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Multidão à porta do Cavern, em Liverpool, no início dos anos 60

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A história da música de Liverpool, a cidade “revolucionária” que não é apenas dos Beatles

Embarcamos numa viagem até à cidade portuária das margens do Mersey para traçar um retrato panorâmico que se alarga dos Beatles até ao presente, com obrigatórias passagens pelos Echo and the Bunnymen, Frankie Goes to Hollywood, OMD, The La’s e tantos outros. Há décadas que Liverpool é fértil terreno para mentes pop avançadas, e há uma nova caixa – “Revolutionary Spirit” – que celebra esse importante legado.

Os Beatles são um símbolo tão britânico quanto a Rainha, a Union Jack ou o filme 007, mas, curiosamente, Liverpool, a cidade que a banda colocou no mapa musical mundial com enorme estrondo, é frequentemente descrita como a menos inglesa de todas as importantes cidades do Reino Unido.

Em 1995, em entrevista ao New Musical Express, Lee Mavers procurava – de forma extremamente poética e algo enigmática – dar conta da vida e eventual ressurreição do seu grupo, os La’s, e da sua própria cidade evocando a mesma figura a que David Bowie se haveria de abraçar, antes de partir: “Lazarus, La-s-arus, La’s. Ele dirigia a luz. E a luz vem da água. Mantém-te vivo. E a água ("the pool...") é onde temos que estar. A Liver-Pool. O Mississippi. O Mersey-ssippi. Ao longo da história, os cientistas mais loucos foram também os melhores e todos viviam perto da água”.

É natural esta ligação de Liverpool à Grande América: foi em Liverpool que os Estados Unidos instalaram o seu primeiro consulado e foi do seu porto marítimo que saíram incontáveis navios carregados de gente para o Novo Mundo. Talvez por isso mesmo, Roger Appleton, realizador do recente documentário Get Back – The Story of the City That Rocked The World tenha garantido ao Guardian que Liverpool “é a menos inglesa das cidades inglesas”: “A população na década de 40 do século XIX era relativamente pequena (à volta de 250 mil pessoas), mas na década seguinte quase um milhão e 300 mil irlandeses passaram por ali. Muitos foram para os Estados Unidos, mas o facto de haver tantos irlandeses significava que por volta de 1860 era possível caminhar por alguns bairros da cidade e sentir-se que se estava na Irlanda”.

Carruagem puxada a cavalos no centro de Liverpool, nos anos 90 do século XIX

Carruagem puxada a cavalos no centro de Liverpool, nos anos 90 do século XIX

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Com um êxodo provocado por deploráveis condições de vida na Irlanda, as muitas centenas de milhares de pessoas que em meados do século XIX chegavam a Liverpool traziam consigo uma diferente identidade cultural que marcou a cidade para sempre. De alguma maneira, e apesar de ter liderado a afirmação musical britânica na década de 60 com o sucesso global dos Beatles, Liverpool sempre se mostrou imune às vagas de fundo que, periodicamente, foram varrendo a paisagem musical inglesa.

Simon Reynolds aflora essa particularidade nas páginas de Rip It Up and Start Again a sua crónica dos anos que se seguiram ao punk (Penguin Books, 2006): “Ao contrário de outras cidades britânicas, vista de fora Liverpool parecia não ter realmente respondido ao punk. Na verdade, o levantamento de 1976 conseguiu, de facto, galvanizar a cena ao vivo da cidade que estava estagnada desde o arranque da década de 70”. Paul Du Noyer, correspondente de Liverpool nas páginas do NME durante esse período confirma a ideia: “A cidade nunca produziu um grupo punk clássico”. “”E depois disso”, acrescenta ainda Reynolds, “o pós-punk também não floresceu por lá, pelo menos não no caso dos sons experimentais que se produziam na época em Londres, Sheffield e Leeds, tais como ruído electrónico industrial, funk de vanguarda ou dub apocalíptico”. Talvez por causa do espelho de água oferecido pelo Mersey, Liverpool sempre preferiu visões musicais mais coloridas ao cinzentismo exportado pela vizinha Manchester, por exemplo.

