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Sérgio Godinho em 2018

Rita Carmo

Sérgio Godinho, a entrevista BLITZ: “Quando falo do país, falo de mim”

A poucos dias da chegada do novo álbum, “Nação Valente”, Sérgio Godinho falou longamente com a BLITZ. As colaborações do seu 18º álbum e os concertos que irá dar, mas também os amigos que partem, os livros que vão sendo escritos e a relação que mantém com Lisboa e Porto são alguns dos temas da conversa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Encontramo-nos ao meio-dia de uma quinta-feira de sol, em Lisboa. Pela rua cor-de-rosa do Cais do Sodré, Sérgio Godinho chega a horas, de sorriso aberto e passo ligeiro, à livraria onde o questionaremos sobre o novo disco - o primeiro desde Mútuo Consentimento, de 2011 - e tudo à volta. Aos 72 anos, o seu discurso é fluido e denuncia o entusiasmo com a música que continua a criar (o novo álbum, Nação Valente, chega às lojas a 26 de janeiro), mas também com os livros que escreve, as palavras que persegue e as canções que já se tornaram parte da sua identidade. "É bom mostrá-la às pessoas. Enquanto tiver esse prazer, fá-lo-ei", promete.

Nação Valente, é um título forte, que evoca logo muitas imagens e conotações. Que reações tem tido ao mesmo?
Há muita gente que diz: "é surpreendente e é mesmo a tua cara, é um título valente". E depois dois ou três amigos disseram-me: "cuidado, que é o hino"... Claro que eu sei que é o hino, mas quis extirpar o título de qualquer conotação nacionalista, no mau sentido do termo. Se se ouvir a canção, "Nação Valente", [percebe-se que] é muito positiva e mais próxima de uma noção do Portugal atual. Fala, ainda que em termos metafóricos, do pós-troika, quando diz "não quero ver-te acorrentada, sofrendo por tudo e por nada, não quero ver-te numa gaiola, de mão estendida por esmola, não quero ver-te endividada". A canção diz: "há que ir em frente, nação valente", e depois tem um refrão extremamente positivo, que é "fronteiras antigas, fronteiras abertas, quero um país de ideias libertas". Porque temos, de facto, fronteiras firmadas há muito tempo - na Europa, somos um dos países mais antigos, a nível de fronteiras fixas -, mas também têm de ser abertas no sentido simbólico. Abertas ao outro. Que haja pontes para outros países, no sentido simbólico e no nosso sentido pessoal. Quando falo do país, falo também de mim e dos outros. "As mágoas da vida, e da vida as ofertas" - há ofertas que nos passam à frente e não conseguimos apanhar.

Continua a ser um otimista?
(risos) Dizem-me isso e eu acho que sim, que sou positivo, mais do que otimista. Positivo e ativo. Acabo por ser um otimista, mas não é uma característica toda limpinha, desligada da vida quotidiana. Há coisas difíceis e períodos difíceis. O valor mais essencial para que as outras coisas possam funcionar é a saúde. Por muito que façamos por isso... O nosso querido amigo Zé Pedro... podemos pensar que ele viveu para lá do prazo, mas para nós - e estou a falar do coletivo, porque de facto era uma pessoa amada - é sempre uma surpresa dolorosa. Eu era muito amigo do Zé Pedro e da Cristina [sua mulher], amigo de casa... E aquela vontade de viver dele não chegou. Chegou durante muito tempo. O Zé Pedro era da casa e representava alguma coisa. Foi incrível o que [na sequência da sua morte] houve de consenso e vontade de se juntar a esse consenso. Para lá do carisma natural que tinha, era uma joia de pessoa, como toda a gente sabe.

