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Axl Rose

Guns N' Roses: Os demónios de Axl Rose

Sexualmente abusado pelo pai e agredido pelo padrasto, demorou a perceber o que o impedia de ser feliz. Maníaco-depressivo, sonhou em ser Robert Plant e não falhou por muito.

Não era mais um que dos cantores de glam rock que em meados da década de 80 procurava a sua sorte em Los Angeles e para mostrar apenas tinha um EP, Live!?*@Like a Suicide, quando uma discussão o levou longe de mais. «Agarrei num frasco de comprimidos e tomei-os todos», contou à MTV. Axl Rose nunca precisou que o mundo lhe reconhecesse o génio. Nasceu estrela de rock, atormentado e de temperamento imprevisível, que mesmo antes da fama tanto brilhava no coro da igreja como acabava preso por cenas de pancadaria. Nessa noite, em 1987, tudo correu mal: sofreu uma overdose e acabou levado de urgência para o hospital. «Gostei de sentir que já não tinha de lutar mais, mas dei por mim a pensar que não tinha feito concertos suficientes, que o disco ia ser esquecido e que eu tinha de trabalho para fazer. Tinha de sair dali, de lutar e forcei-me a acordar», lembrou. O incidente acabaria por servir de inspiração para «Coma», música que fecha o primeiro dos Use Your Illusion.

A confusão começou nos primeiros anos. Fruto de uma gravidez indesejada, a mãe (então com dezasseis anos) deu-lhe o nome do pai (um jovem de 20), William Bruce Rose Jr. Pouco depois, abandonada e com um novo namorado, o nome da criança mudou para o do pai adotivo, William Bruce Bailey. Aos 17 anos, por acidente, Axl descobriu em casa os papeis que lhe contaram a história que a mãe nunca tivera coragem para assumir que o pai biológico não era boa rês, que tinha abandonado a família dois anos após o nascimento do filho e que o homem a quem se habituara a chamar pai mais não era que um padrasto. Para tornar a adolescência de Rose ainda mais complicada, o pai substituto também não era de muito melhor colheita e os traumas haveriam de lhe marcar a vida, como a carreira na frente de uma das maiores bandas de rock dos últimos 30 anos. Primeiro recuperou o velho nome de família anos depois, haveria de fazer de Axl Rose o seu nome legal e depois entrou numa espiral de loucura. Desacatos, problemas com a polícia, dezenas de prisões e uma atração muito especial pelo rock. Axl ainda não era estrela, mas o menino de coro que encantara a população de Lafayette (Indiana) e frequentava a igreja pentecostal tinha desaparecido.

Conhecido como o rapaz da voz grave que passava os dias no jardim local a cantarolar, Axl chamou à atenção ao piano e a cantar em trio, na companhia dos irmãos, na igreja local, sob o nome de «Bailey Trio». Mas a rádio tudo mudaria. «Comecei com os meus irmãos a cantar na biblioteca, mas depois chamaram-nos para a grande igreja. Foi uma boa experiência porque fiquei a conhecer a Bíblia, mas também vi toda aquela gente tornar-se hipócrita e a destruir tudo o que tinham conseguido construir», contou à MTV. Nessa mesma entrevista, de agosto de 90, também lembrou o momento em que tudo mudou. «Ouvi a "Heartbreaker", dos Led Zeppelin, e comecei por cantá-la em jeito de gozo em frente aos outros miúdos. Quando dei por mim, já estava nos intervalos da escola, de rádio encostado ao ouvido, à espera que voltasse a passar. Foi aí que percebi o que queria fazer». E aos 20 anos arrancou rumo ao sonho de se tornar na versão moderna de Robert Plant.

Na companhia do amigo de infância Jeff Isbell - mais tarde conhecido por Izzy Stradlin, segundo guitarrista dos Guns N' Roses - rumou à Sunset Strip de Los Angeles em busca de uma carreira. Consigo levava um cadastro enfeitado com prisões por embriaguez em público e desacatos vários, no subconsciente carregava problemas que, na altura, nem sabia que existiam. Só mais tarde, quando o comportamento errático se tornou ameaçador para tudo e todos, pediu ajuda. Diagnosticado como maníacodepressivo, foi através de um tratamento de hipnose que desvendou a origem dos seus problemas: em criança tinha sido sexualmente abusado pelo pai, fisicamente agredido, assim como os irmãos, pelo padrasto. «Tinha apagado da memória a maior parte da minha infância. Tive pesadelos violentos durante anos, lembro-me de um, sonhava que estava no beliche, rebolava para o chão e cravava os dentes no lábio», contou à Rolling Stone na entrevista em que falou pela primeira vez da história familiar. «O meu pai biológico era uma pessoa muito estragada, eu não gostava muito dele ou da forma como tratava a minha mãe. Por isso, quando descobri tudo, só desejava que o cabrão morresse».

Nessa altura, já com o estatuto de estrela de rock bem sustentado, mas com bem mais que um episódio difícil de explicar, Rose abriu o peito por «motivos de segurança e para o manter afastado». «Lembro-me que ele me raptou quando não estava ninguém a ver. Lembro-me de uma agulha, de levar uma injeção, de ser sexualmente abusado e de ver algo terrível acontecer à minha mãe quando me foi buscar. Não sei todos os detalhes, mas ainda tenho sequelas físicas dessa altura, por as minhas pernas e os meus músculos terem sido estragados. Acho que tinha tudo enterrado no subconsciente, foi a única forma de lidar com isso», contou antes de se justificar. «Tinha dois anos quando aconteceu. Depois, independentemente do que estivesse a tentar fazer havia sempre algo que me dizia diferente. Homofóbico? Se o meu pai me sodomizou quando tinha dois anos, sim, tenho um problema com isso», assumiu num raro momento de frontalidade. E em casa o que seguiu não foi melhor. Com a chegada do padrasto foi a irmã quem sofreu. «Molestou-a durante uns vinte anos e eu só o soube no ano passado. Batia-nos, a mim constantemente, e cresci a achar que eram coisas normais. Desde essa altura que juntos tentamos organizar as nossas vidas», disse.

Expulso de casa aos 18, sozinho com um amigo em Los Angeles aos 20, Axl não teve de esperar muito pelo sucesso. Depois do EP editado numa subsidiária da Geffen, em 1987, com 25 anos viu o seu primeiro disco, Appetite for Destruction, escalar até ao estatuto de álbum de estreia mais vendido de sempre mais de 28 milhões de cópias. Em 1991 editava Use Your Illusion e lançava-se na digressão que haveria de lhe destruir a banda. A última vítima dos seus demónios. E agora?

Filipe Garcia

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2016