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Dave Matthews: “O público português exige que regressemos”

Estreou-se há uma década em Portugal e regressou este ano para dois espetáculos, completamente esgotados. Mário Rui Vieira falou com ele sobre a ligação forte com os fãs, os vinhos portugueses e outros planos de vida. Rita Carmo tirou-lhe os retratos.

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Quando, no início do ano passado, anunciou uma exigente digressão de celebração de 25 anos nos palcos, a Dave Matthews Band revelou também que 2017 seria ano de paragem. Os concertos prolongaram-se até setembro e antes que a devota legião de admiradores do coletivo liderado por Dave Matthews tivesse tempo para reagir em fúria, foi enviado um email para o clube da fãs no qual se anunciava uma tour do músico sul-africano (radicado nos Estados Unidos) com o guitarrista e colaborador de longa data Tim Reynolds. A dupla aterrou em Portugal no início deste ano, esgotando em duas noites consecutivas os Coliseus de Lisboa e Porto, e Matthews disponibilizou-se para falar com a BLITZ pouco antes de subir ao palco lisboeta. Demos início à entrevista com a pergunta que se impunha: qual a receita que usou para conquistar fãs tão dedicados? «Realmente, as pessoas são muito possessivas», começou por assumir Matthews, «mas é uma coisa que nos faz sentir muito sortudos. Claro que não está nas minhas mãos decidir a que tipo de audiência vou chegar quando faço alguma coisa, mas sinto que as coisas têm funcionado bem, siga eu que caminho seguir».

A sinceridade da resposta traz consigo alguma modéstia, mas a verdade é que a sorte terá pouco a ver com o sucesso da Dave Matthews Band: o coletivo começou a criar o seu caminho, a pulso, na estrada, no início dos anos 90. «Vivíamos numa carrinha e foi como se estivéssemos no serviço militar obrigatório», recorda o músico. «Bom… talvez não seja uma boa analogia porque não foi uma coisa violenta, mas se sobrevivemos dois ou três anos numa carrinha então conseguimos sobreviver a tudo», assinala.

O sucesso não lhes bateu à porta de um momento para o outro e não gozaram do apoio da indústria, inicialmente: «não conseguíamos um contrato discográfico, a nossa música não passava nas rádios… Fizemos a coisa ao contrário, de muitas formas. Conduzimos e tocámos em todo o lado nos Estados Unidos e a nossa audiência foi crescendo. Quando já tínhamos um público, deixámos de nos importar com o facto de não termos um contrato. Parámos de enviar cassetes e foi então que as editoras discográficas começaram a vir ter connosco».

Duas décadas e meia depois, o músico diz-se «grato» pela sua relação com a indústria discográfica, mas deixa bem claro que ela só existe «porque houve um público que disse “ei, por que não passam estes gajos na rádio?”. Sinto que lutámos e nos mantivemos fiéis a nós próprios. 25 anos depois, sentimo-nos um pouco mimados». E é aí que entra o sentido de missão que tem para com os fãs, «sinto-me obrigado a dar às pessoas algo por que elas não esperam, mais do que aquilo que pediram. E tento dar o meu melhor… Estou mais gordo e mais velho, mas ainda me esforço».

Uma das formas como tenta manter os admiradores interessados passa pelos alinhamentos dos espetáculos, que são sempre uma incógnita e vão tocando vários momentos da discografia da banda e da sua discografia a solo. «É um pouco egoísta da minha parte, também, porque não sei se conseguiria tocar sempre o mesmo alinhamento», assume. «Acho que dava em louco se só tocasse as novas canções ou o novo álbum com alguns êxitos pelo meio. Penso que a banda sente o mesmo, porque os nossos concertos têm muita improvisação e liberdade. Compreendo que se faça isso, mas parece-me demasiado bizarro… É quase como fazer uma peça de teatro: apesar de tentares levar sempre algo fresco para o palco, não deixa de ser todas as noites a mesma coisa», conclui.

Apesar de garantir que muita coisa mudou ao longo do quarto de século de vida da Dave Matthews Band, o músico garante que continua a sentir nervosismo quando sabe que tem espetáculos esgotados pela frente. «Não me sinto instantaneamente feliz quando ouço dizer que este concerto esgotou. Sinto “oh, agora não posso mesmo falhar”. Sinto uma pressão muito maior para corresponder às expectativas de uma audiência que quer tanto assistir a um concerto meu. É essa a minha natureza».

É neste momento da conversa que recuamos dez anos até ao primeiro concerto em território português, no então Pavilhão Atlântico, no Parque das Nações, que já assumiu ter sido importante na história da banda. Como evoluiu a relação com Portugal, desde então? «Começámos a vir cá frequentemente», começa por responder. «Há momentos na nossa carreira de que nos lembramos muito bem, que são especiais, e tanto esse concerto de 2007 como o que demos em 2015 foram dois deles. O público surpreendeu-nos muito, tomou as rédeas do espetáculo. Guardo bem isso na memória e fez-me ficar muito entusiasmado por voltar aqui novamente. De certa forma, é uma relação parecida com a que temos com o Brasil. Há um público que exige que regressemos».

