Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Rui Veloso

Os melhores álbuns made in Porto

Entre as margens do Douro, a produção musical da Invicta ofereceu à música nacional alguns dos seus clássicos indisputáveis. No dia de São João, recuamos a 1969 e transportamos a tocha até 2014, numa viagem transversal a 30 álbuns essenciais

1 RUI VELOSO
Mingos & Os Samurais [1990]


DEZ ANOS separam o fundador Ar de Rock (também focado nesta evocação da música que o Porto ofereceu à história) de Mingos & Os Samurais. E pode dizer-se que esses discos são marcos de duas realidades muito distintas e balizas de uma história de expansão e conquistas que ajudaram a transformar a música portuguesa. Nessa década, os êxitos transformaram-se em fenómenos, a timidez das rádios cresceu para um mais real apoio, multiplicou-se o saber dos estúdios, solidificou-se o circuito de concertos. E parte razoável do mérito dessas conquistas deve ser atribuído a Rui Veloso.

Mingos & Os Samurais foi um projeto cuidado, não o fruto dos repentes comuns na música portuguesa, mas o resultado de uma ideia maturada com o tempo, burilada com algum cuidado, trabalhada com esmero: o álbum chegou a estar anunciado para 1986, mas só viu a luz do dia em 1990, quando o mercado já se demonstrava capaz de acomodar êxitos de maior escala os CDs começavam a surgir em força, por exemplo. Pode dizer-se que foi Mingos & Os Samurais a dar o pontapé de saída para uma era dourada da indústria que, ao longo da década de 90, iria testemunhar sucessos só mensuráveis com a escala multiplatinada das centenas de milhares de discos vendidos: Veloso, primeiro, mas também Delfins, Resistência, Pedro Abrunhosa, Madredeus, Silence 4. Mas foi este disco que testou a elasticidade do mercado, chegando à invejável marca de oito platinas, quando o galardão máximo ainda implicava a venda de 40 mil discos.

Esse sucesso todo apoiou-se na força de temas como «Não Há Estrelas No Céu», «O Prometido É Devido», «A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)» ou «Um Trolha d' Areosa», mas sobretudo no facto de Rui Veloso e Carlos Tê terem conseguido fazer deste disco um imenso espelho onde mais do que uma geração podia descobrir o seu reflexo. O formato duplo LP em vinil era também o do disco conceptual que tantas cartas tinha dado na década de 70: um arco narrativo nas letras, uma série rica de personagens que todos podiam identificar (e algumas com que todos se podiam identificar...) e música que evocava memórias de verão passadas nos salões de baile da cidade ou nos terreiros das festas populares da aldeia. A música de baile glorificada através de uma reinvenção de twists e boleros, de toadas mais ligeiras e arremedos de rock mais arredondado pela música ligeira dos anos 60. Com a presença de Mários de exceção, como Barreiros ou Laginha, com uma capa icónica feita a partir de uma foto do palco da Sociedade Recreativa Alunos de Apolo, com um Rui Veloso em topo de forma e um país a respirar de alívio com os milhões importados da Europa, não havia como falhar e Mingos & Os Samurais transformou-se num justo e maciço sucesso. E 25 anos depois, estas canções continuam a garantir aplausos generalizados de cada vez que são entoadas. É essa a medida de um clássico. RMA

2 GNR
Independança [1982]


O ARROJO do álbum de estreia do Grupo Novo Rock começava a logo no título: Independança. As leituras poderiam ser variadas: proclamar a dança num país que musicalmente ainda vivia vergado pelo peso das palavras com que uma geração tinha construído abril; dar vivas à independência quando se vivia em pleno debate da entrada para a Europa; afirmar, enfim, um caráter indie quando se assinava com a maior editora portuguesa. E essa independência existia, de facto: o grupo conseguiu meter no lado B do álbum uma experiência de estúdio que parecia inconsequente, mas revelava um alinhamento perfeito com experiências que chegavam de Londres ou Nova Iorque. E depois havia todas as canções que preenchiam o lado A do vinil: de «Agente Único» a «Bar da Morgue», passando por «O Slow Que Veio do Frio», «Dupond & Dupond» ou, sobretudo, essa perfeita pérola pop que responde pelo título de «Hardcore». Rui Reininho, Vítor Rua, Alexandre Soares, Toli César Machado e Miguel Megre cozinharam em Independança um verdadeiro OVNI sem real correspondência no panorama do então denominado «rock português». E talvez por isso mesmo passaram ao lado do sucesso que já havia bafejado Rui Veloso e os UHF e que tocaria também os Táxi ou os Heróis do Mar. Nada que uma teimosia criativa não tratasse de resolver. RMA

