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Eddie Vedder

Getty Images

“Os Pearl Jam são uma banda do povo”, diz à BLITZ realizador do documentário “Let's Play Two”

Em entrevista à BLITZ, Danny Clinch fala sobre a sua experiência ao filmar Let's Play Two, uma história sobre música e basebol mas, acima de tudo, sobre “paixão e devoção”. O filme é exibido amanhã em Portugal, a banda-sonora já está à venda

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No ano passado, os Chicago Cubs, equipa de basebol daquela cidade norte-americana, sagraram-se pela primeira vez campeões. O feito foi acompanhado de perto por Eddie Vedder, que cresceu nos arredores de Chicago e é um fã dedicado dos Cubs. A BLITZ falou com Danny Clinch, realizador do filme Let's Play Two, que é exibido amanhã, 13 de outubro, em Portugal, contando a história de glória dos Chicago Cubs mas também da paixão dos seus fãs, com Eddie Vedder à cabeça.

Conheceu Eddie Vedder há 25 anos e desde então presumo que se manteve sempre próximo dele e dos Pearl Jam?
Conhecemo-nos há 25 anos, no festival Lollapalooza. Nessa altura tirei-lhe umas fotos. Voltaríamos a cruzar-nos várias vezes em meados dos anos 90 e depois, em 2000, voltei a passar algum tempo com ele e passei a fotografar a banda. Eles passaram a contratar-me para lhes fazer sessões fotográficas, depois comecei a fazer pequenos filmes para alguns discos, como o Lightning Bolt, e tornámo-nos amigos. Confiamos uns nos outros, o que é muito importante. Para mim, tem sido uma grande honra poder fazer parte daquilo que eles fazem.

Danny Clinch

Danny Clinch

Danny Clinch

Já se considera parte da família dos Pearl Jam?
Depois deste filme, diria que sim!

Foi um desafio para si fazer um filme sobre uma banda como os Pearl Jam, que todos os fãs de música já conhecem?
A beleza de uma banda como os Pearl Jam é que estão sempre a evoluir. Não estão sempre a tocar as mesmas canções - continuam a escrever grande música, a tocar coisas novas, a apresentar novas versões. São uma banda excitante! Quando fotografo e filmo músicos, sobretudo músicos deste calibre, o que mais aprecio é que há sempre uma nova história, naquele ponto da vida das pessoas - musical e pessoalmente. Neste caso, eu vi logo que havia ali uma grande história. o Eddie cresceu em Chicago, a banda deu um dos seus primeiros concertos de sempre - talvez o segundo? - no Metro, que é um clube a um ou dois quarteirões de Wrigley Field... Por isso, esta é uma história sobre o amor que a banda sente por Chicago e pelo desporto. Eles são fãs dos Chicago Bulls [equipa de basquetebol] e o Eddie era fã dos Cubs e ia sempre aos jogos, em miúdo. No meu trabalho, gosto de mostrar a ligação entre a banda, os fãs e as próprias salas onde tocam - também fiz isso no Immagine in Cornice, um filme [de 2006] sobre os Pearl Jam em Itália. Aqui é a mesma coisa, só muda a sala e a história. E queríamos contá-la do ponto de vista de um americano: este estádio do Cubs, no meio da cidade, é uma coisa rara. Não está no meio de um parque de estacionamento, mas sim de um bairro. Nos Estados Unidos, a maior parte dos estádios profissionais estão rodeados por autoestradas e parques de estacionamento, mas Wrigley Field é diferente. Só por isso é único, e é por isso que as pessoas sobem para os terraços dos prédios à volta do estádio para verem o jogo! (risos)

Na Europa, o basebol não é popular. Mas Portugal também venceu pela primeira vez o Campeonato da Europa em futebol, no ano passado, por isso as pessoas poderão identificar-se...
Adoro ouvir isso! E, antes que me esqueça, queria dizer que estive em Portugal há 25 anos. Foi aí que pedi a minha mulher em casamento, perto de Sintra! Celebramos amanhã [10 de outubro] e planeamos voltar em breve.

Ao longo da sua carreira, já fotografou numerosos notáveis do meio da música. Da sua perspetiva, o que é que torna os Pearl Jam especiais?
Penso que os Pearl Jam sempre fizeram as coisas à sua maneira. E é isso que admiro no Bruce Springsteen, nos Radiohead e em artistas como eles. Os Pearl Jam vêm da ideia punk rock do do it yourself, de não deixarem que ninguém lhes diga o que fazer. Têm uma forte integridade moral, defendem aquilo em que acreditam, não têm medo de falar nessas causas e apoiam a sua comunidade, inclusivamente do ponto de vista financeiro. Ajudam quem precisa e os fãs agradecem. Muitos dos fãs da banda também são assim, também ajudam as suas comunidades - deixam-se inspirar pela banda. Penso que os Pearl Jam são uma banda do povo. Quando dão um concerto, o Eddie vai ter com os fãs, fica ali ao nível deles, canta com eles. E partilha o momento: partilha com eles o vinho da sua garrafa. O Mike [McCready] desce e toca no meio da plateia... Isso funciona nos dois sentidos: os fãs celebram a banda e a banda celebra os fãs. Eles não dizem: nós estamos aqui em cima e vocês estão aí em baixo. Dizem: estamos aqui todos juntos. E isso é muito importante. A música significa muita coisa para pessoas diferentes. É uma cura, uma celebração, são recordações. É isso que os Pearl Jam oferecem aos seus fãs.

