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Rita Carmo

Os vencedores e os perdedores do NOS Primavera Sound

Os pontos altos e os aspetos menos conseguidos do festival que terminou no passado sábado no Parque da Cidade do Porto

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Ao longo de três dias, de quinta a sábado, passaram pelo NOS Primavera Sound “perto de 90 mil pessoas” (números da organização) que assistiram a quase meia centena de concertos espalhados por quatro palcos no Parque da Cidade do Porto. A reportagem BLITZ esteve no terreno e faz, agora, o balanço. (clique nas ligações sobre o nome dos artistas para ler reportagens completas e ver fotogalerias)

OS VENCEDORES

Angel Olsen <3
Debaixo do sol do Porto, a norte-americana vestiu o espírito de uma cantora folk-country torturada dos anos 60. Sente-se a voz, mas também se sente a carne, a alma, o coração e tudo aquilo que, parecendo cliché quando repetido em bula promocional, não deixa de se traduzir em – haverá coisa assim na música? – verdadeiro. Angel Olsen possui a rara capacidade de cantar para todos e para cada um.

Angel Olsen no NOS Primavera Sound 2017

Angel Olsen no NOS Primavera Sound 2017

Rita Carmo

Hamilton Leithauser: um romântico encartado
Ao aproximarmo-nos do palco onde Hamilton Leithauser já atuava, ouvimos a frase, declamada alto e bom som: “I use the same voice I've always have”. Useiro e vezeiro dos palcos nacionais, o norte-americano não está aqui para enganar ninguém: com os sem os Walkmen, banda à frente da qual se deu a conhecer, tem um vozeirão que dispensaria amplificação e facilmente desce do grito lancinante ao sussurro mais sonhador. Celebrizada pela série “13 Reasons Why”, ‘1000 Times’ foi recebida com um coro emocionante, mas a entrega de Hamilton e a comoção do público foram uma constante de um dos melhores concertos do festival.

King Gizzard & the Lizard Wizard: ninguém os vai parar
Guitarras várias, baixo, duas baterias, teclado, harmónica, tudo se orienta numa espécie de sintropia. Do palco são emitidos sinais cósmicos, mantras paradoxalmente nervosos. São sete e vieram da Austrália. Do lado de cá somos muitos e viemos de todo o lado. Um suadouro catártico para não esquecer tão cedo que vamos resumir com um mui prosaico “foi do caraças”.

Run the Jewels: palavras em catadupa
Em 2017, os Run the Jewels – que há dois anos incendiaram um palco mais pequeno do festival, oficializando este ano a sua “subida de divisão” com a chegada ao espaço principal – trouxeram um espetáculo eficaz e impressionante. Nos RTJ (o seu petit nom, para os muitos milhares que entoaram o seu nome), a palavra é uma arma contundente, direta ao osso e dura como a realidade que a inspira (estamos a falar de rap). Desde o arranque, com ‘Legend Has It’, até ao adeus, ao som de ‘A Report to the Shareholders’ e ‘Down’, deixaram a sua marca no Parque da Cidade.

Run the Jewels no NOS Primavera Sound 2017

Run the Jewels no NOS Primavera Sound 2017

Rita Carmo

Death Grips: o trio que veio do fim do mundo para nos dizer como ele é
MC Ride – tronco nu, besta pronta a rugir – chega-se à frente, esbraceja, pula e dita a ordem. É uma ordem, não é um convite. Bateria frenética, fora de controle, e a máquina de disparar sons desenham o som do apocalipse. O aparato é febril, frenético, industrial. Metalomecânica hip-hop instrumental, com riffs perdidos, cacos a serem disparados em todas as direções, o fim do mundo a ser servido em rajadas, sem redenção possível.

A última canção de Weyes Blood
Só apanhamos o finzinho, mas que fim! Ela é Natalie Mering, ia fazer 29 anos dentro de poucas horas, e cantou de forma angelical entre candelabros. Despediu-se, voz e guitarra, com uma canção chamada “Bad Magic”, de fazer estremecer um brutamontes. Ouçam-na aqui.

A rainha Elza Soares pôs o dedo na ferida
Ninguém sabe ao certo que idade tem Elza Soares, figura histórica da música brasileira, no ativo desde o início da década de 60. Em entrevista ao Expresso, a artista, redescoberta em 2015 com o álbum “A Mulher do Fim do Mundo”, afirmou apenas: “eu sou NOW!”. E este pé firme no presente, e ainda mais no ativismo, sentiu-se quando dedicou uma canção a Gisberta, a transexual assassinada no Porto em 2006. Com o cantor e dançarino Rubi de cabeça no seu colo, Elza virou contadora de histórias, lembrando o caso de uma pessoa que morreu por ser transexual. A ovação que o público lhes dispensou foi um dos momentos mais comoventes do festival.

