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Father John Misty no NOS Alive

Rita Carmo

Entrámos na cabeça de Father John Misty. No dia do concerto em Lisboa, a entrevista BLITZ

Mais do que um músico, responsável por um dos grandes discos do ano até ao momento, Josh Tillman é um pensador e um provocador nato. Há alguns meses, em Paris, o autor de “Pure Comedy” levou a BLITZ numa visita guiada aos bastidores da sua mente labiríntica, que reflete de forma acutilante o mundo à sua volta. Leitura obrigatória no “estágio” para o concerto desta segunda feira no Coliseu de Lisboa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

«Passei o dia enfiado num carro com este tipo, a ouvir piadas escatológicas. Alguém quer fazer perguntas, ou ter uma conversa sofisticada comigo?». A 21 de março, ou seja, a escassas semanas do lançamento de Pure Comedy, o seu terceiro álbum enquanto Father John Misty, Josh Tillman, quase 36 anos neste globo terrestre sobre o qual tem tanto a dizer, está de casacão comprido num pequeno palco em Amesterdão. Como forma de antecipar um dos lançamentos mais badalados do semestre, o norte-americano decidiu dar três concertos especiais e «intimistas»: num café em Paris, num teatro da cidade holandesa e numa sala igualmente pequena de Londres. No Zonnehuis (traduzindo literalmente, Casa do Sol), um teatrinho plantado numa zona residencial do norte de Amesterdão, o homem que tem aparecido nas parangonas da imprensa musical dia sim, dia sim, parece estranhamente serenado. Sem as danças que cunhou durante a promoção dos dois primeiros discos, Fear Fun (2012) e I Love You, Honeybear (2015), e acompanhado apenas por um pianista, passa a primeira metade do concerto empenhado em apresentar, da mais cristalina forma possível, quase todas as canções do imponente disco novo. Sensível ao humor de letras incrivelmente pungentes, a plateia «selecionada» – aqui se encontram apenas aqueles que concorreram à possibilidade de ganhar um de cento e poucos bilhetes, pelo módico preço de 15 euros e sem possibilidade de revenda na candonga – escuta, atentamente, e ri com vontade quando ouve, possivelmente pela primeira vez, deixas como «Narcissus would have had a field day if he could have got online».

Depois de atravessado o autêntico cabo das tormentas que é defender todos os 15 minutos de «Leaving L.A.», o mais autobiográfico momento de Pure Comedy, Tillman acena com a mão, como quem pede desculpa no trânsito, e pega no copo. «Acho que precisamos todos de uma bebida depois disto», troça, com a impassibilidade habitual. É na segunda metade do concerto, ou seja, do outro lado da montanha «Leaving L.A.», que se mostra mais descontraído, entabulando conversa com os fãs, holandeses mas não só (à nossa frente, uma jovem americana que claramente já conhecia o disco fala de «uma canção que tem, tipo, meia hora mas, tipo, eu adoro!»). Quando alguém na plateia aceita o repto das perguntas e pergunta «porque é que cortaste o cabelo?», num ápice riposta: «duh, olha para mim! Porque estou lindo!». Perante a risota dos admiradores, o recente portador de bigode elabora: «tirei a barba no dia a seguir ao Trumpie ganhar, em honra das más escolhas. Pensei: agora que vivemos num mundo de loucos, mais vale ter a pior pilosidade facial possível».

Não é de agora, contudo, que o mundo parece a Josh Tillman um lugar estranho. Criado no seio de uma família religiosa, onde podia ouvir discos de Peter Gabriel mas não de Michael Bolton («porque o Michael Bolton tinha sido de uma banda rock e tinha cabelo comprido», explicou à Pitchfork), rebelou-se de uma forma que, tal como quase tudo na sua persona, poderá ter tanto de verdade como de fantasia. Durante coisa de uma década, foi J. Tillman, cantautor honesto que, como bem resume o site Stereogum, não o levou a parte alguma. Com Father John Misty, autor de três álbuns maravilhosos e autêntica máquina de produzir citações sumarentas (ou, como se diz em 2017, clickbait), Josh chega a todo o lado – até ao famoso Saturday Night Live que, semanas antes do lançamento de Pure Comedy, o teve como convidado especial. Onde fica, afinal, a fronteira entre homem e máscara? Ou, como lhe perguntamos em Paris, já a conversa ia longa, que diria J. Tillman desta nova persona, capaz das letras mais reveladoras, em disco, e das tiradas mais provocantes, em entrevista?

