Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Legendary Tigerman

Rita Carmo

Puro. Livre. Selvagem. A grande entrevista de Legendary Tigerman

Achou que já era tempo: fez na América a road trip de uma vida mas, quando lá regressou para gravar um disco, só lhe apetecia voltar para trás. “Misfit”, o novo álbum, foi “tirado a ferros” mas é, acredita, o álbum rock and roll que precisava de fazer hoje. Em longa entrevista à BLITZ, Paulo Furtado aborda também as desventuras do tigre “bebé” e o provável fim dos Wraygunn. Sem espinhas

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Quando partiu para o deserto de Joshua Tree, na Califórnia, Paulo Furtado tinha um sonho: gravar um álbum nos estúdios do Rancho de La Luna, que já serviram de «maternidade» a discos de Queens of the Stone Age, PJ Harvey ou Arctic Monkeys. Há muito apaixonado pela mística daquela imensa região e pelas suas personagens, com quem já se havia cruzado numa road trip, da qual nasceu um filme, o homem que assina como Legendary Tigerman começou por sofrer uma inesperada desilusão: ao primeiro dia, o estúdio dos seus sonhos assemelhava-se mais a um pesadelo. Impossibilitado de gravar, o português confessou-nos que teria voltado para casa se não estivesse a milhares de quilómetros de Lisboa. Do outro lado do Atlântico, só lhe restou lutar: por melhores condições no estúdio; pelo novo som que, com João Cabrita no saxofone e Paulo Segadães na bateria, tanto ambicionava encontrar, e pela manutenção de um modo de vida que, desde os verdes e loucos anos dos Tédio Boys, tem sido o seu. Numa generosa entrevista, Paulo Furtado fala-nos de Misfit, o novo disco, que chega em janeiro, mas também do que significa ter 47 anos em idade de rock.

A road trip que fez nos Estados Unidos deu origem a um filme, How to Become Nothing, e só agora aparece o disco. Quando começou com todo este processo, já tinha alguma música?
Não, comecei ao contrário. Queria mesmo ser influenciado pela América e pelo deserto, e pela própria experiência de filmar. É ficção, mas há sempre qualquer coisa que não é tão ficção como isso. Mesmo no filme, e em tudo o que me leva neste caminho, o homem não sou eu mas, como não sou ator, há uma grande parte [da personagem] que tem a ver comigo. O disco chama-se Misfit, tal como a personagem, por muitas razões. Acho que só percebi até que ponto é que isto é mesmo misfit, ou desenquadrado, e até que ponto é importante ser desenquadrado, há relativamente pouco tempo. Porque isto é, de certa forma, um statement, e um modo de estar. Nunca estive propriamente enquadrado no mundo. E, ainda assim, acho que, nestes anos todos, consegui construir uma carreira completamente desenquadrada. Este é o statement: é fixe estar desenquadrado.

Construiu uma ficção sobre alguém que está à procura de alguma coisa, quando o mesmo se passa consigo… Há aqui uma espécie de efeito matriosca. A personagem não é o Tigerman, mas há pontos de contacto?
É [um recurso] muito usado na arte. Escondes-te atrás de uma máscara, mas no fundo quem está lá és tu. E aqui é isso que acontece. Na coisa mais fora da minha pele que alguma vez fiz acabo por estar mais dentro dela do que nunca.

Dava, sem pensar duas vezes, mais algumas voltas à América…
Dava, claro, e já dei mais uma depois disto. Acho que este imaginário ficou muito plantado na minha cabeça depois das primeiras tournées dos Tédio Boys. Ser muito jovem e atravessar três vezes e meia os Estados Unidos – quando digo três vezes e meia é três vezes e meia, até às terras mais recônditas – marcou-me de muitas maneiras. Há uma coisa na estrada americana, que não temos tanto na estrada europeia, que é aquela coisa de parecer interminável. Se começares a andar por uma estrada fora, chegas a um lugar melhor – ou pior. Mas chegas longe.

E podemos ser uma pessoa diferente, quando lá chegarmos…
Seremos com certeza outra pessoa, quando lá chegarmos. Com os Tédio Boys, muita coisa mudou na minha vida. O facto de podermos estar em Nova Iorque e encontrarmos o Joey Ramone, e de atravessarmos para a outra costa e conhecermos o Jello Biafra, e percebermos que são pessoas como quaisquer outras, quando naquela altura – e por mais estúpido que pareça – pareciam as pessoas mais intocáveis do mundo.

