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Grimes

O estranho mundo de Grimes

É das menos convencionais e mais inventivas estrelas pop da atualidade. Nascida no Canadá, Claire Boucher tem vindo a tornar-se uma referência, involuntária, na defesa de causas como o feminismo ou o vegetarianismo.

Claire Elise Boucher nasceu em Vancouver, no Canadá, há quase 28 anos, e afirma-se hoje como uma das artistas mais completas da geração Millennials. Cantora, escritora de canções, produtora, artista gráfica e realizadora de vídeos, a mulher que o mundo conhece como Grimes começou a dar os primeiros passos musicais em ambiente underground e só ao terceiro álbum, Visions (2012), rompeu as amarras cibernéticas para se tornar um verdadeiro fenómeno de culto em todo o mundo. Fez-se esperar praticamente quatro anos mas na reta final de 2015 regressou com um quarto álbum, intitulado Art Angels, que rápido se tornou um sucesso entre a crítica especializada bem a tempo de ser eleito melhor álbum do ano por publicações como o britânico NME ou o blogue de música norte-americano Stereogum. Artista de convicções, alia influências díspares para criar um universo musical (e visual) ímpar, que já lhe valeu comparações à islandesa Björk.

NENHUM RÓTULO SERVE

Grimes sempre se mostrou pouco interessada em catalogar a sua música, apontando como referências, em momentos diferentes, artistas de áreas tão diferentes quanto Marilyn Manson, Christina Aguilera, Cocteau Twins, Beyoncé, Aphex Twin ou grupos k-pop. «As pessoas continuam a dizer "estamos a tentar encontrar um género no qual encaixar a Grimes". Ainda não perceberam que nunca vão conseguir fazê-lo», defende a artista em entrevista ao jornal britânico The Guardian. «Quando comecei, adorava o Burial e perguntava-me "e se em vez de samples fossem vocalizações intencionais?". Ouço uma remistura qualquer louca e penso "e se não fosse uma remistura? E se fossem as pessoas a fazer efetivamente música dessa e não apenas a usarem a voz da Mariah Carey num sample?"». A certa altura, Grimes chegou a defender que o seu projeto musical se encaixava numa pop mais tradicional, mas hoje parece ter mudado de opinião: «o objetivo é não ter um género. Tentar constantemente colocar um rótulo na minha música não faz sentido porque dois meses depois vou ter de engolir o que disse. Para quê preocupar-me?». A artista assume que a única coisa a que não quer soar é ao «som do momento»: «se isso acontecer é porque produzi o novo som do momento». Não rejeita, no entanto, que quem gosta da sua música seja também fã de cantoras pop. «Muita gente que adora Grimes também adora a Lana [del Rey] ou a Charli [XCX]», diz à revista Dazed and Confused, só não quer que o seu projeto seja confundido com «uma estrela pop comum»: «não sou assim. Não penso que a minha música alguma vez tenha sido assim tão pop (.) só quero fazer música boa. Alguma música boa é pop mas alguma música boa não é pop».

VISIONS, UM EMPURRÃO CHAMADO 4AD

Começou a fazer nome com os dois primeiros álbuns no início de 2010, lançou Geidi Primes, disco inspirado no universo de ficção científica de Dune, obra publicada por Frank Herbert nos anos 60; oito meses depois editou Halfaxa mas foi com Visions, de 2012, que a canadiana se tornou um fenómeno. O disco saiu para as lojas com a chancela da reputada 4AD, que nos anos 80 tinha apresentado ao mundo nomes como Cocteau Twins, Pixies ou Bauhaus, e tornou-se rapidamente um favorito da crítica. Isto apesar de ter sido gravado em tempo recorde, «o meu agente era uma porcaria e tinha fixado a data de edição antes sequer de eu gravar o álbum. Disse-me "o disco vai sair nesta data" e eu fiquei "estás a gozar comigo? Não tenho álbum!". Ele respondeu-me "bom, então é bom que o arranjes"», recorda Grimes ao Guardian. O single promocional «Oblivion», escrito em tempo recorde como forma de expiar um episódio de abuso sexual, tornou-se um caso sério de popularidade (o vídeo já foi visto cerca de 20 milhões de vezes no YouTube). «Estava literalmente em lágrimas quando me sentei para fazer essa canção», recorda a artista que diz tê-la finalizado em apenas quatro horas.