3 PEDRO ABRUNHOSA & BANDEMÓNIO
Viagens [1994]


DESDE 1980 que Pedro Abrunhosa pisava palcos tocando música contemporânea, jazz e r&b, até que as peças, humanas e conceptuais, batem certo com a formação dos Bandemónio em 1993. Viagens é a intersecção de uma geração Indústria (a discoteca da Avenida Brasil onde Abrunhosa geriu um dos bares e em que os Bandemónio se estrearam ao vivo), pujante desde a década anterior, com o universo da Escola de Jazz do Porto, a que se juntaram os ventos acid jazz e jazz rap, alinhavando um hedonismo mais sofisticado e abrangente do que o produzido com a descoberta sedenta do boom do rock português. O funk que há muito pairava, subtil, sobre o som da cidade, ganha corpo mais concreto e direto neste álbum, fruto da visão artística enciclopédica de Pedro Abrunhosa e do contributo crucial de Mário Barreiros e Quico. A que se juntou o feito de deitar mão a Maceo Parker e a um Norman Cook à época prestes a renascer como Fatboy Slim. Sob a etérea bênção de Prince e Miles Davis, Viagens traz a noção clássica de James Brown para o presente («Não Posso +»). É desenvolto e fotográfico na definição do espaço e do tempo em «Lua» e no funk cool de «Socorro».

Pode-se defender que a tensão nunca resolvida de «É Preciso Ter Calma», um corredor de ecos para sax e vibrafone, permanece o ponto mais cintilante da carreira de Abrunhosa. Um compêndio de música solar, corporal, com humor malicioso que abriu os ouvidos do país para uma pequena enxurrada de bandas soul-funk. JL

4 RUI VELOSO
Ar de Rock [1980]


A ESTA distância de 35 anos é fácil escamotear um pouco a decisiva importância de Ar de Rock: a modernidade elétrica portuguesa não estava habituada a pronunciar-se no português de Camões, quanto mais no linguajar de freaks da Cantareira. Rui Veloso já recordou nas páginas desta revista como tudo isto nasceu: «o "Chico Fininho" que eu tinha escrito em 1977 era uma música que eu nunca imaginei que pudesse ser gravada, mas foi essa a canção que chamou a atenção aos tipos da editora: "arranjem mais nove como esta". E eu pensei "como é que eu vou fazer isso?". É que, de certa maneira, eu tinha escrito aquela música exatamente para provar que não se podia escrever aquele tipo de coisas em português». E no entanto, moveu-se: moveu-se a língua ao encontro de uma geração, moveu-se o stock do disco, moveu-se a indústria e moveram-se as rádios, criando um movimento de fundo que alterou os destinos da música portuguesa. Pelo disco passava uma realidade que era totalmente do Porto: o «Chico Fininho» ou «A Rapariguinha do Shopping» eram personagens investidas de realidade, a «Afurada» um local real. A dar um ar (de rock) de naturalidade a uma música que acabava de ser inventada. RMA

Ornatos Violeta

Ornatos Violeta

5 ORNATOS VIOLETA
O Monstro Precisa de Amigos [1999]


CÃO! TIRARA-OS do anonimato dois anos antes, particularmente devido aos singles «Punk Moda Funk» e «A Dama do Sinal», mas foi com O Monstro Precisa de Amigos que os Ornatos Violeta se tornaram verdadeiros heróis da música portuguesa. Produzido por Mário Barreiros, o segundo (e derradeiro) álbum transformou o grupo portuense, liderado por Manel Cruz, num fenómeno de popularidade que dura até aos dias de hoje, 13 anos depois de se separarem. Contribuem obviamente para isso canções que viraram clássicos, como a dramática «Ouvi Dizer» (quem nunca se emocionou com o epílogo solene de Victor Espadinha?), «Capitão Romance», o gingão dueto com Gordon Gano, dos Violent Femmes, ou as intensas e pegadiças «Chaga», «Dia Mau» e «O.M.E.M.». É difícil medir o seu real impacto, mas, com a passagem do tempo, tornou-se bastante óbvio que sem este Monstro a música nacional, tal como a conhecemos hoje, seria muito diferente. MRV

