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Kendrick Lamar e Jay-Z

Quem vai triunfar nos Grammys, o patrão de Nova Iorque ou o rei de Los Angeles?

Kendrick Lamar ou Jay-Z? Em 2018, os Grammys terão que escolher entre o sangue novo e a veterania. A BLITZ tem seguido com atenção a carreira dos dois rappers e avança aqui as suas apostas para a cerimónia que decorre no próximo domingo, no Madison Square Garden, em Nova Iorque

A luta está acesa no campo de batalha dos Grammys: este ano, o veterano Jay-Z lidera a lista de nomeações podendo vir a arrecadar um total de 8 galardões, caso vença em todas as categorias. Kendrick Lamar, por outro lado, segue o patrão de Nova Iorque bastante de perto com 7 nomeações. E ambos vão medir forças em duas das três categorias mais importantes – Álbum do Ano e Gravação do Ano – com o rapper de Los Angeles, no entanto, a não ter conseguido uma nomeação para Canção do Ano, categoria em que “4:44” de Jay-Z vai ter pela frente “Despacito” (verdade...), de Luis Fonsi, “Issues”, de Julia Michaels, “1-800-273-8255”, de Logic, e ainda “That’s What I Like” de Bruno Mars.

Mas pensemos na principal batalha da noite, entre a experiência do rapper e empresário de 48 anos e o fulgor do nativo de Compton que conta apenas 30. Certezas, apenas uma: o grande vencedor da noite será, seguramente, o hip-hop. O género que, de acordo com a consultora Nielsen, domina a indústria do streaming, com números globais superiores aos do rock, domina igualmente a cerimónia dos Grammys com artistas como Logic, Childish Gambino, Tyler, The Creator, SZA ou No ID (produtor de "4:44") a juntarem-se a "K-Dot" e "Jigga" num lote que espelha uma clara mudança de paradigma – só para se ter uma ideia, desde "Speakerboxxx/The Love Below", o álbum de 2004 dos Outkast, que o hip-hop não marca pontos na categoria de Álbum do Ano. Qualquer que seja o dono do sorriso mais rasgado da noite – Kendrick ou Jay-Z – a verdade é que o género que tem sido sistematicamente mal amado pela Academia se encontra agora numa posição de inegável destaque no seio da indústria discográfica, tendo muito provavelmente sido o estilo musical que melhor compreendeu as mudanças exigidas pela alteração do foco de negócio das vendas físicas para o streaming.

E essa posição de domínio claro do hip-hop tem imposto algumas curiosas conquistas: no ano passado, por exemplo, os Grammys foram obrigados a alterar algumas das suas regras para poderem também distinguir artistas como Chance The Rapper que têm resistido ao velho hábito da indústria discográfica de colocar uma etiqueta com preço em tudo o que produz - o rapper de Chicago ainda não editou “formalmente” nenhum disco, quer em cópia física disponibilizada para lojas reais, quer em sítios de retalho digital como o iTunes. Mais: LL Cool J tornou-se o primeiro rapper homenageado pelo Kennedy Center, instituição que atribui as maiores honrarias que a América concede aos seus artistas. E Jay-Z foi também em 2017 aclamado pelo Songwriters Hall of Fame. No discurso de aceitação da honraria, Jon Platt, publisher e amigo pessoal de Jay-Z, que não pode estar presente, referiu directamente as barreiras que têm sido ultrapassadas: “Sabem, quando se trata das maiores honras da indústria, a comunidade hip-hop tem uma longa história de ter que ouvir ‘vocês não são escritores de canções’, ‘ainda não estão exactamente lá’, ‘este ainda não é o vosso tempo’. Bem, para todos os escritores de canções e artistas da nossa comunidade e da nossa geração, o Jay gostaria que soubessem que esta distinção é um sinal de que o vosso tempo chegou e que o vosso tempo é agora”. Tendo em conta então a fulgurante entrada de Sean Carter no Songwriters Hall of Fame, não será de estranhar que seja ele a arrecadar o prémio para Melhor Canção que, precisamente, distingue os compositores.

Quanto ao Álbum do Ano: numa categoria em que também estão nomeados trabalhos de Lorde, Childish Gambino e Bruno Mars é quase certo que a Academia – com quase 13 mil membros desejosos de seguir a corrente dos novos tempos – irá decidir-se entre os álbuns de Jay-Z e de Kendrick Lamar. O facto de não estar prevista actuação de Jay-Z durante a cerimónia de entrega de prémios – que terá lugar em Nova Iorque no icónico Madison Square Garden –, ao contrário do que sucede com Kendrick, poderá ser uma relevante pista para o desfecho nessa categoria. A verdade é que a Academia deverá optar por distinguir um artista que simboliza o futuro, que tem sabido impor uma nova perspectiva à sua cultura e, ao mesmo tempo, tem sido uma importante voz na sua comunidade, um verdadeiro construtor de hinos para os movimentos que têm exigido mudanças na sociedade americana, como aconteceu com o seu “Alright” adoptado como manifesto pelos seguidores do #BlackLivesMatter. Embora tenha abordado questões de raça e de poder no seu álbum, Jay-Z soa muito mais como um ancião que se quer resolver a si mesmo do que como um jovem leão que quer liderar uma transformação alargada da sociedade. A Academia deverá, quase de certeza, oferecer esta estatueta a Kendrick Lamar.

As contas restantes são menos importantes, mas é mais provável que haja uma divisão no número de galardões conquistado por cada um dos líderes nesta corrida do que uma clara vitória por esmagamento de um deles. Mas a acontecer, não seria de todo ilógico face às movimentações de fundo da indústria e da sociedade, face ao clima político, face até aos movimentos de afirmação feminina - não esquecer que Jay-Z admite em "4:44" que traiu Beyoncé, um dos maiores símbolos dessa afirmação feminina – que o grande vencedor fosse Kendrick Lamar Duckworth, o rapper que saiu de Compton para conquistar o mundo e que de caminho pensou ser boa ideia mudá-lo um pouco também. No domingo logo ficaremos a saber.