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Já ouvimos o novo álbum dos U2. E é tudo uma questão de temperatura

Está aí “Songs of Experience”, o novíssimo álbum da banda irlandesa

A chegada de um álbum dos U2 é sempre um acontecimento, mas a chegada deste novo álbum dos U2 parece um acontecimento menor do que acontecimentos anteriores. As razões para isso serão várias: 1) os adiamentos sucessivos enfraqueceram o expectável impacto; 2) as canções que deram a conhecer em antecipação não tiveram grande receção; 3) tirando os fãs mais fiéis, e isto é obviamente uma generalização, o público da banda irlandesa está mais interessado em assistir a concertos onde pode cantar os sucessos de há três décadas do que em ouvir música nova.

OK, talvez estejamos a ser injustos... Os U2 dos anos 90 trouxeram ‘One’, ‘Mysterious Ways’ ou o incrível ‘Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me’, e mesmo depois de dobrado o milénio subiram os tops com ‘Elevation’ e ‘Vertigo’. No entanto, se nos debruçarmos sobre a última década, apercebemo-nos de que não sabemos nomear, de cabeça, uma única canção lançada pelo quarteto de Dublin — ‘Get On Your Boots’, de “No Line on the Horizon” (2009), será provavelmente a mais conhecida, mas está longe de ascender à categoria de clássico. Não queremos com isto menorizar o percurso invejável de Bono e companhia, apenas afirmar que se tornaram maiores do que os seus discos há muito tempo.

“Songs of Innocence”, o irmão mais velho deste “Songs of Experience”, editado em 2014, revitalizava, de forma louvável e com uma ajudinha do mago da produção Danger Mouse, uma sonoridade que parecia cada vez mais assente em fórmulas. Mesmo sem um único single de sucesso, com temas como ‘The Miracle (of Joey Ramone)’, ‘Cedarwood Road’ ou ‘Raised by Wolves’, a banda olhava para o passado para encontrar pistas de futuro.

"Songs of Experience", dos U2

"Songs of Experience", dos U2

Chegado esse futuro, agora presente, os temas que Bono garante serem cartas de despedida dirigidas à mulher, aos filhos, aos amigos e aos fãs — seguindo o conselho do poeta irlandês Brendan Kennelly: “Escreve como se estivesses morto” — não trazem aquela garra e espontaneidade que se sentia em “Songs of Innocence”. Talvez porque tenham passado três anos desde que ouvimos falar do álbum pela primeira vez e o grupo tenha andado demasiado tempo às voltas com as canções.

Se em ‘The Blackout’ ou ‘You’re the Best Thing About Me’ os ouvimos a autocitarem-se em piloto automático (quantas vezes já os escutámos neste registo?), em ‘Get Out of Your Own Way’ parecem querer colher em terreno cultivado pelos Coldplay. ‘American Soul’, com a colaboração messiânica de Kendrick Lamar, e momentos menos insuflados como ‘Summer of Love’ ou ‘Love Is All We Have Left’ são os pontos mais certeiros de um disco que não aquece muito mas, felizmente, também não arrefece demasiado.

Publicado originalmente na revista E, do Expresso, de 1 de dezembro de 2017