Estas personagens que cria não são, em simultâneo, metade justiceiros, metade fora-da-lei? Só que armadas com uma guitarra Gibson em vez de um revólver…
Com a idade e a experiência, cada vez sou menos crítico em relação [à dicotomia do] bem e do mal, porque acho que estamos sempre a meio caminho entre uma coisa e outra. E a parte do misfit, do fora da lei e do fora da norma, é importante porque se eu olhar para trás – quase até à escola primária – [concluo que] nunca houve mais de cinco pessoas fixes numa turma! E são sempre os gajos e as gajas que não estão enquadrados.

O filme que deu origem ao disco tem por título How To Become Nothing. Já teve vontade de desaparecer?
Já, frequentemente. Sempre fui absolutamente fascinado pelo deserto e quando posso tento ir – já fui a alguns, nomeadamente ao Saara e às Badlands. Às vezes, o facto de ires para um sítio onde não há mais nenhum humano à tua volta obriga-te a olhar para dentro, também. E, a mim, ajuda-me a reencontrar-me e a reequilibrar-me.

Hoje em dia, desaparecer pode passar simplesmente por estar offline?
Claro. (risos) Aliás, muito do que está escrito no filme – que se chama How to Become Nothing na versão cine-concerto, Fade Into Nothing na versão finalizada e Desaparecer no Nada, no Brasil – passa por essa vontade. Hoje em dia, desaparecer é uma coisa estranha. No meu caso, há pessoas próximas que desapareceram mas não desapareceram da internet ou do meu computador… De repente tens a última conversa que tiveste no GMail, que está sempre ali, num quadradinho do lado esquerdo, e parece que a qualquer momento a janela se vai abrir e vai aparecer alguém. Na realidade, [a reflexão do filme] tem muito a ver com essa sobre-exposição e dupla vida que todos nós temos. Qual o espaço de que precisamos digitalmente? Qual o espaço de vida real? Qual o equilíbrio certo e quais as questões que isso levanta?

De que referências se acercou? Quais são os filmes que o Tigerman transporta consigo?
O motor inicial desta coisa fui eu, mas este foi um trabalho a três, entre mim, o Pedro Maia e a Rita Lino. E eu tentei ao máximo não levar tantas referências fílmicas, mas sim literárias. Coisas óbvias que me marcaram, como Kerouac e Bukowski. O Pedro e a Rita é que foram trazendo referências como Antonioni, o Paris, Texas… Ao contrário de mim, eles nunca tinham ali estado. Para eles era tudo à distância, e havia essa parte de se cruzarem com a fantasia.

Onde é que, no meio deste processo, entra a música?
Nesta primeira de duas viagens aos Estados Unidos, levei a minha guitarra. A rotina era muito marcial. Levantava-me sempre às seis ou sete da manhã, escrevia os diários e gravava-os em hora e meia, enviando-os ao Pedro e à Rita. Eles ouviam-nos e saíamos para filmar, às vezes até às dez, onze da noite. E, nesse bocadinho entre cair ou não cair para o lado, eu tentava sempre, com base nos diários e no que tinha visto, alinhavar ideias de canções, letras, melodias. Na maior parte das vezes, gravava mais quatro ou cinco ideias e não pensava muito mais nisso. Foi assim que o disco surgiu. Depois dessa fase de rodagem, comecei a ver o que tinha, as notas que tinha no caderno, e construí o disco… 90 por cento das coisas saíram do que tinha feito aí. A «Red Sun», por exemplo, foi escrita quando estávamos a vir de uma rodagem no deserto e tínhamo-nos esquecido de levar água. A Rita já estava a cair para o lado, e entre a desidratação e já não estares a pensar muito bem, esta música apareceu-me na cabeça, com esta ideia de sol abrasivo, esta coisa circular, do calor, do fogo.