6 JAFUMEGA
Jafumega [1982]


É UM GRUPO poliglota, e o caminho percorrido nos três álbuns lançados entre 1980 e 83 mostra-o. A fluência com que chegam a Jafumega deve um bom bocado à formação e ao historial dos seis músicos: passado juvenil na pop (para os irmãos Mário, Eugénio e Pedro Barreiros, nos Mini Pop), muitas jam sessions Porto afora, alimentadas a jazz e não só. Quase não há duas canções aparentadas neste registo e, ainda assim, a coesão é inatacável. A viagem passa pelo rock a ferro e fogo («Latin'América»); pelo funk nos teclados em «Homem da Rádio»; por metais em delírio durante «Só Sai a Ti (Society)»; pelo espaço desabitado no coração de canções, que deve qualquer coisa ao dub mas não é bem isso, que já havia sido bem empregue no gerar de tensão em «Ribeira» e regressa em «Kasbah». Jafumega circula pelas ruas da cidade, geograficamente e em espírito, mesmo que o som, embora com alicerces rock e jazz, salte muralhas e seja generosamente português. JL

7 GNR
Psicopátria [1986]


O QUARTO longa-duração dos GNR traça uma fronteira no seu percurso: as dores de parto terminam (é o registo de despedida de Alexandre Soares, que já estaria meio dentro, meio fora durante a gravação), consolida-se o sucesso em grande escala, a estrada antevê-se mais linear mas criativa à mesma. Na nação regada por dinheiro novo da Europa, Psicopátria empurra-nos para o sofá do psicanalista, entre a euforia e o ceticismo, em partes iguais de perturbação e adesão ao programa do tempo («Pós Modernos», «Nova Gente»). Os GNR, representando a ala esteticamente mais arrojada da pop portuense da época, refletem também a capacidade da cidade gerar arte simultaneamente atravessada pelo ar atlântico, desafiadora de si própria e supranacional.
Um disco de conversa mais linear com o ouvinte, num tempo em que o fornecimento de estrelas locais aos tops seca e o underground ganha formas novas, espelhadas em fanzines e numa miríade de rádios piratas. JL

8 CLÃ
Lustro [2000]


ESTETICAMENTE é o menos portuense dos nomes desta lista, quer pela forte costela vila-condense, quer porque a amplitude do som dos Clã os encaminhou para um repertório sem especiais dívidas geográficas. Mesmo que a sua génese envolva, uma vez mais, Mário Barreiros (por cujo Sexteto andou Hélder Gonçalves - Barreiros é também coprodutor de Lustro). Mesmo que Carlos Tê (o outro coprodutor) tenha encontrado neles, e em Manuela Azevedo em particular, uma nova e vital unidade para os seus versos.

E mesmo que os seus primórdios andassem por uma pop leve, mui Invicta, virtuosa e devedora do funk-jazz. E é com Lustro que se percebe que a ambição estética dos Clã não se dá com caminhos apertados, lançando-se ao rock, ao desembaraço melódico de ADN brasileiro, a uma riqueza de pormenores em crescendo. JL

9 TÁXI
Táxi [1981]


AINDA É ASSIM, mas apenas sete anos depois da revolução era mais: por cá, fazia música mais a sério quem vinha daquela franja social com meios para alavancar sonhos juvenis de estrelato rock. O Porto tem essa franja, que é cosmopolita, culta, interessada pelo mundo mais a Norte e sem mediação de Lisboa.

Entra em cena um quarteto que entrega uma banda sonora rigorosa para um momento de pasmo em que a sociedade de consumo se generalizara («Chiclete», «TVWC»), não mais um bastião só ao alcance da tal escassa classe média-alta.
Táxi avia prodigiosamente new wave curta, direta, veloz, elástica, o virtuosismo técnico espartilhado em petardos melódicos e rigorosamente orquestrados, música desassossegada («Vida de Cão») e eufórica, com sabor local («A Queda dos Anjos»). JL

10 CAPICUA
Sereia Louca [2014]


HÁ MUITO que o hip-hop nacional a guardava por uma voz feminina que se destacasse entre os pares. A espera compensou. As rimas de Capicua são mordazes e emotivas e não perdem o norte, quer se debrucem sobre temáticas políticas ou se deixem levar por autoanálises. Era assim no álbum de estreia, em 2012, e continuou assim no brilhante sucessor, Sereia Louca, que conta com colaborações especiais de Gisela João («Soldadinho») e Aline Frazão («Lupa»). Com a mesma eloquência, a rapper portuense aborda a condição feminina («Mão Pesada»; «Alfazema»), os efeitos do colonialismo («A Mulher do Cacilheiro»), questões ecológicas («Líquida»), enfrentando também inseguranças pessoais («Síndroma de Peter Pan») e indo ao baú recuperar memórias para construir aquele que, entretanto, se tornou o seu maior sucesso («Vayorken»). MRV

