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Rita Carmo

Ainda é possível estar num grande festival como nos tempos em que não trazíamos o mundo no bolso?

Usamos os smartphones para encontrar os amigos, tirar fotografias, filmar concertos e taggar os locais que visitamos. E os festivais não escapam. O ligado é o novo desligado?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Super selfie. O nome não diz tudo, mas sugere alguma coisa. Este ano, num dos maiores festivais de música do país, uma das novidades foi a distribuição, pelo recinto, de vários mupis interativos onde os festivaleiros podiam registar para a posteridade a sua passagem pelo evento. Com ironia ou sem ela, boa parte dos espectadores parecia ceder à curiosidade, acabando por posar para a foto com os amigos e, eventualmente, com alguns dos brindes já angariados desde a chegada ao festival. Dias depois, uma busca pela hashtag com o nome do festival, em redes sociais como o Instagram, devolvia uma percentagem generosa de selfies, geralmente mostrando jovens que capricharam no visual e, chegados ao recinto, estão perfeitamente prontos para o seu close up. Comparar estes visuais estudados com as imagens do primeiro Sudoeste, por exemplo, é caricato: em 1997, uma jovem maquilhada ou um rapaz de melena impecavelmente penteada seriam a exceção. Hoje, em alguns eventos de música ao vivo, são a regra.

As mudanças no comportamento de quem não passa o verão sem ir a pelo menos um festival não são de agora, nem surgem sem contexto. O recinto de um festival de grandes dimensões oferece hoje incontáveis atrações, bem além da música que se faz ouvir nos diversos palcos. No centro dos festivais, tal como no do nosso quotidiano em geral, está o telemóvel – e não falamos apenas no facto de o smartphone se ter tornado no novo melhor amigo do homem. Em boa parte dos grandes eventos, os patrocinadores que dão nome aos certames são operadoras móveis; nos recintos, há postos para carregar os telemóveis. Dotados de câmaras fotográficas de cada vez maior resolução, os aparelhos servem também de espelho natural para o festivaleiro. Quando, algures no princípio do século XXI, as câmaras digitais se vulgarizaram, tirávamos fotos aos palcos. Hoje, o centro das atenções é cada vez mais o «eu».

Em eventos progressivamente comerciais, as chamadas «ativações de marca» reforçam esta tendência: num outro festival, na região do Grande Porto, ofereciam-se pinturas faciais a troco de uma foto, partilhada pelos recém-maquilhados nas redes sociais, com a hashtag da marca que patrocinava a iniciativa. Afinal, lembra Pedro Félix, do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, a boa publicidade é, hoje em dia, aquela que não parece publicidade. «Se um museu tiver um milhão de visitantes, e se 50 mil fizerem uma selfie e taggarem o museu, dizendo aos seus mil amigos que estiveram ali, estamos a falar de “viralizar” uma imagem, que de repente chega a uma data de gente. É publicidade gratuita – e não soa a publicidade», explica.

Rita Carmo

O telemóvel como extensão do corpo humano

O protagonismo dos smartphones no contexto festivaleiro não surpreende o antropólogo, que já assinou numerosos trabalhos sobre música. Afinal, no dia-a-dia ocidental, o telemóvel transformou-se «numa espécie de extensão do corpo humano. Se formos no metro, é muito fácil perceber que metade das pessoas está entretida a mexer no telemóvel, a jogar, a ver fotografias, a atualizar o Facebook. E torna-se progressivamente mais difícil romper com esta mediação. Os concertos não iam ficar de fora deste processo», acredita. Aplicada a um grande festival de música, a ideia de partilha – como se todos fôssemos repórteres, divulgando em tempo real as últimas novidades – encontra um terreno de eleição. «Sempre houve esta necessidade de agarrar coisas transientes, que vão passar. Agora fazemo-lo com um dispositivo muito confortável: um telefone que tem uma câmara, um leitor de MP3, um leitor de livros, um interface para a internet... É quase como um centro de comunicações».