Há dois anos, a digressão europeia que fez com a banda teve início em Lisboa; a que acabou agora de fazer com Tim Reynolds terminou no Porto. Não foi coincidência. «Ainda conseguimos divertir-nos depois do concerto de Lisboa em 2015, mas foi muito difícil superá-lo por ter sido tão eletrizante», explica, contando que, «desta vez, quando adicionámos o concerto no Porto, perguntei se podíamos terminar em Portugal em vez de começar em Portugal. Fizemos ao contrário de 2015: começámos no Reino Unido, fomos ao resto da Europa e terminamos aqui. Estou muito entusiasmado. Trouxe os meus filhos e a minha mulher e temos andado a conhecer a capital. O clima tem estado maravilhoso».

Pegando no facto de ter lançado, no ano passado, a sua marca de vinhos, a Dreaming Tree, aproveitámos para o questionar sobre os vinhos portugueses: «não conheço muito bem, mas fartei-me de beber nos últimos dias. Ontem fomos a um sítio com petiscos e bebemos vinho verde. Foi muito bom. Gosto destas coisas únicas portuguesas, mas deveria investigar mais. Gosto muito dos vinhos franceses, claro, mas esses estão em todo o lado, e na última década tem crescido mais em mim o gosto por vinhos espanhóis, italianos e portugueses. Há vinhos com mais corpo aqui, com um caráter único».

Um novo álbum e um presidente perigoso

Voltando ao facto de ter decidido dar um descanso à banda, este ano, questionamos Matthews sobre a eventualidade de ter um novo álbum à espreita. O mais recente longa-duração, Away from the World, data já de 2012… «Temos muita música», começa por revelar, «e uma das razões pelas quais quis que fizéssemos um intervalo foi o facto de não ser fácil trabalhar na estrada. Temos tanta coisa gravada que eu só queria ter a possibilidade de me debruçar sobre ela. É difícil concentrar-me se ando sempre em viagens e a tomar conta da minha família, portanto queria poder pegar naquilo que temos, e é muita música, para depois dizer: “aqui está um bom disco”. Quero juntar um grupo de canções que faça sentido, que seja coeso e componha um disco bonito. Ainda tento fazer álbuns bonitos. Essa ainda é a minha luta».

Tim Reynolds pode ser um companheiro de longa data, mas apesar de se darem muito bem sozinhos em palco (como o público lisboeta pôde comprovar ao longo das três horas de duração do concerto no Coliseu), Matthews assume sentir alguma falta do resto da banda. «Estamos juntos há tanto tempo… Brigamos como irmãos mas, tal como os irmãos, não conseguimos estar muito tempo longe uns dos outros», diz. «O Carter [Beauford, baterista] é como se fosse a espinha dorsal da minha música. Há uma explosividade que me é alheia, portanto sinto falta desse elemento caótico… Ainda está presente nos concertos que dou com o Tim, mas é diferente quando estamos todos. É como um cataclismo, há mais peças com as quais jogar, e é muito frenético, com muita espontaneidade e improvisação. Somos sete, o que faz com que a coisa seja mais musculada e violenta, apesar de também conseguirmos fazer coisas mais calmas. Sinto sempre falta de tocar com a banda, mas também senti que era importante para mim, depois de 25 anos a tocarmos juntos, respirar um pouco e olhar para a minha situação. Não quero que continuemos a fazer isto porque é suposto fazê-lo. Quero continuar a fazer música porque ainda é importante para mim e é uma coisa positiva. Não quero fazer isto pelas razões erradas, egoístas. Não quero fazer música só porque me dá dinheiro».

Já com o manager a apressar-nos a conversa, porque faltavam menos de duas horas para o início do concerto, conseguimos ainda questionar Matthews, apoiante assumido de Bernie Sanders durante o processo eleitoral para a presidência norte-americana, sobre Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos. «Tenho mais medo dele do que de qualquer outra pessoa no planeta», disse prontamente, «porque não sei quais as crenças dele nem o que quer fazer. É catastrófico. Mas não culpo apenas o partido republicano, culpo os democratas também porque Hillary Clinton era uma candidata débil. O Bernie Sanders era, de forma gritante, a escolha certa e teria ganho certamente. Sei que agora toda a gente diz isso, mas não quero saber: é a verdade». O sul-africano, que vive nos Estados Unidos desde criança, defende que Trump «é o homem mais perigoso do mundo» e verbaliza ainda a sua insatisfação com a conjuntura global, neste momento: «temos caminhado na direção da separação, mas a sabedoria que prevalece é a que diz que deveríamos aproximar-nos. Portanto, sempre que alguém como o Putin, o Trump, a Le Pen ou o Zuma, na África do Sul, usam argumentos nacionalistas para justificar esta separação, rejeitar pessoas, dizer que “elas” são o problema e “nós” a solução… Tudo isso faz com que caminhemos para um mundo mais perigoso. Esquecemo-nos rapidamente do quão fácil é escorregarmos para o caos da guerra. Não é preciso muito. Já estamos à beira disso e tenho medo».

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA BLITZ DE MAIO DE 2017