Este é o seu primeiro disco em sete anos. Está entusiasmado com o regresso aos álbuns?
Quando se acaba um disco, fica-se sempre exausto. Exausto do disco, porque é um trabalho de tal forma laborioso que o entusiasmo tem é de passar para as pessos que o ouvem ou que assistem aos concertos. Tenho tido bom feedback e estou muito contente com esta aventura. Valeu a pena, porque teve um ponto de partida que teve de ser levado a bom porto. As letras são todas minhas, mas só em duas canções é que [sou autor de] letra e música - as outras [resultam todas de] parceria, algumas com antigos parceiros, como o José Mário Branco, outras com "repetentes", como Hélder Gonçalves e o Nuno Rafael. Mas também há pessoas que entraram agora no universo das minhas canções, como o Pedro da Silva Martins e o Filipe Raposo, um enorme pianista com quem também dou espetáculos de voz e piano. Cada caso foi um desafio, porque tive de personalizar fortemente as canções. A minha voz já as personaliza um pouco, mas não podiam ser um objeto estranho com o qual não me sentisse à vontade. E sinto-me à vontade com todas. Os próprios compositores disseram-me que não estavam à espera que isto se tornasse uma coisa tão Sérgio Godinho. Mas é inevitável, é nesse sentido que trabalho.

Que método seguiu?
Quando faço canções, geralmente começo pela música e só depois vem a letra. Também trabalhei com o David Fonseca, com quem já tinha interagido - o primeiro disco dos Silence 4 tem uma canção ["Sextos Sentidos"] que canto com ele, com letra minha, e n' O Irmão do Meio ele canta comigo a "Balada da Rita". [A canção que ele escreveu para este disco] foi muito surpreendente - o tema ["Grão da Mesma Mó"] foi-me muito interpelante, era difícil agarrar aquilo. Tem duas partes faladas, uma das quais o refrão, e eu tinha de agarrar aquela energia que existe na canção. Não é por acaso que abre o disco, é porque quase se propõe contar uma história global, que depois vai sendo cantada ao longo de outras canções. Ele diz: "e de repente há uma luz que se acende, não se sabe se vem de fora ou se vem de dentro, apareceu!". Essa luz vai-se repercutindo nas outras canções.

E foi fácil homogeneizar o som das canções, para que não parecesse cada uma de sua nação?
A sua nação valente. (risos) Isso não foi um ponto de partida, mas sim um ponto de chegada. Para já, eu sou exigente com as palavras, tanto nos meus escritos, nas minhas ficções narrativas e nos romances, como nas canções, que são peças de joalharia em que tudo tem de se encaixar. Já em discos como Domingo no Mundo [de 1997], que tem muitos arranjadores, se sente uma unidade, e acho que neste ainda se sente mais, porque o Nuno Rafael, que toca comigo, é a alma mater do projeto a nível musical, com contribuições do Filipe Melo. Ele já queria ter feito isto no álbum anterior: um disco muito acústico, com poucos instrumentos, com duas exceções: a canção com o José Mário Branco, "Mariana Pais, 21 Anos", que tem o quarteto de cordas e harpa, e a do Nuno Rafael, "Tipo Contrafacção", com o naipe de sopros. Mas é um disco muito cru, com um elemento percussivo forte, que não é de bateria tradicional. Isso também dá ao trabalho um tom homogéneo.

Uma das canções mais singulares deste disco é "Mariana Pais, 21 Anos", com música de José Mário Branco e letra sua. Quando a recebeu, teve logo uma imagem da história que ali nasceria?
Não. A música é intrigante, porque parece que não faz grande coisa. É muito Zé Mário, mas quando ma entregou parecia algo sorrateira. E de repente tive a ideia de compor uma personagem à qual dei nome - até lhe dei nome de família! Já há muito tempo que não dava nome a uma personagem de canção. Cansei-me disso, com tantas Etelvinas e tantas Ritas e tantos Casimiros. O nome Mariana veio de haver uma Mariazinha no primeiro disco dele, embora aí seja uma coisa mais triste e dramática. Aqui é uma rapariga que quer ter mundo! No próprio nome está fixado que tem 21 anos, e tem sede de ter mundo, mas de maneira múltipla. Não tem de estar sempre em profundidade total, por isso é que diz: "vou até ao fundo, esgravato só, os meus sonhos mordem pão de trigo e mordem pão-de-ló". Ela tem, também, a leveza da sua idade, daquilo que vive. E a canção é uma conversa com alguém mais velho. Quando tinha 20 anos, parti de Portugal e sinto muito essa procura de autonomia, de se saber quem é. A canção não é autobiográfica, mas há algo em comum [comigo] nessa procura.