11 MIND DA GAP
Suspeitos do Costume [2002]


O TERCEIRO álbum da banda que colocou o hip-hop da cidade no mapa é aquele onde atingiram um muito respeitável patamar de depuração estética. Suspeitos do Costume é mais politizado, ingrediente que se junta ao já familiar caldo de sarcasmo, piadas privadas, puritanismo, ressentimento e autorreflexão. Por baixo das espessas camadas de humor de faca afiada, Serial põe o funk a brilhar em «Socializar por Aí» e «Bazamos ou Ficamos?». Também traz uma carta de amor à sua casa em «Invicta» e outra à comunidade hip-hop em «Esta Gente Sente». JL

12 ANAR BAND
Anar Band [1977]


CRIADA em finais dos anos 60 por Jorge Lima Barreto, Anar Band era uma entidade fluida, dedicada a investigar pontos de intersecção entre eletrónica, o jazz e música improvisada. Lançou um álbum, através da Alvorada, cujo catálogo abrigava, sobretudo, música ligeira e fado. É a antecâmara de dois importantes grupos: ao resultar da colaboração de Rui Reininho em guitarra de dois braços e Lima Barreto em sintetizador Arp, anuncia também os GNR (o teclista chega a colaborar em Independança) e os Telectu (duo com Lima Barreto e Vítor Rua, que também fez parte dos GNR). RMA

13 BLIND ZERO
Trigger [1995]


NO INÍCIO, os Blind Zero simbolizam o apreço da juventude da cidade e arredores pelas descargas elétricas e pelos transtornos existenciais do grunge. Os meados de 1990 na Invicta têm um capítulo reservado às bandas (e fãs) de camisas de flanela e cabelos compridos, estrelas rock nas suas cabeças desde o primeiro dia, fazendo fila aos fins de semana em palcos como o do Palha d'Aço, na Ribeira. Trigger usa o grunge como portal para o cancioneiro rock americano, enquanto ajuda a uma renovada visibilidade das bandas lusas que cantam em inglês. RMA

Blind Zero

Blind Zero

14 BAN
Mundo de Aventuras [1991]


FALAR DO Porto dos anos 80 é, também, lembrar esta pop acetinada que cheira a tardes passadas junto às praias que Deus abençoou com a chamada «nortada». Mundo de Aventuras, último álbum dos Ban antes da pausa em 1994, já pertence à década de 90, mas mantém as melodias benfazejas que a banda de João Loureiro já oferecera ao mundo em Surrealizar e Música Concreta (casa da imbatível «Dias Atlânticos»). Em Mundo de Aventura vivem confortavelmente até hoje o tema-título ou a voz de Ana Deus em «Mar de Sol». LP

15 POP FIVE MUSIC INCORPORATED
A Peça [1969]


JUNTAMENTE com o Conjunto Académico de João Paulo e a Filarmónica Fraude, os Pop Five Music Incorporated editaram um dos três únicos álbuns portugueses de rock da década de 60. De todos, seria provavelmente o mais alinhado com a vibração internacional ao incluir versões de originais de Hendrix, Traffic ou Creedence Clearwater Revival, mas o menos «português» de todos por isso mesmo. Na banda encontrava-se Tozé Brito, que sairia pouco depois para o Quarteto 1111, e o irmão de Sérgio Godinho, Paulo. RMA

16 TRABALHADORES DO COMÉRCIO
Tripas à Moda do Porto [1981]


EM 1979, Sérgio Castro e Álvaro Azevedo, dos Arte & Ofício, fundam esta banda que canta em português com orgulhoso sotaque do Porto. «Lima 5», em 1981, é o single de estreia (cantado pelo sobrinho de 7 anos de Sérgio Castro, João Luís Médicis), mas é à terceira tentativa, «Chamem a Polícia», que o «truque» funciona. Tripas à Moda do Porto, o primeiro longa-duração, é gravado em Londres e, além daquele que se tornaria o maior sucesso do grupo, inclui canções como «Atom Messiu, Comantalê Bu» e «Sim, Soue Um Gaijo do Pôrto». É o «boom» do rock português na sua faceta humorística. LG

