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Carlos do Carmo reinventa-se no Sol da Caparica: “É uma estreia absoluta nestes anos todos que tenho vindo a fazer música”

Quando nada o fazia prever, Carlos do Carmo pegou em duas das músicas mais importantes do seu repertório e deu-lhes uma nova roupagem

Manuel Rodrigues (texto) e Dário Cruz (fotos)

Os primeiros minutos do concerto de Carlos do Carmo, no festival O Sol da Caparica, decorrem como seriam de esperar: em palco, de smoking preto, com a calma que lhe conhecemos e uma postura que deveria integrar os manuais de “como ser um senhor com «S» grande”, o fadista vai dando voz a fados como “Os Putos”, a primeira de todas a ser interpretada, provando que trunfos não faltam na sua recheada algibeira, “Júlia Florista” e “Duas Lágrimas de Orvalho”. Sempre que pode, Carlos do Carmo dirige-se ao público presente, com alguns desabafos de índole pessoal. “Sabe bem estar aqui na Caparica, porque é a praia da minha infância”, partilha a dada altura do espetáculo. A acompanhar as letras das suas músicas é possível encontrar uma formação tradicional dividida entre guitarra portuguesa, viola e viola baixo; todavia, há um teclado e uma bateria abandonadas em palco desde o início do espetáculo que não deixam de estimular a nossa curiosidade.

Tudo certo até aqui e dentro da normalidade, da interpretação em palco aos acompanhamentos na plateia. Porém, algures a meio da atuação, Carlos do Carmo desabafa com o público que tem algo inédito para testar neste dia, neste espaço. “É uma estreia absoluta nestes anos todos que tenho vindo a fazer música”, confessa, algo nervoso, acrescentando: “agora é que é o fim da macacada”. Nisto, chama ao palco um baterista, um baixista e um teclista, que assumem prontamente as suas posições e se atiram a “Canoas do Tejo”. O resultado não podia ser mais surpreendente. Aquilo que até há muito pouco soara a fado tradicional, próprio de uma qualquer tasca de Alfama ou Mouraria, soa agora a uma remistura saída do computador de um produtor de eletrónica minimal, sobre a qual Carlos do Carmo canta como se nada fosse. “Lisboa Menina e Moça”, um dos temas mais belos do repertório do fadista, segue-lhe as pegadas: guitarras embebidas em teclas salientes, acompanhadas por uma tarola que parece ter sido retirada de uma Roland tr-808. Por mais incrível que possa parecer, tudo faz sentido.

Em junho deste ano, o humorista Ricardo Araújo Pereira reimaginou a letra de “Lisboa Menina e Moça” para um artigo que publicou na revista Visão. Mal sabia ele que seria o próprio Carlos do Carmo a reinventar o seu próprio clássico, tudo isto para se adaptar a um festival. Como não aplaudir?