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Rita Carmo

A história de Piruka, o português que vale milhões

Centenas de milhares de seguidores no YouTube e Spotify, milhões de plays acumulados nas plataformas de streaming, uma ascensão meteórica. Fomos conhecer o rapper de Lisboa que, sem uma “máquina” convencional, anda nas bocas do mundo

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

O Google Maps revela-se um aliado importante na hora de ir ao encontro de Piruka, numa rua de Benfica escondida nas traseiras de uns prédios residenciais de tamanho generoso. Nessa rua há pequenos restaurantes, cafés, um cabeleireiro e outros espaços comerciais cujas decorações deixam claro que aquela é uma zona fora dos eixos de gentrificação que têm transformado a cidade de Lisboa, com gente que percebe imediatamente quando um rosto novo entra por ali em busca de um número de porta. E é lógico que uma pessoa se socorra de uma app de mapas no telemóvel para encontrar Piruka: afinal de contas, essa é a base do seu tremendo sucesso, com números absolutamente invulgares para a escala portuguesa (somos 10 milhões, lembram-se?) acumulados nas plataformas de streaming.

«Não tenho noção dos números», confessa-nos André, voz firme, olhar transparente e pose calma de quem ainda não dobrou a barreira do quarto de século de vida. «Não vou mentir, sei que já passámos os 25 milhões de plays do álbum no Youtube, porque os números aparecem quando espreito os vídeos». Na verdade, os números indicam que Piruka não deve espreitar o seu canal naquela plataforma de streaming há alguns dias porque AClara, álbum que lançou na reta final de 2016, já soma mais de 32 milhões de views, número extraordinário no panorama nacional.

Só para efeitos de aferição da escala correta do impacto deste jovem rapper da Madorna (subúrbio de onde é igualmente originário outro fenómeno, Dillaz, que também acumula números astronómicos no YouTube), pode dizer-se que nomes como os The Gift (cerca de 15 milhões de visualizações), António Zambujo (1,17 milhões), Ana Moura (13 milhões) ou Diogo Piçarra (44 milhões) ficam aquém dos números de Piruka que, com apenas meia centena de vídeos no seu canal oficial, soma já 64 milhões de visualizações, estando muito perto dos 200 mil subscritores. Só Agir parece – neste universo – sobrepor-se a estes números, com os seus quase 120 clips e os cerca de 230 mil subscritores a garantirem para cima de 85 milhões de visualizações. Mas há uma diferença importante no caso de Piruka: ao contrário de todos os nomes citados, o homem de «Sirenes» ou «Se Eu Não Acordar Amanhã» não tem atrás de si uma estrutura editorial convencional. A propósito das pessoas que o rodeiam, Piruka prefere usar a palavra «família».

«Em primeiro lugar, nunca me colei a nenhum rapper com nome», justifica. «Até do meu amigo Dillaz me afastei para poder seguir o meu próprio caminho. Tenho ídolos, claro – o Sam (The Kid), o Regula... – mas nunca me colei a ninguém». Quando questionado sobre a receita para o sucesso de que atualmente goza, Piruka sublinha: «posso garantir que pensei sempre pela minha cabeça. Ouço críticas ou elogios, vindos das pessoas que me rodeiam, mas na hora de decidir é a minha cabeça que conta». Piruka, ao falar em trilhar o seu próprio caminho e em assumir o peso das suas próprias opções, está a descrever a sua personalidade independente: «ser independente é fundamental. Já todas as editoras vieram falar comigo», confirma, «mas para me contratarem teriam que me dar dinheiro à cabeça». O rapper diz não precisar de promessas quando a operação que montou – «não é uma editora; é uma agência, a minha família...» – funciona e traz-lhe resultados seguros. «A net é importante, mas se comemos bem é por causa dos concertos. Nas Queimas das Fitas, por exemplo, tenho seis concertos grandes, nos maiores palcos».

