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Vida e morte de Chris Cornell. A história completa do último mártir dos anos 90

De cozinheiro e aspirante a músico a estrela consagrada do rock’n’roll, o vertiginoso percurso de um homem e artista que, à semelhança dos céus da sua Seattle natal, se pintou em tons de cinzento bem carregado

José Miguel Rodrigues

Discos de ouro, discos de platina, até de multiplatina. Uma carreira de enorme sucesso e de fazer inveja a muitos dos seus pares. Uma dinâmica vocal poderosa, que lhe permitia saltar sem esforço aparente do registo mais grave ao mais agudo. Grammys e outros galardões e títulos elogiosos na prateleira. Muita fama, muito dinheiro. Uma família, porque para trás ficou uma mulher incrédula e três filhos sem pai. Muita, muita vida ainda para viver. Muito talento para partilhar. No entanto, houve ali um momento, na noite de 17 de maio de 2017, em que tudo isso deixou de fazer sentido. Ler isto, no papel, é brutal, mas a vida é mesmo assim. Às vezes, bastam minutos para que tudo deixe de fazer sentido. Este Deus do Rock, como tantos outros antes dele, tinha um lado negro, e bem pronunciado. Ao longo de uma carreira que durou quase três décadas, Chris Cornell, a imponente voz dos Soundgarden, Temple Of The Dog e Audioslave, sempre fez questão de cantar os males como quem os espanta e, em temas como «Pretty Noose» ou «Like Suicide», fê-lo de forma bem explícita. Escreveu sobre solidão, tristeza, suicídio – e essa melancolia tingiu de uma forma indelével grande parte do seu legado. Mesmo assim, com o jogo todo em cima da mesa, a notícia da sua morte, escassas horas depois de se ter apresentado em palco, na cidade de Detroit, com a sua banda de sempre, apanhou toda a gente de surpresa.

As homenagens, os «tributos», oriundos de todos os quadrantes da indústria, sucederam-se nas redes socais. Apesar de, ao longo dos anos, ter sofrido de depressões, fobias sociais várias e ser confesso consumidor de drogas e álcool em excesso, Chris Cornell estava sóbrio há mais de uma década. Em 2000, tinha casado com Susan Silver, manager dos Soundgarden e Alice In Chains, com quem teve a primeira filha, Lillian Jean. O casal acabaria por divorciar-se uns anos depois, mas o músico encontrou de novo a estabilidade emocional ao lado da publicista Vicky Karayiannis, com quem teve mais dois filhos. As aparências da dura realidade que o consumia silenciosamente por dentro nem por um momento apontavam para um desfecho deste género. Depois de ter atuado para 5 mil pessoas no Fox Theatre e já depois da meia-noite, a polícia de Detroit acorreu a uma chamada de aparente suicídio no hotel e casino MGM Grand. Encontraram Cornell no seu quarto, no chão da casa de banho, com uma corda de exercício enrolada ao pescoço. Nos meses que antecederam a tragédia, tanto Serj Tankian dos System Of a Down como o produtor Brendan O’ Brien, privaram de perto com Cornell e afirmaram à Rolling Stone que o músico estava «de bom humor e igual a si próprio» e, ao final da tarde, nesse mesmo dia 17, publicou um jubiloso «Finalmente de volta à Rock City!» através do seu Twitter.

Contudo, as gravações do concerto, entretanto disponibilizadas no YouTube, mostram-nos um frontman visivelmente perdido, com as intervenções entre temas a oscilarem entre a gratidão e o críptico, incluindo uma bizarra alusão a cruzes a arderem em relvados. Às vezes, a sua voz, uma fusão de uivo roqueiro e sensualidade bluesy, soa sem a força habitual, desfasada dos instrumentistas. No quarto de hotel, depois de uma pequena sessão de autógrafos, o músico falou com a mulher e surpreendeu-a com um discurso arrastado, que atribuiu à tomada de dois comprimidos de Ativan, um medicamento para a ansiedade. Preocupada, Vicky Cornell pediu ao segurança da banda para verificar se estava tudo bem com o marido e foi ele o primeiro a encontrar o corpo. Hoje sabe-se que o músico tinha sete tipos de drogas diferentes no organismo e, apesar dos efeitos secundários do Ativan – entre os quais se contam tendências suicidas – terem sido apontados como a causa para o comportamento errático de Chris na noite da sua morte, o relatório da autópsia entretanto divulgado pelo Instituto de Medicina Legal de Wayne County garante que nenhuma das drogas contribuiu para a causa da morte, apontada como enforcamento. Jerry Cantrell, dos Alice In Chains, disse recentemente que «nada apontava para que esta história terminasse assim», mas por esta altura já se percebeu que a cidade de Seattle tem uma enorme capacidade para arrastar os seus filhos mais brilhantes até ao fundo do poço.

