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Mark E Smith

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Durante 60 anos ninguém calou Mark E Smith, o homem que nunca teve paz. Nem queria ter

40 anos de uma muito prolífica carreira que rendeu dezenas de discos, centenas de canções e uma constante e ácida rajada de palavras que traduziam um espírito combativo e inconformado. Mark E Smith era único. E atormentou muita gente durante seis décadas de vida sem travões

Mark E. Smith era o verdadeiro “bigmouth”, sempre disposto a mais um ataque, mais uma farpa incisiva. Quando um dia lhe perguntaram o que faria se fosse primeiro ministro de Inglaterra, o vocalista dos “mancunianos” The Fall revelou que a ideia já lhe deveria ter passado pela cabeça e que tinha todo um programa pronto para executar: “Começo por cortar o preço do tabaco e da cerveja para metade, duplico os impostos sobre a comida saudável e depois peço ao exército para invadir a França”.

O músico de 60 anos faleceu em casa no passado dia 24, vítima de doença prolongada que se agravou no final de 2017 quando foi obrigado a cancelar vários concertos, incluindo um previsto para o Hard Club, no Porto. O líder dos Fall, uma das mais prolíficas bandas a emergir do período que sucedeu à explosão punk em Inglaterra, debatia-se com problemas de saúde já há bastante tempo, mas isso não o impediu de “orquestrar” a sua saída de cena. Em 2017, a sua atual editora lançou não apenas um novo álbum – New Facts Emerge –, mas, bem mais importante, uma monumental antologia que reuniu parte significativa da produção da banda disponibilizada no formato de single ao longo dos anos. The Singles – 1978 2016 ocupa 7 CDs, reúne pela primeira vez material disperso pelo catálogo de várias editoras – como a Rough Trade, Beggars Banquet, Permanent, a Cog Sinister (etiqueta que o próprio Mark E. Smith criou e geriu no final dos anos 80) e a Cherry Red, casa dos Fall nos últimos anos. Faz sentido: o “output” altamente prolífico dos Fall – 32 álbuns de originais em 40 anos de carreira, outros tantos registos ao vivo, dezenas de compilações – espelha o pensamento desbragado e as rajadas de bílis que Mark E. Smith gostava de disparar sobre o mundo, muitas vezes na forma de letras encriptadas pelo seu génio muito particular. O formato compacto do single, suporte de alguma da melhor pop, servia igualmente o propósito dos manifestos de fúria e eletricidade que Mark E. Smith fez sempre questão de largar periodicamente sobre o mundo.

Os Fall em 1980

Os Fall em 1980

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Em entrevista à BLITZ, em 2013, Mark E. Smith foi peremptório e assegurou que ainda conseguia olhar para o futuro: “O que eu faço, sempre que estou um pouco mais deprimido, é ligar o rádio porque isso a mim faz-me sempre pensar: tenho que continuar com os Fall. Seja lá com quem for. Estou mesmo convencido de que é necessário. Por isso é uma questão de ver quem está disponível e quem quer dar tudo por tudo. Não há ciência nenhuma”. Olhar em frente parecia ser um desígnio para Mark E. Smith e o passado uma névoa confusa que de vez em quando se dissipava: “Às vezes parece que tenho uns flashbacks e sem saber bem como de repente lembro-me de canções de 1982. Julgo que é a isto que se chama senilidade… (risos). Mas tenho que confessar que a maior parte do tempo não me preocupo com a obra, o que conta para mim é o disco mais recente. Foi sempre assim”.

“Sempre”, no caso dos The Fall, nunca foi mais do que uma promessa vaga. Mark E. Smith era uma das figuras presentes no mítico concerto dos Sex Pistols no Manchester Free Trade Hall, quando a cacofonia gerada por Johnny Rotten e companhia se revelou uma epifania aos ouvidos de meia dúzia de “outcasts” daquela cidade do norte de Inglaterra. Para Mark E. Smith foi tudo uma questão de oportunidade. Originário da classe operária, tal como Ian Curtis, os primeiros passos da carreira da sua banda foram dados em paralelo com os dos Joy Division: as duas bandas partilhavam algumas referências – dos Velvet Underground, dos Stooges, dos Doors... –, partilhavam uma sala de ensaios, partilhavam até algumas preferências literárias, mas, como explica Simon Reynolds em Rip It Up and Start Again, livro dedicado ao período pós-punk que se estendeu de 1978 a 1984, parecia haver um pacto de silêncio e nunca nenhum dos grupos admitiu a existência do outro.

