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Geração maldita. O ponto final no rock dos anos 90

O grunge de Seattle e o rock americano dos anos 90 produziram clássicos, mas também vítimas, expoentes de uma geração que sentiu o peso do mundo de forma particularmente intensa e que deu origem aos seus mártires. Procuramos explicações

A recente morte de Chris Cornell dilatou a sombria lista de «desaparecidos em combate» que marca de forma profunda a geração que nos anos 90 do século passado despontou em Seattle e que ajudou o grunge a alcançar forte repercussão internacional. Kurt Cobain, que se suicidou em abril de 1994, é a mais notória presença nessa lista maldita que inclui ainda Scott Weiland (o vocalista dos Stone Temple Pilots, desaparecido em 2015), Layne Staley (vocalista dos Alice in Chains, 2002), Shannon Hoon (vocalista dos Blind Melon, 1995), Kristen Pfaff (baixista das Hole, 1994) ou Andrew Wood (vocalista dos Mother Love Bone, 1990), todos eles trágicas vítimas de overdoses de drogas pesadas.

Os Soundgarden, de Chris Cornell, chegaram a afirmar-se como sérios candidatos à longevidade no rock que decanos como os Rolling Stones carregam nos ombros, provando em palco possuir a estâmina elétrica capaz de sustentar uma carreira de mais umas quantas décadas, mas a morte do seu carismático líder, um suicídio que poderá ter sido potenciado pelo uso de medicamentos, travou essa possibilidade. A «responsabilidade» de atingir a mesma escala de carreira que foi estabelecida por Mick Jagger, Keith Richards e companhia repousa agora nos ombros de Eddie Vedder e Dave Grohl, os derradeiros símbolos de uma Geração de Seattle que nos anos 90 se impôs ao mundo, talvez por representar uma ideia de «autenticidade» que começava a escapar a uma geração a braços com profundas transformações. Anthony DeCurtis, na Rolling Stone de 2 de junho de 1994 – que deu capa ao malogrado líder dos Nirvana, incluindo não apenas uma elegia, mas também um detalhado registo dos seus últimos dias – argumentou que «as pessoas olharam para Kurt Cobain porque as suas canções captaram o que elas sentiam mesmo antes de elas saberem que era isso que sentiam».

Chris Cornell, dos Soundgarden

Chris Cornell, dos Soundgarden

E que sentimentos eram esses? Seattle fez correr rios de tinta, presa e isolada no extremo noroeste do país, com o seu clima chuvoso que favorecia atividades dentro de portas – como a criação de bandas... Mas o zeitgeist era geracional e certamente ultrapassava os limites do estado de Washington (onde se localizava a capital do grunge) para se estender a todo o país, alcançando depois repercussões globais. Se, por um lado, foi uma era de imensa prosperidade económica – com o economista Alan Greenspan a criar a expressão «exuberância irracional» para descrever esses tempos –, a década de 90 foi igualmente assolada por múltiplos conflitos e catástrofes – Guerra do Golfo, sérios confronto nos Balcãs, genocídios no Ruanda, ataques terroristas em Nova Iorque e em Oklahoma City, furacões e terramotos devastadores em Miami e Los Angeles... – tornados mais presentes pela cada vez mais rápida evolução da tecnologia (TV por cabo, telefones celulares, computadores e internet a ligarem cada vez mais as pessoas e o mundo).

No extremo noroeste do país, em comunidades madeireiras alheias a todas estas rápidas evoluções, a droga – sobretudo a heroína exportada pela Colômbia por um dos mais notórios vilões da era, Pablo Escobar – era uma realidade alienante à qual dificilmente se escaparia. No mesmo número da Rolling Stone dedicado ao elogio fúnebre de Kurt Cobain, procura-se entender as condicionantes peculiares da zona de origem do vocalista dos Nirvana com um artigo intitulado The Road from Nowhere, da autoria de Mark Gilmore, em que se «percorrem as ruas de Aberdeen, Washington, «uma cidade madeireira difícil» de cuja «parte mais pobre» Kurt era originário. «Se estiverem no coração da zona pobre – ou na baixa de Aberdeen, que fica próxima, onde estruturas industriais vazias se impõem como carcaças assombradas – o nevoeiro frequente que desce das colinas onde os ricos têm as casas pode fazer-vos sentir que vão ficar aqui presos para sempre», escrevia Gilmore. «Se caminharem até à outra ponta da cidade, onde a principal rua, Wishkah Street, está voltada para o rio Chehalis e para o Oceano Pacífico, parece que chegaram ao fim do mundo e que se continuarem a andar simplesmente cairão da última ponta da América». Em busca das raízes da malograda estrela rock, o repórter da Rolling Stone conclui: «esta é a cidade que Kurt Cobain nunca foi capaz de parar de repudiar. Foi aqui que foi gozado e espancado tanto por aqueles que deveriam amá-lo como por aqueles que mal o conheceram mas que nele reconheceram a sua diferença e que, por isso, lhe quiseram bater. Foi aqui, sem dúvida, que Cobain aprendeu a odiar a vida». «Não há nada para odiar num lugar destes» – explicava num bar frequentado por viciados em heroína Aaron Burckhard, o primeiro baterista dos Nirvana – «exceto, bem, já perceberam, as pessoas que aqui vivem».

