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“Como fizemos Misfit, o meu novo disco”. Um texto de Legendary Tigerman

Em exclusivo para a BLITZ, Paulo Furtado fala sobre o novo álbum, que tem edição agendada para janeiro de 2018 mas será apresentado hoje, na íntegra, no festival Super Bock Super Rock

No fundo, tudo partiu da ideia de não querer fazer mais um disco nos moldes em que tinha escrito os outros, ou seja, não queria escrever canções, depois escolher um grupo delas e daí fazer um disco. Na realidade, no início não sabia muito bem o caminho que isto ia seguir. A única ideia que tinha muito clara na minha cabeça era que ia tentar construir este personagem, juntamente com o [realizador] Pedro Maia e a [fotógrafa] Rita Lino, e que íamos fazer esta viagem de busca interior deste homem pelo deserto norte-americano. Não tinha muito mais do que isso, também de modo bastante propositado da minha parte porque queria ser influenciado o mais possível pela viagem e pela paisagem e tudo o que pudesse acontecer entre Los Angeles e Death Valley. Acabou por funcionar.

Obviamente que este personagem tem muitas coisas em que se cruza comigo. É uma espécie de monstro Frankenstein que tem uma grande parte de mim, porque fui eu que escrevi os diários dele e, de certa forma, imaginei quem era este gajo que ia para o deserto, porque é que ia para o deserto, de que é que gostava, de que filmes gostava… Fui obviamente buscar referências minhas e a [canção] “Motorcycle Boy”, por exemplo, tem a ver com o Rumble Fish [Juventude Inquieta, 1983], que é um dos meus filmes de sempre. Mas também tem um bocadinho do Pedro e da Rita, no sentido em que há muitas coisas que foram atiradas para dentro do filme e acabaram depois por influenciar o disco.

[O facto de não ser um disco em formato one man band] era um fator assente antes de começar a escrever as canções. Aliás, mal as tive minimamente definidas passámos logo para a sala de ensaio os três. Isso estava totalmente assumido e conversado, desde o início, com o Paulo Segadães e o João Cabrita. Apesar de a composição ter sido toda minha, depois houve muito trabalho de estúdio e este disco, a sonoridade desta one man band dentro de um trio (risos), que é como vejo isto, tem obviamente muito deles também. O one man band pode não estar lá do ponto de vista mais mecânico da coisa, mas o meu modo de tocar guitarra, o modo como faço muitas coisas, tem muito a ver com o facto de ter sido one man band nos últimos 15 anos.

Havia esta ideia de criar uma parede de som e o meu modo de tocar guitarra tem caminhado cada vez mais nessa direção. Hoje em dia, toco em cinco amplificadores ao mesmo tempo, com efeitos completamente diferentes, portanto houve uma procura muito grande que teve também a ver com a ligação que fui criando com o saxofone do Cabrita. Percebi que, do ponto de vista dos timbres, podíamos criar uma coisa muito forte e muito diferente. Eu e o Segadães já vínhamos a trabalhar as coisas de forma muito orgânica quando o Cabrita se juntou. Fomos construindo por cima das coisas que já estávamos a fazer e, de repente, havia muita coisa que soava quase a Morphine. Por uma razão muito clara: eu com a guitarra toco baixo também e nos Morphine também havia um sax barítono, que tem um timbre muito característico, grave e forte, e bateria… Havia ali uma relação casual, mas muito bem-vinda.

Senti também alguma necessidade de intercalar essa sonoridade mais grave e com mais espaço com esta outra...“Como conseguimos encher o som de todas as maneiras em todas as frequências possíveis de modo a fazer uma grande parede de som?”. Era algo que já estava a acontecer nos ensaios e que foi transportado para o estúdio, muito ajudado pelo tipo de amplificadores que o Dave [Catching] tinha no Rancho De La Luna, pelo tipo de pedais que usámos… No “Motorcycle Boy” aquilo era um horror estar dentro da sala dos amplificadores, que na verdade é o quarto do Dave. Havia muita coisa a acontecer.

Isso acontece em muitas músicas e é claramente um caminho que fomos descobrindo nos ensaios, depois maximizado no rancho e depois ainda mais pela mistura do Johnny Hostile. Ele percebeu perfeitamente qual era a intenção, aquilo que queríamos fazer a como queríamos soar. O disco tem esse lado engraçado: foi gravado num sítio clássico de rock and roll, de uma maneira mais ou menos clássica, e depois o Johnny misturou de uma maneira muito… não queria dizer moderna, porque é uma palavra meia estranha... de uma maneira bastante fresca e com uma perspetiva muito livre, que também tem muito a ver com música eletrónica e o modo de ele trabalhar.

Declarações de Paulo Furtado recolhidas por Mário Rui Vieira.