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João Carvalho, diretor do festival Vodafone Paredes de Coura

Rita Carmo

João Carvalho, diretor do Vodafone Paredes de Coura: “Conheço pessoas que começaram a namorar por causa das pulseiras do festival”

O Vodafone Paredes de Coura começa na próxima quarta-feira no Alto Minho. Numa longa entrevista à BLITZ, o diretor do festival explica porque é que este é o seu “pequeno milagre” e garante que o evento “já cresceu o suficiente”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Prestes a começar, a 25ª edição do Vodafone Paredes de Coura levará, entre 16 e 19 de agosto, artistas como At the Drive-In, Benjamin Clementine, Beach House, Manel Cruz ou Mão Morta ao Alto Minho. Falámos com João Carvalho, diretor do festival, sobre a edição deste ano mas também sobre o rico historial de um evento que começou como uma brincadeira de amigos, em 1993, e sobre os seus planos para o futuro.

Que novidades podem os festivaleiros encontrar no recinto, este ano?
As obras começaram em outubro do ano passado, com a colocação de um novo tapete de relva e a instalação de um sistema de rega. Está a ficar bonito, embora eu ache que só ficará em ponto de rebuçado na próxima edição. Desde que comecei o festival que tenho um desejo: ter aquela relva imaculada, sem qualquer tipo de irregularidade. Este ano foi preciso abrir a rede de esgotos, foi preciso levar água potável a todo o campismo, portanto tivemos de rasgar a terra para a tubagem passar. Ainda não concretizei o sonho de poder dizer: está tudo perfeito, desta vez ninguém mexeu em terras. No campismo, estamos a criar uma nova zona de higiene, com novos chuveiros. Vamos ter o dobro ou o triplo dos lava-loiças, o triplo das casas-de-banho, e todas vão estar ligadas à rede de esgotos. Finalmente conseguimos fazer esta obra, que é um investimento muito grande. Mas agora devemos ser um dos únicos festivais do mundo onde se pode ir à casa-de-banho como se se estivesse em casa, com autoclismo - isto em todo o campismo. Há também uma zona de alimentação nova e mais zonas de descanso - o objetivo este ano é que quem entre no festival respire imediatamente natureza, que leve com a natureza na cara. Há árvores seculares bonitas que, na outra estrutura, não estavam à vista; tirámos a zona de imprensa do sítio onde estava e há um patrocinador que vai continuar no recinto, mas de outra forma, para que aquela zona seja de descanso e possamos contemplar melhor a natureza.

A zona de campismo terá mais lava-loiças

A zona de campismo terá mais lava-loiças

Rita Carmo

Quantas pessoas esperam receber no campismo?
A média tem sido de 15 mil pessoas. Este ano, as vendas estão acima de qualquer outro ano. Estamos com vendas históricas, sem compararmos com qualquer dos outros 24 anos. Tudo indica que o festival vá esgotar [a 10 de agosto, foi anunciado que os passes gerais haviam esgotado. Ainda há bilhetes diários à venda].

Quanto à zona de restauração, concluíram que era demasiado pequena para o número de espectadores que têm recebido?
A zona nem vai ser aumentada, vai ser essencialmente melhorada. Terá outras condições e mais zonas de descanso. O espaço onde tem estado até agora não era muito convidativo. Vamos também melhorar a zona de alimentação na zona do campismo, a chamada "Feira de Paredes" vai para o local onde estavam as casas-de-banho, o que permite aumentar, também, a zona de campismo. As casas-de-banho passam para a zona de cima, onde ficará tudo o que tem a ver com higiene: chuveiros, lava-loiças...

Mais uma vez contam com o patrocínio da Vodafone, enquanto naming sponsor. A parceria é revista anualmente?
Da última vez fechámos [acordo] por três anos. O contentamento é tão grande, tanto da parte deles como da nossa, que o contrato que foi assinado no ano passado dura três anos. E eu acho que já não vamos mudar de patrocinador. O festival cresceu imenso com a Vodafone, eles cresceram connosco... é provavelmente o evento, na música, que maior retorno lhes traz. E para nós foi muito bom aparecer um patrocinador que ficasse muitos anos, porque nos dá estabilidade [e permite] fazer mudanças de infraestruturas, programá-las a dois e três anos, e também ter um cartaz melhor.