A sepultura de Chris Cornell no cemitério Hollywood Forever, em Los Angeles

A sepultura de Chris Cornell no cemitério Hollywood Forever, em Los Angeles

Getty Images

MIÚDO SOLITÁRIO
Nascido Christopher John Boyle a 20 de julho de 1964, na cidade de Seattle, Chris Cornell foi um de seis filhos nascidos numa família católica irlandesa. Após o divórcio dos pais, Ed, farmacêutico, e Karen, contabilista, as crianças adotaram o nome de solteira da mãe e Chris começou por aprender a tocar piano, optando mais tarde pela bateria. Preterindo desde cedo as lições em favor do treino «a solo» no quarto, reza a lenda que, aos 9 anos, descobriu uma coleção de discos dos Beatles, sendo que a banda britânica se tornaria essencial na sua formação como artista. Aos 14, atormentado por episódios de depressão, Cornell já tinha abandonado a escola para se dedicar à música e, com o salário que ganhava a trabalhar como cozinheiro num restaurante chamado Ray’s Boathouse, ajudava a sustentar a família. No início dos anos 80, encontra o baixista Hiro Yamamoto e, juntos, criam a banda de versões The Shemps, espalhando as sementes para o nascimento dos Soundgarden em 84, com a formação a ficar completa com Kim Thayil na guitarra e Matt Cameron na bateria, uma manobra que permitiu a Chris concentrar-se no seu papel como vocalista. Apesar de ter passado grande parte da adolescência como um miúdo solitário, o rock ajudou-o a superar o desconforto que sentia no contacto com outras pessoas – e de que maneira.

A par dos Melvins, os Soundgarden foram uma das primeiras bandas a desacelerarem aquela energia juvenil do punk e a arrastá-la a compassos mais próximos dos Black Sabbath. Nos anos seguintes tornaram-se os primeiros a lançar um single através da Sub Pop, sucedido pelos EPs Screaming Life e Fopp e, já depois do álbum Ultramega OK ter sido editado pela SST, fizeram a primeira digressão na Europa e foram nomeados para um Grammy na categoria de «Best Metal Performance», figurando numa lista que incluía também os Faith No More, os Metallica, os Queenryche e os Dokken. Logo de seguida, transformaram-se num dos primeiros nomes do underground de Seattle a assinar com um selo multinacional, no caso a A&M, que colocou Louder Than Love nos escaparates a 5 de setembro de 1989. O proto-grunge contido nesses doze temas mostrava o grupo a fundir as referências Led Zeppelin e Black Sabbath com os sons soturnos dos Killing Joke e Bauhaus, deixando para trás as influências mais metal do passado. Apesar do autocolante do P.M.R.C. na capa, graças à letra de «Big Dumb Sex» e de alguns padrões rítmicos pouco convencionais, o disco transformou-se no primeiro dos Soundgarden a figurar na tabela da Billboard. Louder Than Love revelava uma garra impressionante e, acima de tudo, o tremendo registo de Cornell que, apesar da natureza batida de algumas letras, mostrava talento para entregá-las de forma tão convincente e intensa que, na verdade, pouco interessava acerca do que estava a cantar. Nos anos seguintes, a sua abordagem à escrita mudou de forma evidente, com o músico a revelar-se progressivamente mais franco e sem medo de explorar os seus demónios, abordando as lições proporcionadas pelas perdas que, repetidamente, o abalavam a si e à sua cidade natal.

