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Layne Staley: a história de mais um dos mártires de Seattle

Na BLITZ de julho, recordámos o trajeto de Chris Cornell, mas também de Kurt Cobain, Scott Weiland ou Layne Staley, dos Alice in Chain

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Dez anos após a morte de Layne Staley, a The Atlantic publicou um artigo sobre o seu legado. Em vez de se concentrar nos problemas com que se debateu durante a vida, o autor preferiu destacar o maior trunfo do cantor, que era também guitarrista e compositor: a voz. «A cena de Seattle produziu quatro grandes vozes, mas a mais distinta era a de Staley», defende David de Sola. «Cobain, dos Nirvana, tinha um entendimento profundo das dinâmicas musicais e conseguia gritar e cantar uma melodia. Chris Cornell, dos Soundgarden, uivava e atingia os agudos, quedando-se no território de Robert Plant ou Freddie Mercury. Eddie Vedder, dos Pearl Jam, combinava um barítono à Jim Morrison com influências punk e rock. Mas Staley só soava a ele próprio. A capacidade de projetar força e vulnerabilidade, bem como as harmonias que criava com Jerry Cantrell, criaram um estilo que seria copiado anos depois de os Alice in Chains se tornarem conhecidos».

É refrescante ler sobre Layne Staley, o músico, uma vez que boa parte da literatura produzida sobre o norte-americano se debruça sobre a forma como a depressão as drogas conduziram à sua morte precoce.

O enfoque não é, porém, de espantar, uma vez que, mesmo no auge do seu percurso com os Alice in Chains, a dependência de estupefacientes comprometia seriamente a carreira da banda. Depois de, logo ao primeiro álbum, Facelift (1990), venderem dois milhões de discos só nos Estados Unidos, com Dirt, lançado dois anos depois, o grupo de Seattle chegou à quádrupla platina. À época, Staley, fruto de um lar destroçado cujos efeitos ter-se-ão feito sentir durante toda a sua vida adulta, ainda conseguiu salvar Mike Starr, baixista da banda, de morrer de overdose. Anos mais tarde, Starr tentaria retribuir o gesto, sem sucesso.

Terá sido em 1994, ano em que os Alice in Chains chegaram ao número 1 do top americano com o EP Jar of Flies, que o estado de saúde do cantor se tornou suficientemente grave para cancelar quaisquer planos de digressão. No álbum que se sucedeu Alice in Chains, de 1995, Staley voltou a obrigar ao cancelamento de várias datas, situação que Jerry Cantrell comentava com a serenidade possível. «É muito frustrante, mas tem de ser. Estamos juntos nas alturas boas e nas más. Nunca apunhalámos ninguém pelas costas, como se vê muito por aí».

A partir de 1996, contudo, a voz de «Rooster» entrou num exílio autoinfligido do qual nunca chegaria a sair. Krist Novoselic, provavelmente traumatizado pela morte de Kurt Cobain, levava-lhe comida a casa; Mark Lanegan, Sean Kinney e Mike Inez (ambos seus parceiros nos Alice in Chains) telefonavam e batiam à porta, sem sucesso.

Mike Starr esteve com o amigo na véspera da sua morte, recriminando-se até ao fim da vida (faleceu em 2011) por não ter ligado para o número de emergência, ao aperceber-se da deterioração do seu estado. A última foto de Layne, diz a família, data de 14 de fevereiro de 2002 e mostra-o com Oscar, seu sobrinho, ao colo. Morreria menos de dois meses depois.

Nascido a 22 de agosto de 1967, em Seattle, o autor de «Man in the Box» viu os pais divorciarem-se quando tinha 7 anos e reconhecia que os seus tormentos advinham, em parte, desse historial (o pai era, também, viciado). Fã de Black Sabbath, Deep Purple e Judas Priest, foi ingressando em várias bandas, primeiro como baterista, mais tarde como guitarrista, louvando-lhe os companheiros a precoce star quality. Viria a conhecer Jerry Cantrell, com quem formou os Alice in Chains, quando trabalharam no mesmo estúdio, onde viveram um ano. O tempo que passou com a banda, na qual foi ganhando protagonismo como autor de canções, é relativamente curto, praticamente igualando o exílio de trágico desfecho.

Algumas fontes garantem que tentou curar-se 13 vezes, mas os seus esforços foram tão inglórios como as tentativas de amigos como John Frusciante. No livro Running With Monsters, Nancy McCallum, mãe de Layne, é citada: «[O meu filho] tem um sentido de humor estranho. Eu disse-lhe que o John já tinha tido gangrena. E ele: "no braço? Que horror, mãe. Ele é guitarrista, precisa do braço. Eu sou só cantor, passo bem sem ele".

Sei que estava a brincar, mas não gosto de ouvir. Podem trazê-lo de volta?». Frusciante e um amigo, Bob Forrest, tentaram, mas Staley estava «muito longe». Seria descoberto em casa a 19 de abril de 2002, depois de os contabilistas estranharem a ausência de movimentos na conta. Terá morrido duas semanas antes, a 5 de abril oito anos depois de outra lenda da região, Kurt Cobain. Tinha 34 anos e menos de 40 quilos.

Artigo publicado originalmente na BLITZ nº 132, de julho de 2017