Elza Soares no NOS Primavera Sound 2017

Elza Soares no NOS Primavera Sound 2017

Rita Carmo

A melancolia musculada de Rodrigo Leão e Scott Matthew
No ano passado, a amizade que une Rodrigo Leão ao australiano Scott Matthew deu fruto a um álbum que, logo na quinta-feira, foi visitado por aqui. No público, perante o virtuosismo e o à-vontade do sexteto em palco, praticamente ninguém arredou pé e o concerto acabou mesmo com uma ovação generosa, pouco comum para atuações diurnas. Prémio Simpatia para o magnético Scott Matthew, que até uma versão de ‘I Wanna Dance With Somebody’, de Whitney Houston, pôs a plateia a cantar.

Crescimento saudável
Nascido há seis anos, o Primavera Sound português tem crescido de forma saudável no que toca à organização (pontualidade inatacável), ao respeito pelo magnífico Parque da Cidade onde se realiza e na construção de cartazes apelativos, sem recurso a nomes muito “óbvios” (palavras proferidas na conferência de imprensa, no domingo).

Comidinha boa
No NOS Primavera Sound há um mercado gourmet onde há cachorros xpto e acepipes da nova vaga, mas também tremoços e azeitonas. Há “street food” cuidada e bojudas sandes de leitão. Sushi e sandes de carne assada com queijo da serra (e bifanas a pingar molhenga dos deuses). Por aqui não se quis outra coisa: lanches mistos a rebentar de queijo, bôla de carne com ainda mais carne do que massa, empadas de vitela e croquetes a picar, tartes de maracujá. Estavam lá num cantinho, a preço de amigo.

OS PERDEDORES

Filas? Não era costume
Pois não, mas na edição deste ano do NOS Primavera Sound as meninas, em particular, demoraram um pouco mais a conseguir fazer xixi, e todos, em geral, tiveram de esperar um pouco mais pela sua cerveja. Nada que pusesse em causa o biorritmo festivaleiro, mas - lá está - não era costume por aqui.

NOS Primavera Sound 2017

NOS Primavera Sound 2017

Rita Carmo

Flying Lotus, aquele ansiolítico das onze e meia
Nada contra o ecletismo de Steven Ellison (homem dos sete ofícios), mas depois da porrada de Run The Jewels, este “momento de reflexão” soou a contra-clímax.

The Growlers, a banda que não dá mais porque não pode
Não foi desesperante e os rapazes são bem-dispostos, mas à mesma hora que, no dia anterior, Angel Olsen nos punha os olhos a brilhar, estes californianos insossos mostravam que o tempo não lhes tem feito bem e que o melhor rock do festival não podia passar por ali.

Black Angels, que desperdício
Eram uma das bandas mais esperadas do Palco . (porventura o espaço mais aventureiro do festival), até porque à mesma hora (1h00) é tradição vermos por ali concertos abrasivos (Ty Segall o ano passado, King Gizzard já nesta edição)

Teenage Fanclub, a banda que ninguém quis realmente ver
Nem sempre o que faz sentido no cartaz do “irmão mais velho” barcelonês, resulta bem em terras nacionais. Os escoceses Teenage Fanclub têm uma carreira longa e muito respeitável, um acervo de canções tremendo, harmonias vocais adoráveis e uma bonomia absolutamente irresistível. Deram um concerto bonito, ao qual os indefetíveis não saberão apontar uma falha. Só que, “invisíveis” em Portugal desde, pelo menos, o meio dos anos 90, e escalados para tocar a uma hora que pedia consumo de víveres, registaram – no segundo maior palco do evento – uma afluência muito inferior ao que é usual por aqueles lados. Tivessem tocado num palco mais pequeno e o travo a desilusão desapareceria num instante.

Dores de crescimento
O festival atrai cada vez mais espectadores, e torna-se complicado assistir a concertos como o do aguardado Bon Iver (cabeça de cartaz de sexta) enquanto parte da plateia – muito numerosa – põe a conversa em dia. Com projeções imponentes e canções de peso, Justin Vernon fez o que pôde, mas não há intimismo que resista à alegria de viver de uma multidão tão volumosa.