Foi complicado para a marca marcar a sua presença no recinto, sem que isso causasse desequilíbrios visuais?
Para isso estamos lá nós! (risos) Hoje, a Vodafone entende que esta é a melhor maneira de comunicar, mas o primeiro ano foi complicado, como todas as relações no início. Explicámos-lhes que o festival era diferente, que a comunicação e as ativações de marca tinham de ser feitas de forma subtil. Fomos sempre mudando de patrocinador e, agora que tínhamos um naming sponsor, ele tinha de entrar no festival de forma que o nosso público entendesse. Porque temos um público exigente. Na primeira reunião que tive com a Vodafone, disse-lhes: para conquistar alguém, não vamos gritar-lhes ao ouvido. Vamos dizer coisas bonitas, com uma voz sedutora. E essa é a forma que Paredes de Coura tem de comunicar. As marcas gostam de estar nos festivais de forma agressiva, folclórica e até intrusiva. E, tanto no Primavera Sound como no Paredes de Coura, nós temos explicado aos patrocinadores que podem ter mais retorno agradando às pessoas e tornando o festival um local melhor para se estar. E a verdade é que criámos um novo paradigma para as pessoas estarem nos festivais. Sinto que, nos nossos festivais, as marcas estão presentes de forma mais subtil. Todos os brindes que oferecemos são bens de que as pessoas precisam, que valorizam. Não permito que haja distribuição de brindes em Paredes de Coura se não for uma mais-valia para quem lá está - não podem ser uns óculos gigantes ou uma cabeleira às cores, porque as pessoas não precisam disso. Precisam de lanternas, toalhas de praia, baloiços para relaxarem, camas de praias, barcos...

Seasick Steve, numa Vodafone Music Session em 2014

Seasick Steve, numa Vodafone Music Session em 2014

Rita Carmo

As Vodafone Music Sessions, concertos-surpresa em locais fora do recinto, integram-se nesse tipo de presença subtil e original do naming sponsor?
Sim, quem vai a uma Music Session leva para casa uma experiência diferente proporcionada pelo patrocinador. Isso vale mais do que uma cabeleira ou uma pulseira reluzente para pôr ao pescoço. E é para continuar. São momentos desses que fazem de Paredes de Coura aquilo que é: um festival de relações, de afetos. Porque as pessoas levam de lá momentos que perduram na memória.

O crescente número de festivais em Portugal complica a construção de um cartaz forte para Paredes de Coura?
Eu não acho que haja muitos festivais em Portugal. É como dizer que há muitas equipas de futebol. Claro que há: a regional, a terceira divisão, a segunda e a primeira. Sem qualquer desprimor para os outros, mas grandes festivais em Portugal há uns sete ou oito. Talvez dez. Não é nada de transcendente. As pessoas gostam de dizer que há cento e tal festivais - claro que há, mas alguns são pequeninos e querem crescer, e têm o seu tempo de crescimento. Paredes de Coura demorou anos a crescer e a consolidar-se. A nossa maior dificuldade não é essa - é fazer Paredes de Coura sem qualquer tipo de festival ao lado. Qualquer festival em Portugal tem ao lado, em Espanha ou França, outros festivais com os quais pode trocar artistas. Chamo a Paredes de Coura o nosso pequeno grande milagre, porque fazemos o festival num sítio inusitado e tornámo-lo um dos melhores do país; numa terra pequenina, construímos algo que é maior que nós. Hoje, temos a responsabilidade de alimentar um evento que tem a consideração de tanta gente. Se me perguntares qual é a maior dificuldade ou a minha principal prioridade, é manter um cartaz apelativo em termos culturais e ter melhores infraestruturas. O festival não quer crescer, já cresceu o suficiente. Em termos de contratação, como não há nenhum festival no fim de semana de Paredes de Coura, é-nos mais difícil contratar. Os meus concorrentes estão no outro lado da Europa. São o Sziget, o Lowlands, o Pukkelpop, o Frequency, o Oya, o Green Man Festival... Para as bandas, é muito fácil planear uma tournée estando a tocar na Bélgica, depois Holanda e Alemanha. Numa hora, vai-se de um país para o outro. Pegar num avião e vir tocar ao outro lado da Europa, fazendo uma só data e prejudicando três ou quatro que podiam fazer noutro festival, é complicado. Isto numa altura em que as bandas precisam é de fazer dinheiro com os concertos, porque já não se vende discos. Mas temos conseguido, e também por isso é que digo que este é o nosso pequeno milagre. Este ano, conseguimos um cartaz genial, com essas dificuldades. Num festival que é uma ilha. Quem me dera ter um festival em Espanha [na mesma altura], era a melhor coisa que nos podia acontecer. E mesmo assim conseguimos trazer bandas como War on Drugs, que [em 2015] vieram fazer uma data única na Europa, tal como este ano os Lightning Bolt ou os At the Drive-In, que vêm fazer [oito datas] na Europa e escolheram Paredes de Coura. Isto porque ganhámos muito nome. Ganhámos fama de sermos um festival com um público diferente, caloroso, onde as bandas se divertem e são bem tratadas.