«Não é uma persona», começa por esclarecer. «Simplesmente cresci, enquanto escritor. Fui ficando cada vez mais honesto. Mas o J. Tillman teria ficado horrorizado», reconhece, «porque não queria que ninguém visse o seu sentido de humor. Ele estava muito obcecado com a ideia de as pessoas o levarem a sério. Assim era eu, enquanto jovem rapaz: não valorizava aquilo em que era bom. E isto», diz, referindo-se às letras das suas canções, «é a forma como eu falo. A música que faço como Father John Misty é como ter uma conversa comigo mesmo. É isto que penso sobre o mundo, o que penso sobre mim mesmo, e é muito vulnerável. Toda a música de Father John Misty é muito vulnerável», assegura, comparando-se a outros cantores e compositores. «Eu não faço a cena típica de songwriter. Não me defendo muito bem, exponho-me às críticas. Olhas para o Bon Iver, por exemplo, e ele tem uma máscara de poesia e sons bonitos. Ele não diz: “acordei esta manhã, estava aborrecido e não sabia se era um bom songwriter mas, ainda assim, tentei escrever uma canção”… o que podia ser uma letra minha». Ou de Mark Kozelek, provocamos, trazendo para a conversa outro autor que, nos últimos anos, tem despejado a vida em versos infindáveis. Tillman ri-se. «É diferente, eu não gosto de ser tão banal. Ainda tem de haver alguma arte, ele tem-se tornado demasiado literal. Tens de usar esses [dados] com algum critério, tem de haver alguma substância. Tens de tentar. Todos os meus álbuns começam com uma pergunta demasiado grande para mim», expõe. «No primeiro disco era: “quem sou eu?”. No segundo era: “o que é o amor?”. Neste é: “o que é que isto tudo significa?”. E isso são perguntas demasiado grandes para mim. Mas é desse tipo de artistas que eu gosto», reforça. «Como Terrence Malick, ou David Lynch, ou Charlie Kaufman, ou Kurt Vonnegut: pessoas que se atiram a grandes perguntas. Mas tens de ter sentido de humor», alerta. «Tens de ter noção: milhões de pessoas já tentaram, não vou ser eu a encontrar a resposta. Por isso é que chamam a este tipo de artista “pretensioso”. Porque de facto é pretensioso», admite. «A humanidade reside no humor».

Nas canções como nas entrevistas, Misty ataca tanto como defende. Numa letra como a de «Leaving L.A.», que mesmo antes do lançamento do disco foi citada sucessivas vezes, antevê uma possível deserção dos fãs («I used to like this guy but this new shit makes me want to die») e imagina o retrato que muitos farão dele («oh great, that’s just what we all need / Another white guy in 2017 who takes himself so goddamn seriously»). «Todos temos medos e esse é um dos meus», admite, à mesa de um pátio de hotel, em Paris. «Que a minha voz seja completamente irrelevante. De não ser humano. De ser só um tipo branco em 2017, com uma guitarra acústica. Quem é que quer ouvir isso? É o meu maior medo. Porque quero ser humano, quero ser legítimo». O homem que temos à nossa frente, de óculos de sol e sobretudo de fazenda, é bom a antecipar. Acredita que muitos irão ouvir esta letra e pensar que se está a queixar («os americanos são muito literais e andam muito zangados, vão dizer: “oh coitadinho, está mas é calado!”»), por isso explica que sim, em 2017 ele é «o arquétipo de tipo branco sério com uma guitarra acústica. Mas eu também estou a fazer essa piada!», exclama, cobrindo a cara com a mão.

Seria possível conduzir uma entrevista sem sair de «Leaving L.A.», uma canção-biografia que divide Pure Comedy em imaginários lados A e B, porque nela parece residir a chave da psique do seu autor. «No fundo, só estou a convidar as pessoas a sentirem o que é ser eu, durante 15 minutos. Se conseguires fazer isso comigo, consegues fazê-lo com qualquer pessoa. Se te permitires suspender o teu julgamento, se tentares perceber o que é ser outra pessoa, isso é empatia, é compaixão», desenvolve. «Não estou a pedir que sintam pena de mim. Só peço que entrem na cabeça de outra pessoa e percebam que, por muito complexa que pensemos que seja a nossa experiência, toda a gente está a passar por algo igualmente complexo».

