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Future Islands no Vodafone Paredes de Coura'17

Rita Carmo

Future Islands: “Sempre fui um romântico”, confessa Samuel T. Herring

Depois de saltar para os grandes palcos mundiais, há três anos, o grupo de Baltimore regressa com The Far Field, um quinto álbum que vai buscar elementos do passado para apontar pistas para o futuro. Mário Rui Vieira falou com o trio em Madrid.

Só no início de 2014, depois de editarem três álbuns numa carreira iniciada oito anos antes, os norte-americanos Future Islands entraram definitivamente nos radares dos amantes de música menos atentos. Singles marcou a estreia da banda na histórica editora 4AD e tornou-se um fenómeno de crítica, ajudando a atirar o trio de Baltimore para os grandes palcos mundiais – feito a que não serão alheias, também, as atuações enérgicas do vocalista, Samuel T. Herring. Agora, três anos volvidos, a banda regressa com The Far Field, coleção de canções assente nos sintetizadores que marcaram a revolução sonora do registo antecessor mas que, segundo o que Herring, o teclista Gerrit Welmers e o baixista William Cashion contaram à BLITZ, em Madrid, vai buscar a energia mais «crua» dos primeiros discos. Tendo como ponto de partida o álbum, produzido por John Congleton (colaborador de Explosions In The Sky, Angel Olsen, John Grant, Baroness ou Swans), o trio falou do novo dueto com Debbie Harry, dos Blondie, de romance em tempos de redes sociais e do medo que tem do futuro.

The Far Field é um álbum assumidamente romântico… Como mantêm essa visão da vida num momento em que tudo parece tornar-se mais calculado?
Samuel T. Herring
– O simples facto de estar a ficar mais velho e de ter passando por períodos de amor e de mágoa ao longo da vida torna tudo mais pesado. Sempre fui um romântico, mas tenho medo que o cinismo comece a infiltrar-se. O que está neste disco sou eu a lidar com essa questão «ainda somos capazes de amar?», «ainda conseguirei amar?»… É algo natural. Mas tem piada, porque nenhum de nós alguma vez esteve no Tinder ou coisa do género. Isso, para mim, seria desistir… e ainda não desisti. Quero continuar a acreditar. É aí que reside a beleza de cantar sobre o assunto. Ao fazê-lo, tento perceber se o amor ainda é uma coisa real. «Ancient Water» fala da forma como olhamos para as redes sociais, que ocupam grande parte das nossas vidas. É suposto aproximarem-nos, mas, de certa forma, acabam por nos separar mais. Sentimos que estamos a comunicar mas não estamos, realmente. Há demasiados ecrãs entre nós. Na nossa música e nos nossos espetáculos queremos derrubar essas barreiras e sentirmo-nos livres para mostrar emoções e sermos verdadeiros com o que sentimos… E, provavelmente, sentimo-nos sozinhos. Há medo e desespero. Queremos partilhar isso com as pessoas para que não se sintam sozinhas: «não és só tu a sentir isso». Não temos de nos virar para essas aplicações, podemos procurar nas outras pessoas, na natureza, no mundo. Talvez encontremos alguma paz assim. Lidar com o amor através das canções tem sido uma parte importante da minha vida. É assustador quando escrevo uma e vejo que podia tê-la escrito há cinco anos porque estou a passar pela mesma situação… Mas faz parte da vida.

É uma pessoa nostálgica?
STH
– Sim… Sentimos sempre saudades de casa, de um amor perdido… Faz parte de mim, enquanto artista, e vem dos tempos de criança, quando me sentia isolado e incompreendido. A nosso ver, acertámos o passo com o segundo álbum, In Evening Air, escrito totalmente em Baltimore, quando nos mudámos para lá vindos de casa, na Carolina do Norte. Eu e o Gerrit estávamos a passar por fins de relações, mas, pior do que isso, sentíamos, os três, saudades de casa. Temos feito muitas canções que lidam com esse sentimento de saudades do local onde crescemos e nostalgia da infância.

As constantes digressões também não devem ajudar…
STH –
Pois não. A estrada é importante em muitas canções deste novo álbum… Viajar na direção de alguma coisa ou para longe de algo que amamos. É algo intrínseco àquilo que fazemos... Sacrificamos muita coisa, não apenas amor mas também comunicação, proximidade da família. Faz, definitivamente, parte da nossa música, essa ideia de amor perdido.

Em Singles, parecia que tinham encontrado a vossa verdadeira sonoridade. Acreditam nisso ou, no futuro, os Future Islands poderão seguir um caminho completamente diferente?
STH – Espero que, enquanto artistas, possamos seguir o caminho que nos apetecer. Já experimentámos coisas suficientemente diferentes, sem sermos demasiado experimentais, para fazermos o que quisermos sem nos colocarem numa caixa específica. Apesar de ser o nosso disco pop mais direto, Singles era muito diverso. Tem uma sonoridade synthpop, mas inclui canções soul, sons mais r&b, e depois coisas mais country… Portanto, mesmo dentro disso havia uma diversidade que é importante para nós, porque queremos explorar coisas diferentes. Não queremos sentir-nos obrigados a criar um som em específico. The Far Field inclui sons que ainda não tínhamos explorado. «Day Glow Fire» é um exemplo disso... Portanto, acredito que as bandas têm o seu próprio som, e isso é bom, mas nós temos cada um uma voz e trazemo-las para os Future Islands para criarmos o que criamos. Se tirássemos qualquer um de nós da equação, não seríamos esta banda. É isso que faz com que nós sejamos nós.