Da primeira vez que falámos sobre este disco, referiu a importância das pessoas com quem se foi cruzando. Lembra-se de algumas?
Havia uma senhora índia, enorme, de uns 150 quilos, que estava a cantar no Joshua Tree Saloon, julgo que numa quinta-feira, noite de open mic. E fazia uma versão feminina, índia, do Daniel Johnston, absolutamente maravilhosa. E de repente pergunta se alguém quer tocar com ela – eu estava lá com o Sega [Paulo Segadães, baterista] e o [saxofonista João] Cabrita, e o Cabrita foi tocar baixo e eu fui para a bateria. Supostamente só íamos tocar uma música, mas ela ficou entusiasmada e acabámos por ficar a tocar uns 40 ou 45 minutos. Numa noite de open mic, tens aquela senhora, que é maravilhosa, a seguir vem uma miúda loirinha, que devia ser de um trailer park ali das redondezas e que com a sua guitarra elétrica faz uma cena também maravilhosa… Depois outra miúda que faz uma cena do arco-da-velha, um miúdo que começa a rappar, no ar, coisas super fora… E pensas que ali, numa noite, viste quatro artistas incríveis que provavelmente nunca mais verás e poderão vir a nem ser artistas. Isso também te dá uma outra perspetiva dessa América enorme e de sonhos perdidos, e de talento escondido, onde tudo pode acontecer – de bom e de mau. Certa vez estava a entrar numa bomba de gasolina e há uma senhora que olha para mim e me diz: «tu não és de cá!». E eu: «claro que não sou de cá». (risos) Ela olhava fixamente para mim e dizia: «estou a sentir uma coisa estranha». Tive de fugir, senão ela sugava-me a alma. Cruzas-te com personagens em todo o lado.

Algumas parecem saídas de filmes de David Lynch…
Andando na estrada, na América, percebes que os diálogos do Tarantino poderiam acontecer, com alguma facilidade. Há um tipo de small talk, que às vezes pode ser mais profunda que conversa fiada, que é muito americana. Que é muito essa vivência do diner. Ao andar na estrada, estás sempre dentro de um filme.

Desde cedo que foi assumido que este não seria um álbum de one man band. De que modo é que as suas ideias são postas à disposição do Paulo Segadães e do João Cabrita?
Não foi um passo totalmente premeditado, foi acontecendo. Às tantas estava a apanhar uma grande seca, no True, a tocar sozinho, e comecei a sentir que precisava de fazer outras coisas. O Paulo estava ali ao lado e entrou [na banda]; num concerto especial, o João Cabrita foi tocar a «Gone», depois foi a mais um concerto, e a outro, e comecei a reparar que ele ficava de lado a tocar as canções todas no saxofone. Alguém me disse: «ele já sabe tocar as canções todas». E eu: «ai sabes? Então anda». De repente começou a tocar nos concertos mais importantes, nas digressões fora e nos concertos cá… Dito isto, as canções foram-lhes apresentadas já muito próximas [da sua versão] final.

Diz que, no True, se aborreceu a tocar sozinho. Ainda vai ter saudades de tocar sozinho?
Acho que sim! Se bem que toco tanto sozinho… Quando estou a fazer bandas sonoras, às vezes chego a estar dez dias sem sair de casa e sem ver ninguém. Os one man bands são todos malucos e não é por acaso! (risos) Estou em palco a coordenar tudo, mas depois acaba a música e o que acontecia muitas vezes era comunicar coisas completamente absurdas com o público. Queria dizer uma coisa e saía-me um [disparate] qualquer – estava com o cérebro numa frequência que não tem nada a ver com comunicação com o público. E quando o concerto corre muito bem, não tens ninguém que vás abraçar, ou se correu mal, não tens ninguém a quem dizer: «fiz merda outra vez»… É muito cansativo.

Legendary Tigerman

Legendary Tigerman

Rita Carmo

Às voltas na máquina de lavar

Meses depois da road trip de Furtado, pensando reencontrar o «paraíso» americano, o trio português enfrentou uma provação à chegada ao deserto californiano: um estúdio virado do avesso, um técnico «impróprio para consumo» e um caos inesperado. Pensaram em bater com a porta, mas decidiram continuar: Misfit tinha de sair, nem que fosse a ferros.

