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“Lutamos como cães, amuamos e fazemos beicinho. Mas, no fim, estamos juntos”. Red Hot Chili Peppers: hoje em Lisboa e há um ano à BLITZ

No verão passado, o baixista dos Red Hot Chili Peppers deu uma entrevista exclusiva à BLITZ. “Damos alegria uns aos outros, lutamos como cães, amuamos e fazemos beicinho. Mas no final estamos a criar algo juntos, algo em que acreditamos e que é belo", disse então Flea

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Entrevista publicada originalmente na BLITZ 121, em julho de 2016

São sete da tarde em Portugal Continental, mas onze da manhã em Los Angeles, na Califórnia, de onde o baixista dos Red Hot Chili Peppers, Flea, nos liga – perfeitamente desperto – para falarmos sobre The Getaway, o 11º álbum da banda que formou em 1983, com Anthony Kiedis, Hillel Slovak (falecido em 1988) e Jack Irons, que abandonou o grupo após a morte do companheiro. Apresentado pelo single «Dark Necessities», o novo disco é o primeiro desde Mother’s Milk, de 1989, a ser produzido por alguém que não o maverick Rick Rubin. Sobre a importância de escolher um caminho fresco – agora com Brian Burton, aka Dangermouse, no lugar de Rubin – e o valor do momento presente, Flea (verdadeiro nome: Michael Peter Balzary) falou com alegria e vontade. É só mais um começo para uma banda que já teve mais vidas do que é legítimo esperar de uma história escrita com as cores do rock and roll.

Na capa do vosso disco novo, The Getaway, há vários animais e uma menina. Segundo o Anthony Kiedis, ele é o corvo, o Josh Klinghoffer é a menina, o Chad Smith é o urso e o Flea é o guaxinim. Ficou contente por ser representado por esse animal?
Muito contente. Eu sou um guaxinim! Nem é uma questão de ser representado por ele, simplesmente sou eu. Nem escolhi esse animal, sou eu e pronto.

O Anthony Kiedis diz que, com esta capa, tentaram encontrar uma imagem «mais quente». Foi isso que procuraram, também, para o som do disco?
No que toca à imagem da capa, encontrámos uma imagem de que gostámos e decidimos que queríamos usá-la. Sim, é um pouco mais «quente», mas não se tratou de uma tentativa. É só aquilo de que gostámos. No que respeita ao som do álbum, seguimos a criatividade do momento, aquilo que nos soube bem. Não consigo descrever, nem mesmo perceber o que se passou. A única coisa que posso fazer é viver no momento e deixá-lo falar por mim. Estamos onde estamos – neste ponto da nossa vida e da história da banda, e somos curiosos, preocupamo-nos, somos apaixonados, adoramos música, e é o que é. Não sei descrever melhor, esse é o vosso trabalho!

Seguiram então a vossa intuição?
Sim, tem tudo a ver com o momento em que estamos. Sem dúvida que quisemos crescer e mudar e fazer algo diferente, e pensámos que seria boa ideia misturar tudo, saindo da nossa «zona de conforto». Quando já estamos habituados a fazer alguma coisa sempre da mesma forma, podemos ficar demasiado confortáveis. Divertimo-nos mesmo muito a fazer discos com o Rick [Rubin], a sério. Juntos fizemos discos que tocaram realmente o coração das pessoas, mas misturar e mudar tudo foi divertido. Entretanto, parti o braço [num acidente de snowboarding, o que atrasou as gravações do álbum] e decidimos escolher o Brian para enveredarmos por um processo diferente, para nos obrigarmos a ficar vulneráveis e fazer algo de novo.

O Dangermouse «obrigou-vos» a escrever canções no estúdio, mesmo depois de saber que já tinham várias outras alinhavadas. Ficaram surpreendidos com essa postura?
Não, faz parte da maneira como o Brian trabalha. Ele escreve sempre muito no estúdio, e nós nunca escrevemos nada. Ele sugeriu que trabalhássemos dessa forma, e era a isto que me referia quando disse que precisávamos de ficar mais vulneráveis, experimentando um novo processo. Ele disse: tentem lá! Eu confesso que tive um pouco de medo, porque não queria perder o que já tínhamos, mas lá escrevemos algumas coisas no estúdio e correu muito bem. Este disco tem 13 canções e cinco delas foram criadas em estúdio. As outras oito foram escritas da nossa maneira habitual, fora do estúdio.