Quando diz que, para construir o cartaz, tem de ser «criativo», é a esses pontos fortes que se refere?
Sim. Eu não me limito a tratar com os bookers, com os agentes - faço a minha pesquisa e, quando vou falar com eles, já levo o trabalhinho feito. Tento jogar na antecipação. Já temos duas bandas quase fechadas para 2018. Nunca trabalhei tão cedo como este ano! Geralmente começamos a trabalhar em novembro; no ano passado, começámos em setembro. Em outubro já tinha os Foals fechados para sábado - precisava de uma banda firme para sábado, precisamente por causa dessa concorrência desenfreada.

“Ganhámos fama de termos um público caloroso”, diz João Carvalho

“Ganhámos fama de termos um público caloroso”, diz João Carvalho

Rita Carmo

Quando organizou a primeira edição de Paredes de Coura, com os seus amigos, que idade tinha?
Em 1993 tinha 20 anos.

E nunca pensou que, em 2017, estivesse aqui a dar esta entrevista, sobre as "bodas de prata" do festival?
Claro que não! Aquilo foi uma brincadeira de miúdos. Chamar-lhe festival é exagerado, só queríamos passar um bom bocado. Pensámos que não teria consequências, mas acabou por ser esse primeiro ano a entusiasmar-nos para o segundo, do segundo para o terceiro, do terceiro para a internacionalização, e fomos sempre ganhando motivos para nos sentirmos entusiasmados. Nas primeiras edições fazíamos rigorosamente tudo. Na semana passada, o [sócio] Filipe [Lopes] ligou-me a dizer: tenho uma surpresa para ti, anda já cá abaixo! Pensei que me tinha comprado umas sapatilhas que eu queria, mas que não encontrava no meu tamanho. Não: era o cartaz do primeiro ano. Ele foi à casa da mãe e encontrou dois, um para mim e outro para ele. Na altura não havia mupis e nós não tínhamos forma de fazer cartazes grandes, pelo que fizemos dois mais pequenos e colámos. Com o passar do tempo, descolaram-se. O Filipe queria colar e eu: não, eu quero isto assim. Quero emoldurar, porque a magia está aqui. De repente começámos a recordar o primeiro ano e reparámos que o "22 horas" foi colado a posteriori, porque nos tínhamos esquecido de pôr a hora e fomos para casa fazer fotocópias e colámos [o "22 horas"] nos cartazes, um a um.