Quando vão para o Rancho de La Luna, o que espera também é que aconteça não definido à partida que possa suscitar algo «mágico»?
Nunca disse isto, mas ao segundo dia estivemos por um triz. Se fosse na Europa, tinha arrumado as malas e tinha-me vindo embora. Não sei o que se passava com o Jon [Russo], o técnico de estúdio, mas o estúdio não estava a funcionar. A versão oficial é que tinha estado alguém a gravar na véspera, que tinha mudado as especificações técnicas do estúdio, mas na verdade acho que não era só isso e que ele [o técnico] não estava muito bem. E mais não direi. (risos) Mas era totalmente impossível, do ponto de vista técnico, gravar o que quer que fosse. Ao segundo dia as coisas foram melhorando francamente e o terceiro dia foi bom. Mas deslocar pessoas para o outro lado do mundo e estar naquele mindset de «uau, estou no paraíso», e de repente estás no inferno… é uma coisa com que tens de lidar, e isso também está no disco.

Se fosse há uns anos, teria partido alguma coisa?
Ainda se partiu um bocadinho a loiça. Eu já tinha visto o estúdio e, quando o vi ali, estava todo desmontado. Nem queriam que eu fosse lá vê-lo. Mas eu decidi gravar lá quando vi que era uma casa no meio do deserto, com tudo desmontado e cabos no chão, uma miúda de calções e texanas a beber cerveja no sofá e um gajo a suar e a dizer: «não devias estar aqui!». Eu olhei para aquilo e pensei: «espetacular, é mesmo isto que eu quero. Preciso de um bocadinho de caos». E tive-o – aliás, tive muito desse caos. Em retrospetiva, até foi bom, porque nos deixou super alerta e bélicos em relação ao que estávamos a fazer. Eu pensava: «quero fazer isto bem e não consigo porque, à minha volta, está tudo a colapsar, mas temos de nos unir». Eu, o Sega e o Cabrita decidimos: «vamos conseguir tirar este álbum daqui nem que seja a ferros». Dia a dia, fomos ganhando espaço e [conquistando] as melhorias de que precisávamos tecnicamente e fomos gravando esta coisa, pensando quase 24 horas naquilo. É como colocarem-te dentro de uma máquina de lavar roupa: dás três voltas e sais muito baralhado, e essa baralhação foi-me útil para arranjar soluções que não seriam as que eu encontraria à primeira.

Há um som pujante neste disco, uma densidade maior – numa canção como «Black Hole», por exemplo. Chama-lhe parede de som. Não no sentido spectoriano da coisa, mas…
Também nesse sentido! Em estúdio, a procura dos instrumentos passou por [querer] preencher o espectro. No fundo, estava à procura de uma parede de som, mas de uma parede de som que nunca tivesse ouvido desta maneira… Neste disco, sobretudo com o Cabrita, andávamos à procura de uma sonoridade que nunca tivéssemos ouvido antes. Comigo a tocar guitarra, mas que saía por um amplificador de baixo, e ele no sax barítono, muitas vezes ouvíamos e pensávamos: «porra, isto está a soar a Morphine». Porque eles também tinham um barítono e é uma sonoridade muito particular. Tivemos de arranjar uma solução para sair dessa prisão.

Como é que consegue essa espessura tão audível no primeiro single, «Fix of Rock and Roll»? Implica acrescentar elementos, camadas, criar algo febril…
Estava a tocar por um amplificador de baixo, que dava um som de baixo, depois tinha sempre um [pedal] fuzz ou dois num amplificador diferente, mais uns delays e efeitos mais estranhos, e ainda outro em que usava um pedal da Electro-Harmonix, que faz sons de Mellotron. Ou seja, às vezes tinhas cordas, noutras tinhas sopros, teclados, voz humana… Quando ouves o disco, isso não é claro, mas é uma sonoridade muito particular, que logo ao início estava muito definida. Como estava a usar estes sons de Mellotron na guitarra, obrigava-me a ir buscar outros sons igualmente artificiais, daí acabarmos naqueles teclados meio sinfónicos e procurarmos esse tipo de arranjo, que é um bocadinho trágico, também. Comecei a ouvir as minhas guitarras e a lembrar-me de filmes de terror italiano dos anos 70, e pensei: «isto é fixe, rock and roll com filmes de terror dos anos 70!».