Do skiffle ao Cavern

Na apresentação de Revolutionary Spirit - The Sound of Liverpool 1976-1988, nova e extraordinária caixa-retrato da cena musical da cidade do Mersey editada pela Cherry Red, escreve Bernie Connor: “Liverpool pode querer dizer muitas coisas para muitas pessoas. Um lugarejo provincial que passou demasiado tempo ao sol e enlouqueceu. Um raio de luz brilhante num mundo largamente aborrecido e escuro. Um viveiro de crime e de figuras suspeitas que enchem as páginas da imprensa tabloide e dão à cidade uma das suas muito coloridas reputações. E por aí adiante... Foi a ‘segunda cidade do império’ enviando gente e bens para os mais remotos lugares, para onde quer que o Império Britânico se estendesse”. O autor das notas de capa de Revolutionary Spirit explica ainda que depois da era dourada de prosperidade económica à sombra das dinâmicas imperiais, e “contra todas as possibilidades”, Liverpool conheceu uma vez mais um lugar ao sol: “Em finais dos anos 50, jovens inspirados pela nova música dos Crickets, de Elvis Presley e Little Richard e do rhythm n’ blues americano começaram a fazer a sua própria versão, assimilada por um filtro britânico do norte”. Bernie Connor refere-se à febre do skiffle.

Dança na rua ao som de uma banda skiffle, em Londres, no final dos anos 50

Dança na rua ao som de uma banda skiffle, em Londres, no final dos anos 50

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Mistura de blues, folk, jazz tradicional e dos primeiros tremores do rock and roll, o skiffle – que teve o seu expoente em Lonnie Donegan – foi o primeiro momento na história da música popular em Inglaterra em que o apelo a uma jovem geração foi total: parte do fascínio do skiffle tinha precisamente a ver com o facto de não exigir nenhum tipo de virtuosismo e de alguns dos seus instrumentos poderem ser “fabricados” artesanalmente. Em finais dos anos 50, havia em Inglaterra mais de 30 mil bandas de skiffle, mas uma, muito em particular, haveria de assinalar a evolução da música – os Quarrymen de John Lennon. Influenciado pelos discos de Elvis Presley da sua mãe, John desenvolveu muito cedo uma enorme paixão pela música que o levou a formar os Quarrymen. Mas foi quando conheceu Paul McCartney que Lennon encontrou a sua alma gémea e a música realmente se começou a desenvolver.

A história é por demais conhecida: um encontro de adolescentes numa igreja de Woolton, em 1957, Paul McCartney a sugerir a John Lennon que recrutassem para os Quarrymen o seu amigo George Harrison e a semente do tal espírito revolucionário estava lançada. Depois de experimentarem algumas mudanças de nome após a fase Quarrymen – Johnny and The Moondogs, The Silver Beetles, Long John and The Silver Beetles – o grupo decidiu-se pelo nome The Beatles em Agosto de 1960, quando embarcaram na mítica aventura de Hamburgo, já com Stuart Sutcliffe e Pete Best a bordo.

George Harrison, John Lennon e Paul McCartney: o trio fundador dos Beatles à beira dos anos 60

George Harrison, John Lennon e Paul McCartney: o trio fundador dos Beatles à beira dos anos 60