Uma de muitas histórias associadas ao festival...
Lembro-me de fazer a cola com aquela farinha que se mistura com água, de irmos no carro emprestado por alguém, com o qual devíamos ter muito cuidado, e lá se virou a cola e deu cabo do carro... Outro dia alguém me perguntou, numa palestra, porque é que as pulseiras têm tanta magia. Eu acho que a pulseira é um símbolo de amizade. Conheço 500 pessoas que se conheceram porque viram as pulseiras no pulso umas das outras e assim começaram a falar. Conheço pessoas que começaram a namorar assim: «foste a Paredes de Coura?». E é por isso que [os festivaleiros] guardam as pulseiras: é uma joia de valor para muita gente. Em Portugal, fomos os primeiros a fazer pulseiras de tecido, porque tínhamos ido a Roskilde, na Dinamarca, e trouxemos a ideia de lá. Cá, procurámos uma empresa têxtil, mas depois era preciso fazer a argola... Pedimos a um serralheiro da terra, que inventou uma argola, uns tubos cortados aos pedacinhos, com uma serra, mas ficava muito [cortante], e então tivemos de lixar mais de 20 mil peças, para que a argola não cortasse os pulsos das pessoas.

Em que ano foi isso?
Em 2003 ou 2004. Mas também havia que fechar as argolas. Os alicates normais não davam, então um senhor que é serralheiro inventou uma máquina, que devia estar num museu, e que funcionava com um pedal e à pressão. As pessoas punham o bracinho no pedal da máquina, carregavam no pedal, ouvia-se um barulho e aquilo ficava [fechado]. Quando a máquina avariou, tivemos de voltar aos alicates. Entretanto o mercado evoluiu, descobrimos uma empresa na Áustria e começámos a fazer as pulseiras lá, com este fecho que hoje é conhecido. Mas as pulseiras são assim tão importantes? São! Não imaginas as histórias de amor e cumplicidade que aconteceram por causa delas. Dá para escrever um livro. E a quantidade de pessoas que, por serem juízes ou cirurgiões ou por trabalharem numa cozinha, me dizem que tiveram de cortar a pulseira e me perguntam se lhes posso arranjar outra. Há muita gente que as guarda e que as usa. Eu próprio estou sempre a olhar para o pulso das pessoas e faço questão de escolher a cor das pulseiras. Tem de ser uma que se veja logo!

José Barreiro e João Carvalho, da Ritmos (empresa que organiza o festival de Paredes de Coura), com João Pedro Almeira e Jorge Coelho, da banda Cosmic City Blues, na edição inaugural do festival, em 1993 (esq-dta)

José Barreiro e João Carvalho, da Ritmos (empresa que organiza o festival de Paredes de Coura), com João Pedro Almeira e Jorge Coelho, da banda Cosmic City Blues, na edição inaugural do festival, em 1993 (esq-dta)

DR

Em 1993 eram um pequeno grupo de amigos. Hoje, quantas pessoas trabalham no festival?
Os sócios [da Ritmos] sou eu, o José Barreiro, o Filipe [Lopes] e o José Eduardo Martins, embora este não de forma permanente, por ter outra vida além da música. Depois temos uma equipa de 14 pessoas em permanência no escritório do Porto. No escritório de Paredes de Coura estão duas pessoas e, na altura do festival, chegam a trabalhar [no recinto] 1500 pessoas.

Que nomes ainda sonha trazer a Paredes de Coura?
O nome que sempre desejei trazer foi Nick Cave. Quando o trouxe em 2005 fiquei todo contente e gostava de voltar a trazê-lo. Acho que vai ser possível - se não for no próximo ano, daqui a dois ou três. O mesmo com os Queens of the Stone Age, acho que já mereciam voltar a Paredes de Coura. Houve uma altura em que queria trazer os Radiohead - hoje, honestamente, não trazia, já vieram cá [a Portugal] demasiadas vezes... Não é por estarem massificados, mas acho que não faz sentido cair na repetição. Há uma banda de que gosto muito e que nunca consegui trazer, que são os Lambchop. Uma banda pequenita, baratinha, que adoro e acho que ficava ali muito bem. Aqui não é uma questão orçamental, porque são uma banda de salas pequenas, mas nunca os apanhei em digressão. Mas acho que temos conseguido trazer o que mais gostámos. Vi o Benjamin Clementine no ano passado, num outro festival, e fiquei logo com uma vontade enorme de o ver em Paredes de Coura. Os Beach House são uma daquelas bandas que já vi cinco ou seis vezes, mas nem sempre no cenário ideal, que é o anfiteatro natural de Paredes de Coura. Também gostava de trazer a Sharon Van Etten.