Em março de 1990, Andrew Wood, o vocalista dos Mother Love Bone e antigo companheiro de apartamento de Cornell, morreu com uma overdose de heroína. A perda do amigo assombraria Cornell ao longo dos anos e não deixa de ser profético, até irónico, que tenha sido ele o principal instigador dos Temple of the Dog. Duas homenagens a Wood, «Say Hello 2 Heaven» e «Reach Down», tornaram-se as músicas de base para a criação do projeto, com membros de uns então desconhecidos Pearl Jam. «Não sei mesmo se algum dia vão conseguir tirá-lo do meu coração e da minha alma», refletiu Chris Cornell acerca de Wood há dois anos, numa entrevista à Billboard. «Houve um período em que ele se sentava no quarto, do outro lado do corredor do meu, e começávamos a fazer canções ao despique. Ele não o estava a fazer para os Malfunkshun e eu não o estava a fazer para os Soundgarden; não tinha nada a ver com isso. Estávamos os dois a divertir-nos, só isso. Sempre fomos muito próximos». O single «Hunger Strike», um dueto entre Cornell e Eddie Vedder que a MTV tratou de imortalizar, trepou à 4ª posição da tabela de vendas nos Estados Unidos, mas com os Pearl Jam a navegarem a onda de sucesso gerada pelo clássico Ten e nada interessados em capitalizarem com a morte de um dos seus pares, os músicos não mais voltariam a compor sob a mesma designação, reduzindo as aparições à interpretação ocasional de um ou outro tema quando Soundgarden e Pearl Jam se cruzavam no mesmo cartaz. A primeira digressão a sério acabaria por acontecer apenas em 2016, em celebração dos 25 anos de Temple of the Dog.

Soundgarden nos anos 80

Soundgarden nos anos 80

NA SOMBRA DE NEVERMIND
De volta ao primeiro ano dos noventas, o grunge estava a desenvolver-se, a evoluir, ainda a definir uma personalidade própria. Isso era audível nos Soundgarden. O quarteto, já com o novo recruta Ben Shepherd no baixo, existia desde 1984, três anos antes da criação dos Nirvana e Alice in Chains, cinco antes dos Mudhoney e seis antes dos Pearl Jam. A brincar com a ideia do que significava ser uma banda realmente pesada com o próximo álbum, Cornell e companhia estavam prestes a dar o passo decisivo na sua afirmação como um dos nomes icónicos do grunge. Numa altura em que essa palavra ainda nem sequer fazia parte do léxico musical, composto sem o zeitgeist em mente, Badmotorfinger saiu em outubro de 1991, duas semanas depois do Nevermind e, injustamente, estará sempre condenado a viver na sombra da avalanche criada pelo sucesso estratosférico desse álbum. Mostrando a «estranheza» que sempre os caracterizou, as canções misturavam hard rock, heavy metal e pós-punk sem que se pudesse colocar os músicos numa redoma estanque, e Cornell continuava a liderar com o seu engenho para as melodias memoráveis. «O Chris sempre teve um facilidade enorme para imaginar melodias em volta de estruturas rítmicas estranhas», recordou Kim Thayil à Noisey, aquando do 20º aniversário do icónico disco dos 90s. «A maior parte das pessoas só consegue cantar e pensar em 4/4 e tem dificuldade em criar melodias em cima de compassos marados, mas para o Chris era algo natural porque ele foi o nosso primeiro baterista e conseguia pensar nesses tempos».

Três anos depois, recuperados da digressão mundial que os viu passar pela primeira vez por Portugal (no antigo Estádio José de Alvalade, como «suporte» aos Guns N’ Roses), Superunknown mostrou ao mundo uns Soundgarden mais contidos, até mais polidos, ampliando a visibilidade do quarteto nos Estados Unidos e no mundo. À quarta nomeação, a banda ganharia por fim o primeiro Grammy da sua carreira graças a «Black Hole Sun». Para o melhor e para o pior, Cornell tinha chegado finalmente ao céu e ao inferno do mainstream. Ou melhor, o céu e o inferno do mainstream tinham chegado finalmente a Chris Cornell. Ainda inspirado pela morte de Wood uns anos antes, escreveu «Like Suicide», uma canção que ganhou ainda mais peso e significado quando Kurt Cobain se suicidou exatamente um mês depois do lançamento de Superunkown. «Let Me Drown» e «Limo Wreck», do mesmo disco, mostravam o cantor a mergulhar de cabeça na sua luta interior e, sempre cândido e aberto a falar sobre os seus medos, apesar da sua natureza tímida fora de palco, descreveu o seu «cinzentismo» como um bom reflexo de ter crescido no Noroeste. «Vivemos entre os arrepios da vida quotidiana e essa beleza natural que nos rodeia o tempo todo», disse à Rolling Stone durante a mesma conversa em que confessou gostar, desde miúdo, de estar à janela «a imaginar como seria» atirar-se lá para baixo. O quarteto lançaria ainda Down on the Upside em 1996, mas o escalar de tensões entre os músicos precipitaria a separação em abril do ano seguinte. Nada avesso a esquemas de trabalho rigoroso, o vocalista dá início à sua carreira a solo mesmo na viragem do milénio, com a edição de Euphoria Morning.