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Tal como Liverpool, Hamburgo também tinha sofrido com os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial, também era um importante porto e também possuía o estatuto de segunda cidade do seu país. Foi precisamente a tropas inglesas que Hamburgo se rendeu em 1945, por isso uma nova rendição incondicional ao arsenal eléctrico destas bandas fazia todo o sentido. O Idra Club foi a primeira paragem em Hamburgo, mas os Beatles tocariam igualmente no Kaiserkeller na primeira de várias temporadas nessa cidade. Neste segundo clube, os Beatles tocavam em alternância com Rory Storm and The Hurricanes, banda de Ringo Starr, em sets longos que eram tão selvagens como proveitosos para a evolução do grupo. Hamburgo era uma cidade notória pelos vícios, com o crime, as drogas e a prostituição a darem um colorido muito particular aos clubes, onde marinheiros e soldados de licença procuravam emoções fortes. Por isso, os Beatles tocavam várias horas por noite, fazendo longas versões de temas como "Be Bep A Lula", facto que lhes permitiu aperfeiçoar não só a noção de espectáculo, como as suas capacidades individuais de instrumentistas. Para debelarem o cansaço, os membros do grupo contavam com um fornecimento contínuo de Preludin, primeira etapa numa viagem pelo mundo das drogas. Stuart Sutcliffe, responsável, juntamente com Lennon, pelo nome The Beatles, viria a morrer em Hamburgo, vítima de uma hemorragia cerebral.

As qualidades desenvolvidas em Hamburgo revelaram ser determinantes para o crescimento do estatuto dos Beatles em Liverpool, com várias actuações no mítico Cavern Club a beneficiarem da experiência adquirida na Alemanha. Foi aí que Brian Epstein os viu e se rendeu à sua força e talento. Do site oficial de Brian Epstein: "Eu não tinha nada a ver com o management de artistas pop antes daquele dia em que fui ao Cavern Club e ouvi os Beatles (…). A música deles apanhou-me de imediato, a sua batida, o seu sentido de humor em palco. E mesmo mais tarde, quando os conheci, fiquei arrebatado pelo seu charme pessoal. Mas foi no Cavern que tudo realmente começou".

A fila para entrar no Cavern, mítica sala de espetáculos de Liverpool, em 1960

A fila para entrar no Cavern, mítica sala de espetáculos de Liverpool, em 1960

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Um dos epicentros da actividade musical de Liverpool, o Cavern funcionou como uma espécie de quartel general para a cena Merseybeat – de artistas como os Searchers, Billy J. Kramer, Gerry and the Pacemakers ou os Mindbenders – e como verdadeiro laboratório para os Beatles que aí tocaram perto de três centenas de vezes entre 1961 e 1963. O clube original haveria de encerrar portas – a expansão da rede de metro a isso obrigou – em 1973, mas ao longo da década de 60 grupos como os Rolling Stones, os Kinks, Yardbirds ou Hollies apresentaram-se aí absorvendo, por um lado, a vibração especial da cidade – “as pessoas de Liverpool divertem-se sempre como se cada dia fosse o último que estão na Terra”, refere-se no documentário Get Back – e inspirando, por outro, as hordas de miúdos que se iam acumulando no seu reduzido espaço para sentirem, curiosamente, uma mais ampla liberdade.

E depois dos Beatles?

Talvez por causa da longa sombra lançada pelos Beatles, Liverpool passou algum tempo envolta num doce torpor de que só recuperaria realmente – musicalmente falando, claro – na segunda metade dos anos 70. “Infelizmente”, explica-se nas notas de Revolutionary Spirit referindo-se ao período pós-Beatles, “todas as bandas de Liverpool surgidas depois tiveram que viver sob essa pesada sombra que foi usada para glorificar o legado musical da cidade e como um bastão para espancar quaisquer novatos que tivessem a temeridade de tentarem a sua sorte”.

Em perfeito isolamento, dois grupos foram fundamentais para o futuro da cena de Liverpool no período revolucionário em curso de 76/77: os Deaf School, em primeiro lugar, e os Big in Japan, logo depois. Os Deaf School, banda de Clive Langer, fizeram a travessia do deserto, tendo começado em 1973 quando ninguém parecia querer saber do assunto, misturando artes performativas, cabaré e uma atitude musical mais exploratória que os foi aproximando do punk à medida que a década avançava. Justamente citados como uma influência por gente como os Frankie Goes To Hollywood, o culto dos Deaf School haveria de se revelar mais vasto, marcando músicos de outras cidades como os Madness ou os Dexy’s Midnight Runners, dois grupos que Langer haveria de produzir. O guitarrista dos Deaf School alcançou notoriedade também por ter ajudado Elvis Costello a criar a espantosa “Shipbuilding”, um dos mais brilhantes diamantes do cancioneiro britânico moderno.