E como surgiu «Shadows», canção com a participação de Debbie Harry? Como a conheceram?
William Cashion
– Na verdade, ainda não a conhecemos. Ela gravou as partes dela em Nova Iorque e nós estávamos em Los Angeles. O John Congleton produziu o novo álbum dos Blondie, que sai este ano também, e andava a falar-nos de como tinha sido fixe trabalhar com a Debbie Harry quando nos debruçámos sobre «Shadows», uma canção antiga, de 2013, que era para ter sido incluída em Singles… Como não conseguimos encontrar a colaboração certa para o dueto, deixámo-la de parte. Voltámos a ela com este álbum e quando o Samuel estava a gravar a voz, o John sugeriu «por que não pedimos à Debbie para cantar?». Dissemos logo que sim, claro, e ele enviou-lhe a demo por email. Ela respondeu de imediato, a dizer que adorava a canção mas que ia pensar no assunto. Passado poucos dias, voltou a responder, dizendo que adoraria fazê-lo. Uma semana depois, gravou as partes dela. A forma como articula os versos dela faz com que a canção soe diferente daquilo que o Sam escreveu. Fez com que se tornasse uma coisa sua e já não consigo ouvi-la de outra forma. Sentimo-nos muito honrados e sortudos por ela ter colaborado connosco.

Em palco, o Samuel parece alheado daquilo que o rodeia, mas, ao mesmo tempo, muito concentrado nas pessoas que tem à frente… Para onde viaja durante os concertos?
STH
– É uma questão de contágio. Mexo-me para fazer com que as pessoas se mexam também. Choro para fazer as outras pessoas chorar. Queremos criar uma relação com os nossos fãs, não apenas tocar umas canções, mas é difícil fazê-lo com toda a gente … Quando estamos nervosos, dizem-nos para cantarmos por cima das cabeças das pessoas, mas eu defendo que devemos atuar para a primeira fila: o sentimento depois segue para trás. Num festival, é o mais difícil de fazer, mas quando vês aquele mar de gente e estabeleces contacto visual com algumas daquelas pessoas torna-se muito especial. Essa energia passa para os outros. No que diz respeito à minha performance, aquilo que tento fazer é regressar ao que senti quando escrevi determinada canção ou ao sentimento que a fez nascer. Vejo “os fantasmas” em palco, as pessoas para quem estou a cantar aquilo… Tiro o relógio da parede, colho uma flor… Estas coisas são importantes para contar a história, colocá-la em cena, e deixar as pessoas a pensar «o que estará ele a fazer?» (risos). Podes enfeitiçá-las ao contar a história e assim trazê-las para o teu lado. Tento não me perder muito, mas se o concerto passa e estou noutro lugar é uma coisa boa. Quando pensas demasiado, não dás um bom concerto.

E como imagina uma banda chamada Future Islands o futuro, tendo em conta os tempos conturbados que vivemos?
STH
– Confesso que estou um pouco assustado com as viagens que se avizinham e curioso com aquilo que vou encontrar na América quando partirmos para a estrada. Talvez esteja tudo igual… O mais triste não é o facto de o Donald Trump se ter tornado presidente ser o símbolo de uma mudança que já vinha a ocorrer há algum tempo na América, na minha opinião de forma negativa, mas o facto de isso ter chamado à atenção para um problema que sempre existiu e nunca foi resolvido. Todo o trabalho que as pessoas fizeram em defesa dos direitos civis… Pensámos que estava tudo a melhorar, mas havia muita coisa nas entrelinhas. Não podemos fingir que não há racismo, não podemos fingir que as coisas não acontecem. Agora está tudo à superfície, já não está escondido. Temos medo pelo mundo em geral, mas vamos continuar a fazer o nosso trabalho na esperança de que, sendo nós uma banda que tenta não ser política, a nossa música ajude as pessoas a sentir alguma liberdade. Pelo menos interior. A nossa música é política no sentido do coração e não no de fazermos afirmações diretas com dela. Isso deixamos para as redes sociais e para o palco. A nossa música é sobre tentarmos ser pessoas melhores, basicamente, e sermos melhores para os outros.

WC – O mais assustador é não sabermos como as coisas vão mudar. E penso mesmo que algo vai mudar. E vai afetar toda a gente… Pode até ter um efeito louco e impedir-nos de fazer digressões. Quem sabe? A forma como a administração de Trump tem trabalhado é tão imprevisível… Mais tarde ou mais cedo, vão fazer algo de que ninguém está à espera. Tenho muito medo disso.

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2017