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The Jesus and Mary Chain: era uma vez o caos de “Psychocandy”, um dos melhores álbuns de sempre

25 anos depois da estreia em Lisboa e Porto, vemos agora anunciada nova dose dupla de concertos da banda dos irmãos Reid nas mesmíssimas cidades - pretexto para recuamos a 1985 e ao clássico álbum de estreia da banda escocesa

Quando se estrearam em solo português em abril de 1992 para dois concertos nos Pavilhões Carlos Lopes, em Lisboa, e Infante de Sagres, no Porto, os Jesus and Mary Chain já arrastavam atrás de si uma considerável reputação. Perfeitamente compreensível, aliás. Nessa época, a bagagem discográfica incluía já Honey's Dead, editado em vésperas da estreia em solo nacional, e ainda os álbuns Automatic (1989), Darklands (1987) ePsychocandy (1985). Mas foi sobretudo a força da estreia que lhes garantiu o futuro, um álbum de extraordinária força e visão que gerou descendência na escola shoegaze e que, três décadas volvidas sobre a sua edição original, permanece como uma espécie de monólito, uma ponte entre duas eras, um momento absolutamente singular da produção musical mais canhota que Inglaterra então oferecia ao mundo. Em recente entrevista à britânica Uncut, Jim Reid diz que a banda procurava apenas a resposta a uma importante pergunta: «se as Shangri-Las tivessem como banda de apoio os Einsturzende Neubauten a que soariam?». Quase 30 anos depois, Psychocandycontinua a ser a resposta mais plausível.

Sem alternativas

William é o mais velho dos dois irmãos Reid, naturais de East Kilbride, na Escócia. Em 1982, quando ambos receberam das mãos do pai um pequeno gravador de quatro pistas com que registaram as primeiras maquetes, William contava já 24 anos e o irmão Jim tinha acabado de completar 21. A música oferecialhes o único escape para o que seria certamente uma sentença de trabalho numa fábrica, a única herança a que pareciam ter direito por terem nascido no seio da classe operária. Jim era aprendiz de carpinteiro e William estava encaminhado para trabalhar numa fábrica de chapa de metal. As perspetivas não eram muito animadoras: perder alguns dígitos seria mais do que certo. Os devaneios dos irmãos eram à época alimentados por uma dieta rigorosa de John Peel na rádio, livros de William Burroughs surripiados na biblioteca local, mais visionamentos de A Laranja Mecânica e Taxi Driver e uma playlist de clássicos onde se encontravam discos dos T. Rex, David Bowie ou Syd Barrett.

Ao início, a banda não passava de uma ideia difusa sustentada apenas pelas conversas dos dois irmãos, a procurarem uma saída para o futuro enquanto se encontravam a viver do subsídio de desemprego. «A ideia de não fazer parte daquela vida das fábricas agradava-me», contava Jim a Simon Reynolds em 1988. «Eu recebia meio saco de amendoins para não fazer nada e os meus amigos recebiam um saco inteiro de amendoins para trabalharem. Eu achava que tinha o melhor acordo». O tempo servia, pelo menos, para alimentar sonhos: «o que fazemos agora era a nossa fantasia quando vivíamos em East Kilbride», garantia Jim na mesma entrevista. O sonho era, então, apenas uma via alternativa para uma cinzenta realidade operária.

As canções começaram a aparecer nesse período, primeiro como maquetes muito cruas gravadas com a ajuda de uma caixa de ritmos e só um pouco mais tarde com a colaboração de músicos exteriores ao eixo fraterno dos Reid, conseguidos, claro, através do inevitável anúncio no placard da única loja de discos de East Kilbride. Com Douglas Hart no baixo e Murray Dalglish a assumir as despesas de marcação rítmica num depurado kit apenas um timbalão de chão e uma tarola, a forma mais eficaz que encontraram para duplicar os primitivos mas eficazes padrões programados na caixa de ritmos: «não havia breaks de bateria nas maquetes, por isso se alguém os tocava ao vivo, a reação era: "mas que raio estás tu a fazer? Isso é horrível! Nada de pratos nem de breaks, entendes?"», recorda o baixista original da banda nas páginas da Uncut.

De certa maneira, os Jesus and Mary Chain procuravam uma essência primária do rock destruída pelas complexidades prog dos anos 70 e também pela completa negação dos anos 60 levada a cabo pelo punk. «Ao remeter para os anos 60 de forma a sobreviver nos anos 80, as bandas indie evocavam a década exata que Reagan e Thatcher tentavam desacreditar», escreve Simon Reynolds em Rip It Up and Start Again. Havia muitos anos 60 para servirem de inspiração às novas bandas de meados dos anos 80, argumenta ainda Reynolds, citando depois faróis da década das flores como os Byrds, Jim Morrison ou os Stooges que serviram de ponto de partida para as carreiras de bandas como Dream Syndicate, Sisters of Mercy e Cult. Os Jesus and Mary Chain, no entanto, pareciam ser os únicos apostados em explorar os contrastes possíveis através da sobreposição das coordenadas exploradas pelos Beach Boys, por um lado, e pelos Velvet Underground, por outro. Luz e sombra. Branco e negro.