O suicídio de Chris Cornell ou de Kurt Cobain e o intenso uso de drogas pesadas por parte da lista sombria de vítimas destes anos 90 de eletricidade e flanela refletem, afinal de contas, a condição depressiva de uma geração que não olhou para o rock como um escape, antes como um veículo para expressar frustração, para dar voz à natural depressão de uma era complexa e, de facto, opressiva: se não se pertencesse à cúpula económica da sociedade, era-se parte das imensas hordas de desprovidos de quase tudo, de gente esquecida pelas agressivas políticas liberais que promoviam crescimento rápido – as tais «bolhas» tecnológicas, imobiliárias e financeiras que começaram a rebentar ao primeiro respirar do terceiro milénio – mas secavam tudo à sua volta; se não se ingressasse no exército para ir combater por petróleo para o Kuwait, integrava-se as infinitas fileiras de rebeldes sem causa que povoavam as grandes cidades. A televisão (e nela, a MTV) não ofereciam melhores perspetivas e até as elites políticas – o caso Lewinski marcou a governação de Bill Clinton – pareciam incapazes de resgatar uma geração sem líderes, sem direção, presa num labirinto de onde parecia ser impossível sair.

Kurt Cobain, dos Nirvana, e a filha, Frances Bean

Kurt Cobain, dos Nirvana, e a filha, Frances Bean

Cheira a espírito jovem
Em 1991, Nevermind parecia ecoar toda a angústia, revolta e frustração dessa geração X sem representantes. Curiosamente, o álbum, puxado pelo inesperado sucesso de «Smells Like Teen Spirit», vendeu 10 milhões de cópias e destronou Michael Jackson do topo das tabelas pop, sinal claro de que algo estava a acontecer. Anthony DeCurtis, na Rolling Stone, defendeu que esse sucesso traduzia o fim de uma era do rock e o início de outra: «os Nirvana transformaram os anos 80 em anos 90». «Não o fizeram sozinhos, pois claro, que mudanças culturais nunca são assim tão simples. Porém, em 1991, “Smells Like Teen Spirit” provou ser um momento fulcral na história do rock. Uma canção política que nunca menciona ideologias, um hino cuja letra não pode ser entendida, um sucesso altamente popular que denuncia comercialismo, um grito coletivo de alienação, foi o “(I Can’t Get No) Satisfaction” para uma nova era e para uma nova tribo de juventude desligada, sem representação. Foi um enorme “vão-se f*der”, uma declaração imensamente satisfatória sobre a incapacidade de alcançar satisfação».

Sintomaticamente após uma série de páginas com anúncios da Guess com o que parecem ser jovens estudantes brancos da Ivy League, da Chrysler com o tipo de SUVs que necessitavam do petróleo do Médio Oriente para funcionarem, de fragrâncias da Polo Ralph Lauren e de jeans da Levi’s com corpos moldados no ginásio e ainda de vodka Smirnoff, no início do número de 2 de junho de 1994 que a Rolling Stone dedicou a Kurt Cobain há uma página com citações reveladoras de algumas das centenas de cartas recebidas pela revista após a notícia da morte do homem dos Nirvana ter sido conhecida. Numa, um tal de Aaron, da Califórnia, desabafa: «sinto raiva e sinto pesar. De repente, apercebi-me de um vazio que não sentia ontem. Courtney, abraça muito a tua filha e atira fora essa porcaria das armas. O rock morreu. O rock morreu». Noutra, Erika, de Nova Jérsia, garante que «se a angústia, o empoderamento e a insinuação de uma “negação” no final de “Smells Like Teen Spirit” não provam a existência de uma raiva que poderia ser capaz de levar uma geração a considerar o suicídio, então o Kurt Cobain morreu em vão». «Os Nirvana», diz ainda Aron, do Texas, «foram a primeira banda que ouvi que os meus pais “chumbaram”».

Kurt Cobain, como diziam os Xutos & Pontapés numa canção, não era um caso isolado, não era o único a sentir-se assim, alienado, desligado, desenraizado, sem futuro e sem a capacidade de lidar com o peso do mundo – ou da família, o que pode ir dar ao mesmo. Cada uma das outras vítimas da era de Seattle pode ter tido as suas próprias razões para achar, como Kurt, que «era melhor arder rapidamente do que desvanecer lentamente», mas todas hão de ter sentido a mesma dor indescritível, o mesmo vazio que fez em tempos Chris Cornell desejar que um «buraco negro» viesse e «levasse a chuva».

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2017