No filme, há um fã que está à porta do estádio há quatro dias, para ficar na primeira fila e agradecer a uma banda que lhe diz muito, pela forma como uma canção o ajudou a lidar com a morte do pai. Toda a gente tem uma história?
Exatamente, toda a gente tem uma história! Quando alguém pergunta a um artista: o que querias dizer quando escreveste aquela canção?, eu penso sempre que nós não precisamos de saber isso. Importante é saber o que significa para nós. Eu sei o que é que a «Release» significa para mim: perdi o meu pai, há pouco mais de um ano, e quando ouço aquela canção vejo esse momento. Já vi o filme mil vezes e provavelmente fico sempre de lágrimas nos olhos [nessa parte], fico sempre emocionado. Qual a tua experiência de vida? O que é que isso oferece ao significado da canção? Isso é que importa.

Com este filme, quis também pintar um retrato do Eddie Vedder fora da música e até de Seattle, cidade à qual continuamos a associá-lo?

Não me apercebi que iria revelar tanto sobre o Eddie. Sinceramente, quando estávamos a «costurar» a história, não tinha a certeza se ele ia querer mostrar tanta coisa. Pensei que talvez fosse dizer: isto é demasiado pessoal... Mas afinal não! Creio que esta é a primeira vez que ele deixa alguém contar uma história que é tão pessoal. Sinto-me muito honrado nos ter deixado levar a história onde levámos. Os Pearl Jam deixaram-nos fazer o filme que queríamos, e até criar a setlist [daqueles concertos, em agosto de 2016]! Quem fez o alinhamento dos concertos fui eu e a minha equipa! A banda só disse: OK, parece-nos ótimo! Foi uma grande honra.

É justo dizer que entretanto se tornou fã dos Pearl Jam?
Oh, por favor! Eu adoro esta banda. Não me farto nunca. (risos)

Nasceu em New Jersey. Presumo que os Chicago Cubs não sejam a sua equipa?
Eu não sou grande fã de basebol, gosto de futebol [soccer]. (risos) E de futebol americano. Mas gosto de qualquer desporto quando chegam as fases finais. E adoro os underdogs. Ao filmar o documentário, acabei por assistir aos jogos, conheci alguns dos jogadores e vi a paixão e a devoção do Ed... então, não consegui deixar de adorar esta equipa! Passou a ser a minha equipa! E depois comecei a ler sobre a sua história e os 108 anos que estiveram sem ganhar um campeonato, e fiquei: oh meu Deus, eu adoro estes tipos, agora quero mesmo que eles ganhem! (risos) Estava a fazer um filme e de repente vejo que pode ter um fim de conto de fadas. Isto pode mesmo acontecer! Foi muito especial. Agora já tenho uma equipa, e são os Cubs! (risos)

Mesmo que não se seja fã de basebol, é sempre emocionante ver tantas pessoas tão felizes...
Acho que a história é sobre música e basebol, mas também sobre esperança e devoção. Sobre pessoas que esperam que as coisas lhes corram de feição, e sobre a devoção e a paixão que é preciso ter para continuar a acreditar que um dia há de acontecer! E nós pudemos estar lá e filmar esse momento.

No fundo, o filme é uma metáfora da atitude de Eddie Vedder na vida? A certa altura, ele fala sobre a importância da paciência e determinação no alcançar dos nossos objetivos...

Essa perspetiva é muito interessante e penso que tens razão. Em boa parte, é uma metáfora da perseverança e do nunca desistir. [Mostra que] se tentares [alcançar um objetivo] durante muito tempo e lhe dedicares toda a tua atenção, no fim serás recompensado. Posto isto, se eles tivessem perdido o último jogo, não sei se a história seria assim tão diferente. A paixão seria a mesma.

Let's Play Two, o filme, é exibido amanhã, 13 de outubro, às 21h30, nos cinemas UCI El Corte Inglés e UCI Dolce Vita Tejo, em Lisboa, e UCI Arrábida, em Vila Nova de Gaia.

A banda-sonora do documentário, gravada no decurso dos concertos dos Pearl Jam no estádio dos Chicago Cubs, em agosto de 2016, já está à venda.