Sem limites

A história da chegada dos Jesus and Mary Chain à Creation de Alan McGee é tortuosa e repleta de pormenores que só se revelam quando se esgravata fundo no folclore rock. Os irmãos Reid usaram o pequeno gravador de quatro pistas para criarem uma maquete com dois temas, «Never Understand» e «Upside Down», que depois enviaram para o Candy Club para se candidatarem a um lugar no cartaz. O nome inscrito na cassete era, então, The Daisy Chain. O programador do espaço não se impressionou com a proposta dos Reids, mas resolveu passar a cassete a um amigo porque o lado B estava preenchido com música de Syd Barrett.

Bobby Gillespie, fã assumido do mais psicadélico dos membros dos Pink Floyd, teve, no entanto, uma opinião contrária à do seu amigo do Candy Club e gostou o suficiente do material original presente na cassete para a mostrar ao antigo colega de escola Alan McGee, então à frente dos destinos da ainda jovem Creation Records. McGee não hesitou e ofereceu aos irmãos Reid a possibilidade de se estrearem ao vivo na noite Living Room que então programava em Londres. O primeiro concerto teve lugar a 8 de junho de 1984 e no cartaz estavam também os The Loft e Jasmine Minks. Mas foi quando os Jesus assinaram o concerto seguinte em Glasgow, no clube Night Moves, que a reputação de arruaceiros começou. Boa parte dos concertos de 1985 que precederam a edição de Psychocandy redundaram em autênticas batalhas campais que depois eram amplificadas pela imprensa com efeitos previsíveis nas datas seguintes. Foi o caso de uma hoje mítica apresentação em Londres, a 15 de março, na North London Polytechnic, com o público a reagir à intempestiva e ultra rápida atuação da banda destruindo boa parte da sala e do equipamento de som. Joe Foster, que produziu algumas das primeiras gravações do grupo para a Creation, justifica a «intensidade» à distância de 30 anos: «queríamos que fosse tão chocante como os primeiros cinco minutos do punk e, de certa forma, foi».

Por esta altura, Bobby Gillespie já tinha substituído Murray Dalglish na bateria, completando o puzzle inicial que haveria de gravar Psychocandy para a Blanco Y Negro, selo da Warner orientado por Geoff Travis (fundador da Rough Trade) com quem McGee tinha negociado um acordo. O papel de Travis, conhecedor dos meandros mais alternativos da cena que se ergueu em cima do punk, foi fundamental para a correta tradução sonora da visão dos irmãos Reid. Os primeiros singles do grupo não tinham transposto na perfeição o caos que o grupo conseguia gerar em palco, com uma verdadeira muralha de ruído e feedback a ser alimentada através do uso intensivo de pedais de fuzz. Ao sugerir John Loder, engenheiro com longa ligação aos Crass, de Penny Rimabud, um grupo que também sabia como navegar nos extremos mais obtusos da música popular, Travis garantiu que Psychocandyequilibrasse o feedback no lado certo da equação imaginada por Jim e William Reid.

Psychocandy foi editado na reta final de 1985 e recebido de braços abertos pela imprensa. Como os Ramones antes deles, os Jesus & Mary Chain souberam incorporar na sua fórmula algumas das marcas da pop bubblegum dos anos 60, pegando em melodias de Phil Spector ou do surf rock dos Beach Boys como ponto de partida para excursões de ruído que pareciam prestar atenção apenas ao momento em que grupos como os Stooges ou Velvet Underground testavam o limite dos seus amplificadores. Essa combinação inédita de estéticas contrastantes com uma aura de «enfants terribles» alimentada através de concertos caóticos e destruição encenada de estúdios de televisão o grupo chegou a esmagar uns quantos televisores numa aparição num programa de TV belga, mas a pedido do produtor, certamente em busca de audiências e de uma amostra do lado mais selvagem do rock'n'roll garantiu notoriedade ao grupo, mas também funcionou como uma espécie de prisão de que os irmãos Reid tentaram escapar logo com a edição de Darklands, o álbum seguinte, em que Bobby Gillespie, concentrado na carreira dos seus Primal Scream, já não participou.

Agora, 30 anos depois, os Jesus and Mary Chain voltam aos palcos para recriarem todos os temas de Psychocandy, disco entretanto recolocado no mercado pela Demon que tem vindo aliás a relançar toda a discografia do grupo em edições expandidas. E em declarações à imprensa britânica, os irmãos Reid já fizeram saber que esse será o ponto de partida para uma digressão em 2015 em que Psychocandy será central no alinhamento. O duo confessou, igualmente, que espera que a revisitação do momento de arranque da sua carreira sirva de inspiração para a gravação de álbuns novos que poderão ver a luz do dia na reta final do próximo ano ou em 2016. Regressar ao princípio para projetar o futuro. Funcionou para os Jesus and Mary Chain em 1985 e poderá muito bem voltar a funcionar agora, 30 anos mais tarde.

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2015