Ao ler sobre a história dos Red Hot Chili Peppers, encontramos muitas vezes a palavra «química». Alguém que sai da banda porque a química com os outros músicos não era a melhor, uma troca de produtor porque havia pouca química para o anterior… A vossa banda tem tudo a ver com química?
É tudo uma questão de química! Claro que essa palavra é engraçada, porque faz parecer que somos cientistas, mas de certa forma até somos. Tentamos fazer várias coisas, juntamo-las e vemos o que acontece. Não se pode controlar uma banda e não se pode controlar a música. Se a controlares, não vai ter magia nenhuma – vai sair uma dessas porcarias manufaturadas que há hoje, e que sempre houve. Mas se deixares a música ter a sua própria voz, se a deixares ser livre e servir de veículo para esta coisa selvagem que te faz ser criativo, se a deixares atravessar-te, então podes fazer algo que tenha realmente um impacto emocional no mundo. Nós somos uma banda. Não somos um artista a solo, temos um processo criativo e artístico comunal, e para sermos criativos temos de interagir uns com os outros. Temos atitudes diferentes perante a música e a sua construção, e certas formas de lidar uns com os outros quando estamos numa sala. Enraivecemo-nos uns aos outros, damos alegria uns aos outros, lutamos como cães, amuamos e fazemos beicinho – e apreciamos a beleza do amor que criamos. Mas no final estamos a criar algo juntos, algo em que acreditamos e que é belo. Isso, como eu dizia, não é algo que se possa controlar. Lá está, é como juntar dois químicos e isso gerar uma explosão. Não podes controlar o que acontece quando juntas os componentes.

Conhece o Anthony Kiedis desde que eram adolescentes. O que diria que nunca mudou nele, ao longo destas décadas?
O Anthony é uma pessoa muito… determinada. Tem muita determinação para fazer aquilo que quer fazer. E tem um instinto de sobrevivência muito forte. É uma pessoa muito motivada. Quer dizer, eu também sou. Cada pessoa é determinada, à sua maneira, mas aqueles aspetos da sua personalidade nunca os vi diminuir, de todo, ao longo dos anos.

Red Hot Chili Peppers

Red Hot Chili Peppers

Rock Werchter

Boa parte do mundo conheceu-vos no início da década de 90, com Blood Sugar Sex Magik. Quase dez anos mais tarde, havia miúdos encantados com «aquela banda nova», os Red Hot Chili Peppers de Californication. Foi gratificante para vocês conquistarem um novo público, nessa altura?
Bem, primeiro que tudo, quando fizemos o Blood Sugar Sex Magik, já éramos uma banda velha. Já estávamos juntos há dez anos, quando esse disco saiu. Mas a magia da nossa banda [passa por aí]. De tantos em tantos anos, lançamos um disco e partimos em digressão. É o ciclo de ter uma banda: escrevemos canções, gravamos discos, andamos com o disco na estrada, descansamos um pouco e escrevemos mais canções, fazemos outro disco, partimos outra vez em digressão… É um ciclo, como o ciclo da natureza, quando plantamos alguma coisa, esperamos que cresça, comemo-la e apreciamo-la e depois fazemos tudo outra vez. Nós temos tido muita sorte porque, cada vez que fazemos um disco, eu subo ao palco, olho para as primeiras filas e vejo miúdos de 13, 14 e 15 anos malucos, mas completamente malucos. E para eles é novo, é uma experiência nova! E depois olho lá mais para trás e vejo os pais, vejo os avós, também presentes no público. E sinto que qualquer banda que já exista há algum tempo tem ali uma certa magia, tem qualquer coisa que a transporta no tempo. No nosso caso, rockamos sempre os miúdos. Temos uma certa qualidade selvagem, animal. Porque somos animais. Somos animais indomáveis. Somos curiosos, vulneráveis, selvagens. E os miúdos curtem isso. Curtem sempre. E sabem que quando vão ver-nos tocar, vão ver sangue, vão ver pessoas que estão dispostas a dar a sua vida em palco. E é isso que fazemos. Por isso… que a festa comece!