True era um disco mais dado a subtilezas, mais lento, com mais espaços à volta. Este rosna mais («Motorcycle Boy») e até dança («Child of Lust»). Sentiu que precisava de agitar, de rockar mais – em contraponto com o lado mais sedutor, mais observador de True?
Senti claramente essa necessidade e senti também que, dada a formação atual do projeto, este seria o caminho [a seguir], apesar de depois haver um Misfit Ballads que sairá com o álbum, com a parte mais calma que também está sempre presente no que eu faço, mas que desta vez optei por separar… O Misfit sairá em vinil, com o código para fazer o download do Misfit Ballads, e em CD, incluindo o Misfit, o Misfit Ballads e o DVD, que tem o filme e alguns extras. Eu quis que o disco fosse mais rock and roll e tinha de separar fisicamente as outras canções, até porque, na maior parte das vezes, são canções sem bateria, muito etéreas e muito vazias. Por outro lado, não queria deixar de as fazer. Mas, neste tempo em que nem as bandas de rock and roll estão a tocar rock and roll, estava mesmo a apetecer-me fazer um disco de rock and roll! Por mais fora de moda que possa parecer.

A última canção, «To All My (Few) Brothers», nasceu de alguma jam? Tem aquele sentimento de patuscada, de canção que fecha um disco…
Quando chegas a uma determinada altura, há uma data de gente que já passou pela tua vida…

E que foi à vida dela?
E foi à vida dela. E tu também foste à tua vida, e isso é absolutamente normal. E depois também há pessoas que vão ficando e cuja presença na tua vida é cada vez mais importante. Algumas dessas pessoas entram inclusivamente nessa canção, e para mim não havia melhor maneira de acabar este disco, por várias coisas que nos foram acontecendo nos últimos anos. É um agradecimento, no fundo.

Legendary Tigerman

Legendary Tigerman

Rita Carmo

Só e bem acompanhado

Perscrutando o passado, percebe-se que o percurso de Tigerman teve, além dos vários episódios para cinema, uma discografia «principal» que foi sendo mais doseada a partir de Masquerade, lançado em 2006. Nesta fase da entrevista, Paulo Furtado admite que os Wraygunn já poderiam ter acabado e que foi com Femina, de 2009, que Tigerman passou para outro patamar.

Cada disco passou a exigir mais de si?
Há um marco importante em Tigerman e Wraygunn, que foi o Femina. Antes de começar a gravar o Femina, falei com toda a gente dos Wraygunn e disse-lhes: «pela primeira vez, vou ter que pôr este projeto à frente». Até aí, era um projeto que fazia quando tinha tempo entre os discos de Wraygunn.

Lembramo-nos de um concerto no Teatro da Luz, em Lisboa, na primeira parte da cantautora Rosie Thomas, no início da década passada. O que se manteve até hoje do Tigre «bebé» dessa altura?
Tchiii… Não sei. Foi uma ideia maluca, fazer a primeira parte da Rosie Thomas. Ficámos no mesmo hotel e ela veio falar comigo, muito baixinho, muito delicada. E eu a pensar «isto foi mesmo má ideia, coitadinha». Há uma coisa que aprecio na forma como as coisas foram acontecendo que é a minha vida ser assente solidamente em erros crassos. Claramente, o projeto não era apresentável ao vivo nessa altura. Por outro lado, as fragilidades que tinha eram também os pontos de força do projeto. Mais uma vez, há uma ligação com isto do misfit, do desenquadrado.

Do desenquadrado que sempre foi…
Nos tempos de hoje é natural o desenquadrado ser aceite, mas há 30 e há 20 anos não era assim. Eu lembro-me perfeitamente da primeira vez que subi a um palco, a tocar uma versão de Jesus and Mary Chain à guitarra com uma amiga minha a tocar qualquer coisa na acústica, ao lado, amplificado por um gravador posto no REC com uma coluna ligada. Estavam três velhos a ver aquilo, já nem sei em que sítio, e aquilo era a pior coisa do mundo mas eu saí de lá a pensar «que fixe, consegui subir a um palco». O gajo mais envergonhado do mundo conseguiu subir a um palco! Aquilo para mim foi importante, apesar de não ter sido importante para mais ninguém. Isso tem acontecido muitas vezes na minha vida. Eu sou muito lento a aprender e no modo como cresço. Mas cresço.