"Não sou contra um acordo ortográfico - o meu pai escrevia saüde. Acho é que este acordo está muito malparido"

Na primeira amostra do disco, "Tipo Contrafacção", usa a palavra "tipo" nesta sua aceção mais recente e coloquial, que de resto também é usada no Brasil. Está sempre atento aos novos vocábulos, à evolução da língua?
O que me [deu a ideia] foi aquela expressão "tipo queijo da Serra", porque a canção tem uma série de imagens de contrafação, mas depois nem sequer é contrafação, é tipo contrafação. (risos) E depois percebe-se que a personagem está a falar da mulher dos seus sonhos, "que nem por sonhos sonhei que me fosse deixar". E que acaba por dizer que o amor deles se tornou uma forma de contrafação. É uma canção com uma viragem narrativa - tem uma volta na ponta.

Essa paixão pela palavra acompanha-o sempre?
Absolutamente. E tem uma certa piada, porque eu não pratico o acordo ortográfico, nem nos meus escritos, e neste caso escrevo "contrafacção", com dois cc. Eu não sou contra um acordo ortográfico, porque a língua evolui e lembro-me de ter lido em casa dos meus pais certos livros com outra maneira de escrever - o meu pai escrevia saúde com trema, por exemplo ["saüde"]. Acho é que o acordo está muito malparido, mas não vou agora fazer um grande relambório sobre isso.

Gravou este disco uma versão de "Delicado", uma canção de Márcia - que, curiosamente, já tinha feito uma versão de uma canção sua, "Às Vezes o Amor"...
Quando ela participou [na coletânea] Voz e Guitarra, falou comigo e eu disse-lhe: ouve lá o "Às Vezes o Amor", vê lá se te serve. Ela não conhecia a canção e gostou muito. Curiosamente, essa canção também é um diálogo entre uma pessoa mais velha e uma rapariga. Formalmente, há uma similitude com "Mariana Pais, 21 Anos". Eu acho que a Márcia é mesmo muito talentosa - é uma clássica. Não gosto de falar em termos de geração, porque é tudo um pouco fluido, mas [entre os mais jovens] a Capicua também tem um grande talento para a palavra escrita e falada. Não dato muito as coisas em termos de idade. Trabalho com pessoas que geralmente são mais novas que eu, mas não é determinante. Temos linguagens comuns. O termo geração, em si, não me diz muito. Quando uma pessoa na rua me diz: "você é mesmo da minha geração, canta aquelas canções da minha geração!", eu não sei se me identifico com isso. Porque nessa geração, que é a minha, há pessoas que não me interessam nada, que têm valores completamente diferentes. Não há um sinal unificador, não acredito nisso.

Tem também trabalhado com o Jorge Palma, no projeto Juntos...
O Jorge Palma pode dizer-se que é da minha idade, porque tem menos cinco anos. Mas, quando estamos juntos, não pensamos nisso. Isso aplica-se entre uma pessoa de 18 anos e uma de 13. Aí há uma diferença, que depois se vai esbatendo.

Quais os momentos mais gratificantes desses concertos com o Jorge Palma?
Há um grande prazer nesta união, pelo facto de eu e o Jorge finalmente trabalharmos juntos; temos universos musicais que se cotejam muito, que são afins. Embora cada um tenha a sua personalidade, cruzam-se bem. Em palco, havia três músicos da minha banda e três da banda dele - não foi por quotas, os cotas somos nós (risos) - e foram espetáculos de grande energia. Uma das coisas de que gostei muito, e que foi propositada, foi o facto de o Jorge começar a cantar muitas das minhas canções e eu começar a cantar muitas das dele, o que dá uma familiaridade e ao mesmo tempo uma estranheza para quem está a ouvir: "eu conheço esta canção, mas não é exatamente assim que a conheço!". Foi e ainda é uma aventura muito feliz. Ainda temos um concerto marcado para este ano.

