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Spoon: “Pode parecer chato, mas um dos meus vocalistas favoritos de sempre é o John Lennon”

Regressam a Portugal para dois coliseus em novembro, com o novo Hot Thoughts na mala. Em Madrid, falaram com Lia Pereira sobre uma vida que tem tanto de graciosidade como de punhos cerrados.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No início deste ano, Britt Daniel (voz), Jim Eno (bateria) e Alex Fischel (teclas) falaram com a BLITZ numa esplanada em Madrid. O novo (e fervilhante) Hot Thoughts foi o pretexto para uma conversa breve, mas bem-humorada.

Chamar Hot Thoughts a um disco que exala sensualidade pareceu-vos adequado?
Britt Daniel
– A música é uma experiência sensual. Apela diretamente às emoções. Penso que é por isso que sempre quis trabalhar em música, por me afetar emocionalmente, de forma tão imediata. E sim, Hot Thoughts resume isso tudo.
Jim Eno – Também é um bom título de disco porque, sendo o título da primeira canção, resume bem o álbum e dá-lhe um arranque excitante, definindo o ambiente. O disco começa de forma esparsa, mas tem muitos momentos excitantes.

«Esparso», curiosamente, é um adjetivo que surge muitas vezes, quando lemos descrições do som dos Spoon.
JE
– Acho que o «esparso» tem muito a ver com a música que ouvimos. Temos tendência a gostar de canções onde, cada vez que alguma coisa aparece, tem um significado. Nada está lá sem razão. Passamos muito tempo a trabalhar nas nossas canções e queremos que os instrumentos tenham um papel importante. Posto isto, nos dois últimos discos trabalhámos com o Dave Fridmann e sentimos que estes álbuns soam «maiores» do que os anteriores. O Dave é um mestre a fazer as coisas soarem maiores. É uma combinação interessante: esparso, mas grande.

Curiosamente, quando pensamos no Dave Fridmann, pensamos em Mercury Rev ou Flaming Lips, bandas bem distantes do que ouvimos em Hot Thoughts
BD
– Ele sabe fazer muitas coisas. Eu associava o som do Dave Fridmann 
àquelas baterias muito espaçosas e distorcidas. Neste disco, ele não faz isso, de todo. É extremamente talentoso, e muito versátil.
Alex Fischel – Ele tem uma coisa fixe: não tenta pôr-te a soar ao que ele quer. Percebe o que tu és e amplia isso. Alguns produtores dizem: vais ficar na minha caixinha, porque estás a trabalhar comigo. Ele é mais: «isto é uma colaboração, o que é que eu posso acrescentar?».
JE – Ou seja, ele sabe que a banda é nossa, e não é dele. Não precisa de pôr o seu selo no nosso disco para ficar contente.

Quando dizem que passam muito tempo a trabalhar nas canções, referem-se também à atenção ao pormenor que sempre procuram?
JE
– Atenção ao pormenor, para nós, é eufemismo! (risos)
AF – Quando ouço um disco ou uma canção, o que me atrai sempre é um som único, que me faça pensar: «o que é isto?». Ou: «como é que isto foi feito? Nunca ouvi este som!». As minhas coisas favoritas nos discos são esses pequenos rebuçados para os ouvidos. Por isso, sinto que tentamos oferecer isso mesmo.
JE – Num concerto, tens a energia de toda a gente, tens música a voar na tua direção – é mais fácil manter a atenção das pessoas. Mas, em disco, tens dois ou três minutos para manter a pessoa, com os seus auscultadores, interessada. Uma das formas de o conseguir é continuar a mandar surpresas, como o Alex disse: incluir coisas em que, se calhar, só reparas à terceira ou quarta audição.

No que toca às letras, também há esse trabalho esmerado?
BD
– Às vezes, quando começamos a trabalhar numa canção, só temos um esboço das letras. À medida que avançamos é que vamos preenchendo – para mim, escrever as letras é sempre a parte mais complicada. Quase dou em maluco, mas tem de ser feito.

E tiradas como «coconut milk, coconut water, you still like to tell me they’re the same», de «First Caress», pretendem causar o mesmo efeito surpresa?
BD
– O Jim disse-me para não deitar fora essa frase. Muitas vezes, ele só me diz que gosta de uma determinada deixa quando eu a tiro da canção. (risos) Mas essas tiradas mantêm o disco interessante, fazem-te querer ouvi-lo durante mais tempo. Quem me dera poder inventar mais letras dessas – o Morrissey teria umas dez por canção, ele é um grande letrista. Eu, se inventar uma, já fico contente.

No tema-título, há uma referência a um bairro de Tóquio – de onde surgiu?
BD
– A minha namorada esteve em Shibuya e contou-me que um tipo a parou na rua para lhe dizer que tinha uns dentes muito lindos e brilhantes. Assim do nada! Tenho a certeza que se estava a atirar a ela, e tenho de lhe dar crédito por fazê-lo dessa forma. Ela contou-me essa história um dia antes de eu começar a trabalhar nas letras do Hot Thoughts, por isso lembrei-me [de a usar].