MULHER DE CAUSAS

Não sendo propriamente pessoa de ficar calada, Grimes não hesita na hora de dar a sua opinião sobre as causas que lhe são mais caras. «Gravito num espaço neutro em termos de género portanto sou meio imparcial no que diz respeito a pronomes», assumiu este ano no Twitter. À Dazed and Confused, explicou que só quer «ser um ser humano. Não quero que me coloquem um género a toda a hora. E ter aquela discussão constante sobre feminismo acaba por me encerrar num género e fazer com que me sinta algo com o que nunca me identifiquei realmente». Ainda assim, não nega o facto de ser feminista: «tornei-me super-feminista em reação à indústria musical. Não é como se tivesse entrado e dito "isto é a minha cena". Adoro a Kathleen Hanna, mas o feminismo não foi aquilo que me motivou a fazer música. A razão pela qual tenho pelos nos sovacos. Na verdade, em termos estéticos, não gosto muito! Estou simplesmente demasiado ocupada para tratar do assunto. Sou uma mulher trabalhadora». Boucher assume, também, que a sua persona musical é mais fácil de digerir do que ela própria: «se fosse por mim, talvez usasse um bigode ou algo do género», diz ao Guardian, «mas tento fazer com que Grimes seja mais digerível, até certo ponto». A artista tornou-se, também, defensora de um estilo de vida saudável, apesar de no passado ter experimentado drogas. «Sinto-me muito orgulhosa por estar num momento muito mais saudável da minha vida», assume à Dazed and Confused. «Podia continuar a ser uma parvalhona e a brincar com a minha saúde ou podia tornar-me saudável porque preciso de dar concertos todos os dias e isso é muito difícil». Assumidamente vegetariana, apesar de não «dogmática», Grimes diz que se as pessoas se cruzarem com imagens suas de há dois anos vão vê-la com um aspeto muito mais degradado: «é bom que haja uma trajetória óbvia. Não estou a tentar fingir que nada aconteceu no passado».

DOS DESENHOS AOS VÍDEOS

Grimes é responsável pelos trabalhos gráficos dos seus discos e está também fortemente envolvida na realização dos telediscos das suas músicas. Foi estudante de arte («era uma miúda estranha que desenhava muito») mas sempre evitou a música porque uma professora de violino uma vez disse à sua mãe «a Claire nunca vai conseguir tocar violino, é demasiado má». Só quando entrou para a faculdade, em Montreal, começou a interessar-se por fazer música, assumindo inicialmente os coros em bandas de amigos. «Foi bem mais fácil do que eu pensava atingir as notas. Mais tarde, um amigo ensinoume a usar o [software] GarageBand e, portanto, comecei a gravar sozinha», recorda a artista. A atenção ao aspeto visual dos seus trabalhos musicais, no entanto, nunca se perdeu, e para a edição em vinil do novo Art Angels criou mesmo um livro inspirado em cartas de tarot.

ART ANGELS

O novo álbum de Grimes, Art Angels, chegou às lojas no início de novembro e inclui colaborações de Janelle Monáe (em «Venus Fly») e da rapper taiwanesa Aristophanes (em «SCREAM») e também o single «Flesh Without Blood». «Todo o disco foi produzido, misturado, escrito e interpretado por uma mulher, o que é bastante raro, não sei se alguma vez ouvi um disco assim, na íntegra», realça. Quando comparando com o disco anterior, a artista não tem dúvidas: «a minha música era bem mais escapista. O Visions não reconhecia a realidade, mas este álbum é mais sobre olhar a realidade nos olhos. Em entrevista ao Guardian esclarece que a forma como o novo disco foi gravado também se revelou bastante diferente: «desta vez, fiz muita, mesmo muita, música e escolhi aquilo de que gostava realmente». Recorde-se que, em 2014, chegou a editar o single «Go», canção rejeitada por Rihanna, que não figura no novo disco. «Preciso de não ter prazos para fazer toda a música louca que quiser e depois poder trabalhar no sentido contrário». O facto de ter decidido arregaçar as mangas e tratar de tudo sozinha prende-se com o facto de, apesar de ter a empresa de Jay Z, a Roc Nation, a tratar do seu management desde 2013, querer mostrar que não gosta da forma como a tratam no mundo dos estúdios, dominado por homens

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2016