Em 2018, Sérgio Godinho ainda tem tempo para mais um concerto com Jorge Palma

Em 2018, Sérgio Godinho ainda tem tempo para mais um concerto com Jorge Palma

Rita Carmo

"Algumas pessoas ficaram perplexas com a linguagem do meu primeiro romance"

Que canções é que os fãs lhe pedem sempre para cantar, independentemente do tipo de concerto?
Considero que certas canções como "O Primeiro Dia" fazem parte da minha identidade e que é bom cantá-las. São canções que se colam tanto à minha personalidade musical que é bom mostrá-las às pessoas. Enquanto tiver esse prazer, fá-lo-ei. Mas em relação ao repertório que estamos a tocar, também vamos desempoeirar outras canções que ficam muito tempo a apanhar pó. As músicas estão sempre em movimento, porque mesmo certas canções que já tocámos há anos, já fizemos mais do que uma versão para elas. O que é bom nestes objetos é que são transformáveis, não estão para sempre fixados de maneira definitiva. Um quadro está pintado, mas as artes performativas... uma peça de teatro, quantas peças conhecidas já não tiveram encenações diferentes? Entretanto estou também a fazer a revisão do meu segundo romance. O Coração Mais que Perfeito saiu há um ano e tive muitas sessões em festivais literários e bibliotecas. Foi uma interação muito interessante, porque houve pessoas que foram tocadas de maneira muito especial pelo livro. Algumas ficaram perplexas com aquela linguagem e com a franqueza. O segundo já está escrito, mas quero reformular uma das personagens e algum vocabulário.

Vai ter uma temática semelhante à de Coração Mais que Perfeito?
Não, vai ser muito diferente. Ainda não posso falar dele, mas tem poucas personagens e mais unidade de ação. E vai sair em setembro.

"Nunca estive alheado da realidade"

De volta ao álbum: nestas canções, a a sua voz soa mais próxima, mais quente. Foi propositado?
Foi. Acho que cantei, inclusivamente, mais perto do microfone. A presença da voz marca e felizmente ela tem-se conservado. Foi muito propositado, não só a nível das misturas como, antes das misturas, da própria oração.

E isso cria uma maior intimidade?
Sim, eu pus-me a ouvir a "Mariana Pais, 21 Anos" e às vezes estava a "ouvir" o Zé Mário a cantar. É quase inevitável: aquelas melodias são muito inspiradas e muito pessoais. Aí houve essa intimidade - senti que, lá atrás, naqueles tons mais graves, estava a ouvi-lo: "ora pão-de-lóóó...". Essa coisa de estender um bocadinho a palavra é muito Zé Mário.

Alguma vez receou tornar-se um daqueles autores que, com o passar do tempo, se alheiam da vida "real", com consequências nefastas na sua obra?
Eu nunca estive alheado da realidade. É-me natural estar próximo dela. Mas não tenho de estar sempre a falar da realidade. O que acontece também nas minhas narrativas... Mas, de uma maneira ou outra, não estou alheado, de certeza.

Uma das canções deste disco, "Noite e Dia", prova isso mesmo. Na mesma, relata e comenta o quotidiano duro de um trabalhador...
É um relato duro, de um homem que está a perder o pé. Tem dois empregos, dois turnos, já não sabe o que é dia, o que é noite - é uma canção de grande solidão, porque ele já não tema a consciência plena do que vale na vida. Diz mesmo: "já só vejo os meus filhos ao domingo e são poucas horas para um tão vasto vazio". É um tipo sem referências. No fim de contas, só tem um desejo quase pueril, que é: por um lado encontrar na casa a sua rua, por outro encontrar na rua a sua casa, e à lareira olhar o fogo em brasa. Que é uma espécie de conforto, mas continua a ser uma solidão. Não temos de estar mal com a nossa solidão, mas ele está. É uma canção dramática - e, por acaso, ao contrário de todas as outras. Neste caso, a letra foi feita antes e, depois, o Filipe Raposo musicou.

