para quem em tempos tanto criticou o Napster, que o futuro está na internet: Hardwired... To Self Destruct foi lançado na sua própria Blackened Recordings e estreou-se no primeiro lugar do top da Billboard, prova da força que mesmo sem o apoio de uma major a banda consegue conjurar (e mantendo inalterada a capacidade de chegar com cada novo álbum ao lugar cimeiro das tabelas, feito que se repete desde 1991, ano da edição de Metallica). Um ótimo prenúncio para o futuro, oito nos após a edição de Death Magnetic.

Este ano, além de digerirem todo o material de Hardwired... – incluindo os vídeos para o tema título e para os dois singles subsequentes, «Moth Into Flame» e «Atlas, Rise!», num primeiro momento e, mais tarde, para as restantes nove faixas do álbum –, os fãs dos Metallica puderam ainda deliciar-se com a reedição de luxo de Master of Puppets («a gargantuan box set», nas inflamadas palavras da Rolling Stone. A edição mais cobiçada pelos fãs acérrimos da banda – a «super deluxe edition» – incluiu vinil e CDs com nova remasterização do clássico de 1986, gravações ao vivo, entrevistas, pré-misturas e maquetes do material que viria a figurar no álbum, DVDs com gravação de concertos e entrevistas e até uma cassete com material captado ao vivo, além de uma panóplia de material impresso, fotos, pins e o que mais justifique o avultado preço de 180 euros. A caixa, obviamente, não demorou a esgotar na loja digital do próprio grupo. O facto, aliás, de o grupo ter abraçado com nítido entusiasmo as possibilidades oferecidas pelas redes sociais, tendo feito alguns anúncios através de diretos no Facebook, e tendo, como já referido, criado vídeos para todas as faixas do mais recente álbum (com Lars Ulrich a justificar a opção com o «YouTube ser agora a maior estação de televisão do mundo») deixa claro que os Metallica souberam acompanhar os tempos.

Desde agosto, altura em que a reedição de Master of Puppets foi disponibilizada, os Metallica não têm dado sinais de querer parar, usando a sua plataforma na internet para darem conta de cada um dos seus passos. Em setembro, por exemplo, com o regresso à Europa para uma série de concertos em arenas, os homens de Hardwired... fizeram saber que iriam igualmente aproveitar a ocasião para, em datas selecionadas da digressão, apresentarem a sua pop up store, verdadeira loja de tentações para todos os fãs, carregada de merchandising e edições especiais. Colónia, na Alemanha, e Londres, em Inglaterra, foram as primeiras cidades europeias a receberem a loja temporária dos Metallica, mas o grupo promete mais destas lojas para as viagens de 2018. Não há para já, no entanto, nenhuma indicação de que algo do género possa chegar a Lisboa. Na capital britânica a loja esteve aberta entre 18 e 24 de outubro no número 45 de Charlotte Road e por lá foi possível comprar, entre muitas outras coisas, um poster serigrafado e extremamente limitado – apenas 50 cópias disponíveis em cada dia – assinado pelo artista Richey Beckett.

Metallica em 2016

Metallica em 2016

Passageiros frequentes

Este ano, o grupo também intensificou as suas ações beneméritas: em outubro, os Metallica organizaram o Band Together Bay Area, evento que foi transmitido através do Youtube, Twitter e Facebook, e que reuniu prestações de gente como os Rancid, Dave Matthews ou Raphael Saadiq e cujo objetivo foi recolher dinheiro para ajudar as vítimas dos graves fogos florestais que obrigaram à deslocação de mais de 100 mil pessoas na zona da Bay Area. No passado dia 27 de novembro, a banda lançou igualmente o sítio de internet oficial para a fundação que tinha sido anunciada no início do ano: a organização All Within My Hands pretende aproximar os Metallica da sua comunidade. Em allwithinmyhands.org explica-se que os Metallica se querem dedicar «a criar comunidades sustentáveis, apoiando a educação da força de trabalho, combatendo a fome e apoiando serviços locais críticos». O dinheiro recolhido através de múltiplas ações da All Within My Hands é depois entregue a organizações como a Feeding America, Direct Relief, Little Kids Rock ou a Tipping Point Community, entre várias outras instituições humanitárias.

Como é óbvio, os fãs portugueses podem envolver-se com estas ações promovidas pelos Metallica, uma banda que conhecem há muito tempo. Os Metallica estrearam-se no nosso país em junho de 1993 num memorável concerto no Estádio José de Alvalade, na capital, numa data da sua Nowhere to Roam Tour, com Suicidal Tendencies (do futuro membro Robert Trujillo) e The Cult na primeira parte. Regressaram três anos depois para uma apresentação no Estádio do Restelo, em Lisboa, e em 1999 passaram pelo Estádio Nacional, em Oeiras, para uma das datas da digressão Garage Remains The Same (no festival T99, que teve apenas uma edição). Passagens pelos festivais Rock In Rio (2004, 2008 e 2012), Super Bock Super Rock (2007) e Optimus Alive (2009), além de apresentações em nome próprio no Pavilhão Atlântico (duas noites em 2010) completam este rico historial de concertos no nosso país. O espetáculo de fevereiro próximo será, em solo nacional, o décimo segundo do quarteto comandado por Lars Ulich e Kirk Hammett, facto que coloca os Metallica entre as bandas de dimensão global que mais vezes tocaram no nosso país. É uma relação antiga, frutuosa e intensa que em 2018 comemorará as suas Bodas de Prata. Preparem-se para a festa.

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2018