Father John Misty em 2017

Father John Misty em 2017

Ben Rayner

Estamos todos no mesmo calhau

Tema maior de Pure Comedy, a experiência humana é matéria de obsessão para este gigante das letras (que, já agora e numa avaliação a olho nu, diríamos que não mede menos de um metro e noventa). Sobre a eleição de Trump – ficou famoso o concerto que não deu, perturbado pela marcha vitoriosa do candidato republicano, sobre o qual discursou furiosamente, em vez de cantar – o seu pensamento é pouco linear. «O que é perturbante é que as notícias [sobre Trump] me divertem, porque são quase construídas para nos entreter. Quando nos deixamos entreter por elas, esquecemo-nos das nossas vidas, dos nossos vizinhos, das nossas responsabilidades e presumimos que o que se passa nas notícias é a realidade. Chegámos a um ponto em que ignoramos a realidade da nossa vida, porque estamos tão embrenhados [nas notícias]. E é isso que permite que o psicopata avance. Se todos ignorassem o presidente e fizessem o que querem, não havia forma de pará-los. Há coisas que são ingovernáveis», pondera. «Os direitos civis: a narrativa [conta que] surgiram graças aos políticos. Ou que se concretizaram graças à legislação e ao governo. Não foi por isso que as pessoas conquistaram os direitos civis. Conquistaram-nos porque decidiram que os queriam. E o governo teve de acompanhá-los. O governo até desacelerou o processo, que de outra forma teria acontecido muito mais depressa», acredita. «Porque os seres humanos não são estúpidos», conclui, aflorando a esperança omnipresente num disco enganadoramente desolado.

«Não somos malucos. Podemos olhar para outra pessoa, que é diferente de nós, e reconhecer que somos iguais. Está na nossa natureza. Mas a política perverte a nossa natureza. Mesmo o liberalismo, que diz “somos todos diferentes! A tua experiência é completamente diferente da minha, nunca podia compreendê-la!”. Nós chegamos todos ao mundo da mesma maneira, somos todos iguais», resume. «E mesmo que o liberalismo tenha boas intenções e defenda que somos todos flocos de neve únicos, somos todos iguais. Com este disco, quis dizer: estamos todos no mesmo calhau, a ter a mesma experiência. Estamos todos a viver, a morrer, a apaixonar-nos, a viver tragédias, a passar pelas mesmas coisas. E é tolo sobrevalorizar as nossas diferenças. Claro que temos de ser sensíveis e ouvir as pessoas, mas somos todos iguais».

Mais uma vez gravado com o produtor Jonathan Wilson, Pure Comedy apresenta um som por vezes grandioso, cortesia do autor dos arranjos de cordas e sopros, Gavin Bryars, mas também mais intimista, quando as canções vivem de pouco mais que voz e piano. «As letras são tão densas que quis dar às pessoas algum conforto, alguma beleza», confessa. «Desta vez, a ênfase não está no “este som é fixe”. São sons simples e orgânicos, pianos e cordas. O Honeybear era tudo! Todos os teclados, todos os sintetizadores, todas as guitarras, cordas, percussões e coros. Era uma coisa gigantesca, porque eu estava com medo. Por isso, tapei esse medo com todo o tipo de coisas. Em parte, é isso que torna o disco interessante. Mas neste nem sequer há reverb nas vozes. É muito direto».

No filme de meia hora com que, dois meses antes da edição, apresentou Pure Comedy, Misty levanta o véu sobre o processo de gravação. «É verdade que gravámos quase tudo ao segundo take», diz-nos, «mas isso não significa que tenha sido feito de forma trapalhona, porque ensaiámos que nem malucos. Tocámos estas canções vezes sem conta. E eu nunca tinha gravado com banda – até aqui tinha sido sempre eu, com o Jonathan, a gravar tudo. E foi uma experiência completamente diferente, de estar no momento. Sinto que o álbum apanha esses momentos de inspiração».

E eis-nos de volta a «Leaving L.A.», a confessa «chorus-less diatribe» que requeria uma sensibilidade especial na hora de musicar. «Uma canção dessas ou ia ter arranjos de cordas do Gavin Bryars ou não tinha arranjos. E o que ele trouxe à canção foi um entendimento muito sensível da letra; consegues perceber como as cordas seguem a pista das palavras. Um arranjo típico seria muito exagerado, ao passo que o do Gavin é muito humilde e telúrico».