Podia ser "prima" de "Em Dias Consecutivos", uma canção do álbum anterior...
Não está mal visto. É muito reflexiva, a "Em Dias Consecutivos", e esta também.

Deu como exemplo de canção que já faz parte da sua identidade "O Primeiro Dia", lançada em 1978. Lembra-se de a ter escrito?
Lembro! E foi depois do fim de um amor longo. No sentido estrito, há algo que partiu daí, mas não é uma canção de amor. É uma canção de percurso, de interrogações, que eu fiz com cinco ou seis tempos, começando com "a princípio é simples, anda-se sozinho" - lá está, aí a solidão sabe bem. E depois passa-se por um período em que se anda perdido de si mesmo e depois de reencontro. Reencontra-se com o vinho da casa, ou seja, com a casa no sentido simbólico, consigo mesmo, uma nova vida. É uma canção muito rigorosa. Vai sendo sempre pontuada pelas bebidas: no princípio bebe-se as certezas num copo de vinho, depois apagam-se dúvidas num mar de cerveja, etc. [No fim] brinda-se aos amores com o vinho da casa.

Quando se escreve uma canção dessas, tem-se noção do impacto que virá a ter?
Não! Fiquei contente com essa canção, mas não sabia bem [o impacto que viria a ter]. Com o arranjo, o piano, etc, soou bem e tornou-se quase automaticamente uma canção forte. Mas lembro-me que, das duas ou três primeiras vezes que a cantei, não tive uma reação eufórica - foi normal. Mas há sempre um tempo de aprendizagem que as pessoas têm em relação às minhas novas canções, que eu acho natural. Num concerto, por exemplo... Nas canções que não conhecem, as pessoas ficam: "deixa cá ver se eu gosto disto". Não há sempre um grau imediato de adesão. Se depois crescer um bocadinho, até é bom!

"A minha mãe tinha o curso de piano. Tocava em casa e é um instrumento com uma conotação afetiva muito próxima de mim"

Em casa, ainda gosta de ouvir música?
Gosto sempre, mas ouço música de teor muito diferente. Hoje de manhã, por exemplo, pus [a tocar] o Keith Jarrett. Ou ouço música barroca: Mozart e Purcell, Bach. Ou coisas de piano. A minha mãe tinha o curso de piano, tocava lá em casa e é um instrumento com uma conotação afetiva muito próxima de mim. No carro, já ouço coisas diferentes.

Como é um dia normal para si? Deita-se muito tarde, fica a escrever?
Não, não sou um grande notívago. Escrevo à noite, mas posso estar duas horas à volta de um texto, às vezes porque não quero aquela palavra, quero um sinónimo... Por enquanto, acabou o trabalho das canções, e eu nunca fui muito de estar sempre a compor. São aquelas, está feito, "e mudemos de assunto, sim?". Muitas vezes os meus dias passam-se em tarefas banais: tenho de ir ao banco, ao supermercado, vou na medida do possível ao ginásio. Ou vejo amigos. Não é nada de espetacular, o meu dia a dia. (risos) Mas há uma coisa que o torna diferente: quando tenho concertos fora. Aí há todo o investimento da viagem, que às vezes é uma chatice, mas depois é compensado pela vibração, que é muito especial, dos concertos. Aí há uma quebra muito grande de rotina e eu gosto disso, dessa vadiagem. (risos)