Enrico Cadillac e Bette Bright, dos Deaf School, ao vivo em 1976

Enrico Cadillac e Bette Bright, dos Deaf School, ao vivo em 1976

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Foi Clive Langer quem sugeriu ao amigo Bill Drummond que usasse o equipamento dos Deaf School durante o período em que estes estariam ausentes para alguns concertos na América, por volta de 1977. Dessa sugestão inicial haveriam de surgir os extraordinários Big In Japan, uma espécie de “supergrupo às avessas”, uma vez que boa parte dos seus membros só alcançaram real notoriedade mais tarde: Drummond, o primeiro instigador deste novo e importante colectivo na árvore genealógica de Liverpool, foi o co-criador dos extraordinários KLF, mas os Big In Japan incluíram também gente como Jayne Casey, a exuberante vocalista que haveria de formar os Pink Industry, Holly Johnson, que se assumiu como frontman dos Frankie Goes to Hollywood, Ian Broudie, o cérebro por trás dos Lightning Seeds, ou Budgie, comparsa de Siouxsie Sioux nos Banshees e nos Creatures, entre outros. Os Big In Japan tiveram uma carreira muito curta, extinguindo-se antes da entrada da nova década, mas foram determinantes para o futuro da música de Liverpool.

Cabe aos Deaf School e aos Big In Japan a honra de abrirem o generoso alinhamento de Revolutionary Spirit, caixa que alberga 5 CDs que reúnem música de notáveis “liverpudianos” como os Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Orchestral Manoeuvres in The Dark (OMD), Original Mirrors, A Flock of Seagulls, China Crisis, It’s Immaterial, Frankie Goes To Hollywood, The Lotus Eaters, Dead or alive, Pale Fountains ou The La’s entre muitos outros (são 100 faixas ao todo!). Muitas destas bandas tiveram no clube Eric’s o mesmo porto de abrigo que a geração de meados da década de 60 descobriu no Cavern. Foi no Eric’s, por exemplo, que os Big In Japan tocaram o seu último concerto, a 26 de Agosto de 1978, depois de verem ser lançada uma petição por Julian Cope a pedir que a banda acabasse: “Claro que o Bill Drummond aderiu logo à ideia e disse-nos que a banda terminaria se conseguíssemos 14 mil assinaturas”, recorda Julian Cope na sua autobiografia, Head On/Repossessed, “mas só conseguimos para aí umas nove”. Incluindo algumas de membros dos próprios Big In Japan.

Punks à porta do Eric's, sala relevante na Liverpool de final da década de 70

Punks à porta do Eric's, sala relevante na Liverpool de final da década de 70

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O Eric’s abriu numa cave de Matthew Street, mesmo em frente ao antigo Cavern, em 1976. Dirigido por Roger Eagle e Ken Testi, manager dos Deaf School, o Eric’s impôs-se rapidamente como palco principal para as bandas punk e pós punk da cidade ou que visitavam a cidade: os Buzzcocks, Joy Division, Clash, Ramones, Sex Pistols, Elvis Costello, Slits, Stranglers, Ultravox, Wire e XTC passaram por ali, ajudando a instigar ainda mais a fértil cena local. E, claro, o clube haveria de se tornar uma espécie de segunda casa para bandas como os Dead or Alive, Echo & The Bunnymen, Teardrop Explodes ou os Wah! Heat, o projecto de outro excêntrico criador da cidade, Pete Wylie que ao longo dos anos foi mudando o nome do seu singular grupo para designações paralelas como The Mighty Wah! ou Wah! The Mongrel. O Eric’s só durou até Março de 1980 e fechou depois de uma rusga policial com uma noite em que se apresentaram os Psychedelic Furs e os Wah! Heat que aí gravaram uma sessão para John Peel que incluiu o tema “The Last Night of Eric’s (A small opera in the making)”.

