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Death Grips no NOS Primavera Sound 2017

Rita Carmo

A dura eletrónica de Aphex Twin e a ondulação dos Black Angels: os extremos do fim de festa no NOS Primavera Sound

A eletrónica abstrata sem cedências de Richard D. James e o psicadelismo rock dos texanos encerraram, para a maioria dos festivaleiros, a edição de 2017 do festival do Porto

Os lasers verdes furam, determinados, os céus do Porto e de Matosinhos. Na penumbra, está Richard D. James, que as franjas alternativas conhecem desde os anos 90 como Aphex Twin. A multidão distribui-se encosta acima, expectante. Do palco NOS ecoa um magma eletrónico comparável a um trovão, perdão, a uma trovoada assíncrona, entrecortada por múltiplas interferências. É uma espécie de caos - e o turbilhão puxa-nos para dentro.

O som de Aphex Twin, mago do tecno, não é para agradar a qualquer um. Há um lado abstrato, inimigo das convenções e da imprevisibilidade, que se impõe. Não se dança, propriamente. Sorve-se uma catadupa de inflexões rítmicas, de padrões esquizoides. Ele não faz o que estamos à espera.

O jogo é de extremos. Umas vezes, ameaça o ambiental mas não se deixa ficar muito tempo. Outras, envolve-se aturadamente num drum'n'bass opressivo, não aconselhável a almas sensíveis. Termina, novamente, em trovão. Ninguém sabe explicar muito bem o que se passou, mas a experiência - essa - fica registada com carimbo de certificação.

Quem não deu para o "happening" foi ver rock and roll. No palco . (onde no fim da tarde vimos, de relance, uns animadíssimos Songhoy Blues e uns algo atarantados Wand), os texanos Black Angels começaram com quase dez minutos de atraso e visivelmente agastados pelo seu sistema de projeção de imagem ter dado o berro. O quinteto demorou a recompor-se da desfeita e os primeiros avanços não foram especialmente inspirados. Esta habitualmente excitante mescla de Velvet Underground, Doors e Clinic (cruzemos o garage rock com o psicadelismo) não deu a "Currency", um dos temas mais salivantes do recente Death Song, a força que ele merece. Daí para a frente, as melhorias foram progressivas, o rock tornou-se mais ondulante, apesar de se notar algum desligamento entre canções e uma falta de fluidez que impede que o transe psicadélico se prolongue muito - e antes, ouve-se por aqui, os Make-Up (de Ian Svenonius) tinham sabido elevar a parada. Ontem, com King Gizzard & The Lizard Wizard, o caminho para casa foi outra alegria...

Às 2 e 15 da manhã o povo enceta a debandada. Os indefetíveis ficarão para os últimos foguetes no palco Pitchfork, mas a sexta edição do Primavera Sound portuense está praticamente terminada. Em 2018, soube-se hoje, as portas voltarão a abrir-se.