17 ORNATOS VIOLETA
Cão! [1997]


AO CONTRÁRIO do que se possa pensar, Cão! já não corresponde à primeira encarnação dos Ornatos Violeta, banda que marcou de forma indelével a segunda metade da década de 90 no Porto e no país. Antes do disco de «Punk Moda Funk», «A Dama do Sinal» ou «Mata-me Outra Vez», Manel Cruz, Peixe, Nuno Prata, Elísio Donas e Kinörm já tinham experimentado a pele de cançonetistas inspirados por Joe Jackson ou Violent Femmes, e passeado por França. Mas foram as vinhetas BD de Cão! que lhes valeram um culto aguerrido, merecidamente: o fôlego desta estreia de 15 patas (perdão, faixas) mantém-se até hoje. LP

18 TELECTU
Ctu Telectu [1982]


CONSEQUÊNCIA direta da ligação dos GNR à Valentim de Carvalho foi a edição deste álbum de estreia dos Telectu que nesta altura eram uma espécie de projeto alternativo dos GNR com Vítor Rua e Tóli a trabalharem lado a lado com Jorge Lima Barreto. Trata-se de um disco de eletrónica experimental, inspirado na ficção científica de Philip K. Dick e nas mais avançadas propostas que chegavam dos lados do rock alemão. Oito temas que soam absolutamente singulares na mais vasta paisagem da música portuguesa da época. RMA

19 REPÓRTER ESTRÁBICO
Uno Dos [1991]


PODE argumentar-se, olhando para o panorama da música portuguesa do arranque dos anos 90, que em 1991 a maior parte das bandas ainda tinha a cabeça na década anterior. Mas Uno Dos, estreia em álbum dos Repórter Estrábico, é um trabalho verdadeiramente moderno: pop rock que acolhe no seu seio toda a influência da revolução conduzida nas músicas de dança pela música eletrónica. Tudo saído do cérebro de Luciano Barbosa, com ajuda na produção de Vítor Rua e a marca distintiva oferecida pela presença do performer António Olaio no grupo. Um som diferente a ecoar o que se ouvia nos clubes do Porto. RMA

20 ROXIGÉNIO
Roxigénio [1980]


PRODUTO típico da euforia criada na indústria discográfica nacional com os êxitos de «Cavalos de Corrida» e «Chico Fininho», esta estreia dos Roxigénio do carismático António Garcez não escondia a sua condição «tuga» apesar das letras em inglês: os amplificadores eram Furacão e não Marshall, a gravação tomou meras catorze horas e as misturas mais seis. Mas o disco contava com o grande veterano do rock nacional Filipe Mendes, o Hendrix português sabedor de riffs e com um ataque rock potente que veste este registo de inabalável charme de época. RMA

21 ZEN
The Privilege of Making the Wrong Choice [1998]


HAVIA, em finais dos anos 90, algo de profundamente excitante em acompanhar os Zen, quarteto que logo ao primeiro álbum gravou um punhado de canções que tanto cumpriram a sua missão de, à época, entreter e agitar como, ouvidas à distância, espelham o fraquinho da Invicta por um funk-rock elástico e sensual. «U.N.L.O.», com o seu vídeo pugilista, é um clássico daquele tempo, mas os Zen também se davam bem nas mais atmosféricas «Cold as Water» ou «Golden Fools». E, ao vivo, a coisa pegava fogo. LP

22 X-WIFE
Feeding The Machine [2004]


RECÉM-CHEGADO de Londres, João Vieira encontrou num Porto adormecido a plataforma para um novo recomeço. Estávamos no início do século XXI e a euforia de noites hedonistas polvilhadas por electro pulsante e verve elétrica rapidamente ultrapassaria as fronteiras da Invicta. Se de madrugada vestia a pele de DJ Kitten, nas folgas ensaiava rock nervoso, ao microfone e à guitarra, com Fernando Sousa (baixo) e Rui Maia (bateria/ teclados). Os X-Wife estavam sintonizados com o revivalismo pós-punk do início do terceiro milénio e o primeiro álbum, de «Rockin' Rio» e «Eno», marcou uma época. LG

