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Manel Cruz: “O dinheiro é argumento para tudo. Sinto o Porto em biquinhos de pés e não o reconheço”

Regressou este verão aos palcos, com o mesmo trio que o acompanhou há dois anos e muitas canções novas. No estúdio onde se ocupa da música de forma cada vez mais “profissional”, falou com Lia Pereira sobre a fronteira entre trabalho e prazer, a estreia no Brasil e o turismo no Porto, a sua cidade

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Já é meio-dia mas, na ressaca da noite mais concorrida do Primavera Sound, o Porto continua meio adormecido quando chegamos ao Centro Comercial STOP. Velha galeria comercial inaugurada nos anos 80, o espaço escapou à extinção quando, já neste século, foi sendo «ocupado» por músicos e reconvertido; atualmente, alberga numerosas salas de ensaios («umas 200», estima o segurança a quem pedimos ajuda para encontrar a «toca» de Manel Cruz) e há quem lhe chame «a outra Casa da Música».

No primeiro andar, aninha-se um estúdio que tem tanto de profissional, no que toca a todos os instrumentos e equipamentos de som, como de amador, no sentido de amor à camisola. Pelas paredes, encontramos frases escritas a caneta («Pensar e sentir são a mesma coisa»; «Tens o tempo que te falta para seres tudo isso de novo»), cartazes de concertos próprios e dos amigos mais próximos (como de Nuno Prata, que nos Ornatos se ocupava do baixo) e relíquias quase arqueológicas, como um exemplar escaqueirado do livro-disco que Manel Cruz lançou, em 2008, enquanto Foge Foge Bandido. «Aquele é o original, as outras são réplicas», brinca o percussionista António Serginho, explicando que o livro-disco se empoeirou e encarquilhou depois de muitas semanas esquecido «na varanda do Parque Itália».

Depois da nossa conversa, Manel Cruz e a sua banda (Nico Tricot, António Serginho e Eduardo Silva) presenteiam-nos com três canções: a já conhecida «Estou Pronto», da «colheita» de Foge Foge Bandido, e duas das novas composições que irão apresentar este verão nos festivais Mimo (23 de julho, em Amarante, com entrada grátis), Sol da Caparica (data a anunciar) e Paredes de Coura (19 de agosto). Em novembro, e a convite do Mimo, um festival que nasceu no Brasil e promove a ponte entre artistas dos dois países, irá atravessar o Atlântico para dar dois concertos, no Rio de Janeiro e em Olinda. A escolha dos eventos onde atua, conta-nos o homem que não vemos em palco desde 2015, passa pela conveniência de datas e locais, mas também pela exclusão de certames com os quais não se identifique tanto. «Gosto que haja uma relação de prazer», confirma. «Que não seja só uma coisa de tocar por tocar».

Manel Cruz em estúdio, no Porto

Manel Cruz em estúdio, no Porto

Rita Carmo

Há dois anos, Manel Cruz precisava de tocar («precisava de ganhar dinheiro», diz, com a honestidade que é seu apanágio), mas tentou dar ao público «algo de novo, que me criasse prazer por estar ali, com alguma frescura. Então pensámos numa formação mais acústica, com o banjo e arranjos novos». Estava montada a Estação de Serviço, conceito que transportou vários temas do seu repertório e algumas novidades até aos palcos do Primavera Sound ou do Bons Sons. Em 2017, a Extensão de Serviço – «tínhamos de arranjar um nome», justifica-se, entre risos – vai contar com uma componente tecnológica diferente. «Como não queríamos repetir a Estação de Serviço e já tínhamos canções novas, começámos a entrar no mundo do MIDI», revela. «Todos temos um teclado e podemos lá pôr todos os sons que quisermos, desde samples aos meus putos a rir, sons de cassete… Deixámos de ter aquela parafernália analógica, mas aumentámos muito a possibilidade de ter piano, cravo, órgãos em palco».