Há sempre muitos espectadores do norte de Espanha em Paredes de Coura. Tem números relativos ao público estrangeiro?
Do norte de Espanha e não só. De Madrid, Barcelona, Valência... Este ano estamos com muito boas vendas em Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália... Bélgica é um dos países onde mais se vende, acho que ainda vem do tempo dos dEUS. Quando eles tocaram cá, muitos belgas vieram vê-los e essa informação foi passando de boca em boca. Este ano, estamos com 30% de vendas para o estrangeiro e, desses 30%, 18% são de Espanha.

Rita Carmo

Numa altura em que a segurança está na ordem do dia, haverá um reforço da mesma no recinto?
Isso é melindroso. Aqui há uns anos ligaram-me para fazer uma reportagem sobre os selfie sticks e eu disse que não ia falar, por achar que era um disparate. Houve um festival em Portugal que proibiu os selfie sticks - ora, eu nunca vi um selfie stick em Paredes de Coura... Quem proibiu argumentou que podem ser usados como objetos de violência, e eu penso: num festival com árvores seculares, qualquer pessoa com uma galha faz um "selfie stick"... Os festivais são eventos muito mediáticos. Tens o Santo António, o São João, feiras gastronómicas que levam tanta gente como os festivais. Mas são sempre os [responsáveis dos] festivais que a imprensa questiona sobre a segurança. Os festivais são dos eventos mais seguros que temos neste país. Eu tenho muitas dezenas, para não dizer centenas, de seguranças, tenho polícia à civil e fardada na área do campismo e no recinto, há PJ no festival, também à civil, há bombeiros a fazer a prevenção no recinto... No entanto, como há esta «febre», decidi ligar ao comandante distrital e perguntar: será melhor fazermos um plano de segurança em conjunto? Se ele disser que é melhor reforçar, eu reforço. Paredes de Coura tem 25 anos e nunca houve uma quezília, não há um historial de violência. Mas sei que o mundo é um lugar cada vez mais perigoso e as coisas podem acontecer em qualquer lado, e obviamente que toda a gente que entra no recinto é revistada.

Costumam perguntar-lhe onde ficar a dormir, em Paredes de Coura? A oferta de alojamento na vila é muito escassa...
Com as redes sociais, não há dia em que não receba uma mensagem a perguntar: não me arranja uma casinha para alugar? Neste momento, já são centenas as casas alugadas em Paredes de Coura. Qualquer aldeia tem dezenas. Por emigrantes, mas também há pessoas que já saem da sua própria casa, num espírito empreendedor mas também de grande simpatia, para cederem as casas a quem nos visita. Eu conheço pelo menos umas duas mil pessoas que nunca foram a Coura por não terem onde dormir. Se houvesse mais cinco mil camas, teríamos mais cinco ou dez mil pessoas [no festival]. E é um problema, realmente. Por isso apostamos muito nas condições do campismo, que é cada vez maior, com melhores condições. Já temos tendas com chuveiros e casas-de-banho privadas, muito perto das condições de um hotel. Apelo às pessoas que acampem em Paredes de Coura, porque é diferente. Na semana passada, veio um rapaz agradecer-me: vai ao festival há oito anos e, no primeiro ano, foi porque estava apaixonado por uma miúda e decidiu ir lá vê-la. Ela não gostava dele, mas ele tinha o coração a saltitar e foi lá ver se a via. E viu, mas com outro rapaz, por isso resolveu beber uns copos para esquecer. Como não tinha levado carro - foi um amigo que o foi lá levar e ficou de ir buscar -, acabou por ficar os quatro dias. Comeu sempre, bebeu, teve tenda, dormiu e diz que não gastou um euro. Isso é uma coisa que eu admiro em Paredes de Coura: a simpatia.