Se o comportamento progressivamente disperso da plateia incomoda outros espectadores, mais preocupados em acompanhar o que se passa em palco do que as conversas em seu redor, também os músicos se apercebem de que algo mudou – e nem sempre se mostram satisfeitos. Em 2013, as Savages dirigiram-se aos fãs de um concerto em Seattle, nos Estados Unidos, com a seguinte mensagem: «o nosso objetivo é descobrir formas melhores de viver a música. Acreditamos que o uso de telefones para filmar e tirar fotos impede-nos de nos envolvermos por completo nos concertos. Vamos tentar que esta noite seja especial e silenciemos os nossos telefones». Representante de uma geração diferente, o septuagenário Roger Waters confessou-se espantado, há seis anos, com a quantidade de pessoas que, durante os espetáculos da digressão «The Wall», acompanhavam o concerto tirando fotos do palco e partilhando-as de imediato no Facebook. «Como poderia viver realmente aquilo que paguei para ver e ouvir, se estivesse a brincar com o iPhone, a filmar, a twittar ou a conversar com alguém?», interrogou-se então o outrora timoneiro dos Pink Floyd.

Para quem está em palco, a experiência pode ser perturbante. A artista portuguesa Rita Redshoes partilha a sua interpretação: «os festivais são, sobretudo, acontecimentos sociais porque me parece que se tornaram pontos de convívio para tirar fotos, beber uns copos e, com sorte, [divertirmo-nos], em que a música passou a ser o pano de fundo. Em palco, às vezes isso passa um pouco ao lado, se estivermos a falar de um recinto muito grande. Num teatro, incomoda e desconcentra». Opinião semelhante tem Paulo Furtado/Legendary Tigerman, para quem «a vontade de partilha nas redes sociais ultrapassa a vontade de realmente sentir e estar no concerto». Equanto espectador, o músico de Coimbra já pediu aos «vizinhos» de concerto que se calassem. «[O ruído] pode afetar a minha prestação, tal como me afeta como espectador, muitas vezes. Pode afetar-me ao ponto de eu envergonhar as pessoas, ao pedir que se calem ou que saiam», acrescenta. Nem Paulo nem Rita acreditam, porém, que a criação de festivais onde os telemóveis ficam à porta sejam solução para este desconforto.

Rita Carmo

Uma questão de investimento

Autora de vários estudos nesta área, a socióloga Paula Guerra defende que este fenómeno de «desfocagem face ao concerto» já se vem notando há cerca de dez anos. Nessa altura, estudou comparativamente dois festivais: Sudoeste e Paredes de Coura, encontrando «perfis de público completamente diferentes. No Sudoeste, era notório que, para os festivaleiros, o cartaz era o menos importante. A questão da praia, do campismo ou das tendas onde se fazia maquilhagem ou tranças era muito mais relevante do que o concerto», recorda. «Creio que é uma tendência que se intensificou. Hoje, mesmo em festivais com um perfil mais alternativo, há tanta coisa para ver, fazer, comprar e ser que as pessoas acabam por dispersar-se do palco principal. O NOS Alive é disso um exemplo supremo», considera.

«Quer pela panóplia de palcos que oferece, quer do ponto de vista do consumo alimentar e estético». Para a professora e investigadora, a proliferação de câmaras, registando os concertos e a presença de cada indivíduo no mesmo, tem como pano de fundo «um certo individualismo contemporâneo, que já se vem a desenhar desde os anos 80. A focagem na pessoa ao invés de no outro, ou nos outros. Mas penso que também tem a ver com o facto de as pessoas quererem estar em vários mundos – o real, o virtual –, em simultâneo com a banalização da música». Segundo socióloga da Universidade do Porto, esta banalização dos conteúdos faz com que os consumidores sintam a necessidade de se apropriarem dos mesmos de forma mais personalizada. «É uma faceta do capitalismo tardio em que vivemos. Enquanto no capitalismo tradicional se punha a questão do termos tudo como os outros, o capitalismo tardio impele-nos à diferença. E isso convida as pessoas a concentrarem-se na sua apropriação. «“Eu tenho uma selfie, que apanha a Madonna de uma determinada maneira”», exemplifica. «Aquela é a minha visão, que pretendo que seja diferente e se sobreponha à dos outros».

