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John Coltrane morreu há 50 anos. A história de um génio, de um santo e de um músico inesquecível

50 anos depois do seu desaparecimento, permanece uma figura inspiradora por ter criado música esteticamente avançada e espiritualmente rica. Celebre o talento do homem de “A Love Supreme”, lendo um texto que também publicamos na primeira edição de “História do Rock” (uma nova revista com a chancela BLITZ, cujo número inaugural se debruça sobre a música do marcante ano de 1967 e se encontra ainda nas bancas) e ouvindo a playlist com o melhor do músico

Há uma igreja com o seu nome – A St. John Coltrane African Orthodox Church em São Francisco – mas a principal devoção é a que continua a prestar-se à sua extensa obra gravada: 50 anos depois do seu desaparecimento, John Coltrane permanece uma figura inspiradora por ter criado música esteticamente avançada e espiritualmente rica. Bill Cole – músico, professor e autor de livros sobre Miles Davis e Trane escreveu em John Coltrane (publicado originalmente em 1976) que o saxofonista possuía uma personalidade magnética. O seu livro começa com uma frase em que claramente enumera as suas intenções: «há duas coisas em particular que eu queria abordar neste livro», declara. «John Coltrane enquanto músico e John Coltrane enquanto pessoa religiosa». Dois aspetos, garante o autor, «intimamente ligados ao facto de ele ser afro-americano».

Coltrane faleceu a 17 de julho de 1967 e a 5 de agosto o britânico Melody Maker reportava as cerimónias fúnebres que tiveram lugar em Nova Iorque: «a música da cerimónia foi executada por Ornette Coleman e Albert Ayler, que compuseram material especialmente para o funeral. Tudo começou com o Quarteto de Ayler a tocar “Truth is Marching In” e, em vez de uma elegia, o amigo de Coltrane Calvin Massey leu o longo poema religioso “A Love Supreme” que Coltrane escreveu em 1965. O caixão foi flanqueado por flores enviadas por Duke Ellington, Max Roach, Nina Simone, Stan Getz, pelo Quinteto de Horace Silver e muitos outros músicos». O respeito que a figura de Coltrane impunha entre os seus pares era notório.

Em 1961, John S. Wilson, crítico de jazz do New York Times, colocou em perspetiva a evolução de John Coltrane: «até há cerca de cinco anos, o senhor Coltrane parecia satisfeito em ser um profissional do jazz. Depois, quando era membro do Quinteto de Miles Davis, começou a explorar as capacidades do seu saxofone, o que o levou para interpretações cheias de frases longas, endurecidas, rápidas, com subidas e descidas súbitas que tinham o efeito de um bate-estacas aural». Esta luta com as palavras na tentativa de descrever o que era, para todos os efeitos, um som novo, era mais do que natural.
John Coltrane nasceu a 23 de setembro de 1926 na Carolina do Norte, perdeu boa parte da família no início da adolescência e mudou-se com a mãe para Filadélfia quando contava 17 anos de idade. Foi aí que começou a sua aprendizagem musical, com o saxofone alto e o clarinete em primeiro lugar. Teve os seus primeiros compromissos profissionais enquanto músico como parte de um trio que tocava em bares, no arranque de 1945, mas pouco tempo depois ingressou na Marinha, no mesmo dia em que deflagrou a bomba atómica em Hiroshima, a 6 de agosto do mesmo ano. A comissão de serviço de John Coltrane durou um ano, período após o qual regressou a Filadélfia onde voltou a encontrar trabalho esporádico como músico. Em 1947, «Trane» descobriu o saxofone tenor e foi já com esse instrumento que integrou a banda do saxofonista alto e blues shouter Eddie «Cleanhead» Vinson. Este foi um período importante na formação de Coltrane: aprendeu a ouvir os outros músicos, mesmo no contexto menos «evoluído» do rhythm and blues, ouviu Charlie Parker pela primeira vez – «a música dele acertou-me em cheio», declarou mais tarde à Down Beat – e descobriu músicos como o pianista Hasaan Ibn Ali que lhe abriram novos horizontes melódicos.

John Coltrane morreu aos 41 anos

John Coltrane morreu aos 41 anos

No verão de 1955 um telefonema levou John Coltrane até ao seio do que a história guarda como «o primeiro grande quinteto» de Miles Davis, um coletivo que incluía Red Garland no piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria. Foi esse o momento, como defendeu John S. Wilson, em que a música de Coltrane começou a evoluir de forma mais dramática. Foi nessa altura, no outono, que o também já citado músico e escritor Bill Cole viu Coltrane ao vivo pela primeira vez, num concerto do Quinteto de Miles num salão de Pittsburgh. Cole ficou sentado atrás de um pilar, algo que não o incomodava pois, escreve, estava ali para ouvir, muito mais do que para ver o concerto. Mas o som do saxofone obrigou-o a esticar o pescoço: «quem é que soava tão diferente?». Nessa época, argumenta o escritor, os saxofonistas andavam em busca de um som puro, clássico, algo que eliminasse o individuo da equação. «O som de “Trane” era a antítese disso tudo», escreve, antes de clarificar: «o seu som era claramente uma extensão da sua própria voz».

