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Perfume Genius

Revolução arco-íris: quando o “queer” vira punk

Depois de longas décadas a “ler nas entrelinhas”, uma série de artistas afirma, como nunca antes, a sua identidade sexual nas músicas que escreve e na postura transgressiva que adota em palco e fora dele. Sem freio e sem receios

Quando, em abril de 1998, George Michael assumiu a sua homossexualidade perante o mundo numa entrevista à estação de televisão norte-americana CNN, disse algo que, porventura, só os mais distraídos ainda não tinham percebido: «quero que as pessoas saibam que as canções que escrevi quando tinha relações com mulheres eram realmente sobre mulheres e que as canções que escrevi desde então têm sido, de forma bastante óbvia, sobre homens. Portanto, no que diz respeito ao meu trabalho, nunca hesitei em definir a minha sexualidade. Escrevo sobre a minha vida». Poucos meses depois, o cantor britânico abraçou a polémica do teledisco de «Outside», no qual surgiam dois polícias aos beijos na rua. Quase vinte anos passados, vivemos um período em que a sexualidade é vivida na música pop, no geral, de forma bastante mais óbvia (se Justin Timberlake trouxe «SexyBack» em 2006, há poucas canções de Nicki Minaj que não venham, hoje, carregadas de uma forte carga sexual) e essa postura mais «in your face» começou a alastrar também a artistas que não se identificam como heterossexuais. «Vivemos num tempo em que as pessoas estão prontas para ouvir histórias queer», disse recentemente Liv Bruce, baterista dos norte-americanos PWR BTTM (lê-se «power bottom») em entrevista à Papermag. A sinceridade com que a dupla queer punk fala sobre a sua sexualidade nas canções que escreve (em «I Wanna Boi», por exemplo, são bastante explícitos: «I want a boy who thinks it’s sexy when my lipstick bleeds/I want a boy who can go all night without stopping», algo como «quero um rapaz que ache sexy quando o meu batom sangra/quero um rapaz que aguente a noite inteira sem parar») tem espelho em trabalhos de músicos com carreiras tão díspares, e que apelam a pessoas tão diferentes, quanto Perfume Genius, Years & Years, Anohni, Mykki Blanco ou Frank Ocean, todos eles defensores acérrimos das questões que mais afetam a comunidade LGBT da qual fazem parte.

Claro que a maior abertura que vivemos hoje – e o espaço de visibilidade e discussão conquistado nos media internacionais – não existiria se, ao longo dos anos, artistas como Elton John, Boy George, KD Lang, Pet Shop Boys, Rufus Wainwright, Peaches ou Scissor Sisters, não tivessem «preparado o terreno», mas a verdade é que poucos, entre os exemplos anteriores, foram tão arrojados ou transgressores quanto a verdadeira legião de artistas que hoje vemos a ganhar o respeito da indústria musical e a admiração dos melómanos e que não se escusam a falar muito publicamente sobre os problemas que afetam a comunidade. Entre os mais «intensos», encontram-se o venezuelano Arca, produtor de álbuns de Björk e FKA Twigs agora a afirmar-se em nome próprio, que marca uma posição logo com a sua imagem intergénero (é comum juntar a feminilidade do salto alto com a masculinidade do jockstrap); o norte-americano Adam Lambert, que deixou meio mundo chocado (e a outra metade a aplaudir) quando decidiu beijar na boca um dos seus músicos durante a cerimónia de 2009 dos American Music Awards; e Olly Alexander, vocalista dos britânicos Years & Years, que tem manifestando a sua tristeza por não haver mais artistas gay a usar pronomes masculinos quando se referem aos seus interesses amorosos nas suas canções. Hoje, o choque da audiência mais conservadora não será tanto com a revelação da identidade sexual de um determinado artista – diz-se que as vendas dos discos de Elton John sofreram uma forte quebra quando este assumiu, em 1976, nas páginas da Rolling Stone : «não há nada de errado em ir para a cama com alguém do teu próprio sexo» – mas mais com a forma despudorada como a sexualidade é vivida e expressada na música, em palco ou fora dele.