Na perspetiva da cantora e compositora Márcia, «há uma enorme vontade coletiva de se mostrar tudo o que se está a fazer e a ver, de preferência em direto. É uma tendência que não se encerra nos concertos, [mas] creio que é uma fase de euforia inicial destas plataformas que nos permitem a ilusão de estarmos em vários sítios ao mesmo tempo. [Acredito] que vamos lentamente voltar a querer estar apenas onde estamos. A moda dos telemóveis e dos diretos vai passar, por cansaço e saturação, de tão enjoativo que se tornará ver fotos más e vídeos em direto», acrescenta.

No passado mês de julho, o Passeio Marítimo de Algés encheu-se para receber, ao longo de três dias, várias dezenas de concertos. 165 mil pessoas terão passados pela 11ª edição do NOS Alive, que teve na banda norte-americana Foo Fighters a grande atração do segundo dia. Quando Dave Grohl desceu do palco para percorrer o corredor que separa a plateia a meio, poucos aproveitaram, porém, a oportunidade para tocar no homem que em tempos se sentou atrás da bateria dos Nirvana. Ao invés, puxaram dos telefones. Um dia antes, em Inglaterra, Chester Bennington, um dos vocalistas dos Linkin Park, dava aquele que viria a ser o seu último concerto de sempre. Na sequência da sua morte inesperada, começaram a surgir na net imagens da sua última atuação e, no YouTube, é possível encontrar um vídeo filmado por uma fã que se encontrava na primeira fila quando Chester Bennington desceu do palco para cantar junto dos seus admiradores. «Vejo aí mais telefones do que numa loja de telefones», critica alguém nos comentários. Será que deixámos de ver nos artistas um ídolo inalcançável e, na sequência dessa dessacralização, adotámos um comportamento mais blasé? Paula Guerra duvida que assim seja. «A sacralização [dos artistas] continua a existir, mas de outras formas, sob a capa de uma banalização. Penso que há um jogo de acessibilidade e inacessibilidade, em que a própria indústria [da música] sente que tem de se aproximar [do público]. Hoje o consumo passa por [conceitos como o] gourmet, o vintage, a retromania, as tentativas de diferenciação. Há um novo entendimento do que é ser fã», acredita.

Rita Carmo

Nada será como dantes

Ainda em julho, no NOS Alive, uma das bandas recebidas de forma mais febril não passou pelo palco principal, mas sim por um dos vários espaços secundários. Naturais de uma pequena cidade no Kentucky, nos Estados Unidos, mas radicados em Londres, os Cage the Elephant não são um dos nomes mais badalados do meio, nem quando lançam álbuns, nem quando encetam uma nova digressão. Contudo, depois de uma história de amor com o público nacional que começou a ser escrita em 2014, com um concerto surpreendente em Paredes de Coura, o grupo dos irmãos Shultz parece ter conquistado no nosso país uma base de fãs arrebatada. Vê-los a cantar todas as letras de canções que não estão nos topes de vendas ou nas playlists das rádios é impressionante – naquele momento, para aqueles milhares de almas, não há banda mais importante no mundo. Para Paula Guerra, Portugal é propenso a este tipo de «paixões. [A música] é global, mas depois há uma apropriação local da coisa. E surgem sempre segmentos, nichos».

Quem sonhar com um futuro próximo onde os smartphones tenham um menor protagonismo em eventos públicos como festivais de verão poderá, segundo estes estudiosos, estar a iludir-se. «Tal como o comboio e a máquina a vapor foram importantes no século XIX e a rádio nos anos 20 e 30, tal como a televisão foi fundamental nos anos 50 e o cinema no pós-guerra, a internet [marcou] os anos 90 e neste momento vivemos com um dispositivo com uma capacidade de processamento extraordinária», aponta Pedro Félix. «Desde muito cedo passamos a estar muito familiarizados com esta extensão comunicacional [que é o smartphone]. Ainda que pessoalmente possamos não gostar, é uma realidade insofismável, irreversível». À semelhança do antropólogo, Paula Guerra não tem dúvidas: «há outra forma de viver os concertos. Não discuto se é melhor ou pior, mas é diferente. [Muitas] pessoas passam o tempo todo a filmar, a fotografar-se a si mesmas e aos amigos, a fazer selfies. É outra forma de fruir a música – e não vai voltar atrás».

Versão editada do artigo publicado na revista E, do Expresso, a 19 de agosto