Femina, não o esconde, foi um marco no seu percurso. Passou aí a ter um público muito mais vasto…
Sim, mas se formos a ver, é um absurdo. Tu és one man band e fazes concertos como one man band, mas de repente crias esta coisa que é tão grande, tão dispendiosa e tão maluca que tem tudo para correr mal… mas continuas a ser one man band. Quando faço as coisas, não tenho a noção do que é que está a acontecer. O Femina é uma coisa que cresceu desmesuradamente, mas anos depois o que vês é um gajo com uma bateria, uns amplificadores de guitarra e uma pessoa ao lado a fazer uma canção com ele.

Um gajo que estava sempre à espera de mais uma voz para fechar o disco…
Meses… E depois os filmes. A coisa de não fazermos à distância, de fazermos em Super 8. É uma teimosia e ainda bem que a tive, mas também é disfuncional ao mesmo tempo. Na realidade, para mim, o Masquerade fez toda a diferença em Tigerman. O facto de ter gravado com o Mário Barreiros, que como toda a gente sabe é alguém que não tem papas na língua… Há quem fique traumatizada com ele, mas eu…

Gostou da porrada que levou…
A melhor porrada que levei foi, a meio da gravação de uma música, ele dizer-me, com a sua pronúncia do Porto: «ó Furtado, olha, bou ali tomar café e tratar de umas coisas… Bai ensaiando, mais logo eu bolto cá para grabarmos». (risos) Que é o modo de ele dizer: «trabalha aí mais três horas nisso e logo vemos se gravamos ou não». Eu queria, desde o início, que as pessoas fechassem os olhos e pensassem que estava uma banda a tocar, e esse é o primeiro disco em que consigo isso. O Femina, que é um álbum que nasce de um filme que eu não faço – mais um acaso! –, é uma consequência disso.

A «explosão» de Tigerman provoca o desaparecimento progressivo de Wraygunn. É algo que lhe provoca tristeza?
O último álbum [L’Art Brut, de 2012] só não é o melhor disco de Wraygunn porque houve o Eclesiastes 1.11 [2005]. Tivemos um excesso de maturidade. Canções mais bonitas, arranjos mais bonitos, coisas mais arriscadas do ponto de vista de harmonia, mas as pessoas queriam era ouvir o rock and roll/punk/funk dos Wraygunn e nós não estávamos aí. Não que isso não tivesse sido discutido internamente: lembro-me de o João [Doce] me dizer que preferia que [a toada] fosse um bocadinho mais rock, mas acabámos por embarcar todos [em sentido contrário]. Na digressão lá fora do L’Art Brut tivemos salas mais vazias e cá em Portugal também não correu espetacularmente. Esse disco foi um esparramar no chão, de cara. Obviamente, estarmos distantes [geograficamente] justifica uma parte, mas não justifica tudo. Houve algum afastamento. Confesso que a parte de Tigerman e as bandas sonoras e o milhão de coisas [que faço] me foram absorvendo mais e fui tendo cada vez menos motor para o lado Wraygunn. Há um ano, [disse-lhes que] por mim, acabávamos… Não gosto de coisas penduradas que não são nem deixam de ser. Mas depois sentimos alguma química e que valia a pena ensaiarmos e fazer qualquer coisa. Até agora.

Qual foi o pior momento da sua carreira?
A primeira tournée de Tigerman numa série de bares, coisas que fui eu marcando. Fui com o meu fiel amigo Tiago André, os dois num carro e a percorrer o país – nessa fase da Rosie Thomas, talvez antes – a tocar em sítios onde as pessoas não estavam minimamente viradas para o que eu queria fazer. Uma digressão de 14 ou 15 datas, em que 13 ou 14 foram horríveis. Umas acabaram à pancada, noutras comigo a mandar as pessoas para aquela parte, noutras ainda fui eu mandado para aquela parte… Às vezes a não ser pago e a discutir. Eu sou um gajo teimoso e decidi «porra, agora acabo a tournée, mas depois não faço mais isto na vida». Depois há o clássico momento-revelação em Tondela, no ACERT, no último concerto da digressão. O concerto correu muito bem, as pessoas bateram palmas, pediram um encore… Aquilo confundiu-me um bocado, mas confundiu-me o suficiente para ter continuado.