"Pure Comedy" é o mais recente álbum de Father John Misty

"Pure Comedy" é o mais recente álbum de Father John Misty

Ben Rayner

Um pouco de esperança

Escrito, em boa parte, ao piano, instrumento que Misty admite não saber tocar («há uma certa alegria infantil que se prende com a alegria de tocar um instrumento novo»), Pure Comedy começou a nascer ainda durante a digressão do «irmão» mais velho – no YouTube, há uma versão da canção «The Memo» tocada ao vivo em 2015, que não sofreu praticamente alterações até aterrar no novo disco. Outras ofereceram-lhe mais luta: «não sou um escritor muito disciplinado, mas desta vez passei mais tempo com um bloco de notas, porque era importante fazer tudo bem», conta. «Por exemplo, a última deixa da “Pure Comedy”, “I hate to say it but each other’s all we’ve got”, foi reescrita várias vezes. Era mesmo muito importante, para mim, porque há mais esperança neste álbum do que em qualquer outro dos meus discos. É sem dúvida o disco mais otimista que já fiz», afirma candidamente, recuperando essa ideia mais tarde. «Quando escrevi “there’s nothing to fear” [na canção “In Twenty Years or So”, que fecha o disco], surpreendi-me por querer ser tão generoso e gracioso. Além de todos os jogos de sombras que faço na minha música, em última análise o que quero é dar esperança às pessoas», afiança aquele que, de forma consciente ou não, se refere a si mesmo como escritor, motivado por temas como a fama.

Mas quão famoso sente ser? «O suficiente», responde. «Mesmo que sejas só um bocadinho famoso, chega para mudar as coisas. Para uma pessoa que pensa, a fama é um adversário interessante, porque entra na tua vida e tens de combatê-la. Penso que é por isso que os escritores procuram o sucesso, a notoriedade. Porque há algo na fama que te desafia, que desafia aquilo de que realmente és feito. De certa forma, convidas a fama a entrar na tua vida. E quando te perguntam: “se a odeias assim tanto, por que a procuras?”. Porque precisas de um espelho», argumenta. «E a fama é um espelho distorcido, que acentua partes de nós de que não gostamos. É como o narcisismo materializado. Creio que é isso que um escritor quer: saber aquilo de que é feito».

As questões ligadas ao ego são um dos temas prediletos de Misty, que com elegância as associa, em «Ballad of the Dying Man», às omnipresentes redes sociais. «Por isso é que Narciso tinha medo de se afastar do lago», dispara, já perto do fim da nossa conversa. «Se pegasses num miúdo de 15 anos e lhe apagasses o Instagram, no dia seguinte ele teria uma autêntica crise existencial. Perguntar-se-ia: “onde estou?”. E os seus amigos diriam: “para onde foste?”».

Difícil de resumir numa frase para colar num autocolante, Pure Comedy parece passar por duas ou três ideias chave: a de que, «se a vida é uma piada, isso liberta-te. Esquecemo-nos de que a política e a religião foram criadas por nós, e podemos fazer delas o que quisermos. Em vez disso, deixemos que nos controlem, o que é absurdo, uma comédia», e a de que somos todos desgraçadamente humanos. Acompanhem-nos numa última viagem a «Leaving L.A.»: «acredito que é a coisa mais vulnerável e despida que já escrevi», diz-nos o generoso interlocutor. «Pensei: não posso escrever um álbum sobre humanidade sem haver um humano lá dentro. Todos os meus medos, as minhas dúvidas sobre mim mesmo, a minha ambição, a minha insanidade, a minha infância – quis incluir tudo. E a minha vida amorosa também é uma grande parte da canção. Se olhares para o primeiro e o último verso, tens uma história muito simples, de duas pessoas que estão a sair da cidade, mas não sabem muito bem porquê e não sabem o que se está a passar entre elas – essa é a história literal. Pelo meio, quis dar às pessoas a oportunidade de estarem na minha cabeça durante 15 minutos. Isto é o tipo de merda em que eu penso, entre a garagem e a estrada».

Ao vivo, Misty acredita que as novas canções vão soar «muito bem. No último disco, pensei: “como é que vamos reproduzir este som enorme?”. Em muitos aspetos, este é muito minimal. Os momentos mais poderosos, como “Pure Comedy” ou “When The God of Love Returns There’ll Be Hell To Pay”, são só piano e voz. Mas vou andar em digressão com uma secção de cordas e sopros». A 20 de novembro, estará no Coliseu de Lisboa.


Além do mito, Tillman é um humano que canta cada vez melhor («com a ternura dos cantores souls», assinala o Stereogum). Para o adeus, uma pergunta simples, como Pure Comedy, afinal, também o é: ainda retira prazer de cantar? «Adoro cantar. De disco para disco melhoro como cantor. Há sempre coisas para aprender, e cantar é muito psicológico», afirma. «As letras influenciam a forma de cantar. Se forem poéticas e floridas, cantas de certa forma; se forem como as minhas, cantas mais como se estivesses a falar». Amén.

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2017