Piruka

Piruka

Rita Carmo

O rap é o rock de hoje

Compreende-se que Piruka seja um sinal muito claro e direto das novas dinâmicas desta indústria: com uma estrutura informal, embora altamente eficaz, o rapper que tem por quartel-general uma pequena loja numa rua escondida de um bairro nas margens de Lisboa – decorado, por exemplo, com retratos de Kendrick Lamar, Drake, Kanye West ou Chris Brown da autoria de João Rodrigues, o artista que assinou as ilustrações da capa de Aclara – tem resistido aos avanços das editoras convencionais, até porque o que ouviu num primeiro momento, quando começou a dar sinais de que se poderia transformar no sucesso que o tempo confirmou, não foi o mais lisonjeiro: «Todos me diziam que com um nome destes eu nunca iria bater, nunca ninguém iria dizer o meu nome na rádio. Mas hoje», contrapõe André, Piruka para os muitos milhares que o seguem, «passo na Comercial e na RFM e só não toco na M80 porque tenho menos de 30 anos (risos)». Nas primeiras abordagens de que foi alvo, revela-nos o rapper, chegou a haver quem lhe sugerisse com alguma veemência que teria que mudar de nome, mas não só: «eu nunca mudei nada, nem a maneira de vestir, nem de falar, continuo o mesmo. Chegaram a dizer-me que até teria que deixar de fumar, se quisesse servir de exemplo para os mais novos. Mas eu sou o mesmo puto, o mesmo parvinho de sempre. E tenho a mesma convicção do início: quem se ilude, desilude-se, e eu nunca tive ilusões».

Na conversa tida numa pequena esplanada banhada pelo ruído constante do tráfego na Segunda Circular, que passa ali mesmo ao lado, Piruka conta-nos um pouco do seu passado: «comecei a rimar por necessidade. Estava com uma vida um pouco lixada e para não atacar outras pessoas, atacava o papel. Para mim, isto do rap começou por ser uma terapia e, mais do que resolver problemas, permitiu-me resolver-me a mim mesmo. E ninguém», prossegue, «mas mesmo ninguém acreditava em mim, nem no que eu estava a fazer: nem o meu pai, nem a minha mãe. Acho que para eles eu seria um daqueles putos que aos 18 anos estaria já a tirar umas “férias” prolongadas». E agora? «Agora até já saí num teste de Português», responde, com orgulho visível e justificado o miúdo da Madorna que tem números de gente grande.
O hip-hop parece ser a banda sonora dos tempos modernos, ideia que Piruka ecoa quando diz que «as editoras têm que perceber que o rap representa hoje o que o rock representava há 20 anos: é com isto que os putos se identificam». E, por isso mesmo, Piruka não teme a ideia de «moda»: «ainda bem que o rap está na moda senão nem poderíamos comer e ninguém faria o dinheiro que se está a fazer: não haveria festivais ou Queimas para nenhum de nós». E porque é que chegámos aqui? A internet e o seu impacto na vida das pessoas ajuda a explicar o alcance: «os veteranos, aqueles que vieram antes, os Sams e os Boss ACs não tinham o que nós temos hoje, os telefones e os tablets, os Spotifys e os Youtubes, os Instagrams. É daí que vem o nosso ganha-pão. Eu nem ligava aos telefones no início, mas sei que hoje preciso de ir alimentando os meus seguidores no Insta e nas outras plataformas. Eles precisam disso».

O sucesso de Piruka assenta, no entanto, numa vontade real e orgânica de partilha, numa sintonia geracional que explica os números, não numa qualquer estratégia gizada num departamento de marketing: «eu nunca paguei um cêntimo no YouTube, juro pela minha filha, que nunca mais dê um concerto se isso não é verdade! Não faria sentido. As pessoas só têm a importância que lhes damos. O meu pai ensinou-me isso quando estava na prisão. E eu quero que me deem importância, não quero comprá-la».

Quando explica que do seu azar – referindo-se à vida difícil – veio a sua sorte, e quando deixa claro que aquilo que vai rimando é o que vai pautando a sua própria vida («a minha música é eu, eu, eu... a minha mãe, a minha filha... não sei fazer músicas sobre coisas que não tenha vivido»), Piruka oferece a chave que abre o cofre que guarda o segredo do seu sucesso. Ao meter nas suas rimas a vida como ela é, oferece um espelho em que muita gente da sua idade facilmente se revê – sem filtros ou fantasias, sem máscaras ou ilusões. E isso leva aos milhões de plays: aos quase 200 mil subscritores no YouTube ainda acrescenta quase 150 mil ouvintes mensais no Spotify (o dobro de Agir, quatro vezes mais do que os Gift ou três vezes mais do que António Zambujo), uma generosa base de apoio, construída por um artista em modo solitário, rodeado apenas de família e sem sequer ter um contrato assinado: «nunca foi preciso a minha assinatura para eles saberem aquilo que eu quero».

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2017