A digressão do vosso último álbum, I’m With You, foi uma das mais longas que já fizeram. É complicado encontrar motivação para subir ao palco, em tournées tão exigentes?
Desde o começo da banda até hoje, andar em digressão tem sido sempre complicado. Exige uma quantidade enorme de energia, de disciplina, e obriga-nos a viver como monges, na estrada, para conseguirmos levar o barco a bom porto. Essa digressão foi complicada, mas tem sido sempre. Há sempre aquela noite em que estamos tão cansados, mas temos de subir ao palco e tocar na mesma. Independentemente do que se passe, eu dou sempre tudo o que tenho, de tal forma que, quando saio de palco, caio para o lado. Mas subo sempre ao palco, porque é a minha missão na vida dar tudo o que tenho. Faço tudo o que está ao meu alcance para conseguir fazê-lo. É um desafio, mas sempre foi.

Têm planos de voltar a Portugal? A última vez que atuaram cá foi há dez anos, no Rock in Rio Lisboa…
Claro, temos que voltar a Portugal! E quando voltarmos tenho de ir fazer surf, também!

Uma das canções do vosso disco novo, «Feasting on the Flowers», tem o seu quê de Beatles…
É interessante, nunca pensei nisso. Mas cada vez que nos comparam aos Beatles, um dos grupos mais criativos de todos os tempos, é um grande elogio. Obrigado! Mas não posso comparar a música que fazemos a nada – a nossa música é um sentimento. Estamos sempre à procura de encontrar novos sentimentos, de alimentá-los, dar-lhes amor, de fazer deles o melhor que conseguirmos. Sinto-me muito bem em relação a isso, na verdade.

Neste disco há bastantes temas com piano. É o Flea que o toca?
Há bastante piano, é verdade. Eu toco e o [guitarrista] Josh também. Ambos tocamos piano neste disco e ambos escrevemos canções ao piano, o que é fixe.

Era esse tipo de indicação que o Dangermouse vos dava em estúdio, por exemplo? Ou tinha mais a ver com o ambiente do disco?
Sobretudo com o ambiente, sim. Como disse antes, passa tudo pelo processo. O facto de termos escrito em estúdio e tratado das camadas da forma que tratámos puxou pela nossa criatividade de forma diferente. No passado, ficávamos no estúdio a jammar, agora tocámos de forma diferente. O Rick Rubin ficou muito feliz por nós, ao saber o que íamos fazer. Com ele, escrevíamos as canções e ele ajudava-nos a torná-las o melhor possível, no que diz respeito à sua estrutura. O Brian [Dangermouse] esteve sempre mais interessado nas canções que tinham um impacto emotivo em si. Não era só: «vamos pegar no que já fizeram e tentar fazer o melhor que conseguirmos». Era mais: «só consigo trabalhar numa canção se me sentir emocionalmente ligada a ela». Por isso, só trabalhámos nas canções cuja estética lhe dizia alguma coisa. Escrevemos outras de que também gostamos bastante, e estou certo que, de uma forma ou outra, ainda havemos de gravá-las e lançá-las um dia.

Ainda está ligado ao Silverlake Conservatory of Music, a organização não lucrativa que fundou em 2001, na Califórnia, para fomentar a educação musical dos jovens locais?
Sim, é algo em que trabalho todos os dias da minha vida, para manter a escola a funcionar. Na verdade acabámos de arranjar um novo edifício e vamos mudar-nos para lá, por isso estamos muito entusiasmados.

Os Red Hot Chili Peppers apoiam o democrata Bernie Sanders. Está otimista em relação às suas hipóteses, neste momento [primavera de 2016]?
Não sei quais são as hipóteses de ele vir a ser presidente [dos Estados Unidos]. Mas sinto-me bem por apoiar alguém cujo fogo é puro. Penso que ele não é um «esquisitoide» sedento de poder. Acredito que é alguém que se preocupa realmente com os seres humanos, e que quer fazer alguma coisa com base nesse amor pelos seres humanos, e não no seu amor pelo poder. Foi por isso que, enquanto banda, decidimos apoiá-lo coletivamente.