X-Wife

X-Wife

23 DEALEMA
Dealema [2003]


A IDENTIDADE suburbana não é imediatamente detetável no som dos Dealema, que têm Vila Nova de Gaia nos genes, mas uma audição deste seu primeiro álbum «oficial» em sete anos de carreira destapa a atitude de quem está «de fora» e que por isso tem de conquistar terreno a pulso. Em Dealema, quatro rappers de personalidade bem demarcada revelam inteligência poética e inviolabilidade de princípios. Com ferocidade mas igualmente com lucidez, lidam com assuntos como violência e drogas em bairros sociais, pobreza e opressão, intercaladas com bombas kitsch de flagrante horror escabroso. JL

24 TRÊS TRISTES TIGRES
Guia Espiritual [1996]


É DEFENSÁVEL encontrar no segundo álbum dos Tigres, primeiro com Alexandre Soares a tempo inteiro, uma das mais brilhantes e singulares sínteses de ousadia e apelo pop da música moderna congeminada no Porto a partir de 1980. Guia Espiritual é um diálogo permanente entre tensão e contemplação, um mundo de camadas de vida e sobressaltos geológicos contido em cada uma das 12 canções. A eletrónica assoma, recua e flui como as marés, a guitarra sai seca ou desdobrada em camadas e em múltiplas conversas consigo e com o mundo, a voz de Ana Deus desponta clara ou submerge em murmúrios fonéticos. Há 19 anos que soa visionário. JL

25 OS AZEITONAS
Em Boa Companhia Eu Vou [2011]


A QUINTESSÊNCIA do grupo da Foz andou dez anos a construir uma vasta e fiel base regional. A faísca para algo maior aconteceu quando Salão América, álbum digital de 2009, chegou a CD na companhia de um DVD que fixa a sua festiva passagem pelo Teatro Sá da Bandeira. A dupla aparição de «Anda Comigo Ver os Aviões», canção de muitas vidas, descomplicada e arrepiante, chegou enfim a todos. JL

26 D.R. SAX
0670 [1995]


PÓS-VIAGENS, houve atenção editorial suficiente para projetar a pop embrulhada em disco-sound tecnologicamente atualizado desta reunião de um ex-Ban (Rui Fernandes) a um autor de música de dança a dar os primeiros passos (Miguel Guia), tudo sob a orquestração de Pedro Saraiva, a décadas de se reinventar como SirAiva. Um rendez-vous dos Chic com Prince na Avenida da Boavista, para produzir a banda sonora das praias, bares e clubes da Foz a Matosinhos. JL

27 TARANTULA
Kingdom of Lusitania [1990]


COM UMA capa herdeira da arte prog-rock e uma sonoridade devedora do mais clássico heavy metal britânico, os Tarantula - fundados pelos irmãos Luís e Paulo Barros, em Valadares - já contavam nove anos de percurso quando Kingdom of Lusitania afirmou o seu power metal épico, tornando-se um dos primeiros clássicos da música pesada feita em Portugal - e logo na divisão nacional da multinacional Polygram. LG

28 ALEXANDRE SOARES
Um Projecto Global [1988]


ALEXANDRE Soares abandonou os GNR em 1987 e lançou o álbum Um Projeto Global em 1988. Tratava-se de um disco de pop descomprometido, com a ajuda de Quico na produção, a revelar um Alexandre Soares autossuficiente (fez quase tudo sozinho, menos a letra de «Luzes do Hotel», que é de Pedro Ayres Magalhães), mas claramente à procura de uma nova parceria criativa que haveria de abraçar quando embarcou nos Três Tristes Tigres. RMA

29 EXPENSIVE SOUL
Utopia [2010]


SINAL DOS tempos, de Leça da Palmeira chega um álbum mais marítimo do que urbano, embebido em história da música popular mas sem o peso da veneração do rock: o funk dos Expensive Soul já dá uma dimensão de avanço a Viagens e descendentes. New Max é o génio de composição e de estúdio, duas partes de Prince para uma de Norman Whitfield. Demo fornece-lhe o contraponto de rua, humorado e atiradiço. JL

30 MIGUEL ARAÚJO
Cinco Dias e Meio [2012]


O SEU talento como escritor de canções não era confinável a Os Azeitonas, pelo que Miguel Araújo entrega um álbum intimista e terno, 30 anos de vida às voltas com discos e memórias musicais portuenses em família vertidos em 11 canções registadas em cuidadoso faça-você-mesmo. «Os Maridos das Outras» ou «O Capitão Fantástico» explicam a arte rara de cantar como quem respira e de contar como quem conversa. JL

Seleção e textos de Jorge Lopes, Lia Pereira, Luís Guerra, Mário Rui Vieira e Rui Miguel Abreu

ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA BLITZ 111, EM SETEMBRO DE 2015