Dos Echo & The Bunnymen aos OMD: gloriosos anos 80

Em Liverpool as coisas adquiriam, de facto, um sotaque diferente. “Toda aquela cena vanguardista do pós-punk, nós achávamos isso tudo completamente estúpido”, afiançava Bill Drummond nas páginas de Rip It Up, o já por aqui citado livro de Simon Reynolds, autor que explica que para o futuro músico dos KLF – que foi manager dos Echo & The Bunnymen e fundador da pequena etiqueta liverpudiana Zoo – a música de Liverpool não tinha apenas que ser melódica: “tinha que ser uma celebração. As letras do Ian McCulloch eram muitas vezes banhadas em angústia, mas havia sempre um certo aspecto glorioso na música”. Um aspeto, garante Reynolds, que também distinguia os Wah! Heat e os Teardrop Explodes de Julian Cope, artista que descrevia a música da sua banda como “gritos de prazer”.

Echo and the Bunnymen em 1980

Echo and the Bunnymen em 1980

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Julian Cope, Ian McCulloch e Pete Wylie chegaram a fazer de uma mesma banda, os Crucial Three, que nunca deram concertos e apenas escreveram um par de canções. Este tipo de “bandas fantasmas”, refere Simon Reynolds, “era uma marca peculiar de Liverpool”, cidade que potenciava relações “incestuosas” com praticamente todos os músicos notáveis a terem, em determinada altura, criado bandas com outros músicos notáveis. Para o jornalista do NME e da Mojo Paul Du Noyer, havia uma razão clara: “Os músicos gostavam do processo de batizar bandas e de concetualizar em torno de grupos muito mais do que da maçada de terem que carregar equipamento e ensaiar”.

Talvez por ser impossível ter uma carreira em Liverpool e desconhecer o imenso sucesso global dos Beatles, as bandas do período que se seguiu ao punk nunca esconderam que não enjeitariam o sucesso, se este lhes aparecesse a bater à porta. Os Echo & The Bunnymen, de Ian McCulloch, foram os primeiros dessa colheita a assumir essa vontade de experimentar a vista do topo das tabelas. Crocodiles, o álbum de estreia de 1980, e Heaven Up Here, o sucessor, do ano seguinte, impuseram o grupo – que por esta altura já incluía o baterista Pete de Freitas, natural de Trinidad e Tobago, ao lado de McCulloch e Will Sergeant e – nas capas da imprensa musical especializada e, graças ao sucesso radiofónico de “The Cutter”, no muito desejado top 20 de vendas. Ocean Rain, de 1984, e “The Killing Moon” só cimentaram o estatuto da banda que se afirmou como nome incontornável da década, oferecendo-nos alguma da melhor pop que as ilhas britânicas produziram nessa altura.

Este foi igualmente o período em que os Orchestral Manoeuvres in the Dark, de Andy McCluskey, se afirmaram: Organisation, o segundo de dois álbuns que lançaram em 1980, quebrou o top 10 graças ao novo sabor pop de “Enola Gay”, um dos primeiros grandes sucessos da nova cena musical erguida em torno da sonoridade electrónica dos sintetizadores e caixas de ritmos que tomou de assalto as ilhas britânicas. Architecture & Morality, de 1981, e Dazzle Ships, de 1983, elevaram o grau de sucesso tendo ambos quebrado o Top 5 de vendas e gerado singles de absoluto sucesso como “Souvenir”, “Joan of Arc” ou “Genetic Engineering”.

