Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Eddie Vedder

Getty Images

Eddie Vedder, o sobrevivente. Como ele lidou com as agruras do rock and roll

Esteve na explosão do grunge, mas escapou à sua implosão. Aos 52 anos, Eddie Vedder é senador e porta voz do rock dos anos 90. Aprendeu a sê-lo

Filipe Garcia

Sentado num restaurante de Seattle, a notícia aterrou como uma bomba. Do outro lado do mundo, para lá do Atlântico, em véspera de um concerto em Roma, Kurt Cobain tinha entrado em coma. Imediatamente, Eddie Vedder correu para casa e agarrou-se ao telefone à espera de novidades. «Não percebi logo que tinha sido tentativa de suicídio. Comecei às voltas em casa, a chorar e a pedir, “por favor, não vás. Por favor, não vás”. Só pensava: “se ele morre estou lixado”, contou a voz dos Pearl Jam ao Melody Maker. Cobain sobreviveu, mas por pouco tempo. Dois meses depois, cancelada a digressão europeia, sozinho em casa, escondido do mundo e dos amigos que tentavam levá-lo à desintoxicação, suicidou-se a tiro de caçadeira. Três dias depois, a 8 de abril de 1994, a descoberta do corpo marcaria a morte do grunge. Ao Melody Maker, Vedder desabafava: «toda a gente diz que a morte dele era inevitável. Se era para ele, também o será para mim. Não sei se consigo continuar a fazer isto. A morte do Kurt mudou tudo».

Eddie Vedder nunca quis ser estrela. Ou, pelo menos, a postura foi sempre a da estrela de rock contrariada, grato pelo palco, pela atenção à música, mas sempre pouco dado aos rituais de promoção. Demasiado afinado para o grunge, demasiado desgrenhado para o mainstream, recusava entrevistas e, em plena dinastia da MTV, qualquer vídeo. Não queria promoção, não queria o lugar que Cobain deixara vago, muito menos a responsabilidade. Afinal, disse-o à Rolling Stone logo em 1992, aquela teria de ser uma geração «muito marada» para o escolher a ele ou a Kurt como porta-voz. O homem que herdou o lugar nos Pearl Jam de Andrew Wood (vítima de overdose aos 24 anos) foi perdendo os seus pares, paulatinamente. Em pouco mais de vinte anos, o grunge apresentou-se, tomou o mundo de assalto e retirou-se com violência. Vedder é, cada vez mais, o último dos originais.

Eddie Vedder em 2002, na apresentação dos Ramones no Rock and Roll Hall of Fame

Eddie Vedder em 2002, na apresentação dos Ramones no Rock and Roll Hall of Fame

Getty Images

O som era pesado, sujo, acompanhado de uma postura displicente, nos antípodas do glam metal que estava a desvanecer. Em palco, todos estavam perigosamente perto das drogas – das leves, das duras, todas. Na noite da overdose em Roma, Cobain tomou Rohypnol, medicamento usado para as ressacas de heroín, misturado com champanhe. Em 2002, Staley «tombou» por excesso de speedball, uma mistura de cocaína com heroína. E sobre a autópsia de Cobain, a discussão nunca foi sobre se acusara droga, mas sim se seria possível alguém carregar, apontar e disparar uma caçadeira tendo tanta heroína no sangue. «Um em três consumia heroína, era a cena da altura. Mas nos Pearl Jam as drogas foram despachadas cedo», contou ao Sydney Morning Herald, em 2006, Mike McCready, fundador da banda. E Vedder nunca se deixou agarrar. Ao jornal australiano, assumiu que foi salvo pelo «inato instinto de sobrevivência». Matt Cameron, baterista nos Soundgarden até à sua entrada nos Pearl Jam em 1998, tem outra explicação. «Sorte» e a obsessão de Vedder com o combate ao estrelato. «Tínhamos passado de plateias de cem pessoas para nos transferirem chamadas telefónicas a dizer que o Keith Richards queria tocar connosco. Como é que um miúdo consegue dizer que não?», perguntava, retoricamente, Cameron. Mas Vedder recusava tudo. E foram as vendas de discos que transportaram os Pearl Jam para a fama. Ten, disco de estreia, lançado um mês antes de Nevermind, demorou a arrancar, mas no final da década de 90 já tinha vendido mais de 10 milhões de cópias. Muito para quem não esperava ultrapassar as 40 mil (meta assumida); pouco para quem nos seis anos seguintes lançaria quatro álbuns de originais – Vs (1993), Vitalogy (1994), No Code (1996) e Yield (1998) – e com vários recordes pelo caminho. Entre eles, o do milhão de cópias de VS vendido em apenas uma semana.

Nascido Edward Louis Severson III, só aos 13 anos descobriu a identidade do pai. É a história que canta em «Alive». «Son, she said / Have I got a little story for you / What you thought was your daddy / Was nothing but a … / While you were sittin’ home alone at the age thirteen / Your real daddy was dyin’, sorry you didn’t see him, but I’m glad we talked…». Contada em português, a história foi assim: cresceu Muller, nome de Peter, advogado e marido de Karen, que Eddie julgava ser seu pai. Aos 13 anos, diz a canção, passou a Vedder depois de saber que o pai biológico, Edward, morrera.

Pearl Jam em 1991

Pearl Jam em 1991

Adolescente em San Diego, só a custo terminou o liceu. Popular entre as colegas, sociável e conhecido pela boa disposição, Eddie cresceu ao ar livre. Primeiro o futebol, depois o surf, depois todas as loucuras para as quais conseguisse encontrar desculpa. Na mudança para Los Angeles, o feitio não mudou. De sorriso em sorriso, embrenhou-se na comunidade musical e, rapidamente, ao seu rol de amigos juntou os músicos dos Red Hot Chili Peppers. Numa viagem pelo parque Yosemite, o gosto em se lançar de penhascos valeu-lhe a alcunha de Crazy Eddie e, pouco depois, um premonitório cartão de visita. Foi Jack Irons, então baterista dos Red Hot Chili Peppers, quem falou de Vedder a Stone Gossard e Jeff Ament, que estavam à procura de vocalista para o que seriam os Pearl Jam.

Os primeiros anos em frente ao microfone tornariam lendários os saltos de Vedder para o público. Mas o primeiro ninguém viu. Não foi do palco, de um andaime ou da grua de um operador de câmara, mas sim quando, sozinho, se lançou de San Diego para Seattle apenas contando com a promessa de dois desconhecidos. Para a história fica a viagem direta entre o aeroporto e sala de ensaio, as onze músicas gravadas em cinco dias e o concerto dado ao sexto. Ainda nem o nome estava certo – apresentaram-se como Mookie Baylock – mas já ninguém duvidava de que Vedder valeria milhões.
Cronicamente acusados de terem um som demasiado tradicional, inicialmente olhados com suspeição por terem um vocalista demasiado afinado, os Pearl Jam cedo ficaram sozinhos no topo da armada do grunge. À frente do palco, nos três anos passados entre o lançamento de Ten e o trágico fim dos Nirvana, Eddie Vedder passou de desconhecido a figura de capa da revista Time. Surfista desde miúdo, com os mesmos 52 anos que Cornell contava na hora da morte, casado e pai de duas adolescentes, Vedder é hoje muito mais que a cara do movimento grunge. Com os Pearl Jam ou a solo, a sua música é feita com o estatuto de senador, a última voz da geração que jogou e perdeu com a heroína. Vedder surfou ao lado – e surfou sempre bem.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2017