Já recusou propostas por não se coadunarem com a sua imagem artística?
Aceitei uma coisa que quem me dera não ter feito… Não vou dizer o quê, mas não tem exatamente a ver com música. Por outro lado, também é bom já ter tido a oportunidade de recusar muito dinheiro para fazer algo que não queria totalmente fazer – e essa tinha a ver com música. Há de sempre haver alguma proposta para te comprometeres um bocadinho, para te prostituíres um pouco. Fazer isso em relação ao meu trabalho é, de uma maneira estilizada, ainda pior do que a prostituição real. É como se mandasses o teu melhor amigo prostituir-se por ti. «Eh pá, vai lá tu que eu hoje não tenho tempo». Uma coisa que deverias fazer com tanto amor, de repente estás a comprometê-la por causa de dinheiro. O dinheiro não pode ser algo que te obrigue a pôr uma vírgula, a mudar um verso, a tirar uma guitarra. Senão mais vale fazer outra coisa.

Numa entrevista anterior à BLITZ, afirmou que quando começou a tocar com os Tédio Boys foi como se uma bomba atómica lhe tivesse afetado o corpo e a mente. Que explosão foi essa?
Na altura éramos cinco putos que de repente vão para a América. Não é uma coisa que aconteça muitas vezes. É algo tão marcante para todos, tão irreal ao mesmo tempo, que para um puto que vem daquela cidade pequena onde o respeito é ganho porque se chama «senhor doutor» é algo de extraordinário. De repente, vais para o mundo onde estás todos os dias a ver coisas novas e a poder fazer a tua arte para pessoas. Senti-me vivo como nunca até aí. Num dia tocavas para cinco pessoas, noutro para dez mas no fim de semana tocavas no Fillmore para mil. Lembro-me perfeitamente de voltar para Coimbra e ficar numa letargia durante meses, sem acreditar que aquilo tinha acabado. E que estava ali outra vez e, se calhar, ia ficar ali a vida toda. Terá sido o medo de ficar ali a vida toda que me fez correr e me fez trabalhar tanto para que um dia as coisas pudessem continuar a ser como eu desejava. Essa bomba atómica é sentires que sonhar é possível: és um puto de Coimbra, mas está tudo bem.

Legendary Tigerman

Legendary Tigerman

Rita Carmo

A vida não é um bigode

Paulo Furtado nasceu em Moçambique, onde regressou recentemente por causa de um filme. De regresso a África, de onde saiu muito novo, não sentiu – surpreendentemente – muito. Voltou sem perguntas e sem respostas. No que toca ao mundo que o rodeia, a sua observação é, contudo, mais participante.

Têm rebentado a um ritmo diário escândalos sexuais no mundo das artes. Pelo que conhece, são meios onde o poder do homem é indiscriminado?
Há cem anos, internavam as mulheres no manicómio com o conluio da maior parte dos psiquiatras, punha-se um carimbo a dizer «histérica» e o homem poderia recomeçar a sua vida. Ainda estamos numa guerra muito grande com o que queremos para a nossa sociedade e como é que queremos olhar uns para os outros. Em muitos trabalhos que fiz com a Rita [Redshoes], havia um olhar quase exclusivo para mim e menos para ela quando, no mínimo, ela fazia 50 por cento do trabalho. Em Portugal olha-se sempre para o homem como se [este] fosse o dono do projeto.

Asia Argento, atriz e cantora que consigo colaborou em Femina, é uma das vozes que se ergue contra o produtor Harvey Weinstein. Como é que reage?
Esta coisa de ter sido escorraçado com alcatrão e penas faz a diferença. Nunca tinha acontecido a ninguém em Hollywood, a esta escala. Mandei uma mensagem à Asia, «força, estás a fazer o que é correto».

Comentando o polémico acórdão do Tribunal do Porto sobre o caso de violência doméstica, escreveu no Facebook: «um dia, quando esta geração saudosa dos “tempos da outra senhora” se for, Portugal será um sítio mais bonito, mais democrático e mais justo». Somos menos avançados do que pensamos que somos?
Sim. Já tive discussões bastante acesas sobre isso. O que vou dizer é totalmente empírico. Temos muito pouco apreço pela nossa memória e, até há muito pouco tempo, se quisesses saber uma história da música portuguesa – quem é o Victor Gomes, quem são os Conchas – tinhas de ir perguntar a alguém que conhecia alguém que conhecia alguém… Descobrias os discos na Feira da Ladra, mas não havia nenhuma memória [consolidada]. Eu não sei se isto não estará relacionado com o facto de termos tido a ditadura até 1974 e não termos morto ninguém. Se formos a olhar com um telescópio, muitas das pessoas que estavam em posição de vantagem em 1969 e 1970 voltaram a estar em posição de muito poder agora. As mesmas famílias e as mesmas influências.

