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“Fiz férias na Ericeira. Tentei fazer surf”, conta Robin Pecknold. A entrevista BLITZ com os Fleet Foxes

Regressam este ano: conte com eles no festival Vodafone Paredes de Coura. Em julho do ano passado estiveram em Portugal, altura em que apanhámos o “chefe” Robin Pecknold pronto para uma conversa, no autocarro da banda. Está tudo aqui

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Faltam poucas horas para os Fleet Foxes subirem ao segundo maior palco do NOS Alive, no qual curiosamente tocaram há precisamente seis anos. No interior do autocarro de digressão, sentado nos sofás de pele que acompanham a curva traseira do veículo, Robin Pecknold, o «dono» da banda de Seattle, espera por nós para uma breve conversa, marcada pela sua timidez. Há seis anos, entrevistámo-lo nos bastidores do palco Heineken, um pequeno contentor que abanava ao som do trepidante concerto dos Friendly Fires. Desta feita, o registo da conversa – frases curtas, voz no volume mínimo – não se alterou, tal como a ponderação do músico que, há poucos meses, esteve em Portugal para passar uns dias de férias. É curioso pensar que é da pena deste rapaz calado que saem as canções que tornam Crack-Up, o primeiro álbum dos Fleet Foxes desde 2011, uma experiência tão complexa e enriquecedora. Mas, como se perceberia no concerto que ofereceram ao público de Algés horas mais tarde, em palco Robin Pecknold está como peixe na água, nadando em harmonia com os prodigiosos músicos que compõem a sua banda e que, apesar da liderança assumida do cantor e compositor, dão um contributo essencial para esta folk de luxo.

Os Fleet Foxes voltaram este ano aos álbuns, após uma pausa de seis anos. Do que sentiu mais saudades, durante este hiato?
Tive saudades de gravar e de sentir que estava a fazer alguma coisa em que sou bom, ou na qual tenho experiência. Durante muito tempo, andei ocupado a fazer coisas nas quais era novato, o que também foi fixe, mas senti a falta de ter controlo. Por isso, quando voltámos ao estúdio, senti-me entusiasmado por reencontrar essa sensação.

Neste período de pausa, voltou à faculdade. É preciso ter coragem para voltar a estudar, quando já se é adulto e se tem uma carreira bem-sucedida?
Simplesmente pareceu-me que seria divertido tentar [voltar a estudar]. Não foi nada de muito sério, nem senti que fosse um ato de coragem. Acredito que as pessoas que trabalham no mundo da música têm muita sorte. Mas também pensei que [o meu percurso até ali] tinha sido uma experiência incrível e que me podia perfeitamente ter afastado da música. Já ficaria satisfeito.

Que cadeiras foi estudar na faculdade?
Estudava o que me fosse parecendo interessante. Fiz isto por mim mesmo; quis ver como seria aprender de uma forma diferente.

Viveu também, durante algum tempo, numa pequena localidade a duas horas de Seattle…
Ah, mas foi só durante uns meses! Já tinha vivido [em Port Townshend] na altura em que fizemos o nosso segundo álbum, e depois voltei para lá, para passar uns meses. Quando estava a fazer esta pausa.

Houve alguma coisa no meio da música que lhe tenha dado vontade de fugir? Porque voltar à escola, mudar-se para uma pequena cidade remota, parecem sinais de reclusão…
Nem por isso. Mais do que tentar fugir de alguma coisa, estava a tentar avançar para outra coisa qualquer. Só quis alargar o meu leque de experiências.

Imagino que essa localidade, com menos de 10 mil habitantes, fosse bem menos urbana que Seattle, a sua cidade natal. Retira inspiração da natureza?
Nesta altura, muitas vezes penso na música de forma visual. E, por vezes, isso significa que a cena que determinada canção evoca é como um mar revolto, durante uma tempestade, ou um autocarro a circular pela cidade, ou um plano aberto de um campo… Canções diferentes evocam cenários diferentes. Nesse aspeto, posso dizer que a natureza me inspira. Gosto de evocar associações visuais.

Quando é que este álbum, o primeiro da banda desde 2011, começou a nascer?
Comecei a escrevê-lo há uns anos, quando ainda estava na faculdade, e começámos a gravá-lo no passado mês de setembro.

Quão democrático é o processo de composição nos Fleet Foxes?
Eu escrevo todas as canções. E sou responsável por aquilo a que podemos chamar direção criativa, mas de resto toda a gente participa, porque cada um tem talentos muito específicos. Por isso, tento deixar espaço para esses talentos, naquilo que crio. Se escrevo uma coisa, penso: o Sky [Skyler Skjelset] vai ter uma boa ideia para esta secção, ou o Casey [Wescott] vai ter uma ideia para esta parte. Não é muito democrático, no sentido em que tenho sempre a última palavra, mas toda a gente tem um motivo para participar.