Duas sessões do Quinteto de Miles para a Prestige, em 1956, renderam os álbuns Cookin’, Relaxin’, Workin’ e Steamin’, onde o talento singular de Coltrane pode brilhar de forma séria pela primeira vez. O Quinteto acabou, no entanto, por se dissolver, em parte porque Miles, que tinha lidado com problemas pessoais de droga, não quis enfrentar a adição à heroína de John Coltrane. Este trabalhou depois, em 1957, durante alguns meses com o grande pianista Thelonious Monk e gravou abundantemente para a Prestige em 1957 e 1958, mas a sua única gravação para a Blue Note, o álbum Blue Train registado em setembro de 1957, é comummente apontado como o seu melhor momento desta era, com Paul Chambers e Philly Joe Jones a juntarem-se a um grupo que incluía também o trompetista Lee Morgan, o trombonista Curtis Fuller e o pianista Kenny Drew.

Em 1958, Coltrane voltou a tocar com Miles, agora no contexto de um sexteto, e o som que tinha começado a aperfeiçoar no seio do grupo de Monk mereceu do famoso crítico de jazz Ira Gitler o descritivo «folhas de som» («sheets of sound»), uma tentativa de colocar em palavras um som compacto que parecia traduzir a velocidade do próprio pensamento, com muitas notas a precipitarem-se umas em cima das outras. John Coltrane andava em busca de algo novo, seguindo em caminho inverso ao da maior parte dos músicos que normalmente descobriam a sua voz muito cedo e depois cristalizavam as suas personas artísticas, «basicamente pondo um ponto final na aventura», como diria mais tarde John S. Wilson. Seguiu-se um proveitoso período na Atlantic, começando com a edição do maravilhoso Giant Steps, em 1960 (gravado apenas duas semanas depois de participar nas sessões de Kind of Blue, de Miles Davis), e depois, nos dois anos seguintes, os igualmente clássicos Coltrane Jazz, My Favorite Things e Olé Coltrane.

BLITZ História do Rock: 1967, nas bancas

BLITZ História do Rock: 1967, nas bancas

Esse foi o período em que procurou estabelecer a sua própria voz, longe da sombra vasta de Miles Davis. Quando chegou a Nova Iorque em abril de 1960, depois de mais um compromisso na estrada com Miles, «Trane» decidiu seguir o seu próprio caminho. Na bagagem, como nota o escritor Ashley Khan no livro que devota ao álbum A Love Supreme, havia um presente especial do trompetista: «um escritor resumiu muito bem a relação de quatro anos e meio: Davis fez três grandes favores a Coltrane. Contratou-o, despediu-o e deu-lhe o seu primeiro saxofone soprano».

Em 1961, John Coltrane inaugurou uma frutuosa ligação à Impulse – «a casa que Trane construiu», como notou Ashley Kahn no título de um dos seus livros – e aí lançou registos cruciais que são verdadeiros pilares do jazz moderno, começando com Africa/Brass em 1961 e prosseguindo com clássicos como Impressions e Ballads (1963), Crescent (1964), A Love Supreme (1965), Ascension e Meditations (1966) e o derradeiro Expression (1967), o último disco pensado e aprovado por Coltrane antes da sua morte, em julho desse mesmo ano.

Ao lado do pianista McCoy Tyner, do baixista Jimmy Garrison e do baterista Elvin Jones, e equipado com um novo instrumento num gesto invulgar para um músico que já tinha definido uma voz no tenor, «Trane» forçou avanços na linguagem e aproximou-se de um lado espiritual na sua música que teve o seu pináculo em 1965 com a criação de uma das mais celebradas obras-primas da história do jazz, o incrível A Love Supreme. Alice Coltrane, a harpista que foi companheira e mãe dos filhos de John Coltrane, recordou nas páginas do livro de Ashley Khan o momento em que, após vários dias de reclusão, o seu marido desceu as escadas de casa, com um ar sereno: «foi como ver Moisés a descer da montanha, foi muito bonito. Ele desceu e havia alegria e paz no seu rosto, tranquilidade. E eu disse: “diz-me tudo, já não te víamos há quatro ou cinco dias...”. E ele respondeu: “esta foi a primeira vez que recebi toda a música que quero gravar numa suite, esta é a primeira vez que tenho tudo, estou pronto”». John Coltrane tinha apenas 38 anos quando gravou A Love Supreme e morreu vítima de cancro no fígado antes de completar 41, no ano de todos os prodígios musicais.

Originalmente publicado na revista História do Rock, número 1, junho de 2017