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Mark E Smith

Getty Images

Mark E Smith (1957-2018) à BLITZ em 2013: “Sempre que estou deprimido, ligo o rádio para perceber que tenho que continuar com os The Fall”

Faleceu esta quarta-feira, aos 60 anos, um dos artistas mais peculiares da música britânica. Há cinco anos, o imprevisível líder dos The Fall falava com a BLITZ

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2013

Mark E. Smith é um decano da cena indie, líder dos imparáveis Fall que se estrearam com um single em 1978, em plena era punk. Desde então, Smith não tem parado de gravar, mudando constantemente de formação, embora agora o «plantel» pareça ter estabilizado com Elena Poulou (teclados), Dave Spurr (baixo), Pete Greenway (guitarra) e Keiron Melling (bateria). Ao telefone de Manchester, o desbocado Smith não conseguia parar de rir de si mesmo.

A primeira vontade que temos ao ouvir Re-Mit [álbum de 2013, antepenúltimo do percurso da banda] é partilhar com os amigos («reais» ou nas redes sociais) a ideia de que os Fall ainda são capazes de ensinar qualquer coisa às novas gerações indie…
Ainda bem que não o fez senão teria que o processar (risos).

Não se sente um pouco como um mentor de músicos mais jovens?
Não sei… Trabalhei muito neste disco, embora não pareça quando se ouve. Mas sim, talvez tenha razão. Acumulei alguma experiência nestes anos. Mas ainda consigo olhar para o futuro.

Os Fall já editaram trinta álbuns de originais. Tem todas as canções na cabeça?
Às vezes parece que tenho uns flashbacks e, sem saber como, de repente lembro-me de canções de 1982. Deverá ser a isto que se chama senilidade (risos). Na maior parte do tempo não me preocupo com a obra, o que conta para mim é o disco mais recente. Foi sempre assim.

Mas não gostou muito do álbum anterior, Ersatz GB. Em que é que o novo é diferente?
O outro soava muito linear. Não gostei muito do som, de facto, mas o LP não era mau. Este é melhor em todos os sentidos. Soa muito melhor, tem mais personalidade. E o grupo é tremendo.

É do domínio público que não aprecia propriamente uma das bandas inglesas mais badaladas do momento, os Mumford & Sons. Já mudou de opinião?
São ainda piores agora. Cada vez que ligo a porcaria da televisão tenho que levar com eles. Estão em todo o lado, não há paciência!

O punk parece estar em todo o lado outra vez: têm saído livros, há exposições. O que sente em relação a isso?
Até houve aqui em Manchester uma exposição de roupas punk. Roupas punk, já viram a coisa? E roupas do David Bowie… Senti-me sempre à margem disso tudo. Começámos na era punk e a maior violência que sentíamos vinha dos próprios punks. Atiravam-nos garrafas e cuspiam-nos. Mas as pessoas gostam de reescrever a história, não é? E agora há quem nos alinhe com o punk. Mundo fantástico, este em que vivemos.

Como é que analisa o clima político em Inglaterra neste momento?
David Cameron anunciou recentemente leis que tornam a vida mais difícil para os imigrantes… Isto tem tudo a ver com a Europa, não é? Mas eu tenho amigos a receber subsídio de desemprego na Bulgária (risos). Foram para lá trabalhar e acham que o sistema deles é muito melhor.

Há em Portugal um músico chamado António Manuel Ribeiro que tem mais ou menos a sua idade e que formou uma banda mais ou menos ao mesmo tempo, os UHF, que ainda existem. E como acontece consigo e com os Fall, ele também é o único membro original da banda – só não grava tantos discos. Que conselho de gestão de recursos humanos lhe poderia dar?
O que procuro fazer, sempre que estou um pouco mais deprimido, é ligar o rádio porque isso a mim faz-me sempre concluir que tenho que continuar com os Fall. Seja lá com quem for. Estou mesmo convencido de que é uma coisa necessária. Por isso, é uma questão de ver quem está disponível e quem quer dar tudo por tudo. Não há ciência nenhuma.

Como adepto do Manchester City, encara a partida do treinador Alex Ferguson do rival Manchester United como uma oportunidade para o seu clube ganhar mais?
Não estamos lá muito bem agora, há que convir. Perdemos jogos para equipas com uma pequena parte do nosso orçamento. O City consegue jogar contra o Chelsea ou o Barcelona, mas não é capaz de se comportar contra equipas normais e esfomeadas. Quanto ao Man Utd… não estou interessado em vermelhos (risos).

O português José Mourinho vai regressar ao futebol inglês. O que pensa dele?
Acho que é sobrevalorizado, para dizer a verdade. Qual é a sua equipa? Benfica. Eusébio, yeah! Com esses vermelhos já não me incomodo.