OMD em Liverpool, 1982

OMD em Liverpool, 1982

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Mas caberia aos Frankie Goes To Hollywood, que se estrearam em álbum em 1984 com o absoluto clássico Welcome to the Pleasure Dome, o mais tremendo sucesso dessa década. Logo no primeiro single, “Relax”, editado em 1983, o grupo de Holly Johnson provou que vinha para abalar as fundações da moral britânica, viu o tema ser banido das playlists da BBC e o seu estatuto pop crescer desmesuradamente por causa de todo o burburinho gerado à sua volta. Os dois singles seguintes, “Two Tribes” e “The Power of Love”, chegaram igualmente ao primeiro lugar do top de vendas, um feito raro na história da pop do Reino Unido: até então apenas um outro grupo, também de Liverpool, tinha conseguido colocar os seus três primeiros singles na mais cobiçada posição das tabelas de vendas e não, essa honra não cabia aos Beatles, mas a Gerry & The Pacemakers.

Aproveitando a força da então ainda toda poderosa MTV, os Frankie Goes to Hollywood tornaram-se num fenómeno mundial, aliando produção de vanguarda a cargo do génio por trás da editora ZTT, Trevor Horn (fundador dos Buggles de “Video Killed The Radio Star”), vídeos megalómanos e uma capacidade de provocação sem limites. O grupo só editaria mais um álbum, em 1986: Liverpool mal furou o Top 100 e quedou-se muito abaixo do que seriam as naturais expectativas depois de Welcome to The Pleasuredome.

Frankie Goes to Hollywood em 1984

Frankie Goes to Hollywood em 1984

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Para lá dos anos 90: dos La’s até ao presente

Mais fugaz ainda foi a carreira dos La’s de Lee Mavers. Parte de uma geração liverpudiana de 90 que incluía ainda bandas como os Boo Radleys, The Real People, os Farm e os Cast – todas com respeitáveis carreiras comerciais e sincero apelo pop -, os La’s poderão ser os protagonistas da mais perfeita carreira pop de sempre, tendo editado um único álbum, The La’s, em 1990. O disco foi o resultado de um moroso processo de estúdio, com Mavers a revelar todos os traços do génio incompreendido vergado por um sentido irrealizável de perfeccionismo. O grupo estreou-se em 1987 com o single “Way Out”, que o vocalista dos Smiths, Morrissey, tratou de elogiar na imprensa, ainda que tal bênção não tenha sortido qualquer efeito comercial. “There She Goes”, talvez o maior clássico da banda, seguiu-se em 1988, mas o impacto foi igualmente modesto. Seguiram-se dois longos anos em estúdio com diferentes músicos e produtores: John Porter, que tinha trabalhado com os Smiths, não resistiu, tal como John Leckie (XTC) ou Mike Hedges (The Cure), tendo o processo sido finalizado por Steve Lillywhite (U2). Ainda assim, Lee Mavers foi o primeiro a renegar o álbum logo que foi editado, insistindo que a sua visão tinha sido corrompida. O disco não deixa, nem sequer por isso, de ser um clássico, uma espécie de ponte entre o passado Merseybeat da cidade de Liverpool, e uma década de 90 que levou a música para paragens muito diferentes, incluindo a que se produziu em Liverpool.

A caixa "Revolutionary Spirit: the Sound of Liverpool 1976-1988"

A caixa "Revolutionary Spirit: the Sound of Liverpool 1976-1988"

Já neste milénio, a tocha musical de Liverpool tem sido carregada por bandas como os Zutons ou os Coral, mas uma segunda linha mais experimental e ousada, com Ladytron ou Clinic à cabeça, tem igualmente recuperado parte da mais avançada e inconformista tradição da cidade, recolhendo pistas num passado distante que viu os Beatles a experimentarem em estúdio no final da carreira, os Deaf School a testarem os limites da performance em palco ou grupos como os OMD e os Frankie Goes to Hollywood a encararem a tecnologia e o estúdio como laboratório para testar novos avanços pop.Os OMD, aliás, ainda por aí andam: lançaram The Punishment of Luxury o ano passado e têm concerto marcado para Lisboa, na Aula Magna, no próximo mês de Fevereiro. Fazem parte de uma longa tradição musical de uma cidade que contribuiu decisivamente para a mais vasta história musical britânica. Liverpool, é, de facto, uma cidade de espírito revolucionário.