Que lhe parece esta Lisboa do turismo e da gentrificação?
É uma cidade bonita - e estou a falar também do Porto. Uma cidade com uma série de atrativos, de monumentos, em que se come bem e as pessoas são simpáticas - acho que os portugueses fazem um esforço natural em olhar para o outro. Mas há pontos de rutura, e tem de se restringir um pouco - o que julgo já estar a ser feito -, porque senão fica insuportável. Em Barcelona, a certa altura teve de se pôr um travão em certas coisas - ir às Ramblas é insuportável, não se consegue andar lá, para além do outro episódio trágico [atentado de 2017], que não foi por acaso que aconteceu ali. Lisboa também corre esse risco. O turismo, embora com regras, é uma inevitabilidade. Com o alojamento local é preciso ter cuidado, porque nos bairros populares as pessoas têm de sair das suas casas ou dividi-las para alugar uma parte e a certa altura começa a haver uma descaracterização perigosa. E a subida das rendas, que é real.

Nascido no Porto em agosto de 1945, Sérgio Godinho vive em Lisboa desde 1974

Nascido no Porto em agosto de 1945, Sérgio Godinho vive em Lisboa desde 1974

Rita Carmo

"O que perdi do sotaque do Porto, que nunca foi muito cerrado, reencontro quando vou lá"

Há tantas décadas em Lisboa, ainda há alguma palavra que não consiga dizer sem sotaque?
Há uma coisa que é quase um vício das pessoas do Porto: falar no passado e não abrir a vogal. "Falamos", em vez de "falámos". Digo-o naturalmente. Eu não tenho vergonha nenhuma de falar à Porto, mas nunca tive um sotaque muito cerrado. Mas se vou ao Porto e estou lá três dias, começo a apanhar a música da frase. "Oub' lá!" (risos) Se vivesse um ano no Brasil, vinha de lá a falar meio brasileiro, porque não consigo evitar - entra por mim dentro! O que perdi do sotaque do Porto - que, repito, nunca foi muito cerrado - reencontro quando estou lá.

Eu digo "vácina"...
Eu às vezes digo "máioria". (risos) Mas também já sou um produto de ouvir as pessoas em Lisboa. E estou aqui desde o 25 de Abril, numa cidade que não conhecia e que agora também é a minha cidade. Gosto muito de ir ao Porto, porque reconheço qualquer coisa de mais profundo, lá de trás, da minha infância e adolescência. Aquilo que mudou e não mudou, os pequenos acontecimentos, a maneira como as pessoas falam... Para lá da pronúncia, gosto das expressões, algumas das quais irrepetíveis. (risos) É uma linguagem muito colorida.

Nação Valente será editado em CD e digital, mas também em vinil...
Já houve outros discos meus a sair em vinil: Os Sobreviventes, Canto da Boca e Pré-Histórias. É um nicho, mas mesmo os CD vendem-se muito pouco. (risos) Mas é um nicho dos "taradinhos", no bom sentido. Daqueles que dizem: "isto é que é o som puro!". E discutem entre eles e acham que o CD assassinou a música! (risos) Eu não sou muito purista. Mas pelo menos este vinil é de qualidade. Às vezes vou buscar um disco meu de vinil que lá tenho e ele está a "fritar" por todos os lados, e empanca, e está aos saltos. O vinil dos últimos tempos, em Portugal, era de uma qualidade miserável. Não todos, mas alguns. Havia vinil que era fundido com as etiquetas e tudo, para fazer outros discos de vinil! Desde logo completamente impuro!

Agora até a cassete está a ter um revival...
Isso para mim é mais incompreensível, porque não é muito prático. Outro dia comprei um leitor de cassetes, porque precisava de ouvir umas coisas em cassete que tinha para lá, para depois passá-las para CD. E comprei no Cash Converters um daqueles tijolos - 9 euros! (risos)

Nação Valente, o novo disco de Sérgio Godinho, chega às lojas na próxima sexta-feira, 26 de janeiro. A 23 e 24 de fevereiro, há concertos no Capitólio, em Lisboa, e a 3 e 4 de março na Casa da Música, no Porto. Antes, a 2 de fevereiro, Sérgio Godinho dá um concerto grátis à porta dos Armazéns do Chiado, em Lisboa, pelas 18h30, seguida de sessão de autógrafos.