Quando o disco novo surgiu ilegalmente na net, mostrou-se aborrecido. Mas, há alguns anos, dizia que a partilha ilegal de ficheiros tinha ajudado os Fleet Foxes a tornarem-se conhecidos. O que mudou?
Bom, o mundo agora é diferente, porque existe o streaming. Ao mesmo tempo é melhor e é pior, creio eu. Quando este álbum leakou, o som estava esquisito – todo editado e cortado. Chegou à net com má qualidade, pelo que fiquei desiludido por saber que as pessoas iam ficar a conhecê-lo assim.

Quanto tempo passa a ler comentários na net?
(gargalhada) Bom, quando estou no autocarro de digressão não há muita coisa para fazer. Por isso, provavelmente mais tempo do que devia. Mas já não sinto que seja uma questão de vida ou de morte. Fiquei feliz por fazer o disco e sinto que esta parte [da reação] já está fora do meu controlo. Mas sim, não sabes quem são as pessoas que comentam e é complicado. Pode enevoar a tua perceção.

Durante a feitura do disco, houve discos que ouvisse muito e o tenham influenciado?
Tantos que se torna difícil dizer quais. Andava a ouvir muita música da Etiópia, muito jazz, alguns discos do Bob Dylan e alguns do Tim Buckley e Fred Neil [cantor e compositor norte-americano que gravou nos anos 60 e 70, falecido em 2001].

Fleet Foxes em 2008

Fleet Foxes em 2008

Em plataformas de streaming como o Spotify, as canções dos Fleet Foxes têm milhões de escutas. Alguma vez se surpreende com a popularidade de uma música que não vai de encontro aos géneros mais populares do momento?
Não sei, mas aposto que muitas dessas escutas resultam de as canções estarem incluídas numa playlist qualquer, que as pessoas ouvem muito. Mas sabes aquela banda, os xx? O que eles fazem é tão diferente… A música deles não tem nada a ver, por exemplo, com a dos Foo Fighters, que são enormes [Pecknold deu como exemplo duas bandas que partilharam com a sua o cartaz do NOS Alive]. Mas como o que fazem é singular, isso acaba por atrair o seu público. Um público que se identifica com essa personalidade própria, independentemente de o seu som ser «grande» ou não. Porque a música que fazem até é bastante intimista. Talvez agora, devido à forma como a música é divulgada, seja mais fácil para quem pratica uma sonoridade «de nicho» encontrar um público maior. Como o acesso é mais fácil, o público que pode identificar-se com ela é potencialmente maior. Talvez o nosso caso seja parecido.

Os Fleet Foxes conseguem viver da música?
Não tenho a vida feita, isso é certo! (risos) Não me poderia reformar, de todo. E tenho notado que é cada vez mais caro manter este autocarro, a equipa… Podemos fazer disto a nossa ocupação principal, sem termos de ter outros empregos, o que é ótimo. Mas se a banda ficar mais pequena, teremos de mudar a forma como funcionarmos, para podermos continuar a viver disto.

É de Seattle, onde viveu até há quatro anos. Há alguma coisa na cidade que convide a sua população a fazer música? É a terra do grunge, da Sub Pop, de Jimi Hendrix…
Sem dúvida. É como ser de Nashville [capital da country]. Temos uma identidade regional que está muito ligada à música, e é assim há décadas. Tal como, se cresceres no Alasca, provavelmente vais ser pescador. Há algo no funcionamento da cidade que faz com que ser músico seja exequível. Porque não estamos a falar em [exemplos] como o Michael Jackson, ou assim. O Kurt Cobain parecia um tipo normal e tornou-se uma estrela enorme. Isso fez-me pensar que era possível.

Porque começou a fazer música muito jovem, certo?
Sim, teria à volta dos 14 anos.

E quanto sentiu que poderia fazer disso vida?
Aos 14. (risos)

A última vez que esteve em Portugal com a banda foi há seis anos, também no Alive. Recorda-se dessa estreia?
Lembro-me de ver o concerto dos Grinderman [banda paralela de Nick Cave], que foi muito barulhento e muito bom. E de ter ficado desiludido por não conseguir conhecer melhor Lisboa, porque era a primeira vez que vinha a Portugal. Mas desde então já voltei. Estive cá este ano, de férias na Ericeira. Tentei fazer surf, mas não havia ondas. Mas é lindo, um sítio incrível.

Diz que pensa na música de forma visual. Já pensou fazer bandas-sonoras?
Já pensei em realizar filmes e fazer a música dos mesmos. Talvez venha a dedicar-me a essa área.

E que tipo de filme seria o seu?
Pensei fazer uma adaptação dos contos de [Jorge Luis] Borges. De O Labirinto, Ficções… Porque são contos muito curtos e autossuficientes. E muito visuais e interessantes, no que toca à estrutura e à temática. Pensei adaptar um desses, para começar.

Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2017