Arca

Arca

Sentimento de dever

Quando Kele Okereke, dos Bloc Party, defendeu que era «bom mostrar que há gays de todas as formas e tamanhos», na entrevista à revista BUTT que marcou a sua «saída do armário», o que queria verdadeiramente dizer era que a vontade de revelar ao mundo a sua orientação sexual tinha como intuito principal ajudar os fãs de música gays e negros que não se sentiam representados nos media, que não tinham uma voz nem um artista para quem olhar como um exemplo. «Tenho um certo sentimento de dever, de missão, relativamente a isso», disse-nos, seguindo a mesma linha de raciocínio, Perfume Genius em 2014, «sinto que posso dar voz àquelas pessoas que vivem em cidades pequenas, que não se assumiram perante a família». Também Adam Lambert, em 2010, nos disse algo parecido: «não quero não falar do assunto porque sinto que alguém precisa de ter orgulho. Não temos quase nenhum artista masculino que mostre orgulho em ser gay no mundo da pop americana». É uma forma de encarar a questão, mas há artistas que não sentem tanto o peso da «missão» e só se querem expressar-se livremente, perceber-se melhor a eles próprios e/ou fazer os outros pensar no assunto: «a discussão sobre a sexualidade e o questionar da sexualidade são das coisas mais importantes nas minhas letras», confessou-nos Mika em 2010, «o facto de não usar rótulos é feito deliberadamente para me poder libertar»; «se as pessoas tirarem um pouco do seu tempo para me conhecerem, esquecem o facto de eu ser gay. Eu e a minha música somos muito mais do que isso», disse-nos John Grant em 2011, «se não gostarem podem desaparecer, se me aceitarem podem vir a conhecer uma pessoa fantástica. Passei grande parte da minha vida a tentar agradar aos outros, a tentar integrar-me e a tentar não ser gay. A tentar encaixar-me nos paradigmas religiosos em que estive envolvido quando era mais novo. Sabe o que acontece quando fazemos isso? Depressão, vícios e uma grande tristeza». Beth Ditto, que se deu a conhecer ao mundo como líder dos norte-americanos Gossip, nunca escondeu a sua homossexualidade, mas, numa entrevista que deu ao jornal britânico Evening Standard, em 2012, defendeu algo que fará menos sentido nas cabeças de um artista gay em 2017 mas que, obviamente, traz para esta discussão um ponto importante: «não penso que um artista gay tenha o dever de se assumir. Os artistas são seres humanos. Têm famílias, têm os seus próprios problemas com a sua sexualidade, as suas próprias questões por resolver. Quando as pessoas olham para uma figura pública pensam que há um elemento de responsabilidade social, mas não podemos compreender a sua posição se não estivermos no lugar dela. Não é assim tão simples».

Meia década passada das declarações de Ditto, a visibilidade de artistas LGBT é cada vez maior e mais aplaudida, com estrelas planetárias como Miley Cyrus a assumir sem grandes questões a sua pansexualidade (cuja definição é, grosso modo, a capacidade de desenvolver atração sexual ou amorosa por qualquer pessoa, independentemente do seu sexo ou identidade de género): «ao longo da vida, nunca compreendi o meu próprio género e a minha própria sexualidade. Os meus olhos começaram a abrir-se no quinto ou sexto ano. A minha primeira relação foi com uma miúda», confessou à revista Variety, acrescentando de seguida que sempre detestou a palavra bissexual «porque até isso me coloca numa categoria. Nunca penso em alguém como sendo rapaz ou rapariga». Falando de nomes de primeira linha da indústria musical, é impossível contornar a importância da carta aberta aos admiradores divulgada por Frank Ocean antes de editar, em 2012, channel ORANGE, o álbum que o tornou num dos artistas mais aplaudidos da sua geração. Na mensagem, o músico, até então um segredo bem guardado pela comunidade hip-hop devido à sua ligação ao coletivo Odd Future de Tyler, The Creator, assumia: «há quatro verões, conheci uma pessoa. Tinha 19 anos. Ele também. Foi o meu primeiro amor». Apesar de não esclarecer se era gay ou bissexual, e de não ter propriamente voltado a falar sobre o assunto de forma direta, este anúncio foi visto como deveras corajoso, tendo em conta que existia (e persiste) um entendimento comum de que no universo do hip-hop ainda há muita homofobia. Em Blonde, o álbum que Ocean editou no ano passado, há um tema sobre um engate falhado num bar gay e em «Chanel», single editado já este ano, o músico canta coisas como «my guy pretty like a girl and he got fight stories to tell» («o meu gajo é tão bonito como uma rapariga e tem histórias sobre lutas para contar») ou «I see both sides like Chanel» («vejo os dois lados, como Chanel»), algo que tem sido interpretado como uma confirmação da sua bissexualidade. O britânico Sam Smith, que se tornou uma das maiores sensações da pop desde que se estreou com In the Lonely Hour, em 2014, também cedo esclareceu que uma das grandes inspirações do álbum tinha sido o seu amor não correspondido por um homem. «É sobre um tipo e só queria que as pessoas soubessem disso – quero que fique bem claro que é sobre ele que falo no álbum», disse à Fader, «sempre fui tratado como uma pessoa normal, nunca tive problemas. Sei que algumas pessoas têm problemas na vida, mas eu não tenho tido, e isto é tão normal quanto o meu braço direito. Quero que isso seja normal porque é um não-assunto (…) sou artista e falar destas coisas em entrevistas não é o meu conceito de arte, é apenas o meu conceito de troca de ideias, de falar de humano para humano. Não deveria ser uma questão, mas vai ser sempre».