Chris Cornell em 2002, altura em que deu entrada numa clínica de reabilitação

Chris Cornell em 2002, altura em que deu entrada numa clínica de reabilitação

Getty Images

AS GLÓRIAS E OS DEMÓNIOS
De adolescente tímido a aclamado «Deus do Rock», Chris Cornell, confesso consumidor de drogas e álcool desde os 12 anos, acabaria por ser internado para reabilitação em 2002. «Às tantas tive mesmo de chegar a uma conclusão», disse no início deste ano, depois de uma entrega de prémios, à Launch Radio Networks. «É aquele tipo de conclusão humilhante, perceber que, afinal, não sou diferente de qualquer outra pessoa. Tenho de pedir ajuda – e isso não é algo que alguma vez tenha feito no passado». Há cinco anos, tinha dito ao Mirror, «para mim o problema sempre foi, principalmente, o álcool – da adolescência até aos 30 anos. Na reta final dos Soundgarden as coisas começaram a piorar, por isso é algo que teria acontecido mesmo que tivéssemos ficado juntos. Foi um longo e lento deslize, depois uma longa e lenta recuperação, mas houve também muita autodescoberta, claro». «Saí da reabilitação», recordou Chris, «e parti de imediato em tour com os Audioslave, vendi milhões de discos e toquei para multidões de 10 mil ou 20 mil pessoas. Isso não é aquilo pelo qual que a maioria das pessoas passa... Geralmente saem da reabilitação, têm a vida destruída e têm de lutar para trabalhar de novo. Eu tinha uma identidade à espera de ser abraçada».

E, de facto, até há pouco tempo, parecia tudo relativamente simples, com o músico a dar passadas certeiras no percurso de um artista ímpar, que sempre pareceu mais que capaz de lidar com os seus demónios interiores. Foi, de resto, depois de ter gravado o álbum de estreia com os Audioslave, projeto que o juntou a Tom Morello, Brad Wilk e Tim Commerford, três Rage Against The Machine, entre maio de 2001 e junho de 2002, que optou por pedir ajuda para lidar com os problemas. Apesar de estar a passar pelo divórcio do primeiro casamento, no que à música diz respeito as coisas não podiam correr-lhe mais de feição, com os Audioslave a transformarem-se num sucesso à força dos singles «Cochise», «Show Me How You Live», «What You Are», «Like A Stone» e «I Am The Highway». A superbanda, de estatuto multiplatinado, acabaria por espalhar o seu charme pelo mundo e, até à separação em 2007, gravaria mais dois álbuns, Out of Exile e Revelations. Nesse mesmo ano, o músico retoma a carreira a solo com Carry On, que incluía uma versão de «Billy Jean» e também «You Know My Name», gravada para a banda-sonora do filme Casino Royale. Na companhia do famoso espião 007, no topo do mundo, o que havia ainda para conquistar? Primeiro, a música pop. Depois, o passado.

Escritos com Timbaland, os singles «Ground Zero» e «Watch Out» mostraram o músico a atirar-se às melodias R&B e, pela primeira vez, apesar do arrojo, a ser mal recebido pelo público e pela crítica com Scream. A redenção veio em 2010, com os Soundgarden a juntarem-se às muitas bandas dos anos 90 que se reuniram no século XXI e, durante os últimos sete anos, retomaram o seu percurso, que teve o ponto mais alto em 2012, com a edição de King Animal, o muito ansiado sucessor de Down on the Upside. Entre digressões de alto gabarito e digressões mundiais face a plateias rendidas à nostalgia, Cornell estava de volta à ribalta do rock e, mantendo edições regulares em nome próprio, nunca mostrou uma ponta de falta de imaginação para a escrita de grandes canções. Segundo produtor Brendan O’ Brien, nos últimos anos o artista norte-americano parecia estar «numa missão para passar o tempo todo a trabalhar. Literalmente, o tempo todo. Parecia estar sempre a fazer qualquer coisa – e muitas coisas diferentes». De resto, nas fotografias mais recentes, aos 52 anos, Cornell aparentava estar em boa forma, continuava tão bonito como sempre e podia passar por uma pessoa com 10 anos a menos. Independentemente disso, continuava a batalhar com os seus demónios em silêncio... Resta o conforto na ideia de que nenhum homem cuja voz marcou uma geração será algum dia totalmente esquecido.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2017