Nasceu em Moçambique, cresceu e fez grande parte da vida adulta em Coimbra, nos últimos anos vive em Lisboa…
Os meus avós são de Lisboa, viveram sempre em Lisboa, tal como os meus pais. Depois foram para Moçambique. O cairmos em Coimbra foi uma coincidência total. [Já regressados a Portugal], o meu pai, que é engenheiro, estava a pôr gasolina numa bomba e como estavam a construir a fábrica de Souselas, ofereceram-lhe um emprego. Esteve lá a vida toda.

Fará sentido que continuemos a tratá-lo por «o músico de Coimbra»?
Não, não faz sentido algum. Saí de Coimbra com uma relação muito estranha com a cidade, depois de ter feito todos os esforços para conseguir fazer alguma coisa por lá. Não tenho razão para estar magoado, mas nos últimos dois anos eu já estava com a cabeça fora de Coimbra. Sinto-me mesmo morador de Lisboa e muito mais lisboeta do que qualquer outra coisa, com tudo o que isso implica.

Está a referir-se às modificações que a cidade atravessa?
Também. Tenho uma coisa pior que um Airbnb por cima de minha casa: uma casa de Erasmus com dois rapazes, um saxofonista e um guitarrista, que querem ser músicos. Se eu fosse outra pessoa diria que não deveriam tentar mais (risos). Sendo assim, espero que tentem – mas longe. Ao mesmo tempo, há coisas incríveis a acontecer em Lisboa que não acontecem em mais lado nenhum, uma mestiçagem que nunca aconteceu antes.

Alguma vez voltou a Moçambique?
Voltei agora, culpa do meu bigode (risos). Fui convidado para fazer a banda sonora de um filme chamado Ruth, do António Pinhão Botelho, sobre a vinda do Eusébio para Portugal. Foi-me proposto paralelamente que eu representasse o papel do pai de Eusébio, Laurindo da Silva Ferreira, que tinha um bigode. Foi assim que este bigode surgiu, este verão. E ficou.

Que tal, a viagem?
Confesso que estava à espera de aterrar em Maputo e sentir um raio a cruzar-me o corpo, lágrimas a correr, epifania… Nada. Foram quatro dias. Estive a observar muito e a tentar absorver, à procura de respostas ou de perceber que perguntas é que tinha para fazer e, na realidade, nem perguntas nem respostas. Senti, isso sim, uma diferença entre as histórias que tinha ouvido e a realidade. Eu era criança, por isso contaram-me uma versão Disney.

Tem 47 anos. Isso em idade de rock dá quantos anos?
Olho para trás e, por estranho que pareça, sinto que os meus primeiros 20 anos de vida estão a um milhão de anos de distância. Para falar a verdade, nunca achei que ia passar dos 30. Quando cheguei aos 40, pensei «porra, parece claro que vou ficar aqui mais um bocado». Como até aos 30 nunca pensei que tinha que chegar aos 31, agora tenho uma perspetiva mais calma e mais cuidadosa sobre o que faço – até artisticamente. Descobri muitas coisas sobre mim assim que percebi que estar vivo até era fixe – ou pelo menos era melhor do que estar morto.

Originalmente publicada na BLITZ de dezembro de 2017

Nota: A versão impressa questionava o artista sobre a digressão Rumble in the Jungle, concertos que realizaram em novembro e dezembro com os Linda Martini. Uma vez que a mesma já terminou, julga-se desnecessário incluir essa parte da entrevista.

  • Legendary Tigerman na capa da BLITZ de dezembro, já nas bancas

    Notícias

    É a primeira entrevista de Paulo Furtado da era “Misfit”, o álbum criado na América que sairá em janeiro. Uma longa conversa onde cabe tudo: um disco “arrancado a ferros”, os triunfos e as frustrações de quase trinta anos de percurso, Portugal e o sonho americano, o rock and roll e tudo o que o rodeia. A não perder ainda: o novo álbum dos U2, Sam Smith em discurso direto, The Smiths de volta a 1986, o disco sound de “Saturday Night Fever”, a revelação Aldous Harding. Grátis 2 CDs