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Pierre Henry

STEPHANE DE SAKUTIN

Morreu o francês Pierre Henry

O pioneiro da música concreta tinha 89 anos

O compositor francês Pierre Henry, um dos pioneiros da eletroacústica e da música concreta, inventor de sons que integrava nas suas obras, morreu esta semana, aos 89 anos, informaram fontes do seu círculo mais próximo.

"Morreu esta noite [6 de julho]. Completaria 90 anos a 9 de dezembro", disse à agência France Presse a sua assistente, Isabelle Warnier, que acompanha a família do compositor.

Nascido em Paris, em 1927, Pierre Henry foi um dos fundadores da chamada música concreta, concebida a partir de sons e ruídos pré-gravados, a par do seu compatriota Pierre Schaeffer (1910-1995), com quem trabalhou após a II Guerra Mundial, e com quem compôs Sinfonia para um Homem Só (1950).

Criador da Missa para o Tempo Presente (1967), e visto na atualidade como um dos precursores do sampling, Pierre Henry foi discípulo do compositor francês Olivier Messiaen, o criador de O Banquete Celeste e de Visões do Amen, determinante para a contemporaneidade da música na segunda metade do século XX, que também teve Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen entre os seus alunos.

Pierre Henry iniciou a formação musical na infância, à margem dos modelos curriculares do Conservatório de Paris, que não frequentou por motivos de saúde. Entre os seus mestres conta-se igualmente Nadia Boulanger, que ensinou personalidades tão distintas como o músico Quincy Jones, os compositores Aaron Copland e Philip Glass ou o maestro John Eliot Gardiner,
Desde o início do seu percurso, Henry recusou instrumentos tradicionais, preferindo a criação de sons a partir da eletrónica e o tratamento de ruídos quotidianos, que integrava na composição.

A Sinfonia para um Homem Só, que compôs com Schaeffer, seu mestre da maturidade, é uma obra em 12 andamentos, inteiramente concebida a partir de sons provocados pelo corpo humano, que foi ouvida em Portugal no festival Música Viva, a par de peças de Stockhausen, Iannis Xenakis e Edgar Varèse.
A obra data do período em que Henry trabalhou no estúdio de investigação Club d'Essai (de 1949 a 1958), criado por Pierre Schaeffer, na década de 1940, no seio da RTF, rádio e televisão públicas francesas.

Na década de 1950, Pierre Henry foi o responsável pela investigação do Groupe de Recherche de Musique Concrète (GRMC) da rádio francesa, onde fundou o seu próprio estúdio (APSOME), que financiou sobretudo com música para cinema, teatro e publicidade.

Em 1964, arriscou a incursão na música popular, com "Psyche Rock", peça mais tarde remisturada por Fatboy Slim e William Orbit, usada na banda sonora da série de animação Futurama, de Matt Groening.

Pierre Henry colaborou igualmente com a banda britânica Spooky Tooth, em "Ceremony", e com o trio norte-americano Violent Femmes, no álbum Freak Magnet.

Entre as obras do compositor francês destacam-se Astrologie ou le Miroir de la Vie (1952), a primeira peça de música concreta para cinema, e "Messe Pour le Temps Présent", concebida como um bailado, que contou com a colaboração do coreógrafo Maurice Béjart.

A sua produção para dança fez-se aliás com outros coreógrafos como George Balanchine, Merce Cunningham.
Concebeu também instalações para artes plásticas com artistas como Yves Klein, Georges Mathieu e Nicolas Schöffer, entre outros.

Em 2005, Pierre Henry esteve em Lisboa, na abertura da Festa da Música do Centro Cultural de Belém, dedicada a Beethoven e aos seus contemporâneos, para a apresentação de uma nova versão de Décima Sinfonia Remix, de 1979.

A obra tinha por material de base elementos vindos das nove sinfonias de Beethoven, que eram trabalhados eletronicamente ao vivo, por Pierre Henry. Versões anteriores tinham sido apresentadas apenas na Salla Pleyel de Paris (1988) e no Festival de Montreaux (1998).

Num inquérito do jornal britânico The Guardian, de 2006, sobre as suas obras musicais preferidas, Pierre Henry indicou, a Missa em Si Menor, de Johann Sebastian Bach, por ter sido aquela que o fez querer ser compositor, e Trois Petites Liturgies de la Presence Divine, de Olivier Messiaen, que o acompanhou no desenvolvimento do conceito da música concreta.

Indicou também Weasels Ripped My Flesh, de Frank Zappa, por lhe ter revelado as possibilidades da eletroacústica, a canção de "Tu T' Laisses Aller", de Charles Aznavour, por que se apaixonou, e "Blues Theme", do guitarrista Davie Allan, composta para a banda sonora de The Wild Angels, de Roger Corman, por ter inspirado Interieur/ Exterieur (1996), uma das suas maiores obras.

AGÊNCIA LUSA