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Kendrick Lamar e Jay-Z

Os Grammys do meu descontentamento: o hip-hop não merecia isto

Bruno Mars vence, Jay-Z é humilhado e Kendrick não consegue, uma vez mais, o galardão de Álbum do Ano. O que é que se passa aqui?

Afinal havia outra via para os Grammys, menos justa e mais tranquila, menos sintonizada com o presente e mais tradicional. E com isto quem se ficou a rir foi Bruno Mars e nem Jay-Z, nem Kendrick Lamar conseguiram “furar” nas categorias principais. E assim, razão parecem ter artistas como Frank Ocean ou Drake que nem sequer se deram ao trabalho de submeter as suas mais recentes criações para apreciação da Academia.

Na caminhada para os Grammys, e tendo em conta os entusiasmantes indicadores das nomeações - primeiro - e do alinhamento de performances na cerimónia - depois -, foram dadas razões para se acreditar que seria este o ano em que o “establishment” assumiria finalmente a devida vénia ao hip-hop. Desde 2004 e dos Outkast que o género não conquista o galardão de álbum do ano. sendo sistematicamente remetido para o “gueto” das categorias específicas e perdendo quase sempre para a pop, para o rock e para a country.

Os U2, as Dixie Chicks, Taylor Swift, Arcade Fire, Adele, Mumford and Sons, Daft Punk, Beck ou, agora, Bruno Mars - todos lograram conquistar o cobiçado prémio de álbum do ano, deixando para trás artistas como Missy Elliott, Kanye West, Lil Wayne, Eminem, Frank Ocean, Kendrick Lamar, Rihanna, Beyoncé, Drake e, este ano, Kendrick, uma vez mais, ou Jay-Z e Childish Gambino.

Os Grammys não premeiam vendas, pelos vistos, nem qualidade ou premência. Que distingue, afinal de contas, esta instituição? Pelos vistos a manutenção de um status quo, de uma norma. Barbra Streisand, Frank Sinatra, Glen Campbell, Carole King, Bee Gees, Billy Joel, Christopher Cross, Toto, Lionel Richie, Phil Collins, Bonnie Raitt e Natalie Cole - todos conquistaram a distinção de Álbum do Ano deixando para trás importantes obras dos Beatles, de Isaac Hayes, Roberta Flack, Joni Mitchell, Steely Dan, David Bowie, Prince, The Fugees... Jimi Hendrix, Lou Reed, Tom Waits, James Brown, Marvin Gaye, De La Soul, A Tribe Called Quest, Nas ou Erykah Badu nem nunca acusaram nesse exclusivo radar.

Perante as movimentações de fundo no universo da música, perante as mudanças de paradigma e, muito sinceramente, perante a pura força criativa demonstrada nos últimos anos esperava-se que a cerimónia deste arranque de 2018 espelhasse um qualquer desejo de mudança. Não atribuir a Jay-Z um dos prémios principais e deixá-lo mesmo abandonar esta edição dos Grammys sem qualquer uma das 8 estatuetas para que estava nomeado ultrapassa o insulto e aproxima-se do ridículo. É verdade que Kendrick arrecadou os prémios específicos para que estava apontado nas categorias hip-hop, mas isso não chega. E tê-lo visto a abrir a cerimónia de ontem à noite - coisa que também coube a Adele ou Taylor Swift em anos em que, precisamente, conseguiram levar para casa a distinção de Álbum do Ano - ainda nos fez acreditar mais que tudo seria diferente.

Num ano em que o hip-hop esmaga nos números do streaming e nas vendas seria se esperar outro tipo de visão por parte dos cerca de 13 mil membros da Academia, até porque isso também enviaria uma mensagem à América de Trump: que no meio dos sucessivos escândalos, ainda há espaço para dar voz a quem reclama mudança nas ruas através de causas como #blacklivesmatter ou #metoo. O hip-hop é uma inegável força comercial e um dos mais desafiantes terrenos criativos do presente. Só os senhores e senhoras dos Grammys é que não conseguem ver isso.

Talvez para o ano?