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Steve Keros

Red Hot Chili Peppers hoje em Lisboa. O regresso dos “desejados”

Donos de um percurso de respeito cujo início remonta à primeira metade dos anos 80, os californianos – que nunca deixaram de habitar a cúpula do rock – continuam a mostrar que estão aí para as curvas. À primeira noite do Super Bock Super Rock, onze anos depois da última vinda a Portugal, trarão êxitos planetários como "Give It Away" e "Scar Tissue" ou "Under the Bridge". Sobem ao palco da MEO Arena, hoje, às 24h

Manuel Rodrigues

Da última vez que passaram por Portugal, num longínquo ano de 2006, inseridos no quarto dia da segunda edição portuguesa do Rock in Rio, os Red Hot Chili Peppers tinham acabado de editar Stadium Arcadium, um álbum duplo que, apesar de se encontrar a milhas da popularidade de Califonication (1999) e By The Way (2002), trouxe ao mundo importantes singles como "Dani California", "Snow ((Hey Oh))", "Hump The Bump" e "Tell Me Baby".

Perante uma plateia de 76 mil pessoas, num dia em que também atuaram Orishas, Kasabian e Da Weasel, a banda de Anthony Kiedis e Flea serviu temas do seu novíssimo álbum e rematou o espetáculo com clássicos como "Californication", "By The Way", "Under The Bridge" e "Give It Away", ficando esta passagem guardada na memória dos fãs e curiosos que marcaram presença no certame lisboeta.

Os anos passaram e só em 2012 se ouviu falar de um novo regresso do coletivo norte-americano a terras lusas, no âmbito de mais um Rock in Rio-Lisboa. No entanto, aquilo que parecia garantido e que inflamou por completo aqueles que desde 2006 ansiavam por um reencontro, acabou por não acontecer, visto a organização do evento não ter chegado a um acordo com os homens de "Scar Tissue", deixando esta ideia em banho-maria até aos dias de hoje.

Volvidos mais de dez anos desde a última passagem do coletivo por Portugal, é chegada a altura de matar saudades. Os Red Hot Chili Peppers sobem ao palco principal do festival Super Bock Super Rock, no dia 13 de julho, numa noite que contará também com atuações de Legendary Tigerman e Capitão Fausto. Uma década depois, é legítimo perguntar: o que mudou?

Muita coisa. Principalmente a nível de estrutura. Em 2009, John Frusciante voltou a abandonar o coletivo (a primeira vez aconteceu em 1992, sendo substituído por Dave Navarro, que se manteve até 1998, altura em que Frusciante voltou a assumir o comando do instrumento de seis cordas) e deu lugar a Josh Klinghoffer, músico que já integrava as digressões da banda desde 2007.

Numa carta dirigida aos fãs, publicada no seu site oficial, Frusciante explicou que esta fora uma saída sem “dramas e desavenças” e que os seus colegas “compreendiam e apoiavam” a decisão. “De uma forma simples, os meus interesses musicais levaram-me noutra direção”, pode-se ler nessa mesma carta. “Desde o meu regresso e através deste tempo todo com a banda, andei muito empolgado com a exploração musical inerente a uma banda de rock, e gostava de o fazer com estas pessoas em particular. De há um tempo para cá, senti novamente esse entusiasmo, mas desta vez estava-me a estimular o facto de fazer música diferente, sozinho, sendo eu o meu próprio engenheiro”, acrescenta.

Klinghoffer tornou-se, assim, o guitarrista titular dos Red Hot Chili Peppers e gravou os álbuns que se seguiram a Stadium Arcadium. Em entrevista à Guitar World, por altura do lançamento de I’m With You, o guitarrista assumiu que uma das maiores dificuldades que encontrava, para além de ter que ter o vasto repertório do coletivo nas pontas dos dedos, era o facto de ter que reproduzir os solos de Frusciante, visto este ser um músico com uma “enorme destreza” na guitarra. “Eu agora tenho que encontrar um equilíbrio entre aquilo em que me sinto confortável a fazer e não sentir que existe algo a faltar que seria suposto estar ali”, admitiu na mesma entrevista.