O quarteto passou «uns meses a partir pedra técnica» mas está contente com a expansão da paleta de sons. Numa das canções que tocaram naquele sábado, António Serginho, mentor dos ótimos Retimbrar, usou uma garrafa de plástico esfarrapada para tocar bateria, e a inventividade das soluções junta-se a uma abordagem cada vez mais disciplinada, prometendo concertos curiosos, nos quais haverá espaço para vários inéditos, alguns regressos ao universo do Bandido e uma canção de Ornatos Violeta. «Quando era mais puto e não tinha filhos nem compromissos, isto era um misto de trabalho com lazer», compara Manel Cruz. «Uma vez, a minha mulher até me escreveu no computador: “o trabalho às vezes é muito conhaque”. E era muito fixe. Agora [trabalho de forma] mais direcionada», explica, contando que deixou de aceitar o trabalho a que habitualmente se dedica (escrita de bandas-sonoras e muito labor gráfico) para se concentrar na Extensão de Serviço.

«Como tínhamos x meses até tocar [ao vivo], fomos decidindo que músicas tocar, até tínhamos um Google Drive com colunas de “isto está feito, isto não está…”. A continuidade no processo tem-no ajudado, assim como a ajuda permanente de Nico Tricot, músico francês há muito radicado em Portugal. «Em banda é sempre assim, mas a solo é a primeira vez que experimento estar com alguém de raiz a ajudar-me nos arranjos», diz, satisfeito com o contributo do multi-instrumentista de Montpellier.


Talvez por não ter uma presença oficial nas redes sociais, cada comunicação de Manel Cruz à nação (de fãs) é invariavelmente acolhida com entusiasmo. «É muito bom saber – ou imaginar! – que vou ter pessoas [nos concertos]. Mas nunca tomei isso por adquirido», realça. «Não por humildade, mas por consciência de que o trabalho é uma coisa dinâmica; hoje as pessoas gostam do que fazes, amanhã podem não gostar. Nunca vou com certeza nenhuma».

Manel Cruz em estúdio, no Porto

Manel Cruz em estúdio, no Porto

Rita Carmo

Os amigos todos

Aos 42 anos, o músico é um cidadão atento à ideia de comunidade («Aqui no STOP nota-se uma união entre os músicos, no sentido de aumentar a potencialidade de trabalho para todos») e ao fenómeno do turismo na Invicta. «Gosto de ver a cidade viva, mas é inadmissível não se pôr regra nisto», afirma. «Como qualquer cidade, o Porto tem um funcionamento próprio que tem a ver com as pessoas que lá vivem e que lá trabalham e produzem. É isso a cultura de uma cidade», resume. «Vivemos numa era em que o dinheiro é argumento para tudo. É um pensamento parolo e ganancioso, uma visão curta sem identidade. Como pode quem ama o Porto aceitar este pontapé no cu dos locais para transformar isto numa estância de férias? Sinto o Porto em biquinhos de pés e não o reconheço».

Outro dos «cargos» que ocupa, há coisa de uma década, é o de pai de três filhos, um rapaz de 10 anos e dois gémeos de 8. Com eles, ouve muita música portuguesa, quase sempre «no carro, o meu ponto de escuta. Agora andam a curtir o Riça, um disco de hip-hop que fala do mundo onde os gunas tinham ovelhas [«É Lá na Bouça»]. Mas ouvem de tudo, da Rádio Comercial às cenas mais alternativas», garante, partilhando outros dos artistas com lugar cativo no carro da família. Samuel Úria («o concerto no Tivoli foi fantástico»), Bruta (de Ana Deus e Nico Tricot), Valter Lobo, Retimbrar, Torto, Zelig, Peixe, «os amigos todos e mais alguns». Recentemente, estreou também o gira-discos com o vinil do último dos Peixe : Avião («um disco fabuloso, uma banda do carago») e continua a ser fã de Barrako 27, veterano do hip-hop portuense que considera «muito subestimado. É um dinossauro, tem para aí uns 12 discos e uma riqueza poética incrível. Faz-me impressão que não tenha visibilidade nem o seu nicho».

Conjugando trabalho independente com uma família numerosa q.b., o portuense não se espanta com a forma como chegou aqui. «Eu deixei de ser o Manel Cruz dos Ornatos para ser o pai dos meus filhos. O que é altamente!», afiança. «Sempre quis ter filhos, vai ao encontro das minhas expectativas. Uma amiga que já não me via há muitos anos é que, ao ver-me cheio de putos, disse: “ei, olha o roqueiro!”», ri-se. «De repente estava ali completamente achantradinho».

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2017