PWR BTTM

PWR BTTM

Os grandes agitadores

Estes pequenos grandes atos individuais têm vindo a marcar importantes revoluções nas mentalidades, é um facto, mas as posturas mais extremadas, menos subliminares e mais transgressoras, parecem afirmar-se como a nova fase do processo, para um progresso mais acelerado. «No final dos anos 90 e início dos anos 2000, no início da nossa carreira, tudo me parecia incrivelmente heteronormativo», defendeu Sara Quin, do duo canadiano Tegan and Sara, em entrevista ao site The Line of Best Fit no ano passado, «parecia que tinhas de ser algo muito concreto e ter um determinado aspeto. Senti que havia uma grande falta de visibilidade queer na música e na indústria musical. De uma forma estranha, aquilo que sinto que é muito refrescante naquilo que se passa agora na música pop é que tudo parece muito queer. Não estou a querer dizer que é toda a gente gay, o que quero transmitir é que há uma maior abertura na identidade das estrelas pop, sejam elas heterossexuais ou gay». Olly Alexander quer assistir a uma pequena grande revolução: «gostaria de ouvir um artista gay exprimir a sua sexualidade de forma verdadeiramente aberta», declarou em entrevista ao Guardian no ano passado, «é algo que tentei fazer um pouco no nosso álbum, mas ter a possibilidade de falar sobre sexo é provavelmente algo novo para artistas gay, portanto gostaria de ver isso no mainstream». Ao Digital Sky, o cantor britânico acrescentou: «não posso falar por todas as pessoas gay, porque há muitos assuntos e experiências diferentes e pessoas de todas as cores e feitios, mas posso falar por mim e é isso que faço nas minhas canções e entrevistas (…) também acredito que se queremos que o mundo mude, se queremos ver mudanças sociais, temos de vestir a camisola, portanto estou aqui a 100%, sempre, a defender a igualdade e a igualdade de direitos. Penso que isso faz tão parte da agenda como a música, porque eu sou assim». Ainda no campo da música mais mainstream, os xx, banda que sempre se pautou por uma atitude discreta, resolveu «abraçar a causa» de forma mais explícita no teledisco de «On Hold», primeiro avanço para I See You, álbum editado no início deste ano. «Se as pessoas dizem ‘os xx têm dois homens a beijar-se num vídeo’ e isso as desafiar, então é uma coisa boa. Faz sentido, para nós, abraçar isso», disse Romy Madley Croft, que anunciou também no início deste ano o seu noivado com a designer Hannah Marshall, em entrevista à Fader.

Perfume Genius, Arca, Mykki Blanco ou PWR BTTM não andam propriamente por esse mundo a encabeçar cartazes de festivais, mas todos eles, à sua maneira transgressora têm empurrado as fronteiras que separam a cultura queer da esfera pública. Em 2012, Mike Hadreas, que o mundo conhece como Perfume Genius, viu um spot promocional ao teledisco de «Hood» ser censurado pelo YouTube, simplesmente porque se mostra a ser maquilhado, penteado, abraçado e embalado por um homem (o ator de filmes pornográficos gay Arpad Miklos, que se suicidou no ano seguinte) praticamente nu. «O anúncio não foi aprovado porque viola a nossa política de conteúdo para adultos», respondeu o site de vídeos à editora de Genius na altura, acrescentando que o vídeo incluía «conteúdo impróprio para as famílias» apesar de nada sexual se passar. A questão acabou por ser ultrapassada e o teledisco pode ser visto na íntegra (quase 2 milhões de visualizações só no YouTube). Volvidos cinco anos, os vídeos do terceiro álbum de Arca, acabado de editar, serão porventura bem mais explícitos, mas todos eles podem ser assistidos sem censura (incluindo no YouTube). E a forma como o músico venezuelano encara a sua música, as temáticas que gosta de explorar, são tudo menos normativas: «há um gesto político quando, por exemplo, incluo numa letra algo sobre ser [sexualmente] passivo, coisa que fiz no tema “Broke Up”», defende em entrevista à Pitchfork, «sempre que atuo, grito para uma sala com milhares de pessoas que “é muito para eu conseguir aguentar” e aquilo a que me refiro é a sexo anal. Não faço isso como forma de confrontar as pessoas, faço-o baseado na minha experiência. Se vou escrever uma letra sobre erotismo, vou ser tão explícito quanto a música exigir».