Ainda faz ioga com regularidade?
Ioga não tenho feito muito, mas adoro, e meditação também. A parte espiritual da minha vida é algo que desenvolvo sempre. Não sou uma pessoa religiosa, mas acredito na energia divina e tento alimentá-la da melhor forma que sei.

É muito ligado à natureza, também?
Sim, muito. É na natureza que encontro a maior alegria e felicidade da minha vida. Nas montanhas, no mar, no deserto. É aí que sinto ter mais significado. Quanto mais perto estou da natureza, mais pequeno. E é aí que percebo que não sou assim tão importante – nem eu nem os meus problemas.

Como músico e, possivelmente, como fã, como reagiu à morte de dois vultos como David Bowie e Prince?
Fiquei chocado com a morte de ambos. Quando o Bowie partiu… eu cresci com ele. Era alguém que admirava e respeitava como músico, de forma tão profunda. A quantidade de discos que fez, nos anos 60 e 70, e até nos 80, são uma parte tão importante da minha infância… e acredito que ele nos mostrou realmente o que é possível na música pop. Mostrou-nos que é possível criar durante muito tempo, de forma muito sofisticada, intelectual, divertida, rock, introspetiva. Tudo isso no contexto da pop. E ao encarnar aquelas personagens todas, tocou as pessoas de forma tão profunda, tão bela e tão teatral. A sua morte afetou-me muito: senti uma mudança na energia do mundo. E o disco [Blackstar] tinha acabado de sair, eu tinha estado a ouvi-lo na noite anterior, nos meus phones, e depois morre… que loucura. E com o Prince, fiquei chocado. Estava em Atlanta, a participar num filme, quando ele deu o que viria a ser o seu último concerto. Eu ia ver, mas ele cancelou umas horas antes, porque não se sentia bem. Disseram que estava com gripe… Depois voltou e deu o concerto dois dias mais tarde, e eu pensei: já está bom. Já estava novamente em Los Angeles quando soube que tinha morrido, fiquei em choque. O Prince era incrível, gravou tanta coisa. Era uma pessoa tão incrível, prolífica, profundamente funky… Tanto o Prince como o Bowie tinham um lado muito feminino, muito teatral. Musicalmente, eram os dois muito sofisticados, profundos e fantásticos. São duas perdas enormes, de dois músicos que mudaram a minha vida, sem dúvida.

É verdade que está a escrever uma autobiografia?
É verdade, estou a escrever um livro, mas sem ninguém a ajudar-me. A maioria das pessoas tem alguém que as ajuda, eu estou a fazer tudo sozinho. Por ter estado a fazer o disco e isso tudo, não tenho tido tanto tempo como gostaria [para escrever], mas estou a tratar disso, hei de conseguir. Mas são as minhas memórias, não é uma biografia.

E tem uma boa memória a que possa recorrer?
Não! (risos)

Depois de mais de três décadas com alguma tragédia pelo meio – problemas com drogas duras, a morte do primeiro guitarrista, Hillel Slovak… – sente-se sortudo por estar vivo e, ao que tudo indica, com saúde?
Sinto-me tão grato e tão feliz por estar vivo, saudável e a criar, deixando esta energia poderosa circular em mim. Mas quando vejo alguém que já não via há muito tempo, e vejo a luz nos seus olhos, vejo a sua energia criativa, o amor e a felicidade dentro de si, fico mais uma vez agradecido. Poder viver a vida sem estar zangado, sem ser amargo, podendo canalizar a beleza que nos rodeia, é uma grande proeza. Vivemos num mundo mau, frio e cruel, onde as pessoas são tão mesquinhas, egoístas e violentas que me sinto muito grato pela criatividade, sim.

E a música é um veículo de excelência para despertar esses sentimentos…
Quando a música é verdadeira, pode despertar esse tipo de sentimento. E é mágico. Viajo por todo o mundo, vou à Etiópia e à Nigéria, toco com várias pessoas. Não falamos a mesma língua, mas podemos tocar e partilhar luz com o mundo. E não há nada melhor que isso.