“Apelo às pessoas que acampem em Paredes de Coura, é diferente”

“Apelo às pessoas que acampem em Paredes de Coura, é diferente”

Rita Carmo

Este ano, há algum concerto em particular que gostasse de recomendar?
Acho que não há muita gente a conhecer os Lightning Bolt, que dão um concerto poderosíssimo, tal como os HO99O9 - tenho a certeza que estarão entre os momentos mais marcantes do festival. Numa linha completamente diferente, o Andy Shauf - um artista que eu adoro e cujo disco [The Party] já ouvi umas 50 vezes - ou os Timber Timbre, pela primeira vez em Portugal. E os clássicos. O Benjamin Clementine dispensa apresentações: quem é que gosta de música e não quer vê-lo naquele anfiteatro? Eu estou desejosíssimo que chegue esse momento. Quem é que gosta de música e não quer ver os Beach House, os At the Drive-In ou os divertidíssimos Future Islands? Depois ainda há King Krule, Car Seat Headrest... o festival este ano está muito bom, vai ser uma daquelas edições com mais concertos para perdurar na memória.

E qual foi o momento de maior aperto na história do festival?
Aperto foi em 2004. Aperto e coragem. Porque, num ano em que choveu como não chovia há 99 anos - era essa a manchete do jornal Público no dia a seguir ao festival, curiosamente um dia de sol esplendoroso -, depois de quatro dias a chover sem parar, o palco 2 desabou... Havia gente em boxers e lingerie, porque não tinha mais nada que vestir e, como tudo se molhava, resolveram assumir e divertir-se assim. O dono do palco principal achava que ele ia desabar, porque a cobertura do palco 2 já tinha desabado e a chuva era tanta... Eu não escondo a minha história. Não escondo a chuva, não escondo os fracassos de bilheteira, tal como não escondo as vitórias. Porque o festival Paredes de Coura é isso: foi esse conjunto de experiências que o fortaleceu e que lhe deu a alma que ele tem hoje. As pessoas também viram em nós promotores honestos que, mesmo perante as dificuldades e o prejuízo de 2004, ainda fomos aumentá-lo comprando capas de chuva, criando alternativas para os campistas, alugando carros... e as pessoas lembram-se disso. Por isso é que lhe chamam o festival do amor, o festival das relações e dos afetos. É também pelo que fomos construindo ao longo dos tempos. Se olhar para trás, acho que esse é o nosso maior feito. O nosso melhor tesouro é fazermos um festival desta dimensão mas com esta sensibilidade e cumplicidade entre as pessoas.

Em 2004, ponderaram acabar com o festival?
Nesse ano, fomos para casa tristíssimos, porque o prejuízo foi brutal. Ponderámos acabar com o festival, mas [essa ideia] só durou uma semana. Na semana a seguir dissemos: vamos fazer o melhor festival de sempre! E como é que pagamos? Se rebentarmos, rebentamos em grande. Podíamos estar na construção civil na Suíça, agora, a pagar o festival, mas correu bem. Essa edição de 2005 [com Nick Cave, Pixies, Foo Fighters e os então novatos Arcade Fire e The National] foi histórica. Mas é preciso ter uma grande dose de loucura para, no final de uma edição que deu tanto prejuízo, fazermos uma ainda mais dispendiosa. Se isto não é jogar na roleta russa, não sei o que é. O ano mais importante do festival é esse, e também o de 1999 [com Suede, Lamb, Guano Apes, dEUS], quando conseguimos a primeira grande enchente e aprendemos a ser empresários. O festival correu muito bem e distribuímos parte do lucro pela comunidade; em 2000 precisávamos desse dinheiro, porque tivemos um grande prejuízo, e já o tínhamos gasto. E o ano de 1993, quando tudo começou. Um festival que se fez em dez dias. E o de 2015, porque finalmente, passados 23 anos, conseguimos esgotar um festival. Eu não gosto desse campeonato de quem esgota mais cedo, mas a verdade é que dá um conforto grande. Há anos em que fazes o caminho das pedras e sofres dificuldades orçamentais; quando chegas ao início do festival com tudo vendido, isso traz um conforto emocional e financeiro grande para fazeres a próxima edição. Este ano também é muito importante, por estarmos a falar de uma edição marcante, com grandes concertos e um festival organizado como nunca esteve, em termos de infraestruturas.

Os passes gerais já estão esgotados, mas ainda há bilhetes diários

Os passes gerais já estão esgotados, mas ainda há bilhetes diários

Rita Carmo