De Prince a Iggy Pop

É um dos vocalistas mais identificáveis da sua geração. Quem são os seus cantores favoritos, aqueles que mais o influenciaram?
BD
– É uma boa pergunta, nunca ninguém me pergunta isso! Um dos meus vocalistas favoritos de sempre é o John Lennon. Pode parecer chato, mas sinto que tem o grão e a alma. A voz dele traz-me verdade. Não me parece fajuta. Gosto bastante do Iggy Pop, Marvin Gaye, Prince, mas também gosto de vocalistas esquisitos. Gosto muito do Robert Smith, embora não pensemos nele como uma voz clássica de rock and roll – é uma voz pequenina e estranha, e levei algum tempo a gostar. Lembro-me de comprar o primeiro disco dos Cure e pensar: «que esquisito!». Mas agora adoro e ainda tem uma grande voz. E o Bowie talvez seja o melhor.

É verdade que ouviram muito David Bowie na preparação deste disco?
JE
– O Bowie e o Prince faleceram enquanto fazíamos o disco. Obviamente isso afetou-nos e deve dar para perceber [a sua presença] no álbum, pois andávamos a ouvi-los muito. Sentimo-nos afetados pela morte de alguém que nunca conhecemos pessoalmente, mas a quem nos sentíamos ligado, através do seu trabalho. Nunca tinha sentido isso antes.
AF – Quando o Bowie morreu, estava a fazer uma sesta, e quando acordo tinha quatro mensagens de quatro amigos próximos, a dizer: «meu, já soubeste?». E um deles diz: «o Bowie morreu». Nessa noite, juntei-me com uns amigos e pusemos uns discos dele a tocar. Ficámos toda a noite a ouvir. Parecia ser uma daquelas figuras imortais, fora deste mundo. Intocáveis.
JE – Estávamos a gravar quando soubemos do Prince, até metemos baixa.
AF – Também ouvimos muito Talking Heads. A «One Hundred Punches» é uma daquelas canções com coisinhas estranhas a acontecer, como falámos há pouco. O solo parece ser feito de coisas cortadas aos pedaços. Deixa-nos a pensar: mas de onde é que isto vem? É inspirador.

Sobre o vosso disco anterior, disseram que era bom para ouvir na estrada. E este?
AF
– Parece-me um álbum mais suado, mais físico. O último era mais de ambientes…
JE – Imagina que és um pugilista e estás a treinar para uma luta, que é dali a três dias. Estás a treinar e tens de ouvir alguma coisa que te deixe motivado, mas que te leve ao longo de várias emoções…

Britt, afirmou que alguém devia escrever um livro ou fazer um filme sobre o período que conduziu à eleição de Donald Trump. Seria uma obra de que natureza?
BD
– E quando disse isso pensei que não podia ficar pior do que estava, no dia da eleição e da tomada de posse. Mas piorou. Eu tive esperança de que quem ficou perturbado pelo fenómeno do Trump, como nós, estivesse a exagerar. Quando o Obama foi reeleito, muitas pessoas que adoram armas pensaram: «o Obama vai tirar-nos as armas!». E foram comprar mais armas, cheios de medo. E eu sempre achei: «ele não vos vai tirar as armas, isso na América nunca vai acontecer». Então pensei: «espero que estejamos a exagerar, como eles exageraram». Mas parece que não. A única coisa boa é que alguns republicanos têm-no criticado e dito: «estás a falar como um ditador». E neste momento a voz dos republicanos é a única que importa. Claro que os democratas também pensam assim, mas é mais relevante serem os senadores republicanos a criticá-lo. Tenho de aplaudi-los por isso. 

AF – Lembro-me de o ver anunciar que se ia candidatar. Andávamos em digressão e eu estava num lobby de um hotel. E pensei: «isto não pode durar mais de dois meses». Três meses mais tarde: «isto não dura mais três meses». Entretanto ele ganha a nomeação para o Partido Republicano e eu: «não é possível ele ganhar». E entretanto, foda-se. Na noite das eleições, fui a uma festa. Chegámos e dissemos: «vai ser ótimo!».
JE – No fim da noite já estava tudo a dar na heroína. (risos)

Antes do vosso terceiro disco, passaram por vários azares e estiveram quase a separar-se. O que vos motivou a continuar?
BD
– Talvez fôssemos pouco sensatos. Eu sabia que pelo menos o nome da banda estava manchado. Nenhuma editora ia querer tocar-lhe, porque tínhamos estado numa editora independente muito boa, e falhámos, e numa editora grande, e falhámos. Fomos dispensados de forma muito pública. Não fazia sentido continuar, mas tínhamos sempre mais um concerto marcado, ou uma canção em que estávamos a trabalhar e que podíamos apresentar nesse concerto. Acho que continuámos por não termos sido espertos. (risos) Naquela altura, tanto o nosso manager como o nosso advogado nos diziam: «deviam arranjar outro nome, começar outra banda, trabalhar com outras pessoas». Mas continuámos e, por sorte, resultou. Isso faz com que me sinta ainda mais felizardo.

Os Spoon atuam nos coliseus do Porto e de Lisboa em novembro.

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA BLITZ DE MAIO DE 2017