Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Como se relaciona uma pessoa surda com a música?

O relato pessoal de uma mulher surda que escutou música pela primeira vez

Rachel Kolb é uma norte-americana que foi surda durante toda a sua vida até que, aos 20 anos, fez um implante coclear. Este dispositivo permite-lhe ter uma sensação auditiva próxima do fisiológico, estimulando o nervo auditivo e ajudando a descodificar e interpretar os sinais que recebe como sons.

Até essa idade, Rachel não entrou em contacto com qualquer tipo de música, "o que não quer dizer que não fosse musical", como relata ao The New York Times. "Toquei piano e guitarra em criança e lembro-me de desfrutar da sensação das minhas mãos a tocar nas teclas, e da vibração da guitarra no meu peito".

A ideia de ritmo também fez, durante muito tempo, parte da sua vida. "Fiquei obcecada com a ideia de marchar de forma ritmada ao passear pelo bairro, contando os meus passos como um metrónomo", explica. "Ver ritmos visuais, como um curso de água ou o bater de palmas e a expressão rica da linguagem gestual, fascinava-me".

Vida essa que mudou, naturalmente, após obter o implante. "Descobri que a música me dava um choque no âmago de uma forma que não conseguia explicar. Havia ritmos graves a aninharem-se no meu cérebro e a pulsar para fora. A melodia de um violino cravava-se e vibrava no meu peito", conta, "onde ficava muito depois da canção ter acabado. Outro tipo de sons soavam-me pesados, duros e cacofónicos, e procurava travá-los e voltar ao silêncio, como ainda faço".

"Este novo contraste que encontrei, entre o arrepio do som e o alívio do silêncio, mostrou-me algo que provavelmente sabia ao longo de toda a vida, mas que nunca tinha sido capaz de articular: a música não se trata apenas do som", explica. "Para mim é também sobre o corpo, sobre o que acontece quando aquilo a que chamamos som foge do seu vácuo e cria ondas pelo mundo".

O implante levou Rachel a explorar, de forma mais acentuada, aquilo que a música poderia ser. "Toquei algumas notas ao piano. Fui ao meu primeiro concerto de uma orquestra sinfónica. Tanto esse tempo como as coisas novas que ouvia levaram-me a fazer música própria", conta.

"Nesse concerto, o implante levou-me para um mar de som, mas os visuais ainda me entusiasmavam, o lado fisicamente artístico dos músicos com os seus instrumentos. E depois descobri a arte de fazer vídeos musicais com recurso a linguagem gestual. Quando vi aquelas canções em linguagem gestual, foi quando as senti verdadeiramente, de uma forma que nunca poderia a nível auditivo ou escrito".

Depois da audição, veio também a dança. "Descobri que, apesar de gostar de ouvir a música, as minhas canções preferidas eram aquelas que ribombavam com um ritmo forte, onde os graves vibravam pelo meu corpo. Dançava não só o que ouvia mas o que sentia", relata. "Quando um amigo e eu começámos a cantar a letra, percebi que é esta celebração de sentimento, movimento, sensação e linguagem eram o que importava ao ouvir música". E conclui: "Não só a música cria raízes nos nossos corpos numa forma que vai para além da auditiva, torna-se ainda mais notável quando isso acontece".