The Fall ao vivo em Nova Iorque, 1980

The Fall ao vivo em Nova Iorque, 1980

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A Queda, de Camus, inspirou o nome da banda criada por Smith enquanto que uma rigorosa, mas diversificada, dieta de Philip K. Dick, Yeats ou Burroughs alimentava a verborreia inicial suportada pelo que cantor e letrista gostava de descrever como “aquele som mesmo pesado” que além dos pontos cardeais comuns à banda de Closer ainda acusava o toque das audições recorrentes de material dos Can, dos Monks, de Captain Beefheart. E tudo, obviamente, enquadrado pelos excessos normais com álcool e drogas: “música para a cabeça com energia” era o resultado, de acordo com Mark E. Smith.

A estreia discográfica dos The Fall aconteceu com Short Circuit: Live at The Electric Circus, uma polaroid lançada independentemente em 1978 que funcionava como um documento da Manchester pós-Pistols, com contributos de John Cooper Clarke, dos Warsaw/Joy Division e, claro, dos Fall. A estreia em nome próprio aconteceria pouco depois com o EP Bingo Master’s Break Out, cujo tema-título, “Bingo Master”, abre a incrível viagem de 117 temas documentada em The Singles 1978 2016.

Foi essa a alavanca que abriu a comporta de onde sairia um verdadeiro dilúvio musical durante os 40 anos seguintes, com os The Fall – entidade fluída por onde circularam dezenas de músicos – a afirmarem-se como uma das mais radicais, constantes e irredutíveis propostas musicais do circuito alternativo britânico, capazes de, mesmo com músicos muito diferentes em diferentes eras, gerar um constante ruído elétrico, apoiado na repetição e na voz de um homem que parecia nunca se cansar de ralhar com o mundo, consciência de uma mentalidade de esquerda que, no entanto, se revelou sempre muito desalinhada, apesar de ter a dada altura integrado as bases do Partido Socialista dos Trabalhadores, posicionado na extrema-esquerda.

Em 1985, com a guitarrista norte-americana Brix Smith, com quem foi casado duas vezes: a primeira entre 83 e 89, a segunda de 94 a 96

Em 1985, com a guitarrista norte-americana Brix Smith, com quem foi casado duas vezes: a primeira entre 83 e 89, a segunda de 94 a 96

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Dave Simpson, do jornal The Guardian, escreveu um livro importante, curioso e, claro, esmagado por Mark E. Smith: The Fallen: Life’s In and Out of Britain’s Most Insane Group nasceu de um artigo sobre músicos que ao longo dos anos foram sendo expulsos dos Fall e evoluiu para um livro que o próprio Mark E. Smith afirmou ter queimado logo que saiu. “Smith geria o grupo como uma pequena fábrica industrial”, escreve Dave Simpson, “contratando e despedindo por capricho. Eu escutei mulheres e ex-namoradas que acabaram todas abandonadas por ele (uma delas, a namorada/manager/solista de kazoo Kay Carroll saiu mesmo da carrinha de digressão a meio de uma auto-estrada, em pleno nevão)”.

"The Fall Singles 1978 2016", a caixa retrospetiva editada no final de 2017 pela Cherry Red

"The Fall Singles 1978 2016", a caixa retrospetiva editada no final de 2017 pela Cherry Red

“Ouvi”, prossegue o jornalista e escritor, “histórias de guitarristas vendados a caminho de concertos ou despejados em florestas suecas; havia histórias de ‘tensões criativas’ e de tortura psicológica. Foram gravadas canções na parte de trás de carrinhas em andamento. Um baterista que não tocava há anos deu por si a ser pressionado a entrar em palco antes de um concerto à frente de muitos milhares em Reading, com a pressão a ser exercida por um cantor e por um guitarrista ensanguentados por terem andado ambos à porrada com soqueiras”.Pense-se o que se pensar, Mark E. Smith era o produto original e a sua personalidade complicada era exactamente o que surgia nas suas letras, codificadas por uma raiva interior muito funda. Na sua derradeira entrevista à revista Uncut, no final do último verão, Mark E. Smith acusou o peso dos anos: “Há algo nos The Fall que destrói...”. Uma “maldição”, explicou mesmo o cantor. Talvez agora, Mark E. Smith possa ter finalmente a paz que nunca conheceu.