Porém, por mais que a estrutura dos Red Hot Chili Peppers se altere e por mais álbuns que estes editem (com diferentes inspirações e diferentes níveis de popularidade), há um fator que parece ser inerente à banda por mais voltas que o calendário dê: o músculo no exercício ao vivo. Salva uma muito criticada atuação no intervalo da Super Bowl 2014 como banda convidada de Bruno Mars (na altura, vários jornais apuparam o playback instrumental do tema "Give It Away", o que levou a que Flea viesse a público explicar que foi a própria organização do evento a exigir que o momento musical acontecesse segundo esses contornos, para assegurar que tudo corresse pelo melhor e não colocar em causa todo o espetáculo), os Red Hot Chili Peppers colecionam no seu palmarés vários elogios às suas atuações, classificadas como “enérgicas”, “avassaladoras” e “contagiosas”, citando apenas alguns exemplos.

Em abril deste ano, no rescaldo de um concerto no Verizon Center, o site The Washington Times disse que, apesar de estarem mais velhos e, talvez, mais sábios, esta era uma banda que ainda conseguia manter a energia de outrora. «O vocalista Anthony Kiedis mantém um físico e voz matadores; Flea serve funk ao mesmo tempo que saltita em palco como um coelho perturbado; Chad Smith age como um combo entre Arnold Schwarzennegger e Chick Webb (baterista de jazz); e Josh Klinghoffer faz jus à energia, num estilo rápido e impetuoso», são algumas das frases que podemos retirar da reportagem.

Os gigantes levantam-se

Nem tudo é um mar de rosas na história mais recente dos Red Hot Chili Peppers. Em maio do ano passado, a banda foi obrigada a cancelar um concerto na Califórnia devido a um episódio hospitalar do vocalista Anthony Kiedis. Uma complicação a nível gástrico levou a que este tivesse que ser tratado de urgência, deixando os fãs da banda em estado de pânico. “Não estou bom, mas sinto-me bem”, contou o músico ao Entertainment Tonight Canada momentos depois de receber alta hospitalar, acrescentando que “eu acho que foi preciso ficar doente para perceber as causas e consequências da minha saúde em geral. Eu levo-me ao limite muitas vezes e tomo a minha saúde por garantida porque me sinto forte e capaz. De hoje em diante, vou começar a prestar mais atenção a estes sinais do corpo, pois acho que ele já me disse que tenho que mudar de algum modo a minha forma de viver”.

Também Flea teve sérias complicações a nível de saúde. Em fevereiro de 2015, o baixista e um dos membros fundadores dos Red Hot Chili Peppers sofreu um grave acidente de snowboard que lhe valeu fraturas múltiplas no braço e o obrigou a voltar a aprender o instrumento. “Não toquei baixo durante quatro ou cinco meses”, confessou o músico em conversa com a Rolling Stone, “ficava sentado no sofá o dia inteiro. Durante esse tempo todo, só pensava se conseguiria voltar a tocar outra vez. Mas o que foi realmente assustador foi o dia em que voltei a pegar no baixo. Tentei tocar uma única nota e não consegui, fui de imediato atacado por uma dor infernal. Foi horrível. No primeiro mês tentei tocar as coisas mais simples do mundo e não consegui, a minha mão não respondia. Tive que reaprender a tocar baixo durante três meses, até conseguir entrar em estúdio e gravar o nosso álbum. E ainda assim não estava totalmente recuperado, houve uma ou outra coisa que a minha mão não quis fazer”.

Felizmente, ambos os músicos conseguiram recuperar a tempo de gravar, editar e levar o mais recente álbum de originais para a estrada. The Getaway granjeou críticas positivas junto de instituições importantíssimas como a Rolling Stone e a Classic Rock. O New York Times diz que este é um “retorno às raízes, com uma particularidade: não soa exatamente como os vintages clássicos dos RHCP, mas pode soar a como nos lembramos deles”. A Pitchfork diz mesmo que, não fossem alguns pormenores negativos, este “poderia muito bem ter suplantado By The Way como o melhor trabalho dos Red Hot Chili Peppers pós Californication”.

A prova dos nove está marcada para o dia 13 de julho, no Parque das Nações, onde se espera o reencontro com um coletivo há muito desejado. Do Parque da Bela Vista à MEO Arena vão mais de dez anos de distância, dois álbuns de originais e uma mão cheia de músicas novas para incendiar multidões. Se tudo correr pelo melhor, esperamos vê-los com a mesma garra e dedicação.

Alinhamento provável

Intro Jam
Can't Stop
Around the World
Dani California
Snow ((Hey Oh))
Scar Tissue
The Zephyr Song
Dark Necessities
Go Robot
Californication
Sick Love
Suck My Kiss
Higher Ground (versão de Stevie Wonder)
Soul to Squeeze
Under the Bridge
By the Way
Goodbye Angels
Give It Away