Do tal universo considerado, erroneamente ou não, o mais homofóbico da indústria musical, irrompeu, no início desta década, Mykki Blanco, alter-ego feminino do rapper norte-americano Michael David Quattlebaum Jr., provavelmente um dos mais arrojados artistas da comunidade LGBT atual. «Quando as pessoas me perguntam sobre gays no hip-hop, eu falo sobre o assunto, mas a verdade é que isso me define muito pouco quando comparando com tudo o resto», disse um dia à revista Interview. Estas declarações vêm de encontro a algo que o músico já tinha declarado à MTV: «um dia vou ter editado tanta música e ter feito tanta coisa diferente e brincado com tantas nuances diferentes que o termo “queer rap” vai ser irrelevante». A postura provocadora que explora nos seus vídeos, saltando entre identidade masculina e feminina, e as letras provocadoras das suas canções marcam uma posição sem que o artista precise de estar constantemente a falar sobre a sua sexualidade. «Apesar de as pessoas me identificarem como um artista queer, quando escrevi “For the Cunts” percebi que nunca tinha feito uma canção para pessoas gay», disse à Fader, «e não é que isso nunca tenha feito parte dos planos, porque sempre brinquei com a questão dos géneros. Sempre disse coisas abertamente queer em muitas das minhas canções [mas] quando escrevi “For the Cunts” o que queria era fazer uma canção para os meus amigos gay mais mauzinhos e transformá-la num tema de dança sobre o tempo que passo com eles. É rap pastilha elástica de propósito. Queria fazer o tema mais paneleiro que algum dia fiz e assim surgiu “For the Cunts”». Esta postura desafiadora é partilhada pela dupla punk PWR BTTM: Liv Bruce e Ben Hopkins identificam-se ambos como queer, vestem roupas de mulher e usam maquilhagem e as letras das suas músicas não fogem da temática, incluindo versos tão diretos quanto «sou mais queer do que o dia mais luminoso?» (em «Short-Lived Nightmare»). «Enquanto pessoas queer, muitas das nossas vidas são-nos predeterminadas em termos de quem “podemos” ser na cultura pop», defendeu Bruce ao site britânico Overblown, «tipo, podes ser o cabeleireiro ou o melhor amigo excêntrico de alguém, mas muitas vezes não podes ser o protagonista na tua própria vida. Criar esta banda foi uma forma de criar uma identidade performativa obviamente queer e tirar poder a essa ideia».

O ativismo de Anohni, que o mundo conheceu como Antony Hegarty, líder do projeto Antony and the Johnsons, vai muito além da temática queer, e Hopelessness, o álbum que editou no ano passado, é provavelmente o mais interventivo, em termos políticos e sociais, que escutámos nos últimos anos. Em entrevista ao Expresso, a cantora disse: «identifico-me como uma pessoa transgénero, ou uma mulher transgénero. Sempre me identifiquei assim. Passei a ser identificada como “ela” em público de há um ano para cá. É uma forma de reconhecer, formalmente, a minha experiência. Uma forma de honrar a minha identidade enquanto pessoa transgénero». Só por si, esse reconhecimento carrega uma forte mensagem e, talvez por isso, prefira debruçar-se nas canções de Hopelessness sobre questões que dizem respeito à humanidade como um todo – das questões ambientais às guerras que eclodem todos os dias um pouco por todo o mundo, passando pela vigilância a que estamos sujeitos por parte dos estados ou a pena de morte… A afirmação maior, implícita ou explícita, de que o facto de ser transgénero não a torna menos humana, vem de encontro ao que todos os artistas de que falamos aqui tentam transmitir com a sua arte. Citando um dos mais reconhecidos slogans LGBT: eles estão